A volta do Fan Park – artigo de José Antônio Lemos dos Santos

José Antônio Lemos

A rápida intervenção do governador Silval Barbosa reafirmando a instalação do Fan Park na região do Porto fez retornar o bom-senso ao assunto. Além disso, resgatou para Cuiabá a perspectiva de um dos principais legados urbanísticos a ser deixado pela Copa do Pantanal. Desde a escolha das sedes da Copa 2014 sempre foi dito que a construção de ao menos um Fan Park em cada cidade-sede era exigência da Fifa, um parque urbano onde os jogos poderão ser assistidos em telões, dedicado aos torcedores que não consigam assistir aos jogos nos estádios, para depois ficar como uma lembrança significativa do grande evento para a cidade. Cuiabá não poderia perdê-lo.

Essa boa invenção da Fifa veio a calhar, pois Cuiabá, apesar de ser a Cidade Verde, é carente em áreas verdes preparadas para receber seus habitantes, ansiosos por espaços estruturados para atividades ao ar livre, dissipadoras do estresse urbano. Porém, para Cuiabá o Fan Park tem um importância urbanística ainda maior. Fora a criação do novo parque urbano, com sua localização no bairro Dom Aquino, região do Porto, principal acesso da cidade, o Fan Park resolve pelo menos quatro problemas graves de Cuiabá. Primeiro, soluciona a antiga questão da transferência de seu Parque de Exposições, cuja localização ficou inadequada ao próprio funcionamento do Parque, bem como à circulação viária na Grande Cuiabá. Ademais, sua contiguidade ao trajeto do VLT e à uma de suas principais estações possibilita o tratamento conjunto da área dando um tratamento digno ao principal acesso viário do município e centro geográfico da metrópole cuiabana, também revitalizando histórico bairro do Porto, dois problemas antigos da cidade. Mas a maior das possibilidades é a da volta da cidade para o rio Cuiabá e sua recuperação como seu mais importante equipamento urbano, fonte de água e alimento, espaço de lazer ativo e contemplativo, elemento marcante na composição climática, ambiental e paisagística da cidade, além de patrimônio histórico por tudo que representou para a fundação de Cuiabá, para a formação de Mato Grosso e a ocupação deste vasto interior centro-continental.

Arquitetura é a arte de transformar os espaços e assim por formação o arquiteto é um visionário que sempre enxerga a realidade na perspectiva de sua transformação para melhor, imaginando soluções geradoras das maravilhas urbanas construídas pelo mundo inteiro. Aqui também pode ser assim e aquela área do Porto é muito rica em potencialidades. Os projetos da Copa e a decisão do governador reacenderam as esperanças. Mesmo que não existam condições financeiras para se fazer tudo de uma só vez, pode ser elaborado um plano diretor integrando as áreas do Fan Park e a da estação do VLT (com sua nova ponte), chegando até a área do Museu do Rio, Aquário Municipal e Avenida 8 de Abril. Nele podem estar previstos o planetário, o novo Shopping Popular, praça gastronômica, monumentos, fontes e outros projetos a serem construídos à medida das possibilidades, ao longo dos anos. Enquanto não dá para fazer tudo, que seja feito logo o fundamental, isto é, o Fan Park, a reurbanização das avenidas e a transformação da arquibancada da Acrimat em uma Arena Cultural para o Siriri, Cururu e o Carnaval, complementando com o plantio de muitas árvores, a instalação de amplos, confortáveis e seguros passeios públicos, ciclovias e pistas de caminhadas em toda a área. E desde então a entrada da cidade fica assegurada como um espaço digno de uma das sedes da Copa e de uma capital às vésperas de seus 300 anos.

* JOSÉ ANTONIO LEMOS DOS SANTOS, arquiteto e urbanista, é professor universitário

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