Agora é tempo de Dom Pedro Casaldáliga

O livro com o texto da peça de Luiz Carlos Ribeiro e Flávio Ferreira foi lançado no último dia 15 durante a Romaria dos Mártires da Caminhada

Dom Pedro - Foto: Lenine Martins/Secom-MT

Dom Pedro – Foto: Lenine Martins/Secom-MT

Por João Bosquo

Pedro nunca mais irá embora. Pedro permanecerá sempre na nossa memória, pois agora está em livro… de arte. A ARTE, a literatura, a poesia, muito das vezes, com suas metáforas e elipses contam mais a verdade que as narrativas dos livros nas estantes das bibliotecas. O livro “Fica, Pedro”, de Luiz Carlos Ribeiro e Flávio Ferreira entra agora para distinto rol dos grandes livros mato-grossenses.

O livro, vamos dizer assim, é o registro documental da peça teatral “Fica, Pedro!”, escrita inicialmente por Luiz Carlos Ribeiro e concluída por Flávio Ferreira, dois profissionais que tem uma carreira senão semelhante, mas de perfis semelhantes. Os dois são advogados, os dois gostam do teatro e fazem teatro e juntos montaram a peça em homenagem a Dom Pedro Casaldáliga.

A gênese do texto tem aquilo que costumamos dizer: a antena da intuição estava ligada. LCR conta que já conhecia Dom Pedro desde 1980, mas precisamente no dia 31 de janeiro de 1980, dentro de um teatro, em Goiânia, após a apresentação da peça “Rio Abaixo, Rio Acima – Ergue o mocho e vamos palestrar – de Glorinha Albuês, que encerrava a sua participação no projeto Mambembão. Lógico, Luiz Carlos Ribeiro já acompanhava a trajetória de Dom Pedro de sua atuação no Araguaia.

Em 2007, conta LCR, estava ele em sua mesa de trabalho, sobre a mesma uma revista “que nem vou falar o nome dela – que não leio, não gosto dessa revista”, destaca. Era um exemplar novinho em folha e ele pega a revista para jogar no lixo – que é o melhor lugar para tal panfleto – mas aí veio a ‘aquela coisa’ que disse que não deveria jogar, não podia ficar sem ao menos dar uma passada de olho. Foi o que fez LCR e nas últimas páginas, uma matéria que perguntava algo como “aonde a igreja vai jogar o seu velho bispo”, que falava da aposentadoria de Dom Pedro.

A igreja, claro, vivia um drama. Dom Pedro, da Prelazia de São Felix do Araguaia, estava se aposentando e a igreja mandou um emissário para contornar o problema, pois não queria Dom Pedro na prelazia “para não constranger” o novo bispo. A matéria fazia ainda uma porção de questionamentos sobre a saúde, e perguntava em que asilo a igreja iria mandar internar Dom Pedro… Ali, viu o dramaturgo, estava o mote pra um trabalho. Na mesma hora LCR arranca a página e ‘guarda’ o resto no lixo que sempre – ontem, hoje e amanhã – será o lugar ideal desse semanário que há anos deixou de fazer jornalismo.

Depois da leitura da matéria, Luiz Carlos Ribeiro conta que começou a fazer a pesquisa, com leituras das obras de Casaldáliga, para escrever sobre a vida desse clérigo, nessa parte contando com a colaboração de Therezinha Arruda, que lhe emprestou obras de seu acervo particular.

A ideia era escrever um texto biográfico misturado com a poesia do próprio Dom Pedro. E como advogado começou a trabalhar o texto como uma peça de acusação. A definição “libelo dramático” quem deu foi o próprio Dom Pedro assim que terminou a leitura.

Voltando, um pouco antes. Luiz Carlos Ribeiro escrevia o texto, na outra ponta o diretor e produtor de teatro Flávio Ferreira estava à caça de um texto para encenar. “Luiz, por favor, preciso de um texto original”, ao que respondeu: “Eu tenho um texto inédito que precisa ser concluído, já que a personagem central está viva e temos que falar com ela e ao mesmo tempo checar as informações”. No outro lado da linha: “Quem é?” A resposta de pronto: “Trata-se de Dom Pedro Casaldáliga”. Flávio Ferreira entusiasmado manifestou sua concordância. “Nossa Senhora, nós vamos lá”.

Flávio organiza uma excursão com o grupo para mostrar o trabalho ao bispo emérito da prelazia de São Félix do Araguaia. Luiz Carlos não pode viajar por conta de uma cirurgia, mas o autor do texto recomendou. “Você peça as benções do Dom Pedro e ele pode fazer o que quiser – contar, emendar ou rasgar”. Recado dado e depois da leitura, dois dias depois a confirmação. “Não vai contar nada, apenas acrescentar mais algumas informações”, que foram desenvolvidas cênicamente pelo próprio Flavio Ferreira.

Segundo LCR, Dom Pedro acrescentou mais detalhes sobre a morte do padre João Bosco Penido Burnier.

Para quem não tá lembrado, o ano era 1976, auge da ditadura militar, então comandada pelo general-ditador Ernesto Geisel. João Bosco Penido Burnier e Dom Pedro vão até Ribeirão Cascalheira, então Ribeirão Bonito, e lá encontram uma situação com as duas mulheres presas – nora e irmã de um sitiante que em defesa de seu filho matou um soldado da região, que tinha jurado de morte o filho do sitiante. As duas estavam sendo torturadas para confessar o paradeiro do velho sitiante.

A comunidade celebrava a novena da padroeira N. Sra. Aparecida. Os dois – Pedro e João Bosco – foram interceder pelas mulheres torturadas. Quatro policiais estavam esperando e foi possível apenas um diálogo de minutos e um soldado, Ezy Ramalho Feitosa, desferiu um soco no rosto do padre, uma coronhada e tiro fatal. O padre João Bosco agonizou e morreu no dia seguinte em um hospital em Goiás.

Por conta dessa tragédia, de cinco em cinco anos a Prelazia de S. Félix do Araguaia realiza a Romaria dos Mártires, quando é apresentada uma peça teatral para contar aos jovens como aconteceu a tragédia. Neste ano de 2016, 40 anos da morte do padre Burnier, o recorte da peça da morte foi apresentada pelo grupo Cena Onze, comandado por Flávio Ferreira.

Voltemos ao livro. Com os detalhes apontados por Dom Pedro, com Luiz Carlos convalescendo, Flávio Ferreira ‘costura’ o restante do texto e fica como coautor da peça que seria montada em 2010, e ficaria em cartaz por três meses no teatro da TVCA. A ideia do livro ainda não estava formatada. Ela começa a aparecer quando Luiz Carlos vai fazer um curso de teatro espanhol barroco, no Centro Cultural da Espanha, financiado pela Embaixada, e no encerramento do curso vem a Cuiabá o adido cultural para falar da cultura espanhola. LCR foi apresentado ao diplomata e na conversa fala do texto sobre Dom Pedro e o espanhol se entusiasmou e acertou uma possível tradução, que veio acontecer com uma edição artesanal de apenas 300 exemplares do texto também traduzido.

Dessa edição artesanal, veio a ideia de fazer um livro que, além de textos, teria fotos das apresentações. O projeto foi aprovado pela Secretaria de Cultura do Estado, que liberou uma parte dos recursos, quando chegou nas mãos de Maria Tereza Carracedo ela recusou-se a fazer uma simples brochura que aquele dinheiro permitia, apresentou um projeto editorial gráfico que os dois autores toparam e agora estão se desdobrando para financiar o restante da obra.

É uma edição belíssima, sem dúvida, com textos de apresentações de Leonardo Boff, do professor ex-reitor da Unemat, ex-secretário de Educação, Carlos Alberto Reyes Maldonado, já falecido, e de Marília Beatriz de Figueiredo Leite, presidenta da Academia Mato-grossense de Letras.

Luiz Carlos Ribeiro conta que o lançamento ‘oficial’ aconteceu no último dia 15 de julho, no Santuário dos Mártires da Caminha, a igreja que foi erguida no mesmo local da delegacia, lá no Araguaia. Essa apresentação e lançamento foi um pedido de Dom Pedro. Observação, foram vendidos 100 exemplares, um fato que chega a ser inédito, pois livro não é pra qualquer um.

O segundo lançamento será em Cuiabá, claro, provavelmente na Academia Mato-grossense de Letras, assim que a mesma reabrir, em setembro. Vamos ficar na torcida. Fica Pedro! – Dom Pedro Casaldáliga, bem entendido.

@joaobosquo / joaobosquo@gmail.com

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