A cuia vai por Cuiabá afora: poema de João Bosquo

Cuia vá! Cuia vá! Cuia vá!
Gritava o português atrás da cuia
que lhe escapou da mão
quando bebia água na beira do Coxipó…
Assim conta a mais divertida versão
para o saboroso nome Cuiabá

Os primeiros aqui desembarcar
– antes de todos os primeiros –
foram Miguel Sutil e Paschoal Moreira Cabral
– Um virou anel rodoviário
o outro, antes de se tornar
praça e não é mais praça
era o Campo D’ourique
onde os circos se armavam
trapezistas voavam até o infinito
motociclistas do globo da morte
desafiavam nossa coragem em olhar…
Meu pai sentava-se nas cadeiras
enquanto menino assistia do poleiro

Essa Cuiabá está perdida, não mais existe
O campo D’Ourique, o Armazém Sampaio
Jã-João, o craque Almiro
exportado pra jogar em Portugal
e voltou com sotaque europeu
As peladas, o soltar pandorgas
quermesses… O bairro Cai-cai
bandoleiros, Mão Branca
e o motorista que viu a Moça Loura
entrar no Cemitério da Piedade
estão perdidos na poeira do tempo
como o cine poeira da 24 de Outubro…

Naquele oito de abril
o português, corria rio abaixo
atrás da cuia, não podia imaginar
a cidade tomando tal feição!
Chegaram os navios cheios de tapeçarias
copos de cristais, computadores
uísques do Paraguai, gás néon,
retrato três-por-quatro na hora
o lambe-lambe da Ypiranga
BrasilSalt, Motosblim, Av. da Prainha…

Em meio a tudo isso
os negros cuiabanos de pés rachados
construíram a capela de São Benedito
e Nossa Senhora do Rosário
depois de terminarem a catedral
de N. Sr. Bom Jesus de Cuiabá
e Orlando Chaves, anos mais tarde,
cismou de derrubar

Quando o rio encheu, os paus rodaram,
veio gente do Rio Grande do Sul
do Paraná, das Minas Gerais
Os paulistas já estavam aqui
entraram como bandeirantes
a RVO foi a primeira a noticiar

Um, entre tantos nordestinos,
se fez prefeito, depois governador
José Lopes partiu de Portugal
os Müller da Alemanha
os turcos do Líbano
abriram portas na 13 Junho…
Hoje, porém, ninguém consegue
separar nada de nada
é tudo uma cuiabanada só

O português do rio Coxipó
gritava: “cuia vá!”
e queria o ouro, shopping center
Goiabeiras, Bairro Popular

– O CPA é grande pra chuchu –

O historiador Rubens de Mendonça
agora é avenida e passa além
do monumento Ulisses Guimarães
O Mercado do Peixe vai virar museu
Os turistas vão ficar com água na boca
e comer pacu no bar Flutuante

Dona Zulmira brigou com as moças
do Clube Feminino e fundou o Mixto
professor Ranulfo Pais de Barros,
no Dutrinha, não conteve a surra do Chicote

Quem é que podia calcular tudo isso?
O português a gritar: “Cuia vá!”
não podia imaginar que o cine Tropical
apesar do sucesso fecharia as portas
assim como o Banco Financial, Sayonara,
Panaceia, Palmeirinhas, Pedro Biancardini
a dança de boi-à-serra, Lourdinha
e o Armazém Mercado, de João Cartola

Hoje, Cuiabá perde a pronúncia
Suas mulheres, por causa do calor,
ficam mais sensuais e provocantes
O ônibus anda até na pituca
Um crime – estampa o Jornal do Dia –
aconteceu ontem num bairro periférico

Cuia vá! Cuia vá! virou Cuiabá
O índio de “coque” na beira do rio
riu do desespero do português…

A caixa preta não revela
A mangueira de cem anos tombou
para dar lugar a um prédio da Encol
O Hotel Centro América, babau
Quem muito atiça Deus castiga…
Cuiabá, adeus, até mais nunca.

><>Vamos fazer aquele velho esquema: publicar alguns de nossos poemas que falam desta Cuiabá, que hoje festeja 292 anos de fundação.

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