Ai de ti, Cuiabá – Por Eduardo Mahon

Por Eduardo Mahon

Não vou me meter a pregador. O proselitismo enche infernos de muitas naturezas. Mas gosto muito da expressão “ai de ti, Jerusalém” que retrata o choque de Jesus ao chegar à capital hebreia. A frase é simples. Passa uma emoção verdadeira. Um homem que tem pena de uma cidade pelos caminhos que seguiu. Lembrando desse trecho, olho para a campanha política e só consigo pensar: ai de ti, Cuiabá! É que o marketing político enfiou na cabeça dos candidatos que o melhor caminho para a vitória é a “desconstrução dos adversários”. Pode até dar resultado. No entanto, essa postura não rompe com um ciclo negativo na política nacional, onde reina o baixíssimo nível que os candidatos aceitam. Sim, eles aceitam. Tanto Emanuel Pinheiro quanto Wilson Santos aceitam se submeterem a ponto de atingirem a família alheia. A família deveria ser uma espécie de tabu.

O que me importa mais, enquanto eleitor? Ainda insisto nas propostas e sobre elas sustento a minha intenção de voto. Nos debates – além de lamentáveis colocações rasteiras e ataques pessoais – restou claro que Wilson Santos é o mais experiente e preparado para administrar a capital mato-grossense. E ponto final. Isso pode não significar nada. Em alguns casos, a experiência pode não ser o fiel da balança e a vontade de mudança é sempre uma tendência atrativa. A campanha de Emanuel Pinheiro, carente de realizações palpáveis na área administrativa, tenta se identificar com o sentimento popular em favor do “novo”. Faz muito bem. A sociedade quer mesmo experimentar coisas novas. Nesse ponto, acredito que ele esteja acertando. Ocorre que Emanuel Pinheiro não só não é novo na política, como não representa a novidade. Eis aí o problema insolúvel, na minha opinião. Muito ao contrário: estão enfeixados na candidatura de Pinheiro muitos segmentos arcaicos da política que o povo despreza ou condena, inclusive eu. Além de não conseguir perceber a exequibilidade nas propostas de Emanuel Pinheiro, sei política não se constrói sozinha. É preciso ter grupo. E, nesse momento, o grupo dele representa o que experimentamos de pior na história republicana da administração pública.

O candidato Wilson Santos também tem problemas. A administração de seis anos foi incapaz de gerar um grupo orgânico de apoiadores para a eleição atual. É claro que a candidatura foi sacada de chofre, depois do vergonhoso recuo do prefeito Mauro Mendes. No entanto, fico chocado como é possível um prefeito tão bem avaliado como foi Wilson Santos perder a enorme base popular que tinha. Daí que foi obrigado a socorrer-se de apoiadores externos, misturando-se à imagem do governador, de secretários, até mesmo do prefeito Mauro Mendes que toma uma postura dúbia, condenável e medrosa diante do pleito. Não acredito que a frustração popular com a saída de Wilson da prefeitura tenha sido capaz de gerar a alegada rejeição. Foi uma somatória de fatores, como cogitou Alfredo da Motta Menezes: o impacto da saída somou-se à popularidade petista da época, à rejeição tucana em todo o país e ao isolamento do partido em Mato Grosso, carente de líderes que emprestassem musculatura eleitoral.

Ai de ti, Cuiabá! Nessas eleições temos um candidato que se diz “novo”, mas já está aposentado há muitos anos e, pior, para sempre. Tudo indica que não há o menor constrangimento no candidato que não sabe a diferença entre o que é legal e o que é moral. De outro lado, outro candidato que se diz experiente, mas não tem sido feliz em demonstrar essa experiência toda ao fazer a mesma campanha figadal que promove o adversário. Ai de ti, Cuiabá! Fico aterrorizado ao pensar que a cidade que eu amo pode ser legada a um grupo que abraça derrotados de muitos matizes, alguns deles processados, outros presos, viúvas de patrões que estão no Carumbé pelo roubo institucional que realizaram no Estado de Mato Grosso, sob as barbas dos fiscais que dormitaram sobre faustosos salários. Ai de ti, Cuiabá! Teremos que suportar acusações contra esposas, irmãos, cunhados, filhos, atingindo covardemente as famílias que não mereciam pagar esse preço? Não, o eleitor não merece um “falso novo”, nem um “velho falso”. É preciso mudar a política. Mudar com responsabilidade. Fica aqui o alerta aos candidatos e aos profissionais de comunicação social que os acompanham e aconselham. Ao povo, lamento – ai de ti, Cuiabá!

Share Button