Aproveitamento múltiplo de Manso

Semana passada os governos federal e do estado entregaram os primeiros certificados de concessão de uso na Área Aquícola da Usina de Manso, em um programa nacional que visa à autossuficiência do Brasil na produção de pescados. Em julho deste ano já havia acontecido um fórum no Palácio Paiaguás tratando do uso das águas de Manso para irrigação na Baixada Cuiabana. Os 2 projetos têm tudo para dar certo e, oxalá os tanques criatórios e as plantações irrigadas produzam muito emprego, renda, e alimentação farta e barata para a população, com muito peixe. Para Cuiabá e Mato Grosso esta notícia é mais especial ainda, pois ela também vem no sentido do desenvolvimento das múltiplas finalidades de Manso, que sempre foram desprezadas. Manso é muito mais que uma hidrelétrica, por isso tem um lago maior que a Baía da Guanabara e 10 vezes o lago de Brasília. Falta o aproveitamento.

Manso surgiu da trágica cheia de março de 1974 do rio Cuiabá, que destruiu os bairros do Terceiro, Barcelos e Ana Poupino, os mais populosos de Cuiabá na época. O governo Geisel, recém- empossado, logo determinou a demolição do que restou dos bairros e a construção de conjuntos habitacionais para a população flagelada. E mais, determinou a realização de estudos para impedir novas inundações daquela magnitude. Daí surge Manso como um equipamento de proteção urbana com objetivo específico de reduzir as cotas das cheias do Cuiabá, isto é, um “açudão”. Embora quase não noticiado, Manso já cumpriu essa finalidade em 2002 e 2010, impedindo que volumes de água superiores ao registrado em 74 chegassem a Cuiabá. Ainda que fosse só por este objetivo, Manso já teria valido a pena e deve ser tratada como um dos mais importantes equipamentos urbanos de Cuiabá e Várzea Grande.

Depois, já em 1978, no antigo Minter, na Comissão Técnica criada pela Lei da divisão de Mato Grosso, participei de algumas soluções técnicas importantes como a transformação do projeto de Manso do “açudão” original em um empreendimento de aproveitamento múltiplo de barragem, pioneiro no Brasil. Na ocasião, buscando solucionar a questão energética, na época o principal problema do estado, a Comissão da Divisão e o governo do estado propuseram a energização do “açudão”, cuja construção se iniciaria naquele ano e que foi então suspensa para revisão geral do projeto, que adotou a filosofia do uso múltiplo. Manso passou então a ser geradora de energia e a ideia da proteção urbana foi ampliada para a de regularização de vazão do rio, garantindo uma cota mínima nas secas além da redução das cotas máximas nas cheias, com previsão ainda de abastecimento de água para Cuiabá e Várzea Grande e programas de irrigação no vale do Cuiabá, sendo que seu lago poderia também receber projetos de piscicultura, turismo e lazer. Graças a Manso a vazão mínima do rio Cuiabá em Cuiabá hoje é mais que o dobro das vazões mínimas anteriores à barragem, que tanto nos apavoravam com as perspectivas do rio secar e acabarem os peixes.

Manso foi projetada com uma filosofia otimizadora de barragens usada no mundo inteiro, mas até hoje tem seu uso restrito à geração de energia e à regulagem de vazão. O projeto de aquicultura que agora tem início, assim como a discussão do projeto de irrigação da Baixada Cuiabana bem que poderiam ser sinais concretos do fim do desperdício burro desse imenso potencial de desenvolvimento que significa Manso com todas as suas possibilidades. E, em sendo assim, que Manso puxe também o aproveitamento das imensas perspectivas do gasoduto e do Porto Seco, também desprezadas até hoje.

*JOSÉ ANTONIO LEMOS DOS SANTOS, arquiteto e urbanista, é professor universitário.

José Antônio Lemos dos Santos

José Antonio Lemos dos Santos, arquiteto e urbanista, é professor universitário. Troféu “João Thimóteo”-1991-IAB/MT/ “Diploma do Mérito IAB 80 Anos”/ Troféu “O Construtor” – Sinduscon MT Ano 2000 / Arquiteto do Ano 2010 pelo CREA-MT.

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