Audiência conclusiva – Artigo de José Antônio Lemos

José Antônio Lemos

Não fui à Audiência Pública sobre o VLT promovida pela Assembléia Legislativa no início do mês, apesar de aguardá-la na esperança da apresentação do projeto técnico desse modal para Cuiabá, com as soluções urbanísticas para seu funcionamento na cidade. Em especial, pela sua alegada viabilidade sem desapropriações, uma das suas grandes vantagens segundo seus defensores. Aqui a principal indagação é sobre a solução para o transbordo na Prainha envolvendo mais de 40 mil passageiros/dia. Como seria? Mas o projeto não apareceu.

Aliás, as audiências públicas sobre projetos só tem sentido se os projetos existirem e forem apresentados com antecedência ao público, em linguagem acessível e em tempo hábil à sua leitura e compreensão pelo cidadão. Uma audiência pública sem um projeto concreto a ser discutido trata-se de uma reunião sobre quimeras nas quais cabem quaisquer fantasias e a audiência perderia seu sentido público. Em tais situações prefiro não participar, ao menos de corpo presente. Bom é que nesta era da televisão e da Internet dá para gente acompanhar tudo. Assim, a Audiência me pareceu um sucesso por esclarecer a situação real em que se encontra a questão da mobilidade urbana para a Copa do Pantanal e, em especial, a situação da própria Agecopa. E o que se viu não foi nada alvissareiro, infelizmente.

A Audiência se resumiu à duas indagações sobre projetos. Uma, feita pelo diretor de Infra-estrutura da Agecopa que perguntou sobre o projeto do VLT, objeto da Audiência. Outra, feita pelo Promotor de Justiça, Dr. Domingos Sávio, sobre o destino dos projetos básico e executivo do BRT, elaborados a um custo de cerca de R$ 2,0 milhões segundo o promotor, aprovado em Brasília, inclusive seu financiamento junto à Caixa, pronto para ser executado. Acrescento que a esse respeito o governador teria dito que se quisesse o BRT, as obras já teriam iniciado. Em resposta o presidente da Agecopa, dentre suas considerações pertinentes, disse em resumo que a agência está “conversando” com os maiores entendidos em VLT no Brasil e fora dele e que o projeto do VLT “muito provavelmente será feito pela Agecopa para a surpresa de muitos”. Em suma, continua não existindo projeto para o VLT e nem sequer se decidiu se vai ser licitado, isso a 27 meses do prazo exigido pelo governo federal para as obras estarem concluídas, obras complexas e de grande porte. Pior, a presidenta Dilma afirmou que não apoiará projetos que não estiverem licitados até dezembro.

De qualquer forma, para mim a reunião foi importante e conclusiva, porém de forma negativa. Uma constatação difícil para um entusiasta da Copa e um dos que sempre confiou na realização de suas obras e no grande legado para Cuiabá. A Audiência mostrou que ficamos presos a um dilema insolúvel, entre um projeto impossível de ser realizado e um outro que as autoridades não querem realizar. Ambos baseados em tecnologias modernas e eficientes, usadas em todo o mundo. Mas, para conquistar o imaginário popular em favor do VLT, a nova direção da Agecopa passou a idéia de um sistema perfeito e sem problemas, porém impossível de ser colocado como prometido em projetos técnicos responsáveis. Por outro lado, pintaram o BRT de uma forma tão ruim que agora não podem politicamente executá-lo. Acabaram montando o governador em um porco destrambelhado do qual só ele poderá descer, uma tarefa hoje difícil e tão arriscada quanto permanecer na montaria. É triste que este venha a ser o fim desta oportunidade de ouro para a Grande Cuiabá e sua gente. Deus queira que eu esteja errado.

José Antônio Lemos dos Santos

José Antonio Lemos dos Santos, arquiteto e urbanista, é professor universitário. Troféu “João Thimóteo”-1991-IAB/MT/ “Diploma do Mérito IAB 80 Anos”/ Troféu “O Construtor” – Sinduscon MT Ano 2000 / Arquiteto do Ano 2010 pelo CREA-MT.

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