Eduardo Mahon: A literatura sem pedágios de Luciene Carvalho

CUIABÁ DO AGORA – Eduardo Mahon

A literatura sem pedágios de Luciene Carvalho

Na resenha anterior, pretendi mostrar como a terra influencia a literatura em seus diversos momentos históricos, mais especificamente fenômenos ligados à Cuiabá e suas transições no tempo e espaço. Tracei um paralelo entre o cânone “aquiniano” que pretendia idealizar a imagem mato-grossense e cuiabana como uma espécie de Éden, cruzando-se raças fortes e corajosas, com a poesia da geração seguinte que se viu aturdida com o crescimento da cidade, com a descaracterização daquela vida bucólica da pequena urbe. O projeto identitário foi concebido pela dupla D. Aquino Correa e José de Mesquita.

No excelente ensaio A Cruz encobre a Espada, o escritor e estudioso Luiz Renato de Souza Pinto deixa anotado: “A construção de elogios, opúsculos, narrativas encomiásticas e qualquer texto de caráter laudatório a ‘grandes’ homens do período colonial e imperial brasileiro era apenas parte da tarefa a que se dispuseram cronistas como Varnhagen, Capistrano de Abreu, também serve de espelho para José de Mesquita, oferecendo outra visão para a historiografia nacional”. A conclusão de seu artigo retrata a força institucionalizadora do grupo literário da época: “José de Mesquita escreve para registrar uma visão canônica da história. A sua verdade legitima a ocupação do espaço do saber pelos que dominam o conhecimento. Seu cânone gira em torno de uma profusão de ideias capazes de reproduzir forças políticas nos embates. O lugar social de Mesquita é a representação institucional de uma suposta verdade, construto que procura não colocar o preto no branco, no sentido conotativo, e sim tapar os pontos escuros com a pátina do silêncio, já que, como diria Ferro (1985, p.37): esses silêncios sobre as origens, assim como todos os silêncios ligados à legitimidade, são garantidos pela própria força das instituições”.

Pois bem. A relação com a imagem idealizada de Mato Grosso e de Cuiabá parece ter gerado sofrimento nos escritores que a confrontavam com a realidade. Como simples amostragem, recorri à poesia de Moisés Martins que recorda o passado com nostalgia, Ronaldo de Castro que se revolta e denuncia e de Silva Freire que pretende uma reconciliação com o telúrico – três formas diferentes de perplexidade diante de uma cidade que crescia e continua crescendo. Enfim, apontei na poesia de Marli Walker uma nova perspectiva de visão sobre a terra – o olhar do migrante, o desengano com a opulência aparente, o custo ambiental, a exploração da terra e das famílias que gravitam em torno do agronegócio.

O cânone sobreviveu no tempo, porém. Parece-me que a produção mato-grossense era filtrada, recebida e reconhecida, desde que não se afastasse muito do padrão estabelecido inicialmente por Aquino/Mesquita. Outros poetas poderiam muito bem nos servir para retratar a terra pela visão canônica (terra mater) como, por exemplo, Maria de Arruda Muller:

No enredamento feraz, das silvas tropicais/ Cheias de ásperas, terríficas surpresas./ Dormias sob o céu estrelado, no silêncio/ Feito de mil sons da Natureza!…/ Vieram a ti, paulistas desabridos,/ Panache sem par, de homens destemidos/ Homens “de sertão”, impávidos, fogosos/ Mais feitos de aço, que de carne,/ Trazem a esta solidão, imensurável,/ O som da língua portuguesa,/ Misturado ao jargão do curiboca…/ Eles vieram, apresar índios e encontraram/ Tanto ouro, que em vez de ir, aqui ficaram!/ Berço de aborígenes valentes,/ Paiaguás, borôros, guatós, coxiponés/ Rebentos das raças ameríndias/ Que, na imensidade do torrão, viviam/ Há milênios, livres, soberanos…/ Mansos uns, outros agressivos,/ Receberam o invasor, apreensivos./ Coroada e rica, de silva e de flores/ Em ti se mesclam, frondes de gramíneas./ – Os épicos bramidos das torrentes,/ Os tonos do trovão, o grito das araras,/ Tudo convida a ficar, nela permanecer!/ Mas, o chocar de inúbias nas monções de caça/ Assusta e impele a luta, homens de outra raça/ Porque, do áureo metal, eras matriz,/ Metal que, então como hoje, tenta e impele,/ Tendo, no seio virginal a misteriosa flama/ Atraindo homens como chama a mariposa,/ Enfrentam a luta, afrontando a morte!/ Os pés cansados, da intérmina jornada,/ Pele curtida, veste esfarrapada,/ De Itu, Porto Feliz, de Sorocaba,/ Em grandes levas, vadeando rios/ Galgando serras, varando socavões e brenhas/ Transpondo cachoeiras, precipícios,/ Elegeram estes sítios pra morada!/ Moreira Cabral, Sutil, Martins Bonilha/ Contemplai Cuiabá, após “Forquilha”…

Já vimos que a festejada poeta comungava da mesma visão dos “homens destemidos” de Aquino/Mesquita. Veremos agora como observa Cuiabá, mais particularmente:

“Cidade Verde”, de claro céu e ardentias/ luminosas de arrojado pôr-de-sol…/ As tuas águas correntias,/ os teus suaves arrebóis…/ e tuas matas de ametista,/ que fascinam a fantasia de um artista!/ Terra tapisada de flores, broquelada/ de gemas…/ És Ariel, preso ao mundo pelos pés./ Atenta a um forte impulso, para a liberdade/ que a ferrovia te dará, gentil cidade./ “Cidade Verde”! Ao tropel de loucas ilusões/ fatigado: o seio palpitante/ patenteou alfim, o bandeirante,/ a ofuscadora e incrível realidade,/ nas tuas grupiaras e monchões…/ Daí, o núcleo, todo alacridade/ Do “Senhor Bom Jesus de Cuiabá”./ Rainha e primogênita desde a fundação,/ és de Mato Grosso e da Pátria o coração:/ vigias os misteriosos estendais, que balizam os pontos cardeais…/ De norte ao sul, de leste ao oeste,/ riquezas tão faustosas, quais de Ali Babá./ Dos confins da Amazônia ao Apa sorridente,/ o látex corre a flux e a ilex viridente,/ quanto mais se ceifa, mais de adensa em mata agreste./ E os diamantes, o ouro; do Garças ao Galera/ que fizeram a grandeza de vividas eras!/ “Cidade Verde”, és um tesouro!/ Tens ainda o mesmo ouro/ que fez ricos os reinos;/ sob o solo e no caráter dos teus filhos,/ Terra mater,/ ele faísca em mil fulgores./ Amplia a tua história!/ Escalando o céu de tua glória,/ filha de audazes, mãe de heróis!

A relação com a terra dá-se noutro eixo quando se trata dos últimos fluxos migratórios. Com relação aos “chegantes”, além de Marli Walker, eu bem poderia apontar Luiz Renato, Marta Cocco e o excepcional Santiago Villela Marques. Deste último, reproduzo “Confidências do Mato-Grossense” que retirei da coletânea “Nossas Vozes, Nosso Chão”, didática que deveria ser mais apoiada pelos poderes públicos. Eis Santiago:

Nesta vida de meus anos
nunca nasci em Mato Grosso.
Mas que saudade me dá
de morrer aqui.
O corpo encerrado no oco
do último tronco de cedro
antes que o inverso leve
da praia as folhas de jacarés
no vento,
e caia a pena do tuiuiú
madurada à força.
Além da chuvinha de agosto
ninguém não vai chorar por mim
que não tenho fazenda, não
nem sou dono de gado
nem sujo a mão de soja.
Que eu sou mato-grossense
e o Mato Grosso é dos outros.
Mas sou tantos couros
que quando me esfolarem
a pele de bicho morto
nem vai doer.

Portanto, além das novas fronteiras, há uma nova percepção de Mato Grosso, como era de se esperar com a contemporaneidade. O poeta denuncia a desigualdade social e confessa o “despertencimento”, percebendo a si mesmo como um mero objeto. Esse sentimento de exclusão não é uma grande surpresa. As análises literárias que cuidam de fluxos migratórios voluntários e compulsórios registram essa reação. O que me chama atenção é como o próprio mato-grossense, o próprio cuiabano, passou a se perceber. Mesmo em Cuiabá, esse paradigma poético de D. Aquino começou a ser revisto. Na cidade que passara pelas obras modernizantes, novas impressões surgiram sobre o relacionamento com a terra natal.
Um olhar menos idílico e mais realista surgiu no final do processo de reestruturação da cidade, ultimado com a queda da antiga catedral. Caía um símbolo. Como a poesia contemporânea se relaciona com essa Cuiabá renovada? Teremos algum vestígio de ressentimento, de resistência ou de luta? Ou as mudanças já estarão integradas na mentalidade do escritor? Qual o cenário que escolhem para a nova literatura produzida na capital?

Para responder à questão, gostaria de apontar Luciene Carvalho. A escritora é comumente estudada pelas múltiplas escrituras femininas em sua obra literária. No entanto, gostaria de analisar especificamente o relacionamento dos autores com a própria terra. No livro Ladra de Flores, ela também tenta escapar da descaracterização da cuiabania, fugindo para o quintal, porto seguro da poeta:

(…)
Vi o tempo que passava
Na Cuiabá dos meus trajetos
E a cidade era tão eu…
O que eram lágrimas
Fez-se pranto e arritmia
Não sabia
Se solidões
Ou poesia
Já na Barão, novo dilema
Como atravessar
O cinturão dos conhecidos
Amigas de infância e parentes
P’ra chegar ao meu quintal?

O quintal atual de Luciene Carvalho, localizado numa das antigas casas do Porto é um recorte da memória da poeta, uma fotografia onde ela vive ou se refugia. A topologia do Porto, aliás, está descolada da capital, talvez porque, desde o início, os habitantes do distante bairro tenham vivido à parte, com sua própria comunidade religiosa, sua escola pública e sua pracinha onde brincavam as crianças. O Porto é, de certa forma, uma oposição à cidade e à tradição, um mundo à parte ou uma outra tradição. A melhor poesia de Luciene Carvalho que representa essa bolha apartada do corpo urbano é “Outros Tempos”, do livro Porto:

Fui andando pelas ruelas/ tão aquelas/ do Porto de Cuiabá// têm história…/ crianças de hoje/ brincam com netos/ de vizinhos de outros tempos// o dono da padaria/ conhece Dona Maria/ sobrinha do seo João/ Jacira que lava a roupa/ em outros tempos foi louca/ de amor por Sebastião/ que hoje toca a padaria/ porque casou com Sofia/ a filha de um alemão./ E, aqui no bairro do Porto/ vizinho é de porta adentro/ é um bairro de outros tempos,/ tem outra arquitetura./ E o que se procura acha:/ é linha, anzol, borracha;/ macumba é na baianinha,/ chá de folha é no Suat// hortaliça, arame, linha/ tem vidraceiro, engraxate/ café moído na feira/ cabelereira, sapato// o que tem de história triste/ muito serviço barato.// tem puta de qualidade/ tem putinha de tostão/ pano de prato/ cultura/ tem pedinte/ tem cafetão/ tem virgem/ tem traficante/ tem carretel, tem barbante/ suor trabalho, mistura// tem Cuiabá neste bairro/ que em Cuiabá não tem/ tem tanta história importante/ que Deus salve o Porto, amém”.

Como se vê, as referências de Luciene Carvalho são completamente diferentes do cânone que tratava da Cuiabá bela e radiante, lugar para bravos e destemidos, terra de heróis que se doavam pela pátria. Para a poeta contemporânea, a tradição desloca-se para outra geografia, muito embora a intimidade típica de cidade pequena esteja sempre presente. No entanto, temos claro uma “Cuiabá do Agora”, representação de cidade que muda e a escritora segue esse fluxo contínuo. Novos cenários são integrados à paisagem. Muito mais do que na poesia, é na prosa que Luciene inverte o eixo saudosista. Cuiabá é usada como um cenário qualquer, sem o ressentimento típico da Cuiabanália, por exemplo. Percebam o tom de Ronaldo de Castro, na poesia Meninos de Rua:

Um crime sob os céus se perpetua,
que à bandeira da pátria traz vergonha…
É o desfile da infância seca e nua
a transpirar miséria, fel, maconha.
Qual lixo humano, soltos pela rua,
são meninos sem pais, a voz tristonha
a pedir pão, mostrando a face crua
da dor de quem não come e quem não sonha.
A rua, amarga escola de bandidos,
é o palco dos meninos preteridos
pela nação que não é mãe – é algoz…
Ó pátria desgraçada!… Os maltrapilhos
da rua, eles também são vossos filhos
– apertai-os no peito junto a vós!

É no livro Conta Gotas que a escritora evidencia mais agudamente essa “nova cidade”: febril, caótica e sensual – a metrópole que Cuiabá virou. No conto Nervoso, temos a periferia cuiabana sendo escolhida como cenário: (…) lanchonetezinha chinfrim, estreita e comprida, fruto de uma casa cuiabana revisitada. O texto não tem nostalgia, não usa expressões como “demolição”, “esquecimento”, uma melancolia típica na resistência à urbanização. Prossegue a escritora: então falei que ia na sua casa e fui no campinho do CPA IV. O bairro citado é distante do centro de poder cuiabano, deslocado do quadrilátero histórico tradicional e das igrejas respectivas. Dá-se o mesmo no conto Revelação: num domingo, ela havia sido liberada para ir a uma matinê no Clube Náutico, ali no comecinho da Várzea Grande, passando um pouquinho a ponte do Porto. Na ida, tudo certo, a turminha da vizinhança se divertiu pelo caminho e se esbaldou com o som de discoteca que embalava aquele fim de anos 70.

Durante a formação do cânone literário mato-grossense, nas primeiras décadas do século XX, seria vedado o cenário, a forma, e a intencionalidade da escrita de Luciene: os arrabaldes como CPA IV e a vizinha Várzea Grande estavam fora do interesse da capital. Isso para não dizer do enfoque principal do trabalho da escritora que é a revelação da mulher, seus desejos, mistérios, rituais, cobiças. Quero, porém, voltar a me concentrar no relacionamento com a terra. No mesmo Conta Gotas, a periferia é sempre relembrada, uma margem que está integrada com o centro, não cobra e não deve nada à tradição. Eis um trecho do conto Rota:

Ela desceu do ponto de ônibus da Prainha, perto do calçadão ainda meio tonta; passou em frente à joalheria onde haviam comprado as alianças em setembro passado, numa tarde de risos e cumplicidade. As lágrimas sucumbiram às lembranças, desabando pelo seu rosto, enquanto descia a 13 de junho em direção à farmácia Pax. Comprou uma Água de Melissa de um balconista solícito que, vendo seus olhos cheios de lágrimas, perguntou se ela queria mais alguma coisa. Quero, quero sim – ela pensava, enquanto seus lábios murmuravam um obrigada pálido “quero voltar as horas, mudar o caminho das coisas, quero acordar de novo nesse sábado…” ela decidiu ir a pé pra casa após pagar a nota da farmácia. Sua dor precisava de espaço e sua cabeça tinha entrado num rodamoinho de pensamentos sem controle… quero acordar de novo neste sábado e não inventar moda de querer ir à casa de Frederico pra ter uma conversa sobre nós dois – esse negócio de discutir relação é bobagem – ainda que eu saia de casa, que eu não pegue o ônibus do CPA, que eu vá ao Porto visitar Anginha. E mesmo que eu pegue o ônibus, que eu desça na subida do Araés e vá ver Zulma, que eu desça no centro e torre meu cartão. Quero qualquer força que me mude a rota, que me impeça de chegar à casa do meu Fred e usar a chave na porta.

O trato com a cidade é diferente. Os casarões já estão no chão, a igrejinha não existe mais. O aspecto provinciano deixou Cuiabá. Já estão incorporadas as mudanças que não são opostas. Explico a provável razão: a escritora Luciene Carvalho nunca partilhou das regalias do “centro”, dos costumes dos abastados, das viagens internacionais. E, se algum dia gozou do fausto das mais tradicionais famílias, o hábito não se incorporou à mulher geograficamente plantada no Porto, uma outra cidade, um outro universo. Em geral, há saudade da perda. Se imaginarmos que a escritora não comunga do sentido convencional de tradição e nem tampouco pretende replicá-la, não há porque a obsessão com um passado naturalmente mutante.

A vida da escritora está vinculada ao quotidiano urbano quando sai do mundo paralelo que é o quintal remanescente. Ela não se lamenta por ter perdido nada porque nada era realmente seu. Da mesa aristocrática, Luciene nunca se fartou. Aquele idílio cuiabano, cantado em verso e prosa, não pertenceu à maioria da população cuiabana. A atenção da escritora está voltada para uma cidade que, até então, era apagada na literatura: a Cuiabá da mulher comum que ganha um salário mínimo, anda de ônibus, espera nas filas de banco e consome comida de rua. Destaco um dos contos de Luciene Carvalho que mais me impressiona:

As lentes dos óculos Jackie O. refletem o cumprimento ‘oi!!!’ e só então seu dia começava de verdade. A calça branca de lycra agarrava com vontade o quadril farto que se demorava na ferragem da roleta, enquanto mãos cegas fingiam procurar o vale-transporte nos escaninhos mais que conhecidos da bolsa curta de camelô. Aquele breve interlúdio matinal vinha dando alma nova à manhã dela; já não se preparava apenas para limpar os corredores intermináveis do Hospital Geral, já não se exasperava com clorofórmios e desinfetantes, já não se incomodava com o escarro do pai que se levantava para continuar o porre interrompido na noite anterior; já não lhe pesava a chegada dos 45 anos. Não! Acordava para ele, se vestia e maquiava para ele; o cobrador da linha 508. Tinha que ser pontual para pegar o ônibus certo e poder realizar aquela cena matinal: unhas pintadas com esmalte vermelho escondiam o contato com os corrosivos e descansavam por um minuto sobre a caixa de dinheiro. O cabelo alisado com chapinha no fim-de-semana exigia que ela se inclinasse em direção à bolsa para mostrar seu balanço, a língua umedecia o lábio roxo de cuiabana antiga e: ‘Oi’!!!

O que se evidencia no texto de Luciene é a empregada doméstica, a secretária, a babá, a frentista, a enfermeira, milhares de mulheres do povo grandemente desaparecidas da primeira geração de escritores mato-grossenses. Esse “apagamento” como tão bem estudado por Marli Walker é simplesmente uma barreira imposta por intelectuais alinhados com o conservadorismo provinciano: não se publica e, se publica, não se comenta. Daí que a poesia divergente desaparece dos compêndios, das antologias, dos estudos universitários, da bibliografia enfim. Luciene Carvalho encontra-se desafiando o “standard” feminino consolidado em Mato Grosso: a mulher do lar, obediente e intelectualmente conformada. Mulheres havia, é certo, mas nenhuma com os quadris metidos na “calça de lycra”, as unhas enfeitadas de “esmalte vermelho” e os “lábios roxos”. Essas mulheres de Luciene Carvalho não estão castradas, para resumir numa frase.

De qualquer forma, essa “nova Cuiabá”, igualmente feminina e sensual, não censurada e livre de pedágios institucionais, vai surgir entre 1980 e 2000, mostrando-se mais mundana do que supunham os autores pudicos, religiosos e patrióticos que forjaram o cânone mato-grossense. Os tempos são outros: é a vez do agora. Luciene Carvalho continua produzindo. Estou à espera de “Dona”, o novo livro. A poeta promete que vai dar BO. Ela sabe o que está fazendo, sabe o quê e quem está provocando. Como dizia Bakhtin no seu Teoria do Romance: “por trás da narração do narrador lemos uma segunda narração: a narração do autor sobre a mesma coisa narrada pelo narrador e, além disso, sobre o próprio narrador. (…) Não perceber esse segundo plano intencional e acentual do autor implica não compreender a obra”. A gente está sacando tudo, Luciene. Vá em frente!

CUIABÁ DO AGORA – Eduardo MahonA literatura sem pedágios de Luciene CarvalhoNa resenha anterior, pretendi mostrar…

Publicado por Eduardo Mahon em Segunda, 25 de junho de 2018

 

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“Estamos no Estado que apresenta os maiores índices brasileiros de violência contra a mulher, uma tragédia sob todos os aspectos”, diz Eduardo Mahon

Ensinar a não bater (E.M)A deputada Janaína Riva apresentou um projeto para ensinar nas escolas métodos de prevenção à…

Publicado por Eduardo Mahon em Quarta-feira, 13 de junho de 2018

Ensinar a não bater (E.M)

A deputada Janaína Riva apresentou um projeto para ensinar nas escolas métodos de prevenção à violência contra a mulher. Foi o suficiente para que uma artilharia pesada fosse disparada nos grupos de discussão: a escola precisa ensinar matemática – é o melhor argumento. Os mais criativos dizem que a escola contemporânea precisa ensinar ao aluno a escrever machismo com “ch”. O tema vira piada. Ocorre que não é nenhuma piada. Estamos no Estado que apresenta os maiores índices brasileiros de violência contra a mulher, uma tragédia sob todos os aspectos. A escola precisa ensinar matemática? É claro. Mas, pense um segundo: quantas vezes, na vida prática, você utilizou a fórmula de báskara? Quantas vezes lembrou do logaritmo de base dez ou da fórmula do apótema da base de uma pirâmide triangular? O que mais temos no ensino é uma coleção de informações sem o menor nexo, sem que o professor saiba orientar quando e onde poderemos utilizar essa decoreba. Nas matérias humanas, dá-se o mesmo. Quem se lembra que a população de Palmas é de 217.056 habitantes?, que Ácia Balba Júlio Segunda Cesônia casou-se com Caio Otávio, primeiro imperador romano?, que “fato”, em bom português, significa terno enquanto facto é um acontecimento?

O que a escola ensina é uma eleição, ou melhor, uma convenção conforme o tempo e lugar. Não há conteúdo sagrado, um tabu escolar. As ementas das disciplinas estão a mudar e é bom que assim seja. Do contrário, estaríamos ainda na época das palmatórias, onde se aprendia os casos nominativo, genitivo, dativo, acusativo, ablativo, vocativo ou locativo, sob ameaça de ajoelhar no milho. A educação muda como a sociedade muda. Aprender na escola elementos do quotidiano que podem transformar a forma de convívio futuro é essencial. Não há regras na sociedade? Evidente. Por que a escola não ajudar a juventude a observar, entender e praticar valores e comportamentos? Não vejo qualquer problema. Mas e o seno, o cosseno e a tangente? Vão bem, obrigado. Ensinar valores em nada atrapalha o ensino da matemática, fiquem tranquilos. O que mais me causa perplexidade é gente esclarecida ser contra.

No mundo todo, há programas escolares de educação no trânsito. Por quê? A explicação é óbvia: as crianças e jovens, algum dia, serão condutores. Portanto, é preciso se habituar com a forma de convívio no trânsito, suas regras e, inclusive, a etiqueta: dar preferência ao pedestre, não guiar com luz alta, respeitar a velocidade. Ora, se crianças são ensinadas a respeitar placas de trânsito, qual a razão pela qual não seriam educadas para a não violência contra mulheres, pessoas com outras identidades sexuais, culturais e religiosas? Na minha opinião, o que mais falta no Brasil é o ensino da tolerância. Estamos ficando adoecidos. Há censores da vida alheia em toda a parte, pacíficos ou violentos. Não admitem a alteridade, o diferente. Incomodam-se com a diversidade. São esses mesmos que pretendem afastar a educação do caminho da tolerância. São esses mesmos que acreditam que a escola é lugar para decorar a tabuada, o emprego do hífen, a população de Palmas, a fórmula do apótema da base da pirâmide triangular.

Tenho uma certa pena de gente quadrada, ou seja, que tem as arestas idênticas. Sofrem com a convivência em sociedade, almejando que sejamos uniformemente tratados para que nos tornemos idênticos. A educação contemporânea não está aí para isso, felizmente. Quer-se um ser humano pleno, sensível a problemas sociais e que tenha meios para transformar a realidade. Quer-se ética. Ensinar a não bater em mulher, a não agredir negros, a não insultar judeus, a não roubar o público ou o particular, a respeitar decisões majoritárias, a não ser beligerante, enfim, é muito mais importante do que decorar o ciclo de Krebs. Francamente, como tem gente que fecha os olhos para a realidade e nega-se ao óbvio! Diante dos índices avassaladores de violência contra mulheres, contra gays, contra negros, deveríamos mesmo tornar obrigatória a disciplina de humanidade. Pois o que mais falta hoje em dia é isso: humanidade – voltar a conscientizar o homem de que não é mais um macaco e que, portanto, precisa aprender valores, convívio, diálogo etc. Eis o beabá da educação.

Eduardo Mahon é advogado e escritor.

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UFMT: além e aquém de si mesma – Por Eduardo Mahon

UFMT: além e aquém de si mesma (E.M)Alguém se lembra que, todos os meses, a Faculdade de Economia da UFMT era…

Publicado por Eduardo Mahon em Domingo, 18 de março de 2018

Por Eduardo Mahon | Alguém se lembra que, todos os meses, a Faculdade de Economia da UFMT era consultada para explicar a variação inflacionária? Que, em todas as grandes obras do Estado, a Faculdade de Engenharia Civil da UFMT era consultada para dar parecer? Alguém se lembra que, em todos as grandes questões ambientais, as Faculdades de Engenharia Florestal e Biologia eram convidadas? Quem lembra que, a toda grande mudança legislativa, eram consultados os professores da Faculdade de Direito? Não foram poucas as vezes que vi, nos jornais, várias matérias ancoradas no conhecimento gerado pela UFMT que, aliás, transformou a cara de Mato Grosso, auxiliando no brutal desenvolvimento a partir da década de 70. Basta lembrar que muita gente foi obrigada a tomar um navio para ir estudar fora, onerando a família que poderia fazer esse gasto. No entanto, há muito tempo, talvez uns vinte anos, que ando preocupado. Mesmo que a UFMT também tenha crescido, duplicado, triplicado, quadruplicado o número de seus cursos, seus professores, alunos e campi, há pouca interação com a sociedade.

Lançamento de livros? É no bloco IPX-32, 3º andar. Palestra de filosofia? Fica no bloco GDK-59, 2º andar. Seminário de comunicação? Basta ir ao auditório do TCL-30 e descer dois pavimentos. Apresentação de tese de doutorado? Salinha FMP-81, lado esquerdo, no final do corredor. E aquela apresentação da professora do Rio Grande do Sul? Ainda não sabemos, mas tudo indica que será no CCBTJ-98, três lances de escada acima. Afinal, quem sabe o que a UFMT produz? O que se escreve? O que se gera de conhecimento? Garanto que pouca gente. A interação social entre a ciência de altíssima qualidade e a comunidade mato-grossense não é apenas um hiato, é um abismo. Aparelhos fundamentais são profundamente subutilizados, além das salas ociosas, do enorme contingente de alunos que se evade, da falência das áreas de convivência coletiva. Passar pela universidade à noite é um desafio, estacionar é um pesadelo. Todas as vezes que vou a um evento lá, recordo da música do Chico Buarque: “junto à minha rua, havia um bosque que o muro alto proibia”. O que aconteceu com o conceito inclusivo de Wlademir Dias-Pino no símbolo da UFMT? Onde está a UFMT além dela mesma? Está nas escolas? No mato? Nas plantações? Os alunos fazem dela um laboratório ou serão eles mesmos os ratinhos para experiências? Depois que pegam o título: o mestrado, o doutorado, o que fazem? Alguém faz o mapeamento disso na sociedade? Há programas para retorno/convívio dos egressos nos programas desenvolvidos?

Os estudos segmentados em grupos, grupinhos, grupelhos, são tão exclusivistas e pouco comunicativos que ninguém sabe a importância e, sobretudo, a aplicabilidade que podem gerar. O que aconteceu? Foi a UFMT que cresceu demais? Talvez tenha dado um passo maior que a perna. Foi o Estado que cresceu demais? Talvez tenha havido um desligamento da fonte de conhecimento científico. Foram as duas coisas? É um problema de comunicação entre aqueles que insistem na linguagem criptografada de um academicismo nobiliárquico? É a convivência com uma nova sociedade que só rumina a praticidade mastigada? Eu realmente não sei responder exatamente o que aconteceu e continua acontecendo. O fato é que a universidade tem uma TV e, nem assim, consegue se comunicar. Essa é a certeza que me resta: a maioria dos projetos desenvolvidos prescinde da fase de comunicação social, seja no começo, seja na apresentação dos resultados. Nós (aqui do mundo real, extramuros) nós que somos milhões de pessoas que reconhecem o quão significativa é a UFMT, não temos a menor ideia do que se passa lá dentro e do potencial que há para a formulação de parcerias, convênios, programas que auxiliem Mato Grosso. É por essas e outras que valorizo tanto ações culturais da Procev quando convida “gente de fora” para eventos, porque parece faltar “gente de dentro” que se prestigie mutuamente.

Falando em Mato Grosso, faz já algum tempo, olhei um convite para o lançamento de um trabalho interessante sobre o cisma papal de quase um século atrás e fiquei a me perguntar qual seria o público-alvo da publicação, do evento, do debate. É certo que o conhecimento científico não pode andar de cabresto com interesses regionalizados, mas não menos certo de que, em algum momento, o interesse de Mato Grosso deveria convergir com alguns estudos desenvolvidos na UFMT, sobretudo no que diz respeito aos desafios quotidianos: meio-ambiente, transportes, energia, engenharia, medicina, educação, cultura etc. A adesão da universidade ao Enem já retirou toda a possibilidade do alunado tomar conhecimento com a história, geografia e literatura mato-grossense – um dos maiores equívocos de uma universidade politicamente alinhada. Outras adesões nacionalizam, internacionalizam o debate, o que é ótimo para ampliar a perspectiva científica. Em termos numéricos, está tudo melhor do que no meu tempo de estudante: mais mestres, mais doutores, mais cursos. Parece que tudo aumentou, cresceu, fermentou na UFMT. Menos a sua influência. Por quê?

*Eduardo Mahon é formado pela UFMT.

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Eduardo Mahon: O político é um homem público que tem obrigação de ser simpático, de atender bem, de ser educado e atencioso, de mostrar-se solícito e sensível aos problemas dos outros

MISS ANTIPATIA (E.M)O personalismo político é tão atraente como repulsivo. No início, costumamos apostar na figura do…

Publicado por Eduardo Mahon em Sexta, 2 de março de 2018

O personalismo político é tão atraente como repulsivo. No início, costumamos apostar na figura do herói, do salvador, do xerife, quando não nas três imagens unidas numa única pessoa, como no caso do atual Governador Pedro Taques. Era bastante simples a opção de voto, após a passagem da nuvem de gafanhotos que devastou Mato Grosso. Eu mesmo cheguei a lançar Taques à Presidência da República por três motivos: não havia (e não há) candidato moralmente decente, Taques vinha de uma excelente performance no Senado e, ainda, poderia consertar o estrago que garimpeiros amadores fizeram às contas públicas do Estado. Portanto, era natural a esperança. Ocorre que, quanto maior a esperança, maior a frustração. A atração pelo chefe, pelo líder, pelo homem que prometia a moralização da máquina pública foi dissolvida em repulsa pelo megalômano, pelo egocêntrico, pelo capataz-administrador que menospreza de servidores a parlamentares.

Nas pesquisas mais sérias, a enorme rejeição não se volta contra o governo e sim contra o governador. Por que? Pela crônica antipatia. Ele diz – e disse comigo ao lado – que fez concurso para miss simpatia. Parece, no entanto, que estamos lidando com o vencedor do troféu miss antipatia. O político é um homem público que tem obrigação de ser simpático, de atender bem, de ser educado e atencioso, de mostrar-se solícito e sensível aos problemas dos outros. Diria, inclusive, que em tempos tão bicudos como os nossos um governador deve ser mais simpático que a própria miss simpatia, para manter a motivação, a autoestima, a convicção no projeto, mesmo diante da crise financeira. Não é o único problema. A teimosia com a comparação, a fixação em medir-se com um criminoso, preso, confesso, rebaixou a figura de Pedro Taques, até porque muitos aliados ficaram (e ainda ficam) constrangidos por terem apoiado o adversário criticado. Novamente, uma falta de sensibilidade política.

Durante o governo, Taques desprezou completamente a tradição política mato-grossense, incorporando a síndrome petista do “nunca antes na história”. Cheguei a ver o Governador assegurando, em matéria de cultura, muitos fatos inéditos que, no final das contas, tratam-se de reedições de atos passados sem o devido crédito. O resultado vê-se a olhos desarmados: museus fechados, artistas sem receber, contratos não cumpridos. A altíssima rotatividade de secretários – um a um, investigados, presos ou simplesmente improdutivos, já demonstra que o Governador – estreante na política – não vinha com uma equipe, um grupo, uma aliança. Fez questão, ao revés, de sublinhar o caráter técnico do primeiro escalão quando, na verdade, o que precisávamos era de diálogo, de boa vontade, de estrutura política capaz de administrar as frustrações que cimentaram um caminho pedregoso da rejeição.

No início, o que havia de errado no governo Taques era ter Taques demais no governo. Explico: espera-se de um homem com dificuldades de articulação, de comunicação e de simpatia, alguém com esse talento para fazer o meio-de-campo na Casa Civil. Blindando-se da “turba bandoleira”, Taques duplicou-se e entronizou outro Taques na articulação política, sofrendo o rescaldo de críticas mornas, o banho-maria lento e a repulsa velada dos agentes políticos que tratavam com o Palácio Paiaguás e encontravam uma cápsula, uma redoma, uma muralha em torno do governante. Também tive ocasião de apontar o grave equívoco de comunicação, preferindo o Governador rivalizar com questões miúdas, numa linguagem técnica, pouco popular e dialógica. Passou recibo de críticas feitas por pessoas sem voto algum. Respondeu com arrogância, com processos, coincidentemente os mesmos críticos que foram grampeados.

Por derradeiro, cito o equívoco, o gravíssimo desencontro lógico, de culpar o funcionalismo público pela crise financeira. Se realmente fosse esta uma verdade, deveria o Governador manejar os artifícios jurídicos adequados para cassar vantagens ilegais, aumentos inconstitucionais, equiparações financeiramente insustentáveis. A mesmíssima artilharia deveria voltar-se contra contratos equivocados ou fraudulentos (como o do VLT que chegou a ser defendido pelo Governo e Secretários de Estado, buscando inclusive autorização legislativa para novos empréstimos), que curiosamente foram mantidos ou mesmo aumentados. Não, não estou insinuando corrupção. Prefiro não pensar que o Governador tenha relação com qualquer dos fatos que levou tantos Secretários à cadeia, inclusive por corrupção. Ainda quero desacreditar nos depoimentos de réus, de colaboradores, de antigos aliados financeiros e acreditar que o tropeço administrativo de Taques deve-se única e exclusivamente a equívocos pessoais e políticos.

Se vou votar em Taques em 2018? Nem os aliados que ainda frequentam feijoadas do Governador sabem se votam nele. Não há pior solidão do que o próprio vice criticar a gestão da qual faz parte. O resta de melhor? Para mim – e para milhares de mato-grossenses – o voto virou um excruciante jogo do “menos pior”. Havendo uma alternativa viável, prefiro colar os cacos das esperanças espatifadas e entregar a alguém mais político, mais parceiro, mais leal, mais dialógico, mais cordial, mais humilde, mais estrategista, mais eficiente e, sobretudo, mais simpático. Porque, afinal de contas, errar uma vez é humano, duas já é burrice.

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Sobre quem faz e fica e quem fala e passa… – Por Eduardo Mahon

SOBRE QUEM FAZ E FICAE QUEM FALA E PASSA…A propósito de políticas públicas, quero chamar atenção para a diferença…

Publicado por Eduardo Mahon em Terça-feira, 14 de novembro de 2017

SOBRE QUEM FAZ E FICA
E QUEM FALA E PASSA…

A propósito de políticas públicas, quero chamar atenção para a diferença entre quem faz e fica nos registros históricos e quem fala demais e acaba sendo esquecido. Sobre a educação musical cuiabana, por exemplo, grandes nomes ensinaram o povo a entender e apreciar música de qualidade: Zulmira Canavarros, Maria Benedita Deschamps Rodrigues (Dunga), Honório Simaringo, José Agnelo, Mestre Albertino, Vicente dos Santos, Tote Garcia, Luiz Cândido, e mais recentemente, Ivonildo Gomes de Oliveira, o mestre China, Moises Martins, Neurozito, Bolinha, Vera e Zuleica, Henrique e Claudinho etc.

Foi com o 1º reitor eleito da Universidade Federal de Mato Grosso, Benedito Pedro Dorileo, que tivemos a Orquestra da UFMT, a partir do núcleo de músicos concursados. Em 1980, ingressaram por meio de avaliação quatro músicos – Cézar Wulhynek (spalla), Hella Gilda Von Hepp (violino), José Lourenço Parreira (violino) e Conrado Correia Ribeiro (violoncelo), núcleo fundador da Escola Preparatória de Aprendizes da Orquestra Sinfônica da UFMT. Esse foi um marco incontestável para a música mato-grossense – o nascimento de uma instituição pública e não de mais uma empresa privada.

Nesse diapasão, é preciso fundar o Conservatório Musical de Mato Grosso. Uma instituição pública que tenha como acesso um concurso atraente para que músicos de todas as partes do Brasil possam somar-se definitivamente à instituição. A estabilidade funcional do músico não atenta contra a técnica, muito ao contrário: permite a realização de projetos de médio e longo prazo com características exclusivas do grupo convivente, além de contribuir para criar e manter uma escola para jovens músicos, sucessores das turmas inaugurais. Isso é o pensamento de longo prazo, consistente, em prol do Estado de Mato Grosso.

Instituições privadas são importantes? É claro. Mas precisam sobreviver e objetivam o lucro, o que é muito natural numa sociedade capitalista. São formadas por músicos que sobrevivem de cachê, aparecem eventualmente e vão embora no dia seguinte da apresentação. O que deixam de legado aos mais jovens? Importa saber se o Estado de Mato Grosso quer ou não um centro de formação em música que seja público e permanente, composto por gente gabaritada e aprovada em concurso público. Importa pensar daqui vinte, cinquenta, cem anos, com o fito de oportunizar às novas gerações de mato-grossenses o preparo e o ingresso nos quadros desta instituição a fim de desenvolver projetos que identifiquem o povo consigo mesmo.

Benedito Pedro Dorileo é um homem reservado. Não fica culpando o passado pelo presente, nem tampouco ansiando o futuro. Ao contrário: fez do limão, uma limonada e cunhou o “fazejamento”, ou seja, mão na massa. Deixou um legado consistente em matéria de políticas públicas, ajudou a Universidade Federal a pensar na cultura mato-grossense. Criou, além do núcleo da Orquestra Sonfônica, a pró-reitoria de cultura, então chamada Coordenação de Cultura, onde Marília Beatriz de Figueiredo Leite conduzia projetos com a ajuda de Therezinha de Jesus Arruda, Konrad Vimmer, Peter Ens, Leônidas Querubim Avelino, José Serafim Bertoloto, Clóvis Resende de Mattos, Wladimir Dias-Pino. Isso é valorizar a prata da casa, sem cair no perigo da endogenia.

Sendo uma instituição pública onde caciques não monopolizam a batuta, fomos enriquecidos por vários maestros titulares passaram pela história da Orquestra da UFMT: Konrad Wimmer, Marcelo Bussiki, Ricardo Rocha e Roberto Vitório. Em 2002, Silbene Perassolo foi a primeira mulher a dirigi-la e hoje, como se sabe, é Fabrício Carvalho quem rege os músicos da nova geração. Tenho certeza de que era essa a intenção original do grande Secretário de Cultura, João Carlos Vicente Ferreira ao fundar a Orquestra de Mato Grosso – uma instituição que fosse pública e que ensinasse música de forma contínua, retroalimentando a própria formação por músicos mato-grossenses.

Por fim, quero lembrar do nosso Cel. Octayde Jorge da Silva que incentivou a música na então Escola Técnica Federal, da grande Dunga Rodrigues que conduziu por muitos anos o Conservatório, do querido Habel dy Anjos que estudou a nossa viola de cocho, do nosso saudoso Rabelo Leite que divulgava a música mato-grossense nas rádios por onde passou e de tantos outros que se doaram ao ensino público, gratuito e universal – isso sim um valor a se orgulhar. Por fim, palmas para a Orquestra Cuiabana de Choro, conduzida pelo brilhante Eduardo Fiorussi, o mais novo sopro cultural do Estado de Mato Grosso, assim como as maestrinas Flávia Veira e Dorit Kolling, tudo sob supervisão do grande pró-reitor cultural da UFMT Fernando Tadeu de Miranda Borges. Destes nunca esqueceremos. Quanto ao resto…

Eduardo Mahon é advogado e escritor.

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O Velho Palacete – Por Eduardo Mahon

Por Eduardo Mahon | Ninguém diria que o palácio nasceu do mesmo tamanho que todos os demais casarões na rua de terra batida. Contudo, a despeito do que ignorem os meninos que estudam arquitetura contemporânea, esses mesmos que acham que o aço, o vidro e o concreto aparente constituem o catecismo do futuro, naquela rua algum dia estiveram alinhados casarões da aristocratas, mas na medida da fortuna dos vaidosos proprietários. Depois, a queda. Pior: a depreciação lenta da meia idade. Instalou-se, ao lado, o primeiro edifício que fez pouco caso do palácio, talvez porque a grande maioria dos moradores dos demais sobrados houvessem se mudado para lá. Subia arrogantes vinte e dois andares, reinando do alto nunca visto por aquelas casas que não sobreviveriam por muito tempo. No lugar dos anônimos demolidos, nasceram outros prédios, maiores e mais altos do que aquele primogênito soçobrado diante das evidências: quanto mais moderno, mais alto. Em meio à disputa pelas nuvens, o antigo palacete de dimensões pigmeias viu-se na contingência de ser excluído do clube dos verticais e, com o tempo, perdeu os próprios moradores originais, sucedidos por sobrinhos menos afortunados, incapazes de manter o amor-próprio da única construção daquela avenida alargada e asfaltada pelo prefeito com vertigens de futuro. Houve quem sentisse pena da edificação transformada em pensão medíocre, povoada de gente pobre que se espremia nos quartos ainda forrados por tábuas de carvalho, lentamente consumidas pelo tempo e falta de resina hidratante. Apodrecido por vermes que se multiplicavam no pouco de carne ainda adrede aos ossos evidentes, o palácio mergulhou na pior fase. Os remedos nas janelas do segundo pavimento, pixos a tatuar a delicada casca neoclássica e as gambiarras da fiação telefônica, deformaram o rosto do absorto decano. Como o tempo não passa apenas para o casarão, os prédios mais antigos tornaram-se solidários com o parente mais velho. Também eles – os obsoletos arranha-céus que, hoje em dia, são baixotes em comparação com outros vizinhos mais novos e mais potentes – sofriam com rachaduras e estavam abandonados pelas famílias ricas que se foram no êxodo para condomínios distantes. O palácio, então, sofrendo de enfisema e artrites, mantinha a dignidade em não se vingar de comentários maldosos daqueles edifícios decadentes que cediam espaço barato para o comércio de bijuterias e outros cacarecos. Quando, enfim, o palácio fechou as portas, sofrendo de profunda depressão, sucumbiu para o abate de capitalistas que fariam dali um shopping, um estacionamento ou qualquer coisa mais lucrativa do que aquele esqueleto de adobe que esperava o golpe derradeiro. Entretanto, em virtude do bom-gosto de um magano extravagante, o provecto palacete foi sacado do acervo do eterno inventário em que jazia. Sediaria um museu de arte moderna e uma sala de concertos com acústica irreparável. Em tempo, quase abatido pelo tremor de veículos que trafegam em manadas, recebeu transfusão de tijolos e cimento, reboco e telhas, piso e pintura e, após lona internação por trás de tapumes, ressurgia exibindo-se em holofotes que banhavam de luz o recauchutado palácio. Os prédios do entorno, agora tomados de viciados e prostitutas que se mantinham em alugueis baratos, cedendo à majestade do palácio que reinava austero, mas nunca presunçoso, ascendiam e apagavam as luzes para saudar o sobrevivente. Assim são os casarões e as pessoas velhas, muito velhas: à beira da demolição, quando ultrapassam certos limites de existência, deixam de ser ultrapassados para ganhar foro de clássicos e, daí, receberem homenagens de quem, antes, os exprobavam pela senilidade. Já não os rejeitam. Já não os maltratam. São, ao contrário, francamente queridos para a admiração dos velhos e dos novos arquitetos que, enfim, percebem que o futuro não se faz apenas de juventude.
Eduardo Mahon é escritor.

O VELHO PALACETE (E.M)Ninguém diria que o palácio nasceu do mesmo tamanho que todos os demais casarões na rua de terra…

Publicado por Eduardo Mahon em Sexta, 20 de outubro de 2017

 

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O Moralista no Divã – Por Eduardo Mahon

 

O MORALISTA NO DIVÃ (E.M)Há fobias de muitas naturezas. Coincidem, no entanto, com a aversão a alguma coisa: lugares…

Publicado por Eduardo Mahon em Terça-feira, 19 de setembro de 2017

Há fobias de muitas naturezas. Coincidem, no entanto, com a aversão a alguma coisa: lugares abertos, aglomeração de gente, micróbios, lugares escuros ou apertados. Há fobias que passam despercebidas e foram naturalizadas – fobia de barata, de cobra, de lagartos, enfim. Outras são sazonais na história da humanidade: fobia de um determinado povo, língua ou território. Finalmente, há aversões perenes, quase tão velhas quanto a própria humanidade. Infelizmente, a fobia à cultura é uma dessas formas de comportamento patológico. A bibliofobia é uma antiga conhecida. Queimar livros remonta a época em que os próprios livros foram produzidos. Foram inúmeros casos de destruição de bibliotecas inteiras por questões religiosas, políticas, filosóficas. Stálin e Hitler foram os últimos casos conhecidos, mas poderíamos retornar à China antiga.
Em termos de artes plásticas, o homem também guarda fantasmas que os assombra. Ao ser exposto à magnífica obra de Giotto, o escritor francês Marie-Henri Beyle teve vertigens e palpitações. Com o tempo, a doença foi chamada de Síndrome de Florença, de Sthendal ou simplesmente de hiperculturemia. Por incrível que pareça, há uma fobia de exposição às obras primas. Mais particularmente no que tangencia ao nu – dentro e fora da arte – temos classificada a gimnofobia que é o medo de se mostrar sem roupa ou ver outra pessoa nua. Ainda, nesse sentido, temos a aversão a tudo o que evoca, explora ou retrata o sexo libertino – a pornofobia. Alguém que sofra sofre com essa síndrome não suporta ficar diante de qualquer descrição sexual explícita. Pode passar mal em templos hindus, em cidades antigas como Pompéia e diante de representações africanas, asiáticas e americanas pré-colombianas.
Noutras palavras, quem não se sente à vontade diante da pornografia a ponto de ser abalado emocionalmente porta um transtorno que deve ser tratado por profissionais psicólogos ou psiquiatras com auxílio de análise e remédios para ansiedade. O artista não pode ser culpado pela recepção deslocada do espectador, já que a arte retrata, desde as cavernas, situações eróticas. Imaginemos que um artista pintasse o que consta na Bíblia, em Ezequiel 23:20: “desejou ardentemente os seus amantes, cujos membros eram como os de jumentos e cuja ejaculação era como a de cavalos”. Pode ser que o artista decida retratar os dramas de Onã – presentes na Bíblia – e pinte o protagonista masturbando-se para não ejacular na própria cunhada. Outra possibilidade artística remonta à cena do coito anal presente na Bíblia como justificativa da destruição de Sodoma. Finalmente, causaria algum escândalo se um artista pintasse o bíblico Lot transando com as próprias filhas.
No final, colocamo-nos sempre diante da encruzilhada – a vida imita a arte ou a arte imita a vida? É provável que a vida tenha muito mais variantes pornográficas do que a arte que continua a correr atrás das nuances humanas para eternizar num quadro, num livro ou num filme. Vez ou outra alguém tem pânico diante de corpos nus ou em cenas de sexo explícito. Agarram-se nas mais variadas justificativas para debelar a ameaça: religião, moral, costumes. Escamoteando a ansiedade, o pornofóbico diz se preocupar com crianças, idosos, mulheres, quando na realidade o desconforto mora nele mesmo. Talvez seja um desejo reprimido no fundo dessa rejeição violenta. Diga-se o mesmo da homofobia, da transfobia, da lesbofobia, isto é, doente é quem porta esse transtorno e não o objeto dele.
Há gente que tem medo de palhaço, de aranhas e de avião. Mas há aqueles que tem fobia de poesia (metrofobia), de música (melofobia), de dança (corofobia), de arte em geral. Quando a arte interpreta o sexo velado ou explícito, os problemas se multiplicam numa recepção doentia da realidade. Essas e outras fobias estão em voga, travestidas de moralismo. São transtornos, na verdade, que fazem sofrer o portador do distúrbio e, claro, o grupo social rejeitado com aversão profunda. Essas pessoas que estão ultrassensibilizadas precisam urgentemente de um divã e uma boa pílula de cloridrato de sertralina.

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Silêncio – por Eduardo Mahon

Por Eduardo Mahon | No centro da cidade, um calor escaldante. A ruela repleta de lojinhas acotovelando-se por atenção dos transeuntes foi tomada por placas que encobriram as antigas fachadas. Alguém teve uma ideia infeliz: colocar um vendedor na frente, munido de um microfone ligado à caixa de som. Daí em diante, todos repetiram a dose e, quem pensar comparar aquela rua à Babel bíblica, não estará enganado. O som que se misturava numa panaceia de anúncios – fogões, lava-louças, calcinhas, material escolar – estreitou a rua ainda mais. O inferno era ali porque faltava paz. As buzinas dos automóveis disputavam atenção dos passantes com as caixas de som e os camelôs que gastavam o gogó à moda antiga. Em pouco tempo, ninguém entendia mais nada do que se queria dizer naquela feérica ruela do centro da cidade. Até que Arnaldo, um velho sapateiro meio falido, teve uma ideia que, vamos e venhamos, era inédita. Fechou a sapataria e pregou a tabuleta – Em breve, voltaremos com novidades. Ninguém deu falta. Não se conserta mais sapato, compra-se novo – era o que havia concluído Arnaldo. Pois bem. Sendo assim, vou vender o que faz falta hoje em dia – silêncio. Duas semanas depois, reabriu as portas com um ambiente completamente renovado. Quem passava na frente, via uma plaquinha discreta onde se lia em letras maiúsculas – VENDE-SE SILÊNCIO. Curiosos entraram na única loja em que não havia um vendedor esganando-se com microfone na mão. Ali não. No Arnaldo, todos comentavam, não havia nada além de poltronas de couro com um enorme fone de ouvido preso a um fio. Quem sentasse ali poderia comprar porções de silêncio que era vendido a um preço justo. Bom dia, Arnaldo! Bom dia, dona Terezinha, respondeu o comerciante à primeira cliente que se apresentou. Mudou de ramo, hein? Foi mesmo, não é? A sapataria ia devagar. Ia mesmo, ninguém quer remedo em sapato. Agora meu negócio é outro. Bem vejo, parabéns pela iniciativa, mas como é que funciona isso aqui, Arnaldo? Bem, a senhora me diz quanto silêncio quer, senta-se aí na poltrona e usa o fone. E o que se ouve? Ora, não se ouve nada, não é ótimo?! A dona da loja de confecções decidiu experimentar. O que são dez tostões, afinal de contas. Como é que o senhor vende esse seu silêncio? Bem, estou vendendo de quinze em quinze minutos, dona Terezinha, mas se a senhora comprar a hora cheia, tem desconto. Não estou pra esbanjar, Arnaldo, fico com meia hora, por favor. A mulher pagou e sentou-se na poltrona reclinável. Não ouviu absolutamente nada, nem camelôs, nem buzinas, nem mesmo o ronco dos caminhões de entrega. Ao final, aprovou: muito bom, Arnaldo! Vou fazer propaganda! Dito e feito. A vizinhança tornou-se cliente. Guardas de trânsito, padres, motoristas de ônibus entraram para a caderneta de Arnaldo que engordou em receita como nunca antes na antiga sapataria. O nosso empresário resolveu abrir filiais. Espalhou as lojas pela cidade e, dois anos depois, já estava estabelecido em todo o país. Não satisfeito, criou um produto novo, o silêncio que poderia ser levado para casa. Anunciava nas rádios: compre o silêncio e leve consigo para casa. Um silêncio só seu! Arnaldo gravou no melhor estúdio o som de uma hora de silêncio absoluto, livre de qualquer ruído ou interferência e o vendeu em disco e fita cassete. Daí então, diversificou. Criou uma linha de produtos para vários tipos de silêncio: o silêncio das montanhas, o silêncio das cavernas, o silêncio dos funerais, enfim, silêncios para todos os gostos. O multimilionário Arnaldo amargou um único fracasso em vendas: o silêncio dos casais. As pesquisas diziam que o produto era bom, mas nenhum marido teve coragem de comprar.

SILÊNCIO(E.M)No centro da cidade, um calor escaldante. A ruela repleta de lojinhas acotovelando-se por atenção dos…

Publicado por Eduardo Mahon em Terça-feira, 22 de agosto de 2017

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Corrupção Socialmente Responsável – Por Eduardo Mahon

Por Eduardo Mahon | A corrupção brasileira é a mais improdutiva, predatória e concentradora que se tem notícia. É preciso educar os corruptos para a responsabilidade social da corrupção. Um corrupto responsável gera empregos, é ambientalmente equilibrado, não gasta com excentricidades e se envolve em projetos de corrupção solidária. O corrupto precisa se qualificar para multiplicar conhecimento. Isso significa que deve fazer cursos de como roubar mais e melhor, aumentando a eficiência do roubo ao erário. O peculato, seja de que natureza for, deve ser sustentável. A Organização Mundial de Corrupção – OMC – aponta que o Brasil é um dos maiores emissores de dinheiro sujo do planeta. As autoridades já se comprometeram a lavar o dinheiro antes de enviar aos paraísos fiscais de Bahamas, Panamá, entre outros lugares que não podem suportar a poluição irresponsável da corrupção brasileira. Do meu ponto de vista, essas providências não bastam. É necessário atacar o problema na educação. Ensinar a escrever corrupção com ç, triplex com x, chácara com ch, fazem parte do básico. Um corrupto socialmente responsável é aquele que patrocina a capacitação profissional das novas gerações, transmitindo aos corruptos carentes o conhecimento de desvios de verba, superfaturamento em licitações e encobrimento de crimes por meio de uma rede de propina às autoridades fiscalizadoras. Os índices brasileiros de corrupção são alarmantes. Há muito corrupto mal preparado. A tabela dos pesquisadores da CPT – Corruptos para Todos – aponta o mau gosto crônico do meliante nacional. A Rolex indicou aumento de 15% na compra de relógios de ouro da marca, assim como o surpreendente aumento de 23% no consumo de ternos Ermenegildo Zegna pelos “novos corruptos”, aqueles cuja corrupção já superou a barreira de 1 milhão de reais na conta. A análise do Instituto Corruptos sem Fronteiras aponta para um dado preocupante: a grande maioria dos corruptos nacionais preferem a caminhonete Land Rover a diesel que polui o meio ambiente. Lanchas, carros, fazendas, pinga de má qualidade e charutos cubanos são investimentos que não são considerados uma corrupção sadia e, portanto, concentram os recursos surrupiadas em mãos de poucas pessoas. A Fundação Corrupção Transparente indica um caminho para o desenvolvimento de um modelo mais igualitário e distributivo na corrupção brasileira: a administração pública, autarquias, fundações, empresas em geral devem reservar parte do orçamento para promover uma bolsa-corrupto, distribuindo o peculato com corruptos desassistidos que não tem condições de comprar ouro, abrir contas em Luxemburgo ou lavar dinheiro na aquisição de fazendas e gado subfaturado. Além do mais, as licitações públicas reservarão quotas para corruptos com necessidades especiais. O suporte à popularização da corrupção não deve se limitar ao incentivo à alta e média corrupção. Para os corruptos em estado de vulnerabilidade, o Estado deve, além das bolsas Chanel e Hermés, patrocinar cursos rápidos de emissão de notas frias, viagens aos paraísos fiscais, entre outras medidas de educação para a corrupção. Além das medidas, todos os poderes devem colaborar com o esforço nacional em favor da corrupção. O Supremo Tribunal da Corrupção declarou ao Observatório da Corrupção que vai preparar juízes mais corruptos, elevando o nível das maracutaias conforme as instâncias, tabelando os preços de desembargadores e ministros, de modo a dar segurança jurídica na corrupção. A Ordem dos Corruptos do Brasil aceitou o desafio. Promoverá um amplo debate entre os profissionais a fim de que os associados roubem mais e melhor, escondam o patrimônio furtado e multipliquem o conhecimento de colaboração premiada, caso haja qualquer percalço não previsto. Até mesmo deputados e senadores entraram na campanha. Semana passada um grupo que se denominou Frente para a Corrupção Sustentável apresentou uma carta aberta para alterar a lei. Agora, a propina na liberação de emendas parlamentares será de, no máximo, 15%, um avanço na distribuição global de dinheiro ilícito. Além disso, os políticos estaduais prometem não usar pesticidas na plantação de laranjas de empresas que são beneficiadas por processos de chamamento público. Vereadores e prefeitos montaram uma “frentinha corrupta”, a fim de somar esforços para que sejam transparentes e zelosos com os peculatos da administração municipal. Somente assim, com o empenho de todos, teremos corruptos melhores, mais preparados e socialmente responsáveis, prontos para praticar uma corrupção sustentável, transparente e eficiente, tudo o que se espera do Brasil no futuro.

CORRUPÇÃO SOCIALMENTE RESPONSÁVEL (E.M)A corrupção brasileira é a mais improdutiva, predatória e concentradora que se…

Publicado por Eduardo Mahon em Segunda, 24 de julho de 2017

 

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O Meu Vizinho, Gustavo Lima e a Morte. Por Eduardo Mahon

O MEU VIZINHO, GUSTAVO LIMA E A MORTE (E.M)Mania besta de morrer. Como se não fôssemos todos nós para a mesma vala….

Publicado por Eduardo Mahon em Sexta, 7 de julho de 2017

O MEU VIZINHO, GUSTAVO LIMA E A MORTE (E.M)

Mania besta de morrer. Como se não fôssemos todos nós para a mesma vala. Calma! Cada um terá vez. A gente morre. Inevitavelmente. Eu diria até pontualmente. Ainda assim, tem gente que morre em vida dezenas, centenas, milhares de vezes. Morro de vontade… é o que se diz. Morro de medo. Morro de pena. Morro de ódio. Morro de sono. É morte pra tudo quanto é lado. As pessoas querem morrer por tudo. E por nada. Morrer de amor, vá lá, a gente até releva. Um Vinícius de Moraes, por exemplo, arrumava em cada amor, uma morte nova e, em cada morte, uma poesia linda. Ele mesmo, o poetinha, ensinava que “a gente mal nasce e começa a morrer”. Verdade, verdade! Mas não precisa exagerar. A morte não pode ser assim banalizada. Morrer de tesão. Morrer de calor. Morrer de frio. Morrer de curiosidade. Ninguém morre disso, por favor! É uma mania mórbida de enfiar a morte no meio de tudo. Há quem não se satisfaça com uma morte apenas. Quem se lembra de “A morte e a morte de Quincas Berro D’Água”? Sempre me perguntei: uma morte não basta? O sujeito estava ali duro como um pau, morto da silva. Não era suficiente para os amigos. Morreu de novo, dessa vez em definitivo, na esbórnia, na boemia. A morte é quase onipresente. Até defunto fala. Que o diga Brás Cubas, do Machado. Jazia não só morto, como enterrado. Não interessa: o presunto lavrou as memórias, com direito a rinoceronte, não é? É morte para tudo o que é lado, de todas as formas, para todos os gostos. Morreu de dor. Morreu de rir. Morreu sentado. A gente morre e não vê tudo. Todo mundo quer dar pitaco na morte. Morte e Vida Severina. A morte do caixeiro viajante. Cidades Mortas. As intermitências da morte. A morte de Ivan Ilitch. Crônica de uma morte anunciada. Tudo sobre a morte. Essa fascinação é velha. O Livro dos Mortos, dos longínquos faraós, tinha as senhas da morte e da vida. Osíris voltou dos mortos. Já Orfeu meteu-se entre eles. Mawutzinin queria trazer os mortos de volta. Lázaro foi outro que a conheceu de perto. Até Jesus foi e voltou. A morte é uma fixação tão grande que precisa ser testada, aprovada, homologada, certificada. Não basta morrer o corpo, é preciso que a mente faleça. Depois, a funerária. Depois, o velório. Depois, cemitério. Depois, a certidão. E, quando o sujeito pensava em descansar em paz, há panaceia no além-túmulo: abre-se o inventário. Portanto, ninguém quer morrer de verdade. Se quer, arrepende-se e faz de tudo pra voltar. Insistir em morrer só vi com Getúlio Vargas que fez uma troca – morria para entrar para a História. Não foi uma troca ruim, reconheço. Por outro lado, estamos fartos de morte por engano. Morreu Julieta pensando que Romeu estava morto. Depois morreu Romeu vendo que Julieta se matara. Tenha santa paciência! Mas há quem resista à morte. Vadinho voltou para Dona Flor. Alguém já leu Incidente em Atares? Pois então! Por ali, o cemitério se rebelou. Nem é preciso ir tão longe. Lênin está aí para quem quiser ver, firme e forte. Elvis é outro. Elvis não morreu, não morre e não morrerá. Mas são exceções, claro. O resto gosta de morrer. Morre de tédio. Morre de inveja. Morre de solidão. Morre de cansaço. Morre de alegria. Morre de desgosto. Morre de surpresa. As pessoas morrem ou dizem que morrem e, talvez, morram mesmo, mas não sabem. Parem com isso! A vida não é para ser vivida apenas. A vida tem que ser vívida, com perdão da redundância. Que paranoia de morte é essa, minha gente?! Por que a pressa? A vida é só uma, pelo menos no que diz respeito ao CPF. Se a alma retorna, são outros quinhentos. Viver, até onde se saiba, é intransferível, indelegável e improrrogável. O resto é tema pra mesa branca. Bem ou mal, estamos vivos. Não aguento mais o vizinho escutando Gustavo Lima: “eu vou morrer, eu vou morrer, mas não paro de beber”. Talvez seja isso. Estou revoltado com a morte. Com o vizinho. Com o Gustavo Lima. Ah não. Gustavo Lima é de morte!

Eduardo Mahon é escritor.

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O lugar de tudo é em Marília Beatriz e o lugar de Marília Beatriz é na literatura mato-grossense pela eternidade – Por Eduardo Mahon

Viva, Marília Beatriz!

Por Eduardo Mahon | A gestão de Marília Beatriz vai se despedindo com galhardia. Soma mais um troféu valioso para a literatura mato-grossense: a eleição de Aclyse Mattos. Nossa presidente merece o nosso aplauso. Não foi fácil. A responsabilidade, no caso dela, foi redobrada por uma tripla coincidência: Gervásio Leite, o poeta, jornalista, cronista, educador, deputado e desembargador, completou 100 anos e, com ele, relembramos os 40 anos que passaram da gestão desse modernista à frente da Academia. Não bastasse essa enorme responsabilidade, Marília Beatriz de Figueiredo Leite conduziu os festejos de 95 anos da mais longeva instituição literária do Estado. Em dois anos, a presidente reinaugurou a Casa Barão de Melgaço, lançou um volume da Revista da AML com discursos inéditos, participou de inúmeros eventos no interior e na capital de Mato Grosso, recebeu centenas de estudantes para discussões e palestras, além de produzir continuamente os textos que seduzem pela beleza plástica, própria de quem domina a semiótica.

A gestão começou com o pé direito. Na posse de Marília, vieram os colegas escritores de Mato Grosso do Sul para a primeira sessão conjunta entre as duas academias, desde a separação dos Estados. Na ocasião, compunha a mesa de honra Gilberto Mendonça Telles e Wlademir Dias-Pino, uma moldura modernista que sempre coube à família de nossa presidente. A inteligência de Marília Beatriz fez troça com os tapumes que sufocavam a Casa Barão de Melgaço durante a lenta requalificação. Foi a presidente que nos convidou a pixar poesias nas estéreis folhas de madeira com a qual o cerco à literatura foi imposto pelo poder público. Coordenados pela criatividade da presidente, resistimos. Vencemos a sisudez estéril com a irreverência poética. Ali estava a marca dela: Marília entregou-se à Academia, com spray e lágrimas.

Nos dois anos em que fomos contagiados pela delicadeza de Marília, sabíamos que ela não iria parar sentada. Falou de pé. Ninguém a segurou, ninguém a dominou, ninguém a controlou. A pauta foi dela, exclusiva, singular. Quando o protocolo assombra, os ritos oprimem, os estatutos pressionam, Marília Beatriz é aquela que nos relembra a razão de estarmos juntos: pela literatura, não pelo formalismo; pela literatura, não pela cerimônia; pela literatura, não pela norma. Deixou claro de dentro para fora: o que precisamos é de mais literatura e menos burocracia. As opções da gestão que se despede foram tomadas em prol das letras e dos autores que estão lutando em Mato Grosso pela poesia, pela prosa, pela música, pelo teatro. Eis uma mulher corajosa a quem admiro, respeito e festejo.

No dia 12 de setembro, Marília Beatriz conduzirá a posse de Aclyse Mattos. Preparem-se! Nada será como antes. Estejam todos presentes, haverá inovação como de costume. Porque o costume da presidente é perseguir novas imagens, novas formas, novas linguagens. Quem está parado, se anime. Quem está animado, pegue fogo. Esta é a contribuição que nos legou: não ter medo do futuro, porque o novo não se impõe pelo litígio com a tradição. Marília está nos deixando uma Academia de Letras mais jovem, mais viva, mais próxima da sociedade. Os nossos aplausos são partilhados com os vice-presidentes: José Cidalino Carrara, um lorde em terras cuiabanas, e Ivens Cuiabano Scaff, o embaixador das letras mato-grossenses.

A itinerância da Academia Mato-grossense descobriu uma nova geografia e, com ela, um desejo de interiorização. É preciso dar vez e voz aos escritores e leitores do interior. Marília palmilhou muitos lugares, criando espaço e desejos. De vez em quando, me lembro da provocação poética dela: “qual o lugar do desejo sem lugar?”. A pergunta fere fundo os nossos sentidos. Qual o lugar? Do desejo? Sem ligar? Não! O lugar de tudo é em Marília Beatriz. E o lugar de Marília Beatriz é na literatura mato-grossense pela eternidade. Obrigado, querida amiga. Você é brilhante!

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Eu bem que avisei – Por Eduardo Mahon

EU BEM QUE AVISEI (E.M)Há um inconfessável gozo na expressão – eu bem que avisei. Um prazer erótico, mórbido, sádico e…

Publicado por Eduardo Mahon em Sábado, 13 de maio de 2017

EU BEM QUE AVISEI (E.M)

Há um inconfessável gozo na expressão – eu bem que avisei. Um prazer erótico, mórbido, sádico e sórdido em ver concretizado o alerta que se deu a quem deu de ombros. Uma espécie de síndrome de Cassandra nos consome contra aqueles que fazem ouvidos moucos ao nosso mau augúrio mais bem-intencionado. Cassandra, coitada, recusou-se a dormir com Apolo e, por isso, não só foi amaldiçoada com o dom da previsão, como com a desgraça do descrédito. Tróia será invadida!, ela bradava descabelada pelas ruas. Continue Reading

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Transparência por princípio

O que está em jogo na polêmica atual entre o Governo de MT e o Tribunal de Contas é uma discussão juridicamente superada nos tribunais superiores: trata-se de verificar que interesse é prevalente, se o privado em conservar o sigilo fiscal de empresas ou o público em proceder às auditorias sobre a arrecadação estadual. Desse embate, é preciso posição principiológica, com o perdão do juridiquês ostensivo. Por princípio, sou favorável à transparência. Na República, ninguém é intocável, insuscetível de fiscalização. Qualquer empresa que tenha relação com o Estado, direta ou indireta, sobretudo as beneficiárias de recursos públicos ou, de outro lado, de isenções fiscais e incentivos, devem sim deixar suas contas e seus balanços disponíveis à fiscalização pública, ainda que conservem o sigilo constitucional quanto a terceiros. Não há aí nenhuma antinomia. Se nem o Governador do Estado tem o holerite livre da consulta pública, com muito mais razão nenhuma empresa deverá se esconder da fiscalização, sobretudo as que deixam de arrecadar bilhões de reais.

O Supremo Tribunal Federal posicionava-se a favor da inviolabilidade bancária e fiscal, com arrimo no art. 5º, X da Constituição da República. Diante da realidade dinâmica de um país onde a fraude fiscal é quase uma regra, passou a julgar reiteradamente que os dados bancários e fiscais são acessíveis não só aos Tribunais de Contas, como também ao fisco federal e estadual. Os julgamentos do MS 21729 e das ADI’s 2361 e 2444 serviram de base para que o famoso MS 33.340 colocasse um fim na discussão: havendo interesse público envolvido, os dados bancários de empresas deveriam ser transferidos com as reservas de praxe para que o TCU pudesse cruzar dados a fim de concluir auditorias sobre empréstimos, incentivos, isenções etc. Ademais, aqui mesmo nessas terras mato-grossenses, vigora a Resolução 29/2016 do TCE-MT pela qual determina a gestores públicos o acesso aos dados bancários de órgãos e entidades públicas. Até aqui, não houve nenhuma gritaria política ou resistência jurídica. Continue Reading

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A Gripe de Carlos Alberto – Um conto de Eduardo Mahon

Antônio Carlos era um sujeito comum, não fosse o nariz. O nariz em si, ele mesmo um alongamento da cara, não era nada escandaloso: longo, meio adunco, afinado na ponta. O que causou espanto era a capacidade que Carlos Alberto tinha de identificar todos os odores conhecidos e desconhecidos pela ciência. Foi assim que, com dezesseis anos, o jovem Carlinhos abandonou a casa por cheirar uma mulata boazuda da vizinhança nas camisas do pai. Muito cedo empregou-se e não teve do que reclamar. Das marcas de luxo, era o especialista mais destacado, nomeado geralmente como provador oficial. Cheirou cerveja, café, vinho, cheirou charuto e foi mestre perfumista sem tirar canudo. Certa vez, Carlos Alberto cedeu à uma proposta de um milhardário japonês para cheirar uma ninfeta a fim de atestar se era ou não era virgem. Continue Reading

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Ivens e as Asas de Ícaro

Os escritores Eduardo Mahon e Ivens Cuiabano Scaff / Foto: Divulgação

Ivens Cuiabano Scaff lançou Asas de Ícaro pela ed. Entrelinhas, obra que trata do amor. O surpreendente é que, já no título, comparou o sentimento humano ao delírio mitológico do personagem que pretende voar e chegar perto do Sol. O autor deixa claro, inicialmente, a leitura de que o amor (não a paixão, como seria costumeiro) não se coloca conservador como Dédalo, mas atrevido e inconsequente como Ícaro. Outra provocação – ou desconcerto – é também incluir os “antônimos” amorosos. É na irreverência que Ivens desabrocha completamente: “às vezes sinto/ que meu pensamento/ é um labirinto/ onde se perdeu// azar o meu”. Daí que, já na capa, sabemos que o poeta não vê só tragédia, mas o viés risível e patético do amor. Não seria Ivens Scaff, caso não houvesse deboche: “vai, desenha a casa/ vamos sonhar/ pagando por toda a vida/ as prestações do BNH”. Trata-se do signo da inteligência da civilização pantaneira.

Em geral, Ivens adota a poesia moderna e curta como referência, costurando uma rima eventual no arremate frasal inesperado. Alguns poemas de duplo sentido desnudam a picardia do espírito do autor: “terminou gozado/de dentro pra fora/ antes mesmo/ de você ir embora/ uma fria ordem:/ Vá!/ sozinho pelo mundo afora”. De qualquer forma, ainda que no formato moderno, o poeta é irremediavelmente romântico no conteúdo. Idealiza o passado como “melhor” do que o presente, indicando a regressão como caminho da felicidade. “O sinal aberto é uma inutilidade”, pretende convencer o leitor de que é melhor parar no tempo para amar. E, caso não haja sucesso, a culpa é exorcizada por Ivens: “não deu certo por um triz/ nós quisemos/ nos quisemos/ a vida é que não quis”. A conformação com o desfecho faz com que não haja rancor na visão amorosa: “vejo que o nosso amor/foi o que podia/ foi o que tinha que ser”. Ou seja, o Cronos de Ivens é mau, deletério, desagregador. Continue Reading

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Bovinices literárias

Em MS, acabaram com o ensino da literatura! Quando fiz o haicai “talvez seja o clima/ criando rebanhos/ de gente bovina”, estava sufocado com a bovinice da nossa intelligentsia mato-grossense. Tudo muito tacanho em termos de apoio cultural. Talvez por serem nossos governantes partidários do agronegócio, onde o que há para ler resume-se a um manual de tratores ou as instruções de um herbicida. Exceções aqui e acolá que só confirmam a regra: vivemos ilhados num bolsão de calor e de ignorância, onde o poder público não enxerga a cadeia produtiva da cultura e da educação. O caso piora em Mato Grosso do Sul. As autoridades resolveram extinguir o ensino de literatura como disciplina independente. Se quiser ler algo, o infeliz aluno do ensino público só poderá apreciar um fragmento de texto, caso estude gramática. Continue Reading

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À Beira de um ataques de nervos, por Eduardo Mahon

À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS (E.M)Qualquer governo precisa de apoio popular. Além do voto, um governo se sustenta…

Publicado por Eduardo Mahon em Sexta, 20 de janeiro de 2017

À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS (E.M)

Qualquer governo precisa de apoio popular. Além do voto, um governo se sustenta com base em vários segmentos: agronegócio, indústria, comércio, cultura, esporte, sindicatos e, claro, o suporte político que representa diretamente o eleitor. O governo Pedro Taques, mais do que qualquer outro, precisa de apoio. Isso, por algumas razões evidentes: não se trata de político tradicional com staff previamente montado, não conta com ramificação político-partidária em todo o Estado, sucedeu um governo desacreditado pelos escândalos que ultimaram prisões, bloqueios de bens e outras medidas inéditas contra ex-gestores, enfrenta a maior crise financeira de Mato Grosso, demandando enorme paciência dos servidores públicos. Ocorre que, para haver transformação verdadeira, um enorme esforço de consenso, de diálogo e, sobretudo, de humildade deve ser realizado. Continue Reading

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Pobre País Rico – por Eduardo Mahon

Meus amigos, às vésperas do ano novo, trago más notícias. O Brasil não chegará a lugar algum no ano que vem, nem na próxima década. Muito menos Mato Grosso. Triste, né? Pois então. Em meio a tantas urgências do país, a maior das reformas é adiada indefinidamente. Tem gente que pensa ser a reforma política a nossa redentora. Ou a trabalhista. Há quem pense que o problema nacional é tributário. Estudiosos apontam para a questão previdenciária. Alguns radicais exigem a reforma penal, com direito a prisão perpétua e pena capital. Outros ainda divagam sobre a importância da soja etc. São muitas teorias e muitos teóricos de mentalidade bovina. Todos nós – todos, sem exceção – sabemos que, no fundo, as coisas não se resolvem por força de decreto. Mesmo assim, teimamos em acreditar que um conjunto de leis poderá mudar uma realidade social. No fundo, já estamos cansados de saber que um país só vai para frente com educação. Mas educação é como rede de esgoto: não aparece, não dá voto e demora para fazer.

No pós-guerra, países como Coréia do Sul, Taiwan, Cingapura, Japão, China investiram maciçamente em educação e tecnologia e hoje conseguiram não só sair da miséria em que viviam, mas despontar em crescimento e distribuição de renda ao lado de tradicionais nações educadas como Holanda, Suíça, Finlândia, Noruega, Suécia, Bélgica e França. O Brasil fica na 60ª posição de 76 avaliados no PISA pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. É um desastre. O Brasil ocupa a 51a posição em 68 países em que se mede a velocidade de conexão para troca de dados pela rede mundial de computadores. No Ranking Mundial de Universidades da Times Higher Education, a nossa melhor universidade que é a USP está em 158o lugar e a Unicamp está compreendida entre o grupo de 401-500. Também somos o 8o país mais analfabeto de todo o mundo diz o Comitê de Educação da ONU. De acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, 44% do país não leu um único livro no ano e 30% nunca comprou um livro na vida. Continue Reading

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Manual de instruções para um ano novo

É no sumidouro de dezembro que se classificam os anos. Há os que são leves. Espevitados, encasquetam em correr como doidos. Lembram de 1994? Pois então. Não tomam fôlego e nem água gelada. Começam como todos os outros, num janeiro qualquer e já pulam pra março; depois, pra julho e, quando menos se espera, alcançam novembro; daí então, é uma questão de tempo para a hora derradeira. Os incautos entreolham-se bestificados tentando compreender uma circunvolução do planeta mais veloz, um adiantamento desproposital de vida. Mas não. Conferidos os relógios e ajustados atomicamente entre paralelos e meridianos, estava tudo nos conformes, ainda que juremos de pés juntos uma velocidade incomum do ano fujão. São os anos mais queridos. Os meninos que chegam em casa com o joelho ralado na queda da bicicleta, com o dente quebrado no jogo de futebol ou cobertos de lantejoulas de carnaval. Esses sim deixam saudade. Continue Reading

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Cartografia da Cama, por Eduardo Mahon

mahon15BNo início, estranhei dormir com alguém ao lado. Não sabia se ia conseguir me acostumar. É como um travesseiro novo. Custa habituar. O travesseiro sabe de tudo: as ansiedades, as impaciências, os sonhos. É quase um segundo casamento. Só falta a aliança e o papel passado. A presença da mulher reconfigura a geografia da cama. Pela manhã, ficam os decalques dos corpos. Não só do corpo, mas da alma. Se alguém se metesse a fazer uma pesquisa, certamente haveria de bolar uma cartografia da cama: quem fica com o cobertor, quem dorme no centro, quem quer encaixar, quem se exila as bordas. Nesse território, há mais do que o terreno. Pode-se medir a temperatura. Contrastando com o ambiente glacial do quarto invernado no potente condicionador de ar, há o calor irradiando do corpo da mulher. Continue Reading

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Ai de ti, Cuiabá – Por Eduardo Mahon

Por Eduardo Mahon

Não vou me meter a pregador. O proselitismo enche infernos de muitas naturezas. Mas gosto muito da expressão “ai de ti, Jerusalém” que retrata o choque de Jesus ao chegar à capital hebreia. A frase é simples. Passa uma emoção verdadeira. Um homem que tem pena de uma cidade pelos caminhos que seguiu. Lembrando desse trecho, olho para a campanha política e só consigo pensar: ai de ti, Cuiabá! É que o marketing político enfiou na cabeça dos candidatos que o melhor caminho para a vitória é a “desconstrução dos adversários”. Pode até dar resultado. No entanto, essa postura não rompe com um ciclo negativo na política nacional, onde reina o baixíssimo nível que os candidatos aceitam. Sim, eles aceitam. Tanto Emanuel Pinheiro quanto Wilson Santos aceitam se submeterem a ponto de atingirem a família alheia. A família deveria ser uma espécie de tabu.

O que me importa mais, enquanto eleitor? Ainda insisto nas propostas e sobre elas sustento a minha intenção de voto. Nos debates – além de lamentáveis colocações rasteiras e ataques pessoais – restou claro que Wilson Santos é o mais experiente e preparado para administrar a capital mato-grossense. E ponto final. Isso pode não significar nada. Em alguns casos, a experiência pode não ser o fiel da balança e a vontade de mudança é sempre uma tendência atrativa. A campanha de Emanuel Pinheiro, carente de realizações palpáveis na área administrativa, tenta se identificar com o sentimento popular em favor do “novo”. Faz muito bem. A sociedade quer mesmo experimentar coisas novas. Nesse ponto, acredito que ele esteja acertando. Ocorre que Emanuel Pinheiro não só não é novo na política, como não representa a novidade. Eis aí o problema insolúvel, na minha opinião. Muito ao contrário: estão enfeixados na candidatura de Pinheiro muitos segmentos arcaicos da política que o povo despreza ou condena, inclusive eu. Além de não conseguir perceber a exequibilidade nas propostas de Emanuel Pinheiro, sei política não se constrói sozinha. É preciso ter grupo. E, nesse momento, o grupo dele representa o que experimentamos de pior na história republicana da administração pública.

O candidato Wilson Santos também tem problemas. A administração de seis anos foi incapaz de gerar um grupo orgânico de apoiadores para a eleição atual. É claro que a candidatura foi sacada de chofre, depois do vergonhoso recuo do prefeito Mauro Mendes. No entanto, fico chocado como é possível um prefeito tão bem avaliado como foi Wilson Santos perder a enorme base popular que tinha. Daí que foi obrigado a socorrer-se de apoiadores externos, misturando-se à imagem do governador, de secretários, até mesmo do prefeito Mauro Mendes que toma uma postura dúbia, condenável e medrosa diante do pleito. Não acredito que a frustração popular com a saída de Wilson da prefeitura tenha sido capaz de gerar a alegada rejeição. Foi uma somatória de fatores, como cogitou Alfredo da Motta Menezes: o impacto da saída somou-se à popularidade petista da época, à rejeição tucana em todo o país e ao isolamento do partido em Mato Grosso, carente de líderes que emprestassem musculatura eleitoral.

Ai de ti, Cuiabá! Nessas eleições temos um candidato que se diz “novo”, mas já está aposentado há muitos anos e, pior, para sempre. Tudo indica que não há o menor constrangimento no candidato que não sabe a diferença entre o que é legal e o que é moral. De outro lado, outro candidato que se diz experiente, mas não tem sido feliz em demonstrar essa experiência toda ao fazer a mesma campanha figadal que promove o adversário. Ai de ti, Cuiabá! Fico aterrorizado ao pensar que a cidade que eu amo pode ser legada a um grupo que abraça derrotados de muitos matizes, alguns deles processados, outros presos, viúvas de patrões que estão no Carumbé pelo roubo institucional que realizaram no Estado de Mato Grosso, sob as barbas dos fiscais que dormitaram sobre faustosos salários. Ai de ti, Cuiabá! Teremos que suportar acusações contra esposas, irmãos, cunhados, filhos, atingindo covardemente as famílias que não mereciam pagar esse preço? Não, o eleitor não merece um “falso novo”, nem um “velho falso”. É preciso mudar a política. Mudar com responsabilidade. Fica aqui o alerta aos candidatos e aos profissionais de comunicação social que os acompanham e aconselham. Ao povo, lamento – ai de ti, Cuiabá!

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Estado de Gestação – Por Eduardo Mahon

Por Eduardo Mahon

O bordão “Estado de Transformação” é muito pretensioso. O que é transformação? Entendo que o novo governo propunha uma reformulação na forma de gerir a máquina pública, estancando os desvios dos administradores criminosos, o desperdício burocrático de servidores pouco engajados e, finalmente, o lançamento de uma plataforma consistente para o futuro em termos de educação. Transformação não é reformar escolas ou construir novas unidades, mas repensar a modalidade educacional com escolas de tempo integral, aulas interdisciplinares, aporte tecnológico, estímulo à pesquisa e consumo de material produzido no próprio Estado. Transformação é salvar uma criança sem futuro para transformá-la num cidadão criativo, produtivo e independente. Asfalto é importante? Claro que sim. Saúde é importante? Evidente que sim. Segurança pública é essencial? Sem dúvida que sim. Mas nada transforma uma sociedade, se não for pela educação. Isso sim é comprometer-se com o futuro.

Tive o orgulho de presidir a Academia Mato-Grossense de Letras, instituição que completa 95 anos. Fizemos audições com os candidatos ao governo. Todos comprometeram-se com a Casa Barão de Melgaço que é a instituição cultural mais tradicional do Centro-Oeste. Pedro Taques foi eleito. Ficamos felizes por acreditarmos num governante instruído que prezaria a educação como prioridade máxima do governo. Na oportunidade, firmamos um contrato para a transferência da Biblioteca Estevão de Mendonça para o anexo da Casa, num arrojado projeto de popularização da literatura para a juventude. Fomos além. Cobramos o cumprimento de duas legislações mato-grossenses (1993, de iniciativa do dep. Francisco Monteiro e de 2000, do deputado Hermes de Abreu) que tratam da inserção da história, geografia e literatura mato-grossense em sala de aula com a aquisição de livros produzidos por autores regionais. E o fizemos não em favor da Academia de Letras ou do Instituto Histórico e Geográfico e sim em benefício da sociedade mato-grossense. Nada foi cumprido.

Tenho vergonha de mim mesmo pelo Estado de Mato Grosso. O tempo passa sem nenhuma resposta. Não será possível transformar nada em Mato Grosso sem um maciço incentivo à cultura e à educação fundamental e de ensino médio. Enquanto discute-se a polêmica parceria público-privada num diálogo de surdos-mudos, o que importa de verdade não é colocado à mesa – pedagogia. De um lado, a máquina pública quer de desonerar da gestão de obras, o que faz muito bem. De outro, os sindicatos lutam por melhores salários, o que também não é errado. Mas quem defende o ensino? Quem debate pedagogia? Quem aponta as deficiências no rendimento escolar? Ninguém. As editoras mato-grossenses passam dificuldades, muito embora nunca tenhamos tanta produção de qualidade como a dos tempos atuais. Não há compra de lotes de livros pela Seduc, pela Secitec, pela Unemat. Estamos condenados a mais uma geração de estudantes ignorantes na própria história, geografia e literatura produzida no Estado em que vivem. Aposto que os alunos não sabem nem sequer a origem dos símbolos Mato Grosso. Aliás, sou capaz de apostar a vida que nenhum político sabe o hino do Estado que representam.

Quero lembrar ao Senhor Governador Pedro Taques do trecho do nosso grande escritor Ricardo Guilherme Dicke, citado por ele mesmo no discurso de posse que fez da tribuna da Assembleia Legislativa: “Saciado como a preponderância do sonho sacia, entre os caminhos que se multiplicam no presente, saciado enfim do tempo que quanto mais sacia, mais fica por saciar; persigo o sonho que não sacia, saciado da opulência do sonho, sequioso da sofrida realidade”. Ora, foram quase dois anos de administração. Não fomos saciados em nossos sonhos que nem sequer começaram a ser sonhados. O ensino mato-grossense continua carecendo de história, geografia e literatura mato-grossense. É triste. Não preciso ser nenhum vidente para concluir que, sem livros, não haverá qualquer transformação verdadeira em Mato Grosso. Se não melhora o fundamento mais importante da formação de um povo – a educação – tudo será exatamente igual em dez, vinte, trinta anos. Continuamos num “estado de gestação”, de eterna espera não saciada do tão prometido quanto pretensioso “estado de transformação”. Saudade de Dicke que o governador sabe quem foi, mas os governados nunca chegaram a ler.

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Nós não somos Emanuéis

Por Eduardo Mahon

Fomos colonizados por muitos Emanuéis. Os filhos de portugueses nobres que voltavam à terra natal com as burras cheias de ouro foram os primeiros a serem chamados de ‘brasileiros’. Nem bem chegavam aos trinta anos e já estavam montados na riqueza que havia de sustenta-los (e às gerações seguintes), afora as vantagens oficiais. Antes da independência, um homem vil como Joaquim Silvério – o traidor de Tiradentes –obteve pensão de 200 mil réis e outros tantos colaboradores do governo central foram ungidos de títulos e prebendas. Em seguida, já com o país formado, o Brasil foi predado por uma elite de sinecuras que sobreviveu do Estado, nascidos e falecidos sob a égide de vantagens pessoais. Essa prática predatória estendeu-se mesmo depois de findo o exercício do poder. A Lei 7474 de 08 de maio de 1986 garantiu servidores e motoristas aos ex-presidentes, benesse que perdura até os dias atuais.

Os Emanuéis são aqueles que pretendem viver do Estado. O caso do deputado estadual mato-grossense é paradigmático. O fundo de assistência parlamentar, o FAP, foi extinto por notória imoralidade. No curso do mandato, um Emanuel resolveu apoiar a iniciativa de reaviva-lo para usufruir, ele mesmo, da vantagem de R$ 25 mil reais por mês. O ganho relativo à aposentadoria prossegue incólume, mesmo no exercício do mandato parlamentar, o que já seria um escândalo, pois qualquer aposentado que volta ao trabalho deve continuar contribuindo. O prejuízo aos cofres públicos soma mais de 750 mil reais por mês aos beneficiários, ainda que tenham contribuído quatro, cinco, seis anos apenas. Isso para não falar no salário do deputado que é de R$ 23 mil, mais R$ 65 mil mensais para cobrir eventuais gastos, sem qualquer controle ou obrigatoriedade de prestação de contas. Portanto, os Emanuéis contemporâneos acumulam salário, uma ou duas aposentadorias e, ainda, amealham verbas indenizatórias das mais variadas naturezas.

Essa indiferença com o erário é compensada por discursos sedutores de “proteção ao servidor público”. Oferecem o sonho do aumento salarial, independentemente das condições financeiras dos cofres públicos. Dobrar turnos? Criar exércitos? Aumentar salários? Pagar indenizações? Estender aposentadorias? Ora, qual seria o problema? A figura dos precocemente aposentados é inspiradora a quem sobrevive com dificuldade. É o sonho dos pequenos Emanuéis sindicalizados, associados: tornarem-se grandes Emanuéis, pouco importando o custo insuportável à sociedade. Daí que, se for legal, pode ser imoral – não se importam. Assustadoramente não se incomodam, ainda que sejam eleitos pelo povo que se pauta em exemplos não só legais, mas também morais. Ocorre que nossa gente está mais instruída. A informação em tempo real, divulgada instantaneamente, pode sensibilizar quem paga essa conta.

Não somos um país de Emanuéis. Prefiro acreditar que não seja esse o nosso projeto para o futuro: um Estado hipertrofiado e assistencialista. Em minha opinião, o Brasil não aguenta mais. Mato Grosso não aguenta mais. Cuiabá, ainda que seja capital, não tem condição de suportar o financiamento dos Emanuéis plantados no poder público pelos padrinhos que defendem a lógica corporativa e protecionista. Não podemos mais tolerar esse tipo de colonização, onde o poder público é espoliado sistematicamente por um séquito que garante a própria sobrevivência com base em vantagens imorais. Na proximidade de completar 300 anos, a cidade de Cuiabá precisa lembrar a rapina que se deu desde os tempos das minas. Muito a propósito dos muitos Emanuéis que pretendem continuar se sustentando nos úberes públicos, finalizo esse artigo relembrando Gregório de Matos: “a cada canto um grande conselheiro, que nos quer governar cabana e vinha; não sabem governar sua cozinha, e podem governar o mundo inteiro”.

Fonte: (29) Eduardo Mahon – NÓS NÃO SOMOS EMANUÉIS Fomos colonizados por…

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Agradeço a oposição

Por Eduardo Mahon

Silval Barbosa não tinha oposição. Sem ninguém que colocasse freios, que fiscalizasse, que pressionasse, deu no que deu. Ele está preso, juntamente com outros integrantes que são confessos. Alguns elementos da quadrilha celebraram acordos de delação premiada, onde descreveram o funcionamento da organização criminosa e entregaram bens obtidos ilicitamente.

Nenhum governo se sustenta sozinho, como todos sabem. É necessário o amparo parlamentar. Tanto que, pouco tempo depois do desbaratamento da quadrilha, o que se viu foi o envolvimento de outros parlamentares. Acredito que ainda faltem alguns outros.

Sobretudo quando o assunto se trate de incentivos fiscais, onde tudo indica que empresas se beneficiaram ilegalmente, por intermediação de parlamentares que participaram do butim ao Estado de Mato Grosso. É que algumas posições, como as comissões parlamentares de inquérito, garantem que políticos possam pressionar empresários e celebrar acordos com executivos da administração pública, como se vê em todo o território nacional.

Pedro Taques tem uma oposição organizada. É pequena, mas barulhenta. É bom que haja oposição! O governador deveria agradecer. Demarca a diferença entre grupos. Ademais, bem ou mal-intencionados, deputados e políticos opositores dão uma assessoria gratuita ao governador, apontando as muitas falhas que são naturais em qualquer administração.

Assim sendo, oposição não se lamenta, comemora-se. Quando deputados da oposição, além do posicionamento legítimo, assumem que estão em grupos políticos opostos, fica muito mais fácil ao eleitor saber distinguir. Com todos os percalços, todas as frustrações, todas as reservas ao governo Taques, o eleitor faz a si mesmo uma pergunta básica: afinal, o que é melhor: um governo corrupto como o de Silval Barbosa onde não havia oposição ou um governo como o de Taques em que há resistência parlamentar?

Alguns equívocos devem ser debelados, já de início. O primeiro deles é identificar todos, indistintamente, que participaram do governo Silval Barbosa como corruptos. Isso não é uma verdade. Passa longe disso. A grande maioria dos que integraram o governo, seja lá de que escalão pertencessem, são honestos e não merecem a tatuagem do opróbio. Essa é uma simplificação perigosa, até porque no atual governo tucano há um caso emblemático de corrupção.

Isso não significa que o governo todo é corrupto. Longe disso. Outro erro é imputar à oposição a mesma pecha de corrupta. Como já dito, ter oposição é bom. Eu diria que é ótimo. O que é um sinal claro de esquemas escusos é a falta de oposição. Um dos maiores indícios de que o governo Taques permanece longe do ilícito é a oposição que recebe. Alguém já dizia que os adversários nos qualificam. É esse mesmo o caso.

Outro equívoco que não pode ser cometido é identificar uma agremiação partidária com uma quadrilha. O PT, por exemplo, tem presidentes e tesoureiros presos e condenados, recebeu dinheiro ilicitamente do exterior, intermediou mesada a parlamentares, arrecadou dinheiro para campanhas eleitorais por meio de chantagem, mas ainda assim, tem muita gente honesta que nunca participou desse tipo de esquema criminoso.

Cabe aos filiados avaliarem se apoiam ou não os atos dos dirigentes. Aliás, se os partidos não podem ser avaliados por seus dirigentes, como o seriam? A solução é simples: a militância que homenageia criminosos torna-se igualmente repreensível, muito embora não responsável. Por isso que os partidos devem se posicionar de forma rápida contra atos de seus filiados corruptos. Nesse item, todos os partidos, sem nenhuma exceção, precisam dessa autocrítica.

O governo Taques enfrenta uma dupla crise: a primeira é suceder o caos estadual causado por uma trupe que está processada e presa em penitenciárias, com vários membros confessos; a segunda é suportar a maior crise brasileira de todos os tempos. Alguns economistas do passado diziam que o Estado não quebra. Erraram obviamente. É claro que entes públicos podem sim ir à lona.

A irresponsabilidade de aumentos do funcionalismo sem o lastro financeiro necessário, pressão previdenciária sem base de contribuição, endividamento por obras inacabadas, além do próprio desvio criminoso, formaram um quadro que não se resolve facilmente. A despeito de tudo isso, todavia, ainda assim, não se pode classificar a oposição ou os partidos políticos como corruptos.

Pedro Taques deve caminhar para frente. Quem cuidará da gestão passada é o judiciário mato-grossense e, eventualmente, o sistema prisional. Mesmo que não devamos esquecer o passado, não dá pra manter nossa lanterna na popa. É preciso ter cuidado com generalizações para não ofender quem não participa de esquemas corruptos, nem tampouco para desprezar a oposição que dá uma consultoria gratuita. Meu pai sempre sacava uma palavra no dicionário para me orientar nos debates em que eu participava ou comentava: lhaneza.

Independente de lado, de convicção, de tudo… é preciso ter lhaneza no trato com terceiros. Pedro Taques deve agradecer, portanto, pela oposição que tem, com as pessoas que a integram, com as intenções que demonstram, com o histórico que apresentam. Politicamente, fica muito mais fácil identificar quem é quem.

Eduardo Mahon é advogado em Cuiabá (MT)

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O voto masoquista no Procurador

Por Eduardo Mahon Pense um instante: quanto tempo o Procurador Mauro se manteria no cargo de prefeito, se fosse eleito? Na campanha eleitoral, ele não tem um único candidato a vereador e, provavelmente, o PSOL não fará nenhuma cadeira na Câmara dos Vereadores de Cuiabá. Minha aposta é que não esquente a cadeira por seis meses.

Como se sabe, o partido controlado pela família do político não se coliga com nenhum outro, dificultando ainda mais a governabilidade. Diz o Procurador Mauro que governará por meio de plebiscito. Além de ilegal, ele não tem a menor ideia do custo milionário de uma consulta popular dessa natureza, ainda mais com pautas municipais.

Cuiabá não merece uma instabilidade dessa natureza. O voto de protesto deve ser consciente, sobretudo em tempos de crise. É a Câmara dos Vereadores – onde o Procurador Mauro não terá um único aliado – quem regula a vida municipal. São os vereadores quem aprovam as contas encaminhadas pelo prefeito, autoriza empréstimos, aprova convênios, fiscaliza a administração direta e indireta e, até mesmo, autoriza consulta popular como tanto prega o candidato do PSOL.

Noutras palavras, nem se o prefeito quiser, poderá convocar referendo ou plebiscito, conforme art. 11, XVII da Lei Orgânica de Cuiabá. É o mínimo de conhecimento que se esperava de um político que se candidata seguidamente de dois em dois anos. Lamentavelmente, o Procurador Mauro vem a público com uma plataforma revolucionária sem qualquer base fático-jurídica.

Temos uma composição atual da Câmara dos Vereadores de Cuiabá que seria impossível ao Procurador Mauro governar. Dos 25 vereadores da Casa, apenas 7 poderiam eventualmente servir de sustentação para um governo do Procurador Mauro, pertencentes ao Partido dos Trabalhadores. Isso porque a Executiva Nacional já determinou aos filiados do PSOL: “refutamos desde já qualquer aliança com partidos da direita, tais como: PSDB, DEM, PMDB, PR, PRB, PTB, PSD, PPS, PSC, SD e PP”.

Assim sendo, sobram o PT, o PSB e o PV que somam apenas 7 cadeiras, o que significa que o Procurador Mauro não teria força para aprovação de lei, indicações para cargos públicos, aprovação de contas. Nem o tão esperado plebiscito poderia ser efetivado sem apoio maciço do parlamento municipal.Essas constatações podem parecer excessivamente técnicas.

Mas fico sinceramente preocupado com o tipo de experiência que cidadãos inteligentes pretendem se aventurar. Parece-me que entramos num estado de desesperança tão grave que alguns cidadãos são capazes de se flagelarem com a ingovernabilidade. Hoje, mais do que nunca, será exigido um redobrado trabalho dos vereadores cuiabanos, porquanto reformas administrativas para equacionar as contas públicas devem ser realizadas, sob pena de insolúvel crise financeira. Em pleno jubileu de 300 anos de Cuiabá, a cidade não pode permanecer à deriva.

Penso que, francamente, o Procurador Mauro não quer se eleger de verdade. Se quisesse mesmo, poderia começar a carreira política no Poder Legislativo, seja como vereador, seja como deputado estadual. Sim, teria condições, base eleitoral e não seria nada mal àquele que pretende governar algum dia. A experiência parlamentar poderia amadurecer o candidato profissional a ponto de fazê-lo visualizar a importância da coligação partidária para dialogar e para governar.

A crônica megalomania política do Procurador Mauro nos leva a crer que o PSOL está a serviço apenas para abocanhar um naco do fundo partidário e promover uma única pessoa – ele mesmo, o líder, o presidente, o maioral Procurador Mauro. Imaginem se governasse de forma autocrática, sem qualquer base de apoio.

Se a Presidente da República não se mantém no cargo sem apoio parlamentar, o que dizer de um prefeito que se recusa à composição política? Seria uma tragédia para Cuiabá. Eu não mereço isso. Você também não. Não seja masoquista – vote com responsabilidade.

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Pátria furtada

Dirigentes petistas são tão desprezíveis, tão pequenos, mas tão mesquinhos que, dos 568 itens que a presidência recebeu de outras representações internacionais, Lula deixou no patrimônio apenas 9. Dilma não foi diferente: dos 163 itens, 6 apenas ficaram para a União. Embolsaram tudo. No Palácio, sumiu até mesmo a faixa presidencial, com ouro e pedras preciosas. Os dados são do TCU e, portanto, são oficiais.

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Medalha de Ouro para o Brasil

Enfim, o PT está se retirando. Discretamente, pela porta dos fundos. Sem alarde, de madrugada, durante a Olimpíada. Ninguém quer mais saber o que já se tornou óbvio. Não houve revolta, não houve resistência, não houve conflito. Os longos anos de roubo institucionalizado do petismo serão enclausurados na prisão. Nenhuma ruptura institucional, nenhuma comoção social, nenhuma paralisação duradoura. Eles cansaram. Que bom. Cansaram antes de cansar o Brasil. Mas quase acabaram com a economia. Recessão de dois anos. Bilhões no buraco. O resto da chapa petista, ou seja, o atual PMDB não representa o novo. Nada de novo. Tudo na mesma. O ajuste econômico vem agora. Será amargo. Apertem os cintos. Por aqui, em MT, ainda há restos a liquidar: muitas viúvas da administração passada, muita gente querendo continuar ganhando, aproveitando para tirar uma casquinha. Que saudade da boquinha. Que saudade dos consignados. Que saudade das propinas nos licenciamentos ambientais. Parece que 1 ano de cadeia não acalmou a vontade de voltar ao poder. Tenho esperança de que não embarquemos noutra aventura inconsequente, cuja irresponsabilidade quase nos destruiu. Pense na estabilização financeira. Pense nos antigos problemas de energia que afligiam Cuiabá. Pense em como a cidade seria sem a integração urbana da Miguel Sutil. Lembre de Dante e na injustiça que deve ser reparada. Pense que a cidade pertence a todos e não apenas a um segmento sindical. Pense que os 300 anos precisam ser comemorados por o pé no chão e não com irresponsabilidade e gastança. Reflita. Reflita. Reflita sem emoção. O populismo já jogou na cadeia os irresponsáveis. Ainda estão lá. Não merecemos outros candidatos ao Carumbé. Basta!

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