Até hoje, vinte anos depois, as mães dos meninos assassinados buscam por justiça; no local das execuções foi erguida uma estátua, esculpida pelo artista plástico Jonas Côrrea

NO BECO QUE A CIMEIRA NÃO VIU

Por Johnny Marcus | “14 anos, quinze tiros de fuzil, as vísceras esfoladas, expostas, coagulando. O sol assiste em fogo o sonho de viver que ainda pulsa nos miolos”.

Esse verso dantesco é de autoria do poeta Edson Veóca e faz parte de um projeto de inclusão social chamado “Literatura Marginal”, idealizado e publicado pelo escritor Ferrez, em 2000, em parceria com a revista “Caros Amigos”, da qual é colunista.

Ferrez é morador da favela de Capão Redondo, na Grande São Paulo, e autor de diversos romances. Os mais conhecidos são “Capão Pecado” (2000) e “Manual Prático do Ódio” (2003). Tive a felicidade de ler ambos tão logo foram publicados.

Assim que deitei os olhos nas palavras de “No beco que a cimeira não viu”, no ano 2000, senti uma tristeza profunda e foi inevitável não pensar na chamada Chacina do Beco do Candeeiro, ocorrida dois anos antes em Cuiabá.

Em 10 de julho de 1998, os adolescentes Adileu Santos, o Baby, 13, Edgar Rodrigues de Arruda, o Indinho, 14, e Reginaldo Dias Magalhães, o Nado, 16, foram executados com tiros à queima roupa, na rua 27 de Dezembro, popularmente conhecida como Beco do Candeeiro, no centro histórico da capital.

O caso ganhou grande repercussão na mídia local e nacional, e gerou grande comoção social. Contudo, as investigações conduzidas pelo Ministério Público levaram a um único suspeito, o ex-policial militar Adeir de Souza Guedes Filho, 49, que acabou absolvido por falta de provas, após submetido a júri popular, em 2014.

Até hoje, vinte anos depois, as mães dos meninos assassinados buscam por justiça. No local das execuções foi erguida uma estátua, esculpida pelo artista plástico Jonas Côrrea, ao mesmo tempo tributo aos jovens e promessa de que os crimes jamais seriam esquecidos.

Os autos do processo, com mais de mil páginas, sugerem inépcia por parte do Ministério Público para a elucidação do caso. A investigação trabalhou, primordialmente, com três vertentes: os homicídios teriam sido cometidos por um pistoleiro profissional a mando dos comerciantes da região, supostamente inconformados com sucessivos assaltos, ou como ação de um processo de eugenia implantado na capital e até mesmo como vingança do cabo Hércules de Araújo Agostinho, o pistoleiro de João Arcanjo Ribeiro, porque uma das crianças teria roubado um cordão de ouro de sua esposa enquanto ela voltava de ônibus para casa.

Cômico se não fosse trágico, essa linha de investigação não pôde ser comprovada porque os cartuchos recolhidos na cena do crime foram “perdidos” dentro do Fórum da Capital, o que inviabilizou um laudo de balística com a arma de Hércules, uma pistola 765, semelhante a arma usada pelo policial militar Sandro Márcio Martines para matar Alinor Santana Pereira, em 1999.

Toda essa situação não resolvida sempre mexeu comigo e, por conta do peso dos vintes anos passados, resolvi produzir um livro-reportagem sobre o caso. O provável título será “Beco Sem Saída – A Chacina do Beco do Candeeiro 20 anos depois”.
Pretendo inicialmente mostrar como esses meninos chegaram às ruas. E aqui cabe um esclarecimento importantíssimo: nenhum deles era de fato “menino DE rua”. Ainda que passassem vários dias perambulando pelo centro histórico, eles sempre voltavam às suas respectivas casas.

O Baby, por exemplo, nem em Cuiabá morava. Residente em Cáceres, estava na capital há uma semana, onde veio passear porque a escola pública onde estudava estava em greve. Quem esclarece a situação é sua mãe, dona Maria Santos.

Também conversei com dona Albina Rodrigues de Arruda, mãe de Indinho. Segundo ela, o filho estava de férias da escola quando foi assassinado. Ainda não consegui contato com a mãe de Nado. De acordo com relatos, ele não foi criado pela mãe biológica.

O mais importante desse projeto literário-jornalístico é resgatar a humanidade dessas crianças. Contar suas histórias, relembrar seus sonhos. Em segundo plano está o desejo de esmiuçar ao máximo as investigações conduzidas pelo Ministério Público através de análise dos autos do processo e depoimentos das autoridades competentes.

Há cerca de um mês tive a felicidade de conhecer o “Psicanálise na Rua”, coordenado pela professora Adriana Rangel, do departamento de Psicologia da Universidade Federal de Mato Grosso. O projeto social atende pessoas em situação de vulnerabilidade no centro histórico de Cuiabá e marcou para hoje, 10 de julho, um ato em memória da chacina do Beco do Candeeiro.

Desde a manhã estão ocorrendo intervenções, como limpeza do Beco, maquiagem das moças e ensaio fotográfico. As fotos serão expostas a partir das 17h, no próprio Beco, quando haverá apresentações artísticas. Dona Albina, mãe de Edgar, e dona Maria, mãe de Adileu, vieram de Lucas do Rio Verde e Cáceres, respectivamente, exclusivamente para participar do ato.

A companheira Gabriela Rangel, antropóloga e filha da professora Adriana, é quem está à frente da organização. Ela conta que o tributo de hoje vai além da chacina ocorrida há vinte anos e é “uma forma de dar espaço a essas pessoas que de alguma se excluíram ou foram excluídas do meio social. Será um dia de intervenção para dar um presente a essa população de rua como representantes e herdeiros desses meninos chacinados”.

Também fazem parte deste coletivo a Associação dos Familiares Vítimas da Violência (AFVV), a União de Negros pela Igualdade (Unegro), Instituto Mulheres Negras de Mato Grosso (Imune), A Lente, Outros 300, entre outros parceiros.

A sua participação é importantíssima. Venha trocar uma ideia com a gente. Vamos discutir essa questão. Ela diz respeito a todos nós.

Reforçando que o ato acontece hoje, 10 de julho, a partir das 17h, no Beco do Candeeiro, na praça Senhor dos Passos.

LEIA E AJUDE DIVULGAR. COLEGAS JORNALISTAS EDITORES DE SITES, SINTAM-SE À VONTADE PARA REPRODUÇÃONO BECO QUE A CIMEIRA…

Publicado por Johnny Marcus em Terça-feira, 10 de julho de 2018

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Mr. Gentleman

Tenho me comunicado, há alguns anos, com um senhor britânico. Foi ele que tomou a iniciativa do primeiro contato, a partir de leituras de textos de minha autoria publicados nas redes sociais. Senti-me – por supuesto – muito lisonjeado. Típico dos britânicos, reservado, fala muito pouco sobre si mesmo. Nem sei o seu nome. Ele assina os e-mails simplesmente como “gentleman”. A bem da verdade, tudo que sei é que vive em Londres, é escritor e apaixonado pelo Brasil. Viveu um tempo aqui e por isso fala fluentemente o português. Levando-se em conta sua retórica e referências textuais, eu diria que deve ter em torno de sessenta anos. Quando leio suas mensagens, a imagem que me vem à cabeça é a do ator Kenneth Branagh que, assim como eu, é apaixonado pela obra de Shakespeare.

Ainda que exista a possibilidade de eu estar sendo enganado por algum(a) maluco(a), tenho aprendido muito com Mr. Gentleman (ele achou hilária a alcunha). Talvez a maior lição tenha sido a de ser gentil. Um gentil-homem. Um gentle-man. A gentileza, em suas palavras, é uma das portas de entrada para a bondade neste mundo. Contei-lhe a história do profeta Gentileza (aquele da música da Marisa Monte) e ele ficou encantado. Continue Reading

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Errando e Mentindo – Por Johnny Marcus

johnnymarcusEm um de seus editoriais de hoje (27/11), a Folha debate a propagação de notícias falsas pela internet. Em “A perna longa da mentira”, o editorialista argumenta que “no Brasil, a prática também preocupa. Como nos Estados Unidos, trata-se de um recurso incorporado à prática política, à esquerda e à direita. Dificilmente um usuário de redes sociais deixou de ler que um filho do ex-presidente Lula (PT) é o dono do frigorífico Friboi ou que o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) foi citado na Lava Jato, informações tão enganosas quanto populares. Muitas vezes, veículos da imprensa profissional precisam desmentir as mentiras, tão depressa elas se espalham”.

Correto. Os prejuízos causados pelos comitês da maldade são incomensuráveis. Contudo, ainda que pertinente, o raciocínio não deixa de ser hipócrita. Basta notar a sistemática repercussão que o jornal concede às falácias de veículos que há muito assassinaram o jornalismo, como é o caso de revista Veja. Continue Reading

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Trump e a Cultura-Mundo – Por Johnny Marcus

johnnymarcusOs jornais informam que o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, “cumprirá com sua promessa de deportar milhões de imigrantes sem documentos do país, assim que assumir o cargo em 20 de janeiro”. Segundo o republicano, “o que estamos fazendo é pegar essa gente que é criminosa e suas fichas criminais, membros de gangues, traficantes, que totalizam dois, talvez três milhões. E vamos tirá-los do país e vamos fazer com que sejam presos”.

A declaração acende o sinal de alerta para aqueles que julgavam que se tratava somente de mais uma bravata para chegar à Casa Branca. Temos assim um agravante a somar-se com a delicadíssima situação dos refugiados na Alemanha e em outros países europeus. Racismo e xenofobia em alta escala.

A diversidade cultural, tão salutar para um mundo calcado em valores altruísticos, sucumbe perante uma globalização que, embora promova o acesso a bens de consumo, fecha fronteiras, privatiza lucros e produz uma legião de miseráveis. Cada vez mais escravas dentro dos ideais de liberdade prometidos pelo capitalismo, as pessoas são subtraídas de suas relações sociais, dos modos de existência e da quase totalidade das atividades humanas. Continue Reading

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Il Maestro

Naquele tempo, a praça da República, no centro de Cuiabá, ainda não tinha sido fechada e havia uma ruinha que ligava a travessa João Dias à rua Treze de Junho, passando bem em frente aos Correios.

Onde hoje é a Tecelagem Avenida ficava as Pernambucanas e, do outro lado da rua, na Treze, o ponto por onde passava o ônibus que me levava pra casa, no bairro Cohab Nova.

Garoto, não me incomodava de sentar no meio fio e ficar olhando pras gentes que iam e vinham. Nessa manhã de sábado, sol a pino, as Pernambucanas promoviam suas ofertas “imperdíveis” com uma animada bandinha formada por tarol, bumbo e trompete. Continue Reading

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A Donzela Tenebrosa do PT

Por Johnny Marcus

No livro “He – A Chave do Entendimento da Psicologia Masculina”, o psicoterapeuta estadunidense Robert A. Johnson narra a trajetória do jovem Parsifal, em busca do Graal. Em sua caminhada, o aspirante a cavaleiro da Távola Redonda se defronta com inúmeros desafios antes de chegar (ou não) a seu objetivo. A obra é um raio-x da alma masculina em busca de iluminação. A chave de tudo, de acordo Johnson, está na perfeita harmonia que todo homem deve ter com sua “anima” (princípio animador da vida; mulher interior – segundo Jung). Nada a ver com sexualidade, deixemos bem claro.

Quando finalmente chega à corte do Rei Arthur, Parsifal – agora consagrado cavaleiro com pompa e circunstância – depara-se com a “Donzela Tenebrosa”. Diz o livro: “No auge das festividades dos três dias, a mais horripilante das donzelas aparece como um desmancha-prazeres. Vem montada numa mula velha e decrépita, manca das quatro patas. Traz os negros cabelos arranjados em duas tranças. […] Sua missão era a de mostrar, durante o festival, o reverso da medalha. Aliás, uma tarefa que executa com genialidade. Todos os presentes ficam paralisados. Ela então cita um a um os erros e atos estúpidos cometidos por Parsifal, além da pior de todas as falhas: não ter formulado a pergunta no Castelo do Graal. […] O cavaleiro é humilhado e silenciado diante de toda a corte que, instantes antes, o colocava nos céus. Com a mesma certeza de que o sol se põe, a Donzela Tenebrosa irromperá na vida de um homem sempre que ele atinge o ápice do sucesso”.

O PT, assim como todos os outros, é um partido político essencialmente masculino e dirigido sob a égide do patriarcado. Politicamente falando, o PT é Parsifal. “Ascensão e queda são dois lados da mesma”, canta Humberto Gessinger. A Ação Penal 470 (vulgo mensalão); o escândalo da Petrobrás e por fim o impeachment da presidenta Dilma Rousseff não deixam margem à dúvidas. Golpismos e condenações à base de “liberdade poética” a parte, o Partido dos Trabalhadores está diante de sua Donzela Tenebrosa. A fantasia é rasgada em plena avenida.

Prefeitura de Cuiabá O modelo de gestão petista para as cidades sempre foi altamente eficiente e elogiado internacionalmente. Poderia, não fosse pelo ego e omissão de seus dirigentes, também ter dado certo em Cuiabá. O Comitê da Maldade impediu que Alexandre César chegasse ao Alencastro em 2004. Em 2008, a popularidade de Lula estava na estratosfera e o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), significava uma revolução na área de saneamento básico. Dois anos antes, Carlos Abicalil tinha sido reeleito deputado federal com votação recorde. Aproveitando essa conjuntura, poderia ter sido candidato a prefeito e muito provavelmente teria batido Wilson Santos. Mas não, a meta de Abicalil era o senado em 2012. Outra estrela petista, a então senadora Serys Slhessarenko, também desdenhou da prefeitura e apostou na reeleição. A briga fraticida foi deprimente.

Sendo assim, por movimentação da sempre aguerrida militância, o PT fez suas prévias e o engenheiro José Afonso Portocarrero venceu o médico Alencar Farina. Ungido candidato, Carrero não contava com a astúcia de seus adversários internos e, numa tramoia vergonhosa, foi escanteado para vice em chapa encabeçada por Vera Araújo. Não satisfeitos, os caciques petistas locais também destituíram a candidatura própria e foram se aliar a Mauro Mendes. O sonho durou pouco. Wilson Santos foi reeleito.

Em 2012, a aposta do PT foi o médico e combatente vereador Lúdio Cabral. Até Lula veio fazer comício de apoio. Mas não tem santo que dê jeito em coligação que tenha Silval Barbosa, Carlos Bezerra e Éder Moraes. Ainda mais quando Lúdio sobe na barca furada de assegurar, em palanque, que todas as obras para a Copa do Mundo serão concluídas dentro do prazo. Sabe nada, inocente. Resumo da ópera: Lúdio é derrotado por Mauro Mendes – aquele mesmo que o PT abraçara na eleição anterior. Agora em 2016, Lúdio Cabral não quer saber de eleição. Ele e tantos outros potenciais candidatos petistas Brasil afora preferem ficar na defensiva. É o tempo do apuro. De qualquer forma, não importa qual dos golpistas vencer a eleição de hoje, o grande derrotado será o PT.

De volta ao livro de Robert A. Johnson, Parsifal é humilhado pela Donzela Tenebrosa por não ter sabido formular a pergunta correta no Castelo do Graal. Cometendo um “psicologismo”, atrevo-me a dizer que o PT é Parsifal às avessas. Pois enquanto um não soube fazer a pergunta correta, o outro não soube dar a resposta correta.

Indubitavelmente, a chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder com Lula em 2002 causou uma revolução social no Brasil. Milhões saíram da miséria, tiveram acesso à moradia, crédito e ensino superior. Porém, muito mais poderia ter sido feito e, para dar a resposta correta ao povo brasileiro, o partido deveria ter ouvido mais o povo. Muito mais.

Apesar de ter falhado na primeira vez em sua missão, Parsifal ganha uma segunda chance. Mas antes de essa nova oportunidade chegar será um preciso percorrer um longo caminho de expurgo. E somente com a maturidade da experiência, o cavaleiro terá plenas condições de fazer a pergunta correta. Maturidade que também faltou ao PT para dar a resposta correta ao povo brasileiro.

Legislando (sempre) em causa própria Conforme ensina meu grande amigo e especialista em legislação eleitora, Lenine Póvoas, se um chefe do Executivo (prefeito, governador, presidente) se desincompatibiliza do cargo para concorrer a outro cargo eletivo e não é eleito, não pode retornar ao mandato. Estranhamente o mesmo não vale para o Legislativo. Vereadores, deputados estaduais e federais e senadores podem aproveitar as eleições municipais para ganhar visibilidade para a eleição seguinte e depois reassumirem seus mandatos tranquilamente. Outra vantagem é que podem reeleger-se “ad infinutum”, enquanto que o Executivo não tem mais essa possibilidade. Esses privilégios do Legislativo, claro, não chegaram nem perto de serem debatidos na reforma eleitoral conduzida pelo correntista suíço Eduardo Cunha.

Post Scriptum: Cômico se não fosse trágico. Enquanto que nos Estados Unidos a Ku Klux Klan alia-se a Donald Trump em sua cruzada de ódio contra negros e latinos, no Brasil o candidato misógino, xenófobo e racista ganha ato de apoio. It’s the end of the world.

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Pânico

Trabalhando como repórter de política tive a oportunidade de conhecer figuras interessantíssimas. Uma delas foi o economista Paulo Ronan – falecido em março de 2016. Ronan foi um dos fundadores do PSDB de Mato Grosso e dono de uma sinceridade ímpar. Admiro pessoas assim.

A primeira vez que o vi foi num debate que mediei na UFMT, em 2002. Ele era o defensor da candidatura de José Serra à presidência da República e Lúdio Cabral da de Lula. Articuladíssimo, não se fez de rogado e disse com todas as letras que o principal ideário do PSDB era a privatização.

“Ele – Serra – não tem coragem de assumir na TV, mas é isso mesmo (privatizar tudo)”.

Eu ainda teria o prazer de falar com ele duas três vezes depois como fonte para alguma matéria.

Quiçá todo tucano tivesse o nível de sinceridade de Paulo Ronan. Em nome de uma suposta eficiência em prestação de serviço, o partido derrotado em quatro eleições presidenciais seguidas só pensa “naquilo”. Vide a Vale, o setor de telefonia e agora José Serra – de novo – com o PL 131 que, na prática, acaba com o domínio da Petrobras na exploração do pré-sal.

“Em 2000, quando era deputado federal e se lançou a prefeito da Capital, o então peemedebista Wilson Santos espalhou outdoors pelas ruas com a frase “Água é Vida. Vida não se vende”. Era mensagem de protesto contra movimento por privatização da Companhia de Saneamento da Capital e com objetivo de atingir e desgastar politicamente o principal adversário, então prefeito Roberto França e candidato à reeleição”, diz texto do site RD News de 14 de Setembro de 2010.

O ímpeto em defesa do patrimônio público parou por aí. Em 2002, já no PSDB, WS foi contaminado pelo vírus privacionista. Finalmente eleito prefeito em 2004 e reeleito em 2008 graças ao Comitê da Maldade, conduziu – ao lado de seu vice Chico Galindo – e com a prestimosa ajuda do então presidente da Câmara, Júlio Pinheiro, a vergonhosa venda da Sanecap para a CAB.

Wilson Santos, talvez inspirado pelo tucano-mor Fernando Henrique Cardoso, desdisse o que havia dito antes e vendeu a água; vendeu vida. O resultado da patranha é de domínio público.

A política, quando feita de maneira de forma transparente, traz benefícios a todos; pois ela (a política), sem polêmica, é arma das elites. O que não se pode aceitar é o terrorismo eleitoral, tão recorrente nas campanhas do PSDB.

Após a divulgação, semana passada, do resultado da pesquisa do IBOPE, em que o procurador Mauro aparece na liderança, com 24% das intenções de voto para prefeito de Cuiabá, a tropa de choque tucana voltou a artilharia pesada contra o PSOL e seu ideário político.

Seria muitíssimo interessante que antes de atacar o socialismo defendido pelo Partido Socialismo e Liberdade, os caciques do Partido da Social Democracia Brasileira de Mato Grosso assumissem sua compulsão privacionista. O único com coragem para fazê-lo não está mais entre nós.

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Dilma perante o Sinédrio

Ramatis é um espírito de luz cuja última encarnação teria sido, segundo o médium Hercílio Maes, na Indochina, no século X d.C. Em vida, no século IV, teria participado dos acontecimentos narrados no poema hindu Ramaiana. Segundo o médium Wagner Borges, o nome Ramatis homenageia dois personagens do Ramaiana: Lord Rama e sua esposa Sita. Ramatis é autor de uma vasta obra dentro do chamado espiritismo universalista, e Hercílio Maes um de seus principais canalizadores.

Um dos trabalhos mais impressionantes da dupla foi “O Sublime Peregrino”, livro no qual Ramatis narra detalhes da vida de Jesus Cristo que não aparecem na Bíblia. Os relatos são muito contundentes. Digo isso para lembrar de como Ramatis conta o processo do julgamento de Jesus Cristo pelo Sinédrio – assembleia de juízes judeus que constituía a corte e legislativo supremos da antiga Israel. Aspas para Ramatis:

“Anualmente fazia-se a eleição para o cargo de Sumo Sacerdote do Sinédrio, cujo privilégio era disputadíssimo entre as quatro principais famílias mais bem aquinhoadas de Jerusalém, pois além do poder temporal sobre os judeus, isso ainda permitia rendimentos fabulosos e fortuna certa”.

Inevitável a associação com o Senado brasileiro e seu presidente – réu em oito processos no STF – Renan Calheiros. Quero ir mais longe, contudo. O mantra daqueles que insistem em chamar de processo legal de impeachment o que no fundo é um golpe, é que ele – o processo – cumpre todos os ritos e prazos previstos na Constituição, inclusive com amplo direito de defesa. Ramatis também fala sobre a legalidade falaciosa do julgamento de Jesus:

“Ademais, todos os membros componentes da pequena corte do Sinédrio, haviam sido substituídos e acrescidos de suplentes jovens, juízes da simpatia de Caifás, que assim eliminava quaisquer adesões a Jesus, na probabilidade do seu julgamento. O velho Hanan e Caifás, seu genro, dispunham de farta messe de provas contra ele [Jesus], colhidas dos falsos testemunhos comprados a peso de ouro e fruto das delações obtidas sob terríveis ameaças”.
Para bom entendedor…

Os senadores Ronaldo Caiado, Aécio Neves, Aloysio Nunes et caterva não têm um mínimo de moral para julgar uma presidenta honesta sobre quem não há rigorosamente nenhuma suspeita de beneficiamento ilícito. É surreal ver senadores mais sujos que pau de galinheiro posando de guardiões da decência.

Em se confirmando o afastamento definitivo de Dilma Rousseff, o Congresso Nacional terá dado um golpe mortal na Democracia brasileira. Será uma ferida de difícil cicatrização. Tomando emprestas as palavras da nossa presidenta coração valente, “Não existe injustiça mais devastadora do que condenar um inocente”.

Apesar de toda legalidade nos ritos do julgamento no Sinédrio, Jesus Cristo foi considerado culpado. Seu próprio silêncio na hora de se pronunciar revela que sua sentença já estava pronta desde o início. Dilma, ao contrário, preferiu falar. Amanhã, dia 29 de agosto, ela estará de cabeça erguida e olhando nos olhos de seus 81 julgadores, sendo que metade deles responde a crimes de corrupção. O desfecho desse julgamento é conhecido por todos. Mas o conluio não durará para sempre, pois, mais uma vez citando Dilma Rousseff, “a Democracia há de vencer”.

Nesta segunda, no apagar das luzes, Renan Calheiros e asseclas repetirão a atitude de Hanan e Caifás, conforme relata Ramatis:

“[Concluído o julgamento] Hanan e Caifás desanuviaram a fisionomia, sem mesmo esconder a satisfação que lhes invadia a alma ante o êxito perfeito da sua maquinação, a serviço de outros poderosos de Jerusalém, a cuja atividade o Mestre Cristão lhes trazia sérios incômodos e prejuízos”.

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