Ainda sobre censuras – Por Sebastião Carlos

Por Sebastião Carlos | Há duas semanas estive no Museu Egípcio de Barcelona. Há nele, por exemplo, toda uma ala dedicada ao erotismo. E isto com esculturas de há 4000 anos antes de Cristo. A humanidade não tem sido diferente ao longo dos séculos. E mesmo em plena Idade Média, com o domínio absoluto do puritanismo religioso, havia os espíritos inconformados, rebeldes. Nos séculos seguintes, para só citar um exemplo, entre tantos, um veneziano de nome Zorzi Baffo [1694 – 1768] se torna com os seus sonetos-crônicas o observador por excelência daquela Veneza ao mesmo tempo pudica e libertina. E neste caso foi tanto execrado e difamado como celebrado. Artistas, poetas, novelistas alguns hoje completamente esquecidos ou outros que o tempo consagrou não deixaram de abordar temas considerados por seus contemporâneos como escabrosos. No já licencioso anos 1800 Coubert, Daumier, Toulose-Lautrec e outros foram ignorados e depois combatidos pelas boas e ricas famílias de uma França que se tornava o centro cultural do mundo. Hoje são celebrados. Uma tela de Picasso, [1881 – 1973], “Mulher de virtude fácil”, de 1903, já na modernidade do século XX, causou enorme escândalo, ou mesmo “O Sonho”, de 1932, um retrato erótico de sua jovem amante Marie-Therèse Walter, espantou e foi detestada, e nem se fale nas várias telas do surrealista Salvador Dali [1904 – 1989], como, por exemplo, a denominada [os pudicos saltem esta linha] “O Grande Masturbador”, que se encontra exposta no Museu Nacional Centro de Arte Moderna e Contemporânea Reina Sofia, em Madrid. Ambos se tornariam em mestres consagrados, disputadíssimos por marchands e colecionadores endinheirados do mundo todo e expostos nos principais museus símbolos da civilização. Tanto estes dois espanhóis, bem assim como aqueles que os antecederam nos século anteriores, enfrentaram o fundamentalismo da censura. Não da crítica, que esta é sempre bem vinda, mas da censura que não quer convencer, mas derrotar, destruir, fazer desaparecer.
Mas não são apenas aquelas obras tidas como pornográficas ou atentatórias à moral, que são hostilizadas pelos censores. Eles se preocupam, e muito, quando a obra fere questões sociais que incomodam os bem postos na vida. Assim, atenção, a censura às vezes começa em um ponto tendo um objetivo especifico e não tarda, seja pela velada aquiescência ou omissão de muitos, a estender seu manto sobre outros aspectos da obra de arte. Não vamos longe nos vários exemplos. Fiquemos com um de nossos grandes. Cândido Portinari [1903 – 1962] com os seus quadros e murais de forte denuncia social, e quem não se impacta diante de “Criança Morta” ou “Os Retirantes”, ambos de 1944, foi um perseguido, censurado e até exilado político. Com isso, Portinari seria primeiro reconhecido fora do Brasil. Hoje é um nome dos mais respeitados da pintura mundial.
A censura tem quase sempre duas características básicas: por um lado, presta subordinação e atende aos interesses dos grupos dominantes, sejam eles políticos, religiosos ou econômicos e, por outro, é sempre apresentada como uma medida que visa ao bem comum, de interesse coletivo da sociedade. O estadista que foi Mário Soares, vitorioso após 40 anos da ditadura salazarista, constatou que “De todos os mecanismos repressivos, a Censura foi sem dúvida o mais eficiente, aquele que conseguiu manter o regime sem alterações estruturais durante quatro décadas.”.
Impedir um artista de expor seus quadros ou esculturas ou um escritor de publicar ou fazer circular seus livros seja pela força bruta ou por esquemas de pressão burocrática, seja pela mal disfarçada censura econômica, representa uma faca na cabeça do artista ou uma tesoura aberta na garganta do poeta. Todavia a Historia mostra que não será por esse mecanismo que se impedirá o surgimento de manifestações artísticas. Para a arte, a força bruta nada vale, apenas adia a sua emergência. Mesmo porque o que a faz sobreviver é só o verdadeiro talento. E não é a censura que faz essa escolha. Esse tipo de contraste existirá sempre. Faz parte da vida. O artista tem que demonstrar com determinação que o seu talento vencerá a perspectiva transmontana vigente em todas as épocas. Este é um processo argumentativo dialético. Bom lembrar Picasso: “Não se consegue convencer um rato de que um gato pode trazer boa sorte”.
Como sabemos, o futuro sempre se pronuncia sobre quem fica na História: o censor ou o criador. Desnecessário dizer que os censores vêm perdendo essa batalha

Sebastião Carlos

Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado e historiador. Publicou, entre outros, “Viagens ao Extremo Oeste – Desbravadores, aventureiros e cientistas nos caminhos de Mato Grosso” e “Perfis Mato-Grossenses”.

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