A inédita Luciene Carvalho de Sempre, por Eduardo Mahon

A INÉDITA LUCIENE CARVALHO DE SEMPRE (E.M)Já tive oportunidade de comentar sobre o novo ângulo que Luciene Carvalho…

Publicado por Eduardo Mahon em Quinta-feira, 15 de novembro de 2018

 A INÉDITA LUCIENE CARVALHO DE SEMPRE (E.M)

Já tive oportunidade de comentar sobre o novo ângulo que Luciene Carvalho deu ao que, até então, chamava-se “cuiabania” ou, como querem outros, “cuiabanidade”. Nos primeiros livros, a autora fez questão de desterritorializar a ação do centro para a periferia, descrevendo “tipos” que são diferentes dos consolidados no imaginário coletivo. É no Porto que as raízes da poeta estão plantadas e de lá interpreta o crescimento desordenado da metrópole, com medo, com raiva, com curiosidade. Com o novo livro – DONA – a autora ressurge mais madura, embora reafirme com clareza toda a própria trajetória. Basicamente, o livro gravita em torno da temática feminina relativa à madureza. A morte da mãe não é tratada como vazio e sim como sublimação, uma nova etapa onde os cordões umbilicais são partidos e a poeta adquire independência. O local é a periferia, o orgulho da margem, e o cultivo de uma “linhagem” que prenuncia o futuro como uma espécie de sucessão desse ângulo de percepção. Percebo isso desde a dedicatória ao “principado da Barão”, um coletivo de meninas que, na visão da autora, constituem-se a verdadeira aristocracia portense.
Luciene Carvalho não deixa de fora a crítica ao Mato Grosso comercial, ao agronegócio predatório, também presente na poética de Ronaldo de Castro, Silva Freire, e mais recentemente dos poetas Marli Walker e Santiago Villela Marques. Nos poemas Colágeno e Agrossecura, posiciona-se politicamente no combate à predação ambiental: “Abro as narinas/ mas o cheiro é de terra seca/ sobe a poeira/ espraia a fumaça/ enquanto a soja, o algodão, o milho/ sangram a umidade/ que vira dinheiro, dinheiro, dinheiro/ que o filho do sojeiro/ vai lavar na água salgada/ do mar/ que envolve o Rio de Janeiro”. Esse viés de protesto contra o que seria, até então cantado como grandeza, dialoga sub-repticiamente com o cânone literário mato-grossense pregado ao romantismo ufanista da região. A fertilidade é tomada mais como maldição do que benção, as fronteiras agrícolas estão retratadas como deletérias e o pasto de gado interpretado como genocídio indígena e destruição ambiental. A crítica desnuda um rompimento político e estético com o passado que é claramente contraposto pela resistência de dos autores contemporâneos.
Muito embora a poeta prossiga girando o enfoque local de Cuiabá e de Mato Grosso para um ângulo novo, o que DONA nos traz é mais um exercício psicanalítico. Luciene Carvalho nos convida ao divã coletivo, considerando os inúmeros pontos em comum que cada um de nós experimenta com o tempo. A imagem da mulher submissa, parideira e trabalhadora do lar, constante de publicações literárias longevas como A Violeta, é rechaçada com vigor pela autora. Pessoalmente, a própria poeta supera a identidade marcada obtida em Insânia e avisa: “e as gentes ao redor/ não têm a menor noção/ da mutação em curso/ sem cessar jamais;/ falam duma eu/ que eu já não sou mais”. Até mesmo o próprio título “Dona” é um signo de autoafirmação, de segurança e de poder. Ocorre que uma mesma pessoa não pode jamais ser duas.
É bem claro o acerto e erro dessa “nova” Luciene: de um lado, a escritora procura se descolar da insânia como estigma identificador, o que faz bem. No entanto, em termos literários, as opções da autora continuam as mesmas, dessa vez decantadas e mais sofisticadas. Trata-se da mesma autora que afirma o seu local periférico de fala: “meu verso é pardo/ como o meu país./ meu verso é onde guardo/ o olhar que tenho do mundo/ que vejo da janela/ do fundo/ do ônibus/ da calçada/ andada a pé (…) A identidade periférica/ no passar dos anos/ desprende-se da vergonha/ desfaz-se da cor tacanha/ e se assina:/ assassina a barreira social/ que me limita/ e grita/ pra minha escrita:/ é bonita/ é bonita/ é bonita”. O paralelo que Luciene faz com a música de Gonzaguinha é muito apropriado e não me surpreende – o famoso compositor foi criado no morro do São Carlos, no Rio de Janeiro e tem várias canções que tratam do mesmo tema como “Acredito na rapaziada”, “E vamos à luta”, “Com a perna no mundo”, “Moleque”, entre outras canções que iluminam a periferia com a riqueza cultural que dela emerge.
A condição da mulher é a tônica central de DONA. Uma mulher contemporânea: negra, intelectual, sem filhos, que não deixa de se colocar na posição de fêmea, mas não declina do poder alcançado. Luciene já não centra a escrita nos jogos de sedução, sublinhando ancas, seios, bocas e coxas. Vai além: trata de uma mulher em conflito, um conflito que é resolvido pela razão ou pelo gozo, dependendo da situação. É a história de “Dona Maria/ não tem carta de alforria/ tem marido, filho, neto/ tem o cocho e tem o teto/ tem o nome/ e tem azia”. Essa prisão da qual fala a poeta é uma tensão que ela não quer resolver ou escapar. Temos aqui um retrato do que se passa com milhares de mulheres que buscam sua autonomia, mas que ainda não encontraram equação própria para viver em plenitude. Essa tensão é confessada: “me apego em picuinhas/ exponho o meu lado/ mais mesquinho/ pra fazer doer/ pra fazer/ o que quer que tenha que acontecer/ acontecer logo/ me jogo/ no projeto do ‘vale menos’/ em que detalhes pequenos/ sejam razão pra acabar/ tenho tido a sorte/ d’ele não acreditar”. A confissão não desmerece o enfoque de DONA, ou seja, uma senhora segura de si, porque a insegurança faz parte de qualquer personalidade, até mesmo das mais bem resolvidas.
O que mais me atrai na nova fase da poesia de Luciene Carvalho é a reescritura de Balzac, agora sob o ângulo feminino. De um lado, a poeta trata de tipos simples, geralmente inominados, quase sempre mulheres de meia-idade. De outro, extrai desses tipos femininos uma identidade que coincide com o que há de mais profundo em todos nós, homens e mulheres, resistentes ao tempo, alguns com descontrole, outros com resiliência – “a pessoa/ deveria receber um treinamento/ sei lá/ um amaciamento/ que a ajudasse a lidar/ com a palavra/ dita assim na cara/ SENHORA!”. O tratamento anônimo dado à mulher no livro rememora a invisibilidade da mulher madura, algumas vezes desacostumada com o desprezo social: “Vou buscando meu ajeitar no tempo/ vivendo no agora/ buscando algum armistício/ com tudo o que sou;/ atenta ao que passo,/ não ao que passou”. O supremo medo da mulher ainda jovem, o medo de ser despercebida, está presente na nova obra: “Eu mesma não sabia/ e não digo/ da dor/ frente à transformação/ da face/ da ruga/ da marca da expressão”.
Diferentemente de Balzac, porém, Luciene Carvalho vê além da sucumbência do tempo, da força esmagadora e desagregadora dos anos. É bem comum a visão pessimista acerca da velhice. Tanto que, no melhor poema do livro (Irineia da Janela), temos a figura de uma mulher agrilhoada às obrigações da casa, perguntando-se quando chega o futuro amor que, ao final, acaba por não chegar mais por culpa da própria clausura do que pelo trem que é sempre pontual. A cênica da declamação foi magistral e agrega ainda mais valor ao texto, posso garantir. Colocando-se como “herdeira” de uma longa tradição de mulheres “donas” de casa, da família, do terreiro, da cidade, da ancestralidade, da africanidade, a poeta convoca as meninas a trilharem um caminho de emancipação. Essa luta pela condição de mulher livre lembra a Luciene Carvalho de sempre, muito embora ela mesma tenha logrado o ineditismo de ter se tornado dona de si.

Eduardo Mahon é escritor.

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