Abestado x intelectual

(por Gilberto Fraga de Melo) As eleições de 03 de outubro trouxeram algumas revelações importantes. Talvez a mais significativa foi a expressiva votação do candidato a Deputado Federal Francisco Everaldo Oliveira Silva, o Tiririca. Os paulistas destinaram 1,3 milhões de votos ao candidato do Partido da República. Tiririca é um estreante na política. Mais que isso: pelos bordões de sua propaganda eleitoral nem sabe para que serve um deputado. Em um de seus programas soltou a frase que ficou martelando a cabeça das pessoas e, possivelmente, atraído tantos votos:” Vote em Tiririca. Pior que está não fica!”

O sarcasmo com que Tiririca tratou os políticos e o horário eleitoral até lhe rendeu uma reprimenda do candidato a Governador de sua coligação, Aloísio Mercadante. Doído com a chacota do palhaço Tiririca tentou enquadrá-lo como se o horário eleitoral fosse um espaço para apresentar propostas, discutir ideias, enfim, tudo muito sério. Sinceramente essa chamada de atenção de Mercadante é pouco engraçada. Tiririca ignorou e continuou sua toada a bem dos ouvidos imunes à verborragia política. Com isso acertou em cheio no gosto da população e se transformou em uma estrela da eleição para deputado em São Paulo. Embora isso não lhe assegure ser uma estrela na política, como também não é uma estrela no humorismo. Mas, convenhamos, é muito bom em bordões, inclusive ao se autodenominar abestado.

O segundo colocado para deputado federal em São Paulo foi Gabriel Chalita. Chalita é vereador na cidade de São Paulo, foi secretário estadual de educação, Doutor em Comunicação e Semiótica e em Direito pela PUC-SP e autor livros. Chalita teve 560 mil votos. Especialista em Comunicação, Chalita sabe como convencer as pessoas, sabe usar as palavras, entende de signos. Como pensador deve estar fazendo suas analogias, buscando o significado de sua eleição e a significante votação de Tiririca.

Chalita na Câmara Federal deve ter a pretensão de ser uma estrela, influenciar com seu ar e prática intelectual. No entanto, deverá fazer o discurso para o seu colega Tiririca. Pode ser que os signos de um e outro não se cruzem para a obtenção da comunicação entre eles parlamentares. E o cidadão? Qual discurso ou bordão conseguirá entender? O do abestado ou do intelectual?

Na preferência do voto, o cidadão optou pelo abestado. Seria isso uma tendência que a semiótica precisa captar? O fato é que há muitos Titiricas e poucos intelectuais na política, a diferença é que esse é um palhaço profissional assumido.

Share Button

João Bosquo

João Bosquo, poeta e jornalista, editor deste blogue NAMARRA.COM.BR nas redes sociais: @joaobosquo

Você pode gostar...