Agentes culturais contam como vão brincar (ou não brincar) durante reinado momesco neste ano da crise de 2017

O carnaval aqui ou carnaval acolá é o carnaval de Cuiabá 300-2 que vai mudando a sua cara de brincar o próprio carnaval. É uma imposição do próprio tempo. Cuiabá atual não suporta mais que o poder público interdite ruas por semanas para armar arquibancadas para três dias de folia, como acontecia em décadas passadas. Corrida de Reis, sim, vai continuar promovendo esses transtornos anuais aos moradores da Região Norte de Cuiabá, enquanto o poderio das Organizações Globo prevalecer.

O carnaval cuiabano mudou de cara. Na antevéspera de nossos 300 anos de fundação, os blocos carnavalescos prevalecem sobre as escolas de samba dos anos 80, quando essas ‘entidades’ desceram as avenidas Getúlio Vargas e Mato Grosso massacrando os cordões carnavalescos… Hoje não temos nenhum dos dois, mas o calendário nos diz que este final semana também é carnaval em Cuiabá e o Rei Momo está preparado para comandar a festa. Sim, Ygor Santos e Welly Gomes, como o rei e a rainha, estão ainda para comandar a folia, onde houver folia.

Mas como é que nossos ativistas (desculpe a generalização) culturais vão brincar (ou não brincar) o carnaval de 2017? O premiado escritor Luiz Renato de Souza Pinto – um dos 10 contemplados no MT Literatura – diz que o “carnaval é hora importante para por em dia as fantasias”. Para o ator, escritor e os demais que adotam como mais importante a atividade imaginativa, o carnaval passa a ser um excelente feriado, ótima oportunidade de descanso. Evoé, Baco. Evoé, Momo.

O maestro Fabrício Carvalho, da Orquestra Sinfônica da UFMT (que no ano de 2016 – vamos combinar – teve um ano pra lá de agitado, com grandes eventos) diz que o que o “carnaval são fases”. São fases e faz questão de explicar quais são essas fases. A primeira, segundo ele, quando “solteiro e na Faculdade, buscava os programas mais baratos com os amigos foliões. Santo Antônio, Poconé e Livramento foi então o circuito preferido”. Nessa fase, lá estavam os “anjos da guarda – titulares e suplentes – a postos para tomar conta”. Agora, casado, a coisa foi um pouco pra Chapada e para o bloco do pijama mesmo. O enredo, segundo Fabrício, é colocar os filmes em dia e aproveitar pra viajar um pouco. “Com filhos pequenos estou buscando onde levá-los com segurança. Brincar o carnaval agora é, antes de mais nada, ficar em paz com os meus foliões preferidos”.

O gestor cultural Mário Olímpio, que também já comandou o carnaval, quando secretário de Cultura de Cuiabá, diz que o “carnaval é arte, é cultura popular, evento que além de simbólico, movimenta um monte de atividades econômicas”. Em Cuiabá, ele gosta da Praça da Mandioca e dos desfiles de blocos que, na opinião dele, devem ser revitalizados. Já em Chapada dos Guimarães, Mário Olímpio diz que a pedida é a Praça da Igreja e o bloco preferido é a comunidade da Varginha. Em Santo Antônio de Leverger, por seu turno, Olímpio afirma que gosta da “mistura de cururu e siriri com todos os outros ritmos”. Mas ninguém é de ferro. Ele depois dessa “propaganda” toda, diz que “carnaval também é um belo de um feriado, né? Este ano vou ficar quieto em casa”, conclui mostrando que é um folião só em tese.

A dramaturga, cineasta, videomaker e ativista cultural Maria da Glória Albuês Martins, a nossa Glorinha Albuês, que também já pontificou como carnavalesca, agora navega em outras águas, mais especificamente nas águas do ‘mar’ de Chacororé. “Estou indo para Barão de Melgaço. A baía de Chacororé abriga os seres encantados das águas. E lá me perco. E lá me encontro. E lá vou eu festejar o carnaval na dança do vento. E viva o Carnaval! Cajás e das goiabas. Sou feita assim. O samba dança em mim”, poetiza.

O cantor, compositor e pesquisador Milton Pereira de Pinho, o nosso Guapo, mesmo com o espírito carnavalesco pairando, não esquece, esmorece ou se deixa contagiar para deixar de criticar a secretaria de Cultura de Cuiabá que vai animar o carnaval com uma banda exógena à cultura cuiabano. “Pagar a Banda Olodum, que não tem nada a ver com a cuiabania, pra animar o carnaval cuiabano é um desrespeito com a nossa cultura. Nós não precisamos dessas idiotice, o cuiabano dança o ano inteiro lambadão, rasqueado, lambadinha é sua tradição o modo de dança de par e no máximo que eles empolgam é com a marchinha carioca que é importante e, que deu origem ao carnaval brasileiro”, afirma.

Segundo Guapo, a Banda Olodum tem a ver com a cultura afro-baiana e passa longe da nossa antropologia cultural. Ele lembra que a Micarecuia, calcada na micareta – carnaval fora de época – não pegou, assim como o reggae que também nunca caiu nas graças do cuiabano.

“Esses promoters precisam aprender que o povo que vive em Cuiabá hoje são em maioria sulistas, paulistas e mineiros povo que tem tradição de dança de par, e não de pula-pula, até o samba que mais pegou em Cuiabá foi o samba-gafieira, por ser uma dança de par”, avisa. Segundo Guapo, os gestores deviam consultar a quem conhece, e “não fazendo seus pacotes e enfiando goela a baixo para uma cidade que vai completar 300 anos e nunca precisou de cultura de outro Estado”.

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João Bosquo

João Bosquo, poeta e jornalista, editor deste blogue NAMARRA.COM.BR
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