A Gripe de Carlos Alberto – Um conto de Eduardo Mahon

Antônio Carlos era um sujeito comum, não fosse o nariz. O nariz em si, ele mesmo um alongamento da cara, não era nada escandaloso: longo, meio adunco, afinado na ponta. O que causou espanto era a capacidade que Carlos Alberto tinha de identificar todos os odores conhecidos e desconhecidos pela ciência. Foi assim que, com dezesseis anos, o jovem Carlinhos abandonou a casa por cheirar uma mulata boazuda da vizinhança nas camisas do pai. Muito cedo empregou-se e não teve do que reclamar. Das marcas de luxo, era o especialista mais destacado, nomeado geralmente como provador oficial. Cheirou cerveja, café, vinho, cheirou charuto e foi mestre perfumista sem tirar canudo. Certa vez, Carlos Alberto cedeu à uma proposta de um milhardário japonês para cheirar uma ninfeta a fim de atestar se era ou não era virgem.Premido da depressão por ser o nariz mais famoso do que si próprio, resolveu romper com aquela vida olfativa e partiu para a faculdade onde a mente havia de dominar aquele sentido primário. Escolheu Direito. Não por acaso. O odor dos livros, dicionários, doutrinas e mesmo dos processos formava um complexo de sentimentos que nunca havia experimentado, misturando-se no que, intimamente, dizia de si para si – cheiro de poder. Da dura cátedra universitária ao conforto da poltrona do escritório, foi um pulo. O doutor Carlos Alberto era um ás nos tribunais do júri. Sem que ninguém soubesse a razão de tanta argúcia, o tribuno cheirava tudo e todos: jurado a jurado, a tensão, o medo, a raiva e, finalmente, o veredicto antes mesmo de ser anunciado. Não parou por aí. Meteu o nariz nos livros e tornou-se juiz. Sentença com Carlos Alberto era tiro e queda: a acusação contra o senhor é verdadeira? Se o acusado transpirasse mentira, saberia imediatamente o magistrado alerta. Estou satisfeito, encerrava a audiência convencido da sentença que daria. Se uma molécula de amônia fosse sacada pelo pretor, condenava-se. Caso contrário, absolvia-se. Ficou conhecido como místico: não errava uma! Não demorou para que ascendesse. De juiz a desembargador e, de desembargador a ministro, foi coisa de dez anos, quase um recorde entre as togas envelhecidas. Quanto mais subia, mais o nariz de Carlos Alberto era chamado à responsabilidade. Nos processos mais polêmicos, ficava até altas horas no gabinete, pondo-se a cheirar página a página até encontrar um vestígio de verdade ou uma falsidade nas dobras dos grossos volumes encadernados. Eleito presidente da corte mais alta do país, o ministro Carlos Alberto viu-se às voltas com questão difícil de solucionar. Tratava-se de acusação contra um senador em que tudo cheirava mal do começo ao fim: mamatas, gorjetas e outros negócios do arco da velha. Ocorre que, além do julgador haver votado do camarada, teve atendido um pedido para empregar o filho no Ministério da Fazenda com ordenado gordo, pouco trabalho e muita mordomia, mais do que aquele moleque folgado merecia. Caso difícil, bons advogados, holofotes da mídia – tudo pressionava Carlos Alberto a reconhecer que havia mesmo algo de podre no ar. O relator pesou a mão. Condenou o magano a doze anos de cana. O presidente do tribunal passou à votação, ministro a ministro. O povo parou na frente das televisões para acompanhar o destino do acusado que, trocando em miúdos, se confundia com o futuro nacional. Audiência maior do que final de copa do mundo. Sem alternativa, o voto de minerva começou tímido, com o tradicional rame-rame jurídico cujas palavras não diziam nem sim, nem não, muito pelo contrário. Ao final, para surpresa nacional, o excelentíssimo doutor Carlos Alberto disse que não poderia proferir voto conclusivo sobre o imbróglio. Pela primeira vez na vida, os tribunais registraram como motivo de absolvição uma gripe alegada por um ministro.

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