Agora estamos sem William Gomes, o mineiro mais cuiabano que já tivemos, amante de nossa cultura e do nosso linguajar

Tchá por Deus, ma quê qué esse? É cuiabanês, segundo William Gomes

O radialista William Gomes tem na certidão de registro de nascimento a localidade de “Bel Horzonte”, capital mineira. Um ano depois, porém, começou a respirar os ares desta Cuiabá, que neste 8 de abril completa 300-6 (esta é a contagem regressiva ao tricentenário). Por conta desse breve detalhe, seria William Gomes Lisboa da Costa, por acaso, um pau-rodado? Não! É apenas um detalhe desse cuiabano filho do corumbaense Bichat Gutemberg da Costa, e mimoseana, Rosa Fernandes da Costa, que naquele longínquo início da década dos anos 50 do século 20, moravam em terras das Minas Gerais.

Da infância, conta que estudou na antiga Escola Modelo Barão de Melgaço, quando ainda era no Palácio da Instrução, hoje sede da Biblioteca Estevão de Mendonça; seguiu-se para o Colégio dos Padres (naqueles tempos escola de aluno vadio) e Ginásio Brasil. O científico (hoje Ensino Médio) já foi em São Paulo, onde se formou em comunicação e administração de empresas.

Também foi em São Paulo que William Gomes iniciou no rádio como repórter esportivo. O conhecimento musical possibilitou a fazer programas de estúdio e ano de 1975 retorna a Cuiabá e começa a trabalhar como assessor de imprensa e trabalha, como radialista, em todas as emissoras AM: Rádio A Voz d’Oeste, Rádio Difusora, Rádio Cultura e também a Rádio Industrial, de Várzea Grande, quando de sua inauguração, e como professor, ministra aulas nas áreas de comunicação e administração, na UFMT, pela qual está aposentado.

Foi no rádio, porém, que William Gomes se tornou conhecido em toda a baixada cuiabana, por suas opiniões, calcada em um humor ácido, sobre a política regional, cujo “troféu Pequi Roído” era a principal marca e pelo linguajar cuiabano.

Ao dar início ao uso de expressões características do linguajar cuiabano, junto com seus comentários, passou a receber contribuições inesperadas do público ouvinte e a partir do ano de 1991 criou o quadro “Dicionário Cuiabanês”, dentro da onda de dicionários que pipocavam Brasil afora. A brincadeira evoluiu em no final da década ele lançou o livro “Dicionário Cuiabanês”, com 322 páginas.

O dicionário, porém, não chega a ser um dicionário – o próprio William Gomes reconhece isso na apresentação – e está mais para um glossário de expressões regionais, pois cada palavra vem acompanhada de uma frase para se entender a sua colocação dentro de uma ‘possível’ conversação.

Lapada! Lapada! Anunciada pelo apresentador Roberto França tem o significado de chicotada e não de lamber o beiço depois duma “lapada” de pinga, como explica na página 199 –“Todo dia lá no Bar do Litú, ele toma uma lapada”. Não confundir com ‘lapa’, que significa grande, imenso, como exemplifica na mesma página “Ele tem um lapa de nariz”; agora, “lapação” quer dizer roubalheira.

Embora não seja objeto do livro, em todas as páginas, sem exceção se encontra uma das principais características do cuiabano, o de dar apelido: Batico, Birico, Bita, Capitão Bibi, Caramujo, Chico Cuia, Chico Jacaré, Chico Magro, Dandi, Delfino Bocó, Dico Botoado, Dito Cabaré, Dito Cavalo, Dito Charuto, Dito Coisa Ruim, Dito Ôio-de-Bolita, Dito Pacupeva, Dona Pêpe, Dora Papudinha, Ginho Portela, Ivo Bugio, João Bicudo, João Capivara, João Piqueira, João Tripa, João V-8, Jonas Padero, Mané Tontura, Mário Bife, Mario Capim, Mijico, Nhô Bé, Nhô Bocó, Pedro Pixé, Tchô Nego, Tchô Quim-Quim, Tchô Tingo, Tchô Tonico, Waldemar Capadô, Zé Gatão, Zé Mijo, Zé Pilintra, Zé Prequeté, Zé Sapo… Se fuça o livro encontra muito mais. O apelido “Alemão Batata”, segundo William Gomes, é genérico serve para todas as pessoas de pele muito branca.

Esse linguajar, segundo o professor Willian Gomes, começou a se perder com a ocupação amazônica; a partir da década 70, quando começaram a chegar os novos colonizadores, que caçoavam do jeito do cuiabano falar, principalmente do ‘rotacismo’, que é um coisa do português arcaico: fror é fror, até que pareceu um metido e cismou de dizer ‘flor’ e todo mundo faz uma ginástica na língua pra assim pronunciar.

><>Conheci pessoalmente William Gomes em abril de 2013, quando atuávamos pela Secom-MT, e o entrevistamos para uma série de reportagens sobre personagens cuiabanos.

Era véspera do aniversário de Cuiabá.

Junto comigo o jornalista Jota Passarinho, que nos ajudou a localizar William Gomes e nos emprestou o livro “Dicionário Cuiabanês”, que serviu de mote para a matéria, foi gravado ainda este vídeo.

João Bosquo

João Bosquo, poeta e jornalista, editor deste blogue NAMARRA.COM.BR
nas redes sociais: @joaobosquo

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