Aecim Tocantins: Uma história que se confunde com a de Cuiabá

Professor Aecim Tocantins, registro fotográfico de Marcos Vergueiro

Perto de completar 90 anos, em junho próximo, Aecim Tocantins é autor de uma biografia irretocável. Homem público, pai de família, militante da vida, dono de uma memória formidável, em plena atividade intelectual, com mais um livro pronto sobre a personalidade do não menos formidável Cândido Mariano da Silva Rondon, o Marechal Rondon. Se quisesse, Tocantins poderia ostentar o título de doutor, mas exige modestamente que o chamem de professor.

O professor Aecim Tocantins, cuiabano, sempre viveu aqui, exceto no curto período em que estudou no Rio de Janeiro, onde se formou contador e atuário, pela Academia de Comércio do Rio, hoje a Universidade Cândido Mendes. Sabe tudo de Cuiabá. Viu de perto as profundas transformações urbanas e nuances da cultura. Tanto que define cuiabania como “um estado de espírito”, tanto dos que aqui nasceram como dos que aqui aportaram e formam esse grande manancial sócial, cultural e econômico.

Na sábia definição do professor, a atual cuiabania agrega todos aqueles que“nos ajudam a desenvolver a cidade e o estado”. Esse estado de espírito deve-se ao fato de o cuiabano ser aberto à miscigenação.

Depois que se formou, retornou a Cuiabá e instalou seu escritório de contador e atuário na Praça Ipiranga. Cuiabá era uma cidade de vida média, lembra, apesar das dificuldades de intercâmbio com outros centros, o que viria a mudar a partir dos anos 1970.

Vinte anos antes, passou a atuar como professor. Primeiro na Escola Técnica de Comércio de Cuiabá, que ajudou a criar, e da qual foi diretor na primeira metade dos anos 1950. Também foi professor universitário, um dos fundadores do Curso de Ciências Contábeis da UFMT.

Pode-se dizer que a atuação como diretor marca o início da vida pública do professor Aecim Tocantins, seguida da eleição de vereador (1951-55) e a presidência da Câmara Municipal. José Garcia Neto, professor da ETC, foi eleito prefeito de Cuiabá em 1954 e ao assumir a prefeitura em 1955 convidou o professor para o cargo de Secretário Geral da Prefeitura.

Ainda nos anos 1950, o contador Aecim Tocantins, participou da instalação do Tribunal de Contas do Estado. Na condição de secretário, redigiu, de próprio punho, a ata da sessão. Depois seria o primeiro assessor técnico do TC.

Na eleição de 1958 se elegeu vice-prefeito na chapa de Hélio Palma de Arruda. O prefeito foi convidado para assumir a presidência do Banco da Amazônia e se afastou. Em 1961 Aecim assumiu a prefeitura de Cuiabá.

No mesmo ano, com “um empurrãozinho” da madrasta Alina Tocantins, casou-se com Célia Lombardi Corrêa Tocantins, a Celita, com quem teve dois filhos: Mário Luís e Maria Alice. Mário formou-se em odontologia e casou com Flávia Souza Tocantins. Maria formou-se em Economia e casou com o oceanógrafo Wilson Cabral Sousa. Os netos Guilherme e Gustavo (filhos de Mário) e Aramis e Dante (filhos de Maria Alice) são hoje as alegrias dos avós, com quem conversam todos os dias por telefone.

A vida pública de Aecim foi em frente e no período 1961-66 foi secretário do Interior, Justiça e Finanças no governo Fernando Corrêa da Costa. A Casa Civil seria desmembrada no governo seguinte de Pedro Pedrossian. No governo de José Fragelli assumiu o posto de Conselheiro do TCE, onde ficaria até 1978, quando foi indicado pelo então governador José Garcia Neto representante de Mato Grosso na Comissão Especial de Divisão do Estado.

Toda essa trajetória, confessa o professor Aecim, foi vivida com entusiasmo.“Sempre gostei da vida pública”.

Os reparos que faz à política de hoje dizem respeito à vida partidária. Lembra que antigamente existia fidelidade partidária e os partidos eram verdadeiras escolas de cidadania, com respeito às lideranças políticas e à coisa pública.

Toda a sua trajetória foi na União Democrática Nacional, a UDN, um partido conservador, mas a atuação do professor mais parecia com a de um progressista. Fez política diretamente nos bairros e foi o primeiro prefeito a instalar rede de esgoto na capital.

Mato Grosso também tem outro perfil. Aecim Tocantins conta, rindo, que os cuiabanos, classe política à frente o governador Garcia Neto, e sociedade, eram contra a divisão do Estado. No entanto, Mato Grosso saiu rejuvenescido, viveu uma explosão de progresso, com expansão do agronegócio, coisa que ninguém nos anos 1970 poderia imaginar .

A rotina do professor Aecim Tocantins – por conta da idade – está se restringindo, não o permite participar dos eventos para os quais é convidado, mas continua trabalhando, agora como escritor, sempre em parceria. Ele conta que, junto com Ivan Echeverria, terminou de escrever um livro “no qual retrata a alma do Marechal Rondon”, com base nas cartas que o eminente sertanista escreveu ao pai de Aecim, Odorico Tocantins, que era telegrafista e procurador. “Todos falam da obra ciclópica de Rondon, como pacificador dos índios, que integrou o Brasil pelas comunicações e nós vamos falar da alma, mostrar o homem”.

A alma de Rondon foi pincelada de 200 cartas. Com o mesmo Echeverria e Nilza Queiroz Freire escreveu “Professora Alina – Uma educadora além do seu tempo”, e em parceria com a esposa Celina publicou “Philogônio de Paula Corrêa: Educador, Historiador, Homem de Letras, Parlamentar”.

Como ativista social, militante da vida, Aecim Tocantins trabalhou como voluntário por 60 anos na Santa Casa de Misericórdia e durante a sua gestão como presidente da entidade foram construídos o Hospital Infantil e respectiva UTI, além da instalação do serviço de hemodiálise; também foi presidente da Federação das Misericórdias, Hospitais e Filantrópicas do Estado de Mato Grosso, membro fundador do primeiro núcleo da União dos Escoteiros em Cuiabá e presidente de honra do Centro Operário de Cuiabá.

Na tranquilidade do lar, sempre com bom humor, com confiança no amanhã, está trabalhando em outra obra “Coletânea de conceitos e pensamentos” – na qual deve constar:“Não contrariar a esposa nas pequenas coisas para poder contrariar nas grandes”,uma postura que evita, claro, qualquer discussão caseira.

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