A Cena é Móbile – II

Da política ao cemitério, passando pela estética do feio.

Catilina(s), até quando?

Até quando, enfim, ó Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda este teu rancor nos enganará? Até que ponto a tua audácia desenfreada se gabará?” (Livro I, cap. I)

“Efetivamente nenhuma nação existe que temamos; nenhum rei há que possa fazer a guerra ao povo romano. Todas as coisas externas estão pacificadas (…) resta só a guerra doméstica.” (Livro II, cap. V)

(por Sebastião Carlos) Muitos fatos da História podem, sem nenhum exotismo, serem trazidos para a atualidade. Por mais avanços tecnológicos e científicos, o homem, em sua essência, continua o mesmo. O trecho acima pertence às Catilinárias, os célebres quatro discursos que o grande Marco Túlio Cícero pronunciou no Senado romano contra o senador Lúcio Catilina, que conspirava contra a República. A pronta, decisiva e eloqüente reação de Cícero deu uma sobrevida ao regime republicano. Ao longo dos mais de dois mil anos desde que estes discursos foram proferidos, as Catilinárias, que se tornou um texto clássico da política, vem sendo citada sempre que existe uma real ameaça contra o interesse público. De outra sorte, as Catilinárias se ergueu como um símbolo da vitória da ética sobre a corrupção.

Novos Catilinas Será que não está hora de começarmos a dizer a muitos desses candidatos que estão por aí: até quando vocês abusarão de nossa paciência?

Pena, que não exista um Cícero. Nem aqui, nem no país. Pobre Brasil, pobre Mato Grosso.

A propósito Veja o que digo. Você sabia que foi constituída uma CPI para investigar supostos desvios de verba na Petrobrás? Pois bem, dos onze senadores membros da Comissão, nada menos que oito ou respondem a processos criminais no STF ou receberam doações de empresas ligadas à estatal por contratos ou parcerias. O relator, Romero Jucá, (PMDB – RR), homem de confiança do Governo, (é o líder no Senado) recebeu para a sua campanha para o Senado, em 2002, decisivo apoio da OPP, empresa petroquímica, incorporada à Braskem, da qual a Petrobras é sócia. Jucá é também acusado pelo Ministério Público Federal, com base em investigações da Polícia Federal, de compra de voto e desvio de recursos federais para obras. O inquérito tramita em segredo de Justiça.

Transferência de votos – I Em artigo anterior comentei sob um aspecto interessante mostrado nas últimas duas pesquisas e demonstrado ao longo da maioria das eleições: a dificuldade, na maioria dos casos, de transferência de votos. A realidade é que a popularidade de Lula não tem correspondido à passagem dela para os seus candidatos. Em SP, Mercadante não chega nem à metade dos votos de Alckmin e em todo o Brasil a situação se repete. Do PT, até agora, apenas dois candidatos tem chances reais. Ambos postulam a reeleição: Jacques Wagner (BA) e Marcelo Deda (SE).

Transferência de votos – II Por outro lado, os tucanos não ficam melhores na fita. Com a clara exceção de SP, que já se constituiu em tradição, o restante não está em bons lençóis. O exemplo mais gritante disso é MG, onde Aécio tem praticamente assegurada a vaga ao Senado, tendo saído do governo com altos índices de aprovação, mas o seu candidato está vários pontos abaixo do ex-ministro Hélio Costa.

Aqui em MT nem se fala. Serra dificilmente, muito embora tenha aqui um significativo contingente de votos, conseguirá alavancar a candidatura do peessedebista local. No final de maio, uma pesquisa encomendada pelo PSDB, segundo informava a coluna Aparte, de A Gazeta, dava a Serra 43% da intenção de votos, em torno de 17% a mais que a Wilson, que também foi pesquisado.

Palanque A propósito, se o comando tucano tiver um mínimo de interesse pela candidatura presidencial, e, claro de perspicácia, deve procurar estimulara aqui um núcleo de campanha pró – Serra dissociado da candidatura local. As pesquisas estão indicando que quem não vota em Wilson irá votar em Serra. Assim, uma vinculação forçada pode prejudicar a candidatura nacional. Pode ser que a candidatura do PSDB caminhe nessa mesma direção, ou seja, Antero, aos poucos e gradualmente, se afastando do candidato ao governo. Se isto já aconteceu no passado, por que não agora?

Eleição solteira Tudo parece indicar que teremos eleições bem distintas para a presidência e para as governanças estaduais. Não havendo transferência de votos.. De modo significativo, claro. Em vários Estados isto, pelas pesquisas, já está acontecendo.

A estética do feio É incrível a falta de bom gosto estético existente em certos detentores de mando nos poderes públicos. Isto de que gosto não se discute é conversa fiada. Pode-se até admitir, no âmbito pessoal, que cada qual tenha o seu próprio gosto e as suas predileções pessoais. Mas quando se trata da coisa pública, a estética, o gosto, a predileção tem-se que procurar a um patamar mínimo de bom gosto consensual. E Cuiabá, infelizmente, além da longa história de descaso pelas coisas públicas, está cheia de crescentes manifestações de extremo mau gosto. Depois da inexplicável, sem sentido e horrível cobertura de tinta cinza-escura nos bustos expostos nas praças públicas, vem agora a Câmara Municipal pintar as paredes do prédio que a abriga, de roxo. De roxo … imaginem. A cor preferida para os mantos fúnebres, para as coberturas mortuárias.

Que ironia, não? A casa dos edis parece estar anunciando a toda a população que lá se vive em um permanente velório. Auto constatação?

Que monumento Ainda nessa mesma linha: o que simboliza aquela escultura? monumento? ornamento? ou o que seja, que o prefeito colocou na praça 8 de abril, a conhecida praça do Chopão? O que se sabe de concreto é que a encomenda do esboço foi feita ao conhecido artista e poeta Wladimir Dias Pino. Embora admitindo que uma obra de arte não tenha a necessidade imperiosa de ter um significado específico, sendo, portanto auto-explicativa, no entanto em se tratando de um monumento encomendado pelo poder público alguma representação simbólica há te ter. E o que exatamente aquela obra representa para a cidade? Qual o seu significado histórico mais imediato? E por que está colocado exatamente naquele minúsculo canto da praça?

De qualquer forma, pode se arriscar a dizer que a estrutura representa a letra W. Será por quê? Uma auto-homenagem? do autor (Wladimir) ou do então prefeito (Wilson).

Uma coisa se sabe ao certo: é que até bem pouco o artista não havia recebido um tostão por seu trabalho, conforme se noticiou, e que Wladimir, com mais de 80 anos, vivendo no Rio de Janeiro, estaria extremamente aborrecido com o possível calote. Como não se voltou mais a falar no assunto, pelo menos publicamente, não se sabe se ele já recebeu o que lhe é devido.

Cemitério E, falando em obras, por que é que o cemitério da Piedade, onde tantos ilustres matogrossenses e quanta gente tradicional desta quase tricentenária cidade estão sepultados, se encontra em permanente abandono, invadido por larapiosinhos e servindo de ambiente para acoitar consumidores de drogas? Este é um assunto que a nossa Câmara poderia muito bem estar preocupada, e não só porque está entre as suas atribuições o cuidar da cidade, muito mais do que fazer a política minúscula com a qual ocupa a maior parte de seu tempo. Mas … que digo eu? Afinal, o pintar de roxo suas paredes não será já o início de uma preocupação com as coisas da morte?

Filme Imperdível o filme, em vários capítulos, sobre a História de Mato Grosso, do cineasta Joel Leão, que a TV Assembléia (Canal 30) vem transmitindo. Uma necessária aula sobre aspectos importantes, e pouco conhecidos, de nossa história. Joel, os produtores e patrocinadores estão de parabéns pela iniciativa. Falta agora distribuí-lo para todas as escolas e bibliotecas públicas do Estado.

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