A volta da Sudeco: artigo de José Antônio Lemos

Minhas tentativas como articulista iniciaram em outubro de 1982 no extinto O Estado de Mato Grosso, numa série de quatro artigos denominados “Cuiabá e a sede da Sudeco”, tendo como padrinho e incentivador o saudoso Archimedes Pereira Lima.

Falava da possibilidade da Sudeco se instalar em Cuiabá, pois o órgão devia por lei ter sua sede em sua área de jurisdição, da qual Brasília não fazia parte. Lembrava ainda que quando criada, em 1967, era tido como certo que sua sede seria em Cuiabá, capital mais central na área de atuação do órgão, que então envolvia Rondônia, Mato Grosso e Goiás, estes ainda íntegros.

Ademais, manter sua sede em Brasília era manter um órgão criado para ser descentralizador junto à matriz que se pretendia descentralizar, uma contradição que prejudicou a consolidação política do órgão. Contudo, sob a alegação de que em Cuiabá não “assentava” aviões a jato, que o sistema telefônico interurbano ainda era na base do rádio, e outras desculpas dessas, a sede ficaria provisoriamente em Brasília, e lá ficou até que Collor a extinguisse, sob o silêncio complacente de nossas autoridades e representantes federais.

Este foi um dos dois motivos – que me orgulham – pelos quais depois fui exonerado do antigo Ministério do Interior. Aliás, assim também perdemos a sede do Comando Militar do Oeste, instalado em Campo Grande em 1986 com meta de se transferir para Cuiabá em 1990.

No último dia 5 foi publicada no Diário Oficial da União a recriação da Sudeco, cujos detalhes ainda não me inteirei. Em tese acho boa a medida e nem podia ser diferente, pois na época de sua extinção fiz alguns artigos contrários.

A Sudeco foi usada como “boi-de-piranha”, sacrificada em favor da preservação das poderosas Sudam e Sudene, sobre as quais pesavam inúmeros escândalos, em especial sobre incentivos fiscais, que a Sudeco não dispunha.

Penso que a Sudeco teve papel preponderante na formação do que é o atual Centro-oeste, incluindo Rondônia e Tocantins, e muito especialmente na formação da potencia que é Mato Grosso hoje.

A Sudeco planejava a região como um todo, organizando os investimentos federais em fortes programas especiais de desenvolvimento regional, sob a visão e fiscalização de um Conselho Deliberativo composto pelos governadores e outros representantes de cada estado.

Assim os recursos federais eram articulados em função de grandes objetivos estratégicos, adquirindo uma sinergia potencializadora, e não de forma isolada e às vezes até contraditória, como acontece hoje.

O salto diferenciado de desenvolvimento que Mato Grosso apresenta, cuja origem é atribuída por alguns à divisão do estado, na verdade está enraizada no trabalho da antiga Sudeco. É claro que tudo começa com Brasília que fez o Brasil voltar-se para o seu interior, dando início ao espetacular desenvolvimento regional. Cuiabá teve sua população duplicada na década de 60.

Através de programas como o Prodoeste, Prodepan, Polamazônia, Polocentro e Polonoroeste, a Sudeco organizou e implantou uma infra-estrutura econômica e social básica, impulsionando o processo desenvolvimentista que já ocorria célere na região.

As cidades e municípios que começavam a surgir, em especial no norte do estado, queimavam etapas em sua evolução, pois recebiam a fundo perdido projetos complementares de infra-estrutura urbana, como redes de água e energia, estradas, silos, geradores, criando a base sobre a qual se assenta o extraordinário desempenho que Mato Grosso tem mostrado ao país e ao mundo.

Que a nova SUDECO beba nas águas da boa experiência da sua antecessora, resgatando aquele poderoso órgão de desenvolvimento regional que jamais deveria ter sido extinto.

Share Button

José Antônio Lemos dos Santos

José Antonio Lemos dos Santos, arquiteto e urbanista, é professor universitário. Troféu "João Thimóteo"-1991-IAB/MT/ "Diploma do Mérito IAB 80 Anos"/ Troféu "O Construtor" - Sinduscon MT Ano 2000 / Arquiteto do Ano 2010 pelo CREA-MT.

Você pode gostar...