153 e 163, as BRs irmãs – artigo de José Antônio Lemos

As BRs 153 e 163 são como duas linhas verticais que cortam paralelas de cima a baixo o território nacional. As duas, contudo, formam um par especial, pelas condições especialíssimas que cada uma apresenta. Enquanto a BR-153 corta as proximidades do centro do Brasil, a BR-163 corta o centro do continente sul-americano, localizado em Cuiabá. A BR-153 divide o país em duas partes iguais, configurando um grande eixo rodoviário longitudinal do país, e a BR-163 faz o mesmo com o continente, complementada ao sul pela Ecovia do Paraguai, potencializando aquele que um dia ainda será o grande eixo multimodal continental de transportes.

A diferença entre as duas é que Goiás e o Distrito Federal, através de suas forças políticas e da quantidade de técnicos oriundos dessas unidades federativas nas estruturas governamentais em Brasília, trabalharam com competência junto ao governo federal a especialidade da grande BR que corta seus territórios. Contaram ainda com o então presidente Sarney que quis fazer do Itaqui, em seu Maranhão natal, o maior e mais moderno porto do país, lançando o projeto da Ferrovia Norte-Sul para carrear a produção do centro-sul brasileiro. Assim a ideia de uma estrutura de transporte central ao país ganhou o complemento da ferrovia e foi viabilizada, apesar da forte oposição paulista na época, oposição esta que também contribuiu para segurar o trecho mato-grossense da hidrovia do Paraguai, travada até hoje.

Já a história da BR-163, a Cuiabá-Santarém, é bem conhecida e sofrida no dia-a-dia pelos mato-grossenses. Teve início há 40 anos e até hoje não foi concluída. Seu eixo, porém, também serviu de base para homens de visão da época projetarem o futuro de forma fantástica. Na década de 80 o antigo projeto de ligação ferroviária de Cuiabá foi transformado na Ferronorte, um mega projeto ferroviário, ligando Mato Grosso ao Pará, São Paulo, Minas, Espírito Santo, Rondônia, Acre, do Atlântico ao Pacífico, do Amazonas ao Prata. A visão de Vuolo, Iglésias e Olacyr de Moraes acabou em concessão federal assinada em Cuiabá em 1989 pelo mesmo presidente Sarney, e é a mesma que ano passado foi estranhamente devolvida parcialmente pela ALL à União, e, mais esquisito ainda, a devolução foi aceita de imediato.

As BRs 153 e 163 são irmãs como são irmãos mato-grossenses e goianos e podem, e devem, trabalhar em conjunto. Mas, lá por 2008, 2009 apareceu a proposta de uma ferrovia (FICO) cortando transversalmente as duas BRs. Com o apoio do hoje famoso Juquinha, então presidente da VALEC, a FICO surgiu como um raio já entrando no primeiro PAC, mesmo sem ter sequer seu trajeto definido, em detrimento do trecho Rodonópolis-Cuiabá da Ferronorte. Pior, foi criada alguma situação em Brasília para que a ALL devolvesse a concessão da Ferronorte após Rondonópolis. Estava evidente que no governo federal o projeto da Ferronorte havia sido trocado pela FICO, isolando Cuiabá.

Com Mato Grosso precisando tanto, por que trocar a ligação de Lucas a Rondonópolis de 560 Km, por uma outra de 1200 Km? Por que o sequestro de cargas de Mato Grosso para Goiás? Mas a força centro-continental é muito grande e trouxe, na contramão dessas manobras estranhas, o senador Flexa Ribeiro, do Pará, para incluir em 2010 a ferrovia Cuiabá-Santarém no Plano Nacional de Viação e os chineses para se proporem a construí-la. Melhor, não querem apenas uma esteira exportadora de soja, querem uma ferrovia também para trazer para o Brasil e ao continente os produtos industrializados do oriente e da Zona Franca de Manaus. Um assunto fundamental para o futuro de Mato Grosso e da Grande Cuiabá e especial para um ano de eleições.

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