As Flores Inúteis, poema do livro “Abaixo-Assinado”, Luiz Edson Fachin

Mato as flores do quintal
com tiros de espada afiada,

As flores são inúteis
no espaço morno de março,
As flores não são necessárias
ao homem que ama na rua

A cigarra
estrila seu canto
numa louvável tentativa
de alegrar as coisas
e os homens de março

Só se ouvem
os suaves sons de voos
As borboletas guiando
os pássaros profanos
para outra estação…
– Descobrirão os pássaros
a verdadeira primavera?!

Um grito se solidifica no ar
exigindo seriedade
respostas pras perguntas
e coragem pra concluir
a peça, o livro, o diário, stand bay

Onde estão os palhaços
com suas metralhadoras
Gargalhadas justas e
caras de deboche?

Onde estão os homens
de punhos cerrados
dentes cerrados
determinação cerrada
para restaurar este espaço…

Onde estão as mulheres
para parir as crianças e vão crescer
com a nova geração
de flores que irão nascer
depois da execução
das flores inúteis.

><>Do livro “Abaixo-Assinado” (1977)

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João Bosquo

João Bosquo, poeta e jornalista, editor deste blogue NAMARRA.COM.BR nas redes sociais: @joaobosquo

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