Agora estamos sem Antônio Sodré: um poeta na estrada suspensa no ar

Por João Bosquo | O poeta, livreiro e agitador cultural Antônio Sodré está morto. A informação me chega no meio da tarde deste sábado (19), via celular. “Sodrèzinho morreu!”. Foi nesta sexta para sábado, vitima de infarto fulminante. A morte sempre nos surpreende, mesmo que falemos bem, bastante dela, como no poema de João Cabral de Melo, dedicado a Clarice Lispector. Ela nos surpreende mais ainda quando ela chega quando menos a gente espera, de quem menos se espera.

Antônio Sodré e eu sempre tivemos uma relação cordial – embora ele fosse de outra turma – e eu sem turma nenhuma, mas de alguma forma em alguns momentos caminhando juntos. Conheci Sodré quando fazia o curso de Letras – nos anos 80 do século passado. Fazíamos o mesmo curso mas não estudamos na mesma sala. Ele era da turma do Caximir – que incluía Eduardo Ferreira, Amaury Lobo (e editaram o gibi poético “Borracharia Astral” [1984]) e por esses anos Antônio Sodré lançou o livro “Besta Poética”, pela Iomat, era o período do “el poeta de la transmutación”.

Foram nesses mesmos anos 80 que Sodré e eu caminhamos juntos pela primeira vez. Para ser mais exato: em 16 de junho de 1986, durante a Semana de Letras, do Depto de Letras da UFMT, acontecia o lançamento da coletânea “Panorama da Atual Poesia Cuiabana”, com projeto gráfico de Wladimir Dias-Pino. O ‘livro’ não tem data, menos ainda ficha bibliográfica. A data – não sei por que – está em uma agenda perdida em casa.

“Vou por estrada suspensa no ar!” escreve o poeta Sodré em sua participação na antologia. Depois deixei o curso de Letras e enveredei pelo jornalismo, por necessidades mais prementes. Sodré também abandonou o curso, só que ele permaneceu no espaço do CLCH, depois IL, onde voltaria a encontrar nos anos 2000.

Antes, porém, voltamos a cruzar em 2003 no “Poetas Livres” (misto de movimento com “Sabadoyle” dos poetas cuiabanos) que acontecia nas praças cuiabanas e acabou resultando no livro “Primeira Antologia dos Poetas Livres”, com edição de Neneto e Danilo Zanirato. Estamos nós lá juntos, pela segunda vez: Sodré nas páginas 19 e 20 e eu nas 53/4.

Encontrávamo-nos quase todos sábados – algumas coisas fazemos como religião – para ler poemas e aplaudir – sem debate – uma regra imposta pelo coordenador Neneto e, talvez por isso, o movimento durou anos.

A partir de 2005 – por conta dessas decisões pessoais, um tanto inexplicável – voltei a fazer Letras e passei e encontrar com Sodré mais frequentemente que mantinha sua banca de livros usados nas escadas do IL. Chegamos a fazer negócios, inclusive. Querendo desfazer de alguns livros ele os comprou, assim como também expunha exemplares de “Sonho de Menino é Piraputanga no Anzol”. Nesse período confessei pra ele que tinha dois exemplares de “Besta Poética”. Um autografado e outro sem. Ele queria que comprar, doação, qualquer coisa. “Vamos conversar”, respondia sempre.

Em 2005, Sodré publicou o livro “Empório Literário – Versos diversos”, uma reunião de sua produção mais significativa, cheia de um humor, de forma e conteúdo contemporâneos, que as vezes choca, mas em sua maior parte provoca o riso e um pouco de reflexão (pois senão deixa de ser poesia e vira piada) como no poema:

“SEI QUE NUVENS ESCURAS
OBSCURECEM O CÉU DA MINHA
POESIA
APESAR DO MEU POEMA
PASSAR EM BRANCAS NUVENS” (Empório poético, p. 34)

Assim poderíamos desfilar uma série de poemas, versos com sua verve, em vez disso procuro um poema que representasse o sentimento de Antônio Sodré, perante a morte e o mais próximo que encontrei foi o poema “Outono”:

“cabelos mortos caem da
minha cabeça
no outono dessa vida desvalida
sinto arder o peito, os ossos
amolecem
tudo em mim, cai, feito folha seca!

cerca de mim, vejo a vida pulsar
o ar, a paisagem toda em flor!
já houve dias em que eu era mais viçoso
e viver era bem mais gostoso!”

Como leitor, tenho toda a licença do mundo para fazer a melhor leitura: a leitura da vida, no poema, vejo como esperança, confiança na vida futura. Em breve nos encontraremos, Antônio Sodré, nascido em 1959, na cidade de Juscimeira.

Fonte: publicado originalmente no blog do jornalista Enock Cavalcanti, Pagina do E: GRANDE, COMO ERA GRANDE! – Vítima de infarto, morre em Cuiabá, Antônio Sodré, Sodrézinho – o poeta-livreiro da UFMT.

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  • WANDERLEY WASCONCELOS

    A morte de Sodré me deixa diminuído. Li quase uma dezena de vezes seu Empório. Li o que pude de sua poesia. Recitei alguns de seus versos e isso é tudo.

  • ANEILZA SANTOS DUARTE

    FIQUEI CHOCADA COM A NOTÍCIA DA MORTE DO ESCRITOR MATOGROSSENSE ANTÔNIO SODRÉ. NOS CONHECEMOS NA UFMT, EM 2006, AO PARTICIPAR DOS SEMINÁRIOS DE LINGUAGENS DA UFMT, QUE ACONTECEM A CADA BIÊNIO.! EU QUE SOU APAIXONADA PELA POESIA, APROVEITAVA ESSES MOMENTOS PARA INVESTICOMPRAVA R NA LITERATURA. ESTIVE COM ELE, NO 8º SEMINÁRIO DE LINGUAGEM, EM OUTUBRO DE 2010, E COMO SEMPRE, TROCAMOS IDÉIAS E COMPRAVA SEUS LIVROS.

  • ANEILZA SANTOS DUARTE

    FIQUEI CHOCADA COM A NOTÍCIA DA MORTE DO ESCRITOR MATOGROSSENSE ANTÔNIO SODRÉ. NOS CONHECEMOS NA UFMT, EM 2006, AO PARTICIPAR DOS SEMINÁRIOS DE LINGUAGENS DA UFMT, QUE ACONTECEM A CADA BIÊNIO.! EU QUE SOU APAIXONADA PELA POESIA, APROVEITAVA ESSES MOMENTOS PARA INVESTIR NA LITERATURA. ESTIVE COM ELE, NO 8º SEMINÁRIO DE LINGUAGEM, EM OUTUBRO DE 2010, E COMO SEMPRE, TROCAMOS IDÉIAS E COMPRAVA SEUS LIVROS.

  • ANEILZA SANTOS DUARTE

    DEUS QUE TE ILUMINE ONDE QUER QUE ESTEJA SODRÉ! CONTINUAREI DIVULGANDO A LITERATURA MATOGROSSENSE NA MINHA ESCOLA,COM MEUS COLEGAS E ALUNOS, ENFOCANDO TEUS TRABALHOS, DO ACLYSE DE MATTOS DA LUCINDA, MARTA COCCO, GUILHERME DICK, GABRIEL ENTRE OUTROS AUTORES E ESCRITORES DO NOSSO ESTADO, QUE CHORA A TUA AUSÊNCIA.EU QUERO DEDICAR-LHE ESTA POESIA TUA:O ORVALHO ENCHARCA MINHA CABEÇA!… CHORA O CÉU… E EU CHORO TAMBÉM!