A Donzela Tenebrosa do PT

Por Johnny Marcus

No livro “He – A Chave do Entendimento da Psicologia Masculina”, o psicoterapeuta estadunidense Robert A. Johnson narra a trajetória do jovem Parsifal, em busca do Graal. Em sua caminhada, o aspirante a cavaleiro da Távola Redonda se defronta com inúmeros desafios antes de chegar (ou não) a seu objetivo. A obra é um raio-x da alma masculina em busca de iluminação. A chave de tudo, de acordo Johnson, está na perfeita harmonia que todo homem deve ter com sua “anima” (princípio animador da vida; mulher interior – segundo Jung). Nada a ver com sexualidade, deixemos bem claro.

Quando finalmente chega à corte do Rei Arthur, Parsifal – agora consagrado cavaleiro com pompa e circunstância – depara-se com a “Donzela Tenebrosa”. Diz o livro: “No auge das festividades dos três dias, a mais horripilante das donzelas aparece como um desmancha-prazeres. Vem montada numa mula velha e decrépita, manca das quatro patas. Traz os negros cabelos arranjados em duas tranças. […] Sua missão era a de mostrar, durante o festival, o reverso da medalha. Aliás, uma tarefa que executa com genialidade. Todos os presentes ficam paralisados. Ela então cita um a um os erros e atos estúpidos cometidos por Parsifal, além da pior de todas as falhas: não ter formulado a pergunta no Castelo do Graal. […] O cavaleiro é humilhado e silenciado diante de toda a corte que, instantes antes, o colocava nos céus. Com a mesma certeza de que o sol se põe, a Donzela Tenebrosa irromperá na vida de um homem sempre que ele atinge o ápice do sucesso”.

O PT, assim como todos os outros, é um partido político essencialmente masculino e dirigido sob a égide do patriarcado. Politicamente falando, o PT é Parsifal. “Ascensão e queda são dois lados da mesma”, canta Humberto Gessinger. A Ação Penal 470 (vulgo mensalão); o escândalo da Petrobrás e por fim o impeachment da presidenta Dilma Rousseff não deixam margem à dúvidas. Golpismos e condenações à base de “liberdade poética” a parte, o Partido dos Trabalhadores está diante de sua Donzela Tenebrosa. A fantasia é rasgada em plena avenida.

Prefeitura de Cuiabá O modelo de gestão petista para as cidades sempre foi altamente eficiente e elogiado internacionalmente. Poderia, não fosse pelo ego e omissão de seus dirigentes, também ter dado certo em Cuiabá. O Comitê da Maldade impediu que Alexandre César chegasse ao Alencastro em 2004. Em 2008, a popularidade de Lula estava na estratosfera e o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), significava uma revolução na área de saneamento básico. Dois anos antes, Carlos Abicalil tinha sido reeleito deputado federal com votação recorde. Aproveitando essa conjuntura, poderia ter sido candidato a prefeito e muito provavelmente teria batido Wilson Santos. Mas não, a meta de Abicalil era o senado em 2012. Outra estrela petista, a então senadora Serys Slhessarenko, também desdenhou da prefeitura e apostou na reeleição. A briga fraticida foi deprimente.

Sendo assim, por movimentação da sempre aguerrida militância, o PT fez suas prévias e o engenheiro José Afonso Portocarrero venceu o médico Alencar Farina. Ungido candidato, Carrero não contava com a astúcia de seus adversários internos e, numa tramoia vergonhosa, foi escanteado para vice em chapa encabeçada por Vera Araújo. Não satisfeitos, os caciques petistas locais também destituíram a candidatura própria e foram se aliar a Mauro Mendes. O sonho durou pouco. Wilson Santos foi reeleito.

Em 2012, a aposta do PT foi o médico e combatente vereador Lúdio Cabral. Até Lula veio fazer comício de apoio. Mas não tem santo que dê jeito em coligação que tenha Silval Barbosa, Carlos Bezerra e Éder Moraes. Ainda mais quando Lúdio sobe na barca furada de assegurar, em palanque, que todas as obras para a Copa do Mundo serão concluídas dentro do prazo. Sabe nada, inocente. Resumo da ópera: Lúdio é derrotado por Mauro Mendes – aquele mesmo que o PT abraçara na eleição anterior. Agora em 2016, Lúdio Cabral não quer saber de eleição. Ele e tantos outros potenciais candidatos petistas Brasil afora preferem ficar na defensiva. É o tempo do apuro. De qualquer forma, não importa qual dos golpistas vencer a eleição de hoje, o grande derrotado será o PT.

De volta ao livro de Robert A. Johnson, Parsifal é humilhado pela Donzela Tenebrosa por não ter sabido formular a pergunta correta no Castelo do Graal. Cometendo um “psicologismo”, atrevo-me a dizer que o PT é Parsifal às avessas. Pois enquanto um não soube fazer a pergunta correta, o outro não soube dar a resposta correta.

Indubitavelmente, a chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder com Lula em 2002 causou uma revolução social no Brasil. Milhões saíram da miséria, tiveram acesso à moradia, crédito e ensino superior. Porém, muito mais poderia ter sido feito e, para dar a resposta correta ao povo brasileiro, o partido deveria ter ouvido mais o povo. Muito mais.

Apesar de ter falhado na primeira vez em sua missão, Parsifal ganha uma segunda chance. Mas antes de essa nova oportunidade chegar será um preciso percorrer um longo caminho de expurgo. E somente com a maturidade da experiência, o cavaleiro terá plenas condições de fazer a pergunta correta. Maturidade que também faltou ao PT para dar a resposta correta ao povo brasileiro.

Legislando (sempre) em causa própria Conforme ensina meu grande amigo e especialista em legislação eleitora, Lenine Póvoas, se um chefe do Executivo (prefeito, governador, presidente) se desincompatibiliza do cargo para concorrer a outro cargo eletivo e não é eleito, não pode retornar ao mandato. Estranhamente o mesmo não vale para o Legislativo. Vereadores, deputados estaduais e federais e senadores podem aproveitar as eleições municipais para ganhar visibilidade para a eleição seguinte e depois reassumirem seus mandatos tranquilamente. Outra vantagem é que podem reeleger-se “ad infinutum”, enquanto que o Executivo não tem mais essa possibilidade. Esses privilégios do Legislativo, claro, não chegaram nem perto de serem debatidos na reforma eleitoral conduzida pelo correntista suíço Eduardo Cunha.

Post Scriptum: Cômico se não fosse trágico. Enquanto que nos Estados Unidos a Ku Klux Klan alia-se a Donald Trump em sua cruzada de ódio contra negros e latinos, no Brasil o candidato misógino, xenófobo e racista ganha ato de apoio. It’s the end of the world.

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