Um escritor gigante. Esquecido… Por Sebastião Carlos

Por Sebastião Carlos | A assertiva atribuída a Estevão de Mendonça, “morre duas vezes quem morre em Cuiabá”, é confirmada todas as vezes que nos referimos a uma grande figura, sobretudo da área da cultura. Desta vez, nos vem a evidência o caso de Ricardo Guilherme Dick. Tido como um dos maiores escritores da história de Mato Grosso e um dos grandes do Brasil no século XX, Dick é um esquecido em sua terra natal. No último dia 9 completou dez anos de sua morte. Nenhuma lembrança, nenhuma rememoração, nenhum tributo lhe foi prestado.

Aos 72 anos [Raizama, distrito de Chapada dos Guimarães – 16/10/1936] Dick já havia se tornado aquilo que se denomina de “cult”, ou seja, um autor cultuado, respeitado, estudado, referenciado mais pouco conhecido. Com quase duas dezenas de obras publicadas, e várias inéditas, despertara, desde já o seu primeiro romance ‘Deus de Caim’, de 1968, o interesse de escritores e de críticos. Continue Reading

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Lorenzo Falcão e Valério Mazuolli são eleitos novos acadêmicos da AML

Por S. Carlos Gomes de Carvalho

A ACADEMIA MATO-GROSSENSE DE LETRAS elege mais dois acadêmicos. Numa concorrida Assembleia Geral Extraordinária, realizada no ultimo sábado, 14, os acadêmicos elegeram dois novos membros. Sob a firme condução da poeta Lucinda Persona, vice presidente no exercício da Presidência, foram eleitos Lorenzo Falcão e Valério Mazuolli.

Lorenzo é jornalista, cronista e poeta, com trajetória na imprensa cuiabana e atualmente é responsável pelo blog de literatura ‘Thyrannus Melancholicus’, foi eleito para a Cadeira 12, cujo Patrono é o poeta Antônio Cláudio Soído e o último ocupante o jornalista e poeta Ronaldo de Arruda Castro.

Valério Oliveira Mazuolli, eleito para Cadeira 36 cujo Patrono é o poeta e causídico Pedro Trouy, e o último ocupante o professor e poeta Luís Feitosa Rodrigues, é professor titular na UFMT e convidado em Universidades de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e do Paraná, conferencista e renomado autor de mais de duas dezenas de obras jurídicas. Frequentemente consultado e citado por ministros do STJ e do STF em suas decisões e acórdãos, Mazuolli é hoje nacionalmente considerado um dos nomes mais expressivos na área do Direito Internacional e do Direito Constitucional brasileiro.

Assim, a Academia que, dentro de três anos, completará seu primeiro centenário, se rejubila pelo ingresso de dois gabaritados intelectuais e que, com seus ingressos até o final do ano, comporão trinta e nove Cadeiras, das quarenta existentes.

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Valério Mazuolli

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Lorenzo Falcão

Source: (2) S Carlos Gomes de Carvalho

Leia também: Cinco nomes se apresentam e irão disputar as duas vagas abertas

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Ninguém ganha o jogo por antecipação; não vale a tradição, o poderio econômico, a fama e o alto salário dos jogadores, lembra Sebastião Carlos

Lição para fora do campo

Por Sebastião Carlos | Que lições podemos extrair da partida recém-finda? Uma delas, é que ninguém ganha o jogo por antecipação. Não vale a tradição, o poderio econômico, a fama e o alto salário dos jogadores. Começado o jogo, o que vale mesmo é a disposição de luta do time tido como inferior.

A outra, é que os gigantes também tombam. Começado o jogo, ainda que a grande habilidade, [alguns são mesmos extraordinários], dos craques do time inicialmente mais poderoso possa representar vantagem expressiva, no entanto, nem sempre ela se torna decisiva para alcançar a vitória.

Acabamos de assistir a dois eloquentes exemplos do que afirmo, e outros virão.

Vimos a poderosa Argentina, [5ª no ranking da FIFA] do grande Messi [2º melhor do mundo], tombar ante a quase desconhecida Croácia [20ª], sem nenhum jogador entre os maiores do mundo. Antes, já tínhamos visto o Uruguai [bi campeão mundial, 14º na FIFA, com um dos melhores cracks da competição, L. Soares] penar muito para ganhar por 1 gol do desconhecido Egito [45º na FIFA]. E agora, acabamos de assistir o poderoso Brasil [2º no ranking da FIFA], que tem 11 brasileiros entre os cem melhores do mundo [segundo o The Guardian] suar e chorar para vencer a Costa Rica [23ª da FIFA], uma seleção novata em Copa do Mundo e sem maior expressão, e mesmo assim só tendo conseguido nos minutos finais, já nos acréscimos.

Esta a lição maior: Não há poderosos, nem vitoriosos, por antecipação quando diante deles se antepõe um espírito aguerrido e determinado à luta. E não se ganha um jogo apenas pela vontade da torcida.

Para quem serve a lição? Para todos nós. Mas certamente servirá mais ainda para os que, auxiliados por áulicos espalhados por todos os cantos, em seus arredores e na imprensa submissa, já cantam vitória por antecipação, habituados que estão ao domínio da vida publica.

Para emoldurar, vem-nos um verso do grande e majestoso Fernando Pessoa [13/06/1888 – 30/11/1935] que neste mês se comemora os 130 anos, e que é também um recado aos poderosos do momento e aos seus submissos: “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares”.

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Sebastião Carlos: O 8 de março é uma data importante para a reflexão para debater as discriminações e violências sejam físicas, morais ou sexuais ainda sofridas pelas mulheres

Dia da Mulher: Uma Trajetória de Lutas

Por Sebastião Carlos | Todas as datas comemorativas tendem a perder no transcorrer do tempo o sentido original de sua celebração. Se não perdem de todo, seguramente elas se diluem em seu significado mais expressivo. Diferente não deixaria de ser com o Dia Internacional da Mulher, comemorado neste 8 de março. Muitas vezes o sentido festivo, aí incluído um caráter comercial, esconde a força imagética do que motivou o nascimento dessa comemoração. A verdade é que não existe uma data comemorativa importante que não tenha surgido como fruto de lutas, sacrifícios, sangue, lágrimas, e por vezes, esporádicas alegrias.

Diferentemente não foi com este Dia Internacional dedicado às mulheres, ainda que todos os dias devessem sê-lo.

Muito embora desde o fim do século XIX, mulheres operárias, sob o impulso das ideias socialistas que ganhavam campo tanto na Europa como nos Estados Unidos, começaram a se unir em torno de movimentos operários, apresentando bandeiras especificas de defesa de seus direitos pela igualdade de salários e condições de trabalho. As duras jornadas de quase 15 horas diárias de trabalho e salários insignificantes, que atingiam também muitas crianças, levaram a uma crescente manifestação, com ressentimentos acumulados desde os primórdios da Revolução Industrial. Em maio de 1908, cerca de 1500 mulheres cruzam os braços e aderem massivamente pela primeira vez a uma manifestação de trabalhadores. O Partido Socialista dos EUA promove um protesto no centro de Nova York, o maior até então havido. A greve terminou em novembro de 1909 e contribuiu para o fechamento de mais de 500 fábricas têxteis. O dia 28 de fevereiro é colocado no calendário do movimento socialista como o Dia Nacional da Mulher

No ano seguinte, é realizada em Copenhague uma Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, com representantes de 17 países, na qual se discute, além da necessidade do direito de voto feminino em diversas nações, a proposta da alemã Clara Zetkin da criação de uma data anual comemorativa das lutas femininas. Mas um marco decisivo para a luta feminista no mundo é fruto de uma tragédia. No dia 25 de março de 1911, uma indústria têxtil de Nova York, por suas péssimas condições de instalações, pega fogo, e no incêndio morreram carbonizadas mais de 100 operárias. Esse fato trágico marcaria a trajetória das lutas operárias pelas décadas seguintes. Protestos eclodem em todo o mundo. Em 8 de março de 1917, [23 de fevereiro no antigo calendário Juliano] mulheres russas, sob o lema “Pão e Paz”, organizam em Moscou uma manifestação gigantesca contra o Czar Nicolau II, lutando contra as más condições de trabalho, exigindo comida e liberdade e criticando a participação da Rússia na Guerra Mundial [1914 – 1918]. O movimento é brutalmente reprimido, com dezenas de mortos, e tem imediata repercussão interna e no exterior.

Em nosso país, as manifestações em prol dos direitos das mulheres surgem nos primeiros anos do século passado, em meio aos sindicatos, jornais e grupos anarquistas, sobretudo em São Paulo. O tema era o mesmo: melhores condições de trabalho e de salários. Os movimentos revolucionários que eclodiram nas décadas seguintes dão mais um tema para a luta das mulheres: o direito ao voto. E esse objetivo seria alcançado na Constituição, outorgada por Getúlio Vargas, em 1932.

A grande manifestação das mulheres russas, dada a sua magnitude e a influência dos sindicatos socialistas na Europa, passou, em 1921, a ser considerada pelos meios operários como o Dia Internacional da Mulher. Mas foi só 24 anos mais tarde, que a ONU a tornou oficial e o primeiro acordo internacional, afirmando princípios de igualdade social, política e econômica entre homens e mulheres, foi firmado.

A década de 1960 foi, por assim, dizer os “anos de ouro” do movimento feminista. As reivindicações se alargam para além do campo trabalhista, para lutar por direitos nas áreas do comportamento e costumes, com um lema empolgante, o do direito de “a mulher ser dona de seu próprio corpo”. O ano de 1975 marca a primeira comemoração oficial do Ano Internacional da Mulher. No Brasil, o estado de São Paulo esteve na frente do reconhecimento dos direitos femininos como, por exemplo, quando cria, em 1982, o Conselho Estadual da Condição Feminina e, em 1985, com o surgimento da primeira Delegacia Especializada da Mulher.

Neste contexto, o 8 de março, embora com todas as conquistas e avanços legais e sociais é uma data importante para a reflexão para debater as discriminações e violências sejam físicas, morais ou sexuais ainda sofridas pelas mulheres.

Para encerrar, é preciso ressaltar que, em cada país e em cada época, existiram mulheres que estiveram à frente de seu tempo, embora lutando contra dificuldades e obstáculos hoje inimagináveis. Algumas se destacaram em movimentos que contribuíram para mudar o mundo em que viviam. Algumas se tornaram ícones de seu tempo. Hoje, nem sempre lembradas e celebradas. Lamentavelmente. Enumerar essas figuras será sempre correr o risco de estar deixando uma lacuna. Mas, o leitor e a leitora certamente me ajudará a completar esse painel honroso. Para ficarmos em fato mais recente, como não nos lembrarmos de uma costureira que se tornou o símbolo do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos ao se recusar, em 1955, a ceder seu lugar num ônibus a um branco. Isso, no Estado do Alabama, era contrariar a lei. No entanto, Rosa Louise McCauley, que se tornou conhecida como Rosa Parks, desafiou a lei e seu inusitado ato de resistência resultou na sua prisão, sendo o estopim para varias manifestações violentas. Foi o inicio da luta antissegregacionista. É claro que ela sofreu as duras consequências do ato, recebendo ameaças de morte e tendo enormes dificuldades em conseguir emprego. Posteriormente receberia o apoio de Luther King e durante todos os anos 60 teve destacada participação politica. Faleceu em 2005.

No Brasil, existe uma enorme plêiade de mulheres bravas, de fibra e destemidas que marcaram época e estiveram à frente de seu tempo. Para mim, uma das maiores foi certamente Bárbara Heliodora [1759 – 1819]. Culta, é tida como a primeira poeta brasileira, foi casada com o também poeta Alvarenga Peixoto. Mãe solteira, numa época em que isto era um grave desafio à sociedade e à Igreja, e mesmo depois de casada fez questão de manter o nome de solteira, outro desafio. Quando foi descoberta a Inconfidência Mineira, na qual teve participação ao lado do marido, que, em determinado momento quis se afastar do movimento, e por ela foi convencido do contrário, Bárbara enfrentou com dignidade todos os percalços de ser casada com um conjurado que, em 1789, foi preso em São João Del Rey e levado para o Rio de Janeiro e de lá degredado para a África, de onde nunca mais voltaria. Bárbara Heliodora nunca deixou de sofrer perseguições do governo, que lhe criava todos os tipos de dificuldades. Nem assim, se dobrou.

Há outros exemplos; claro que há. Mas agora vamos a algumas curiosidades. A primeira mulher eleita no Brasil, e na América Latina, foi Luíza Alzira Soriano Teixeira. Viúva, em 1928, aos 32 anos, disputou pelo Partido Republicano as eleições para a prefeitura de Lajes, município do Rio Grande do Norte. Venceu com 60% dos votos e tomou posse em 1º de janeiro de 1929. O curioso é que nessa época as mulheres não tinham direito ao voto. O que só conseguiriam em 1932. Em 1934, a médica paulista Carlota Pereira de Queiroz foi eleita para a Assembleia Constituinte, sendo a primeira mulher deputada federal. O Rio Grande do Norte foi também o primeiro a eleger uma deputada estadual, a professora Maria do Céu Pereira Fernandes, eleita em 1934. Outra grande liderança feminina tentou a eleição pelo Distrito Federal, ficando como suplente e só assumindo em 1936 com a morte do titular. Trata-se da cientista Bertha Lutz, que se tornaria conhecida como a maior líder na luta pelos direitos políticos das mulheres brasileiras. Formada em biologia na Sorbonne, onde participou de movimentos feministas que então surgiam, teve uma destacada atuação como cientista e politica. Em 1918, ao ingressar por concurso público no Museu Nacional, foi a segunda mulher a entrar no serviço público brasileiro. Em 1919, seria uma das fundadoras da Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, que foi o embrião da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino – FBPF.

Em Mato Grosso a primeira deputada estadual foi Oliva Enciso, eleita em 1958, pela UDN, e a primeira prefeita, Sarita Baracat, eleita em 1966, pela ARENA, para a prefeitura de Várzea Grande.

Enfim, as mulheres com determinação e fibra, despojamento e dedicação estão realizando o que uma de nossas grandes poetas contemporâneas, Cora Coralina, predisse:

Eu sou aquela mulher
que fez a escalada da montanha da vida
removendo pedras
e plantando flores.

Essas merecem que celebremos o Dia Internacional das Mulheres.

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Breve [e oportuna] lição da História – Por Sebastião Carlos

Por Sebastião Carlos | A vida política costuma ser um mar de decepções. Mas igualmente pode trazer ensinamentos.

A África do Sul é agora o último exemplo. A sociedade multirracial lá hoje existente é fruto da liderança tenaz de um homem invejavelmente corajoso. Nelson Mandela [18/07/18 – 05/12/13], que passou mais de três décadas preso, pelo “crime de consciência”, desejou construir uma pátria moderna, democrática e isenta da corrupção. Com a renúncia forçada pelo Parlamento do até então prestigiado presidente Jacob Zuma, um fiel discípulo seu, ocorrida ontem, sob pesadas acusações de corrupção, de incompetência e de malversação de bens públicos, o grande líder deve estar dando voltas no túmulo. Que legado inglório. Que traição a ideais tão longamente acalentados por gerações inteiras que morreram sob tortura nas masmorras do regime do apartheid? Que tisnaram de sangue as vielas das favelas de Johanesburgo, do Cabo, de Pretória? Tanto esforço, tantas esperanças. O antigo camponês, que foi igualmente figura importante na luta antissegregacionista, preso por dez anos e que passou mais de quinze anos no exílio, vice-presidente de Mandela e depois seu sucessor, a partir de maio de 2009, desandou totalmente quando assumiu o poder. Está sendo alvo de mais de 800 acusações que vão de investigações sobre corrupção ao favorecimento a empresários com concessões públicas milionárias. Foi forçado a renunciar por seu majoritário partido, o Congresso Nacional Africano (ANC, na sigla em inglês), e se não o fizesse esta semana mesmo sofreria um rápido processo de impeachment. Como, aliás, ocorre nos países que se querem democráticos. Não houve movimentos organizados que foram às ruas para defendê-lo. Não houve acusações de que havia um “golpe em andamento”. Sinal de amadurecimento político, de respeito e confiança nas instituições ou simplesmente descaso? O fato é que ninguém se atreveu a apoiá-lo. No entanto, a bem da verdade é preciso fazer um registro: pelo menos em sua ultima fala, em cadeia nacional de rádio e TV, foi honesto o suficiente para dizer que tinha que aceitar que “se meu partido e meus compatriotas desejam que eu saia, eles têm que exercer esse direito e fazer isso da maneira prescrita na Constituição“.

Ou seja, pelo menos por lá, ninguém ousou dizer que houve um “golpe”. Não que ele não tivesse sido eleito democraticamente, não que seu partido não tivesse maioria no Parlamento. Democracia é isso: respeito às leis e às instituições. Nesse ponto o grande Nelson deixou um legado vitorioso.

É oportuno lembrar que na Polônia ocorreu o mesmo. O Sindicato Solidariedade, originalmente formado por metalúrgicos, liderou a luta contra o governo autoritário. Vários de seus membros foram presos, torturados e exilados. Após a derrocada do regime comunista, seu líder, o operário Lech Walesa [Prêmio Nobel da Paz em 1983], foi eleito presidente para o período de 1990 a 1995. Deu impulsos a mudanças profundas na vida política, econômica e cultural polonesa, contribuindo para a transição política de um regime socialista governado por um partido único a uma economia de mercado nos moldes dos países da Europa ocidental. Todavia, tempos depois, acusações de corrupção e de incompetência administrativa, o tiraria do poder [também lá não houve acusações de “golpe” ou de ingratidão do povo] e Walesa, o então “respeitado e heroico” líder, e verdadeiramente o havia sido, seria levado ao ostracismo. Nos anos seguintes, o poderoso Solidariedade, que havia tido nos áureos tempos mais de 10 milhões de filiados, foi definhando para hoje não ter mais que alguns poucos milhares de seguidores. Nele não permaneceu nenhuma liderança importante, com capacidade para reerguê-lo. Os poloneses não lamentaram. Não tentaram armar nenhuma resistência ao poder constituído. O Estado de Direito estava fortalecido. E o país segue normalmente sua rota.

Haveria outros casos assemelhados? Claro que sim. Mas todos se encaixam conforme espelhou o gênio de N. Maquiavel: “Uma república sem cidadãos de boa reputação não pode existir nem ser bem governada; por outro lado, a reputação dos cidadãos é motivo de tirania das repúblicas”. Que pode muito bem ser complementada por esta outra: “O primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta”.

Os exemplos servem para quê?

Para encerrar, voltemos a Mandela: “Perigos e dificuldade não nos travaram no passado e não nos assustarão agora, mas devemos preparar-nos para eles, como homens determinados quanto ao que pretendem e que não perdem tempo com conversas vãs e inação.”

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Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado e historiador. Publicou, entre outros, “Viagens ao Extremo Oeste – Desbravadores, aventureiros e cientistas nos caminhos de Mato Grosso” e “Perfis Mato-Grossenses”.

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Sebastião Carlos: Luiz Carlos Ribeiro será recordado sempre não somente pelos amantes da arte teatral, mas por todos que tiveram a oportunidade de com ele conviver

Luiz Carlos Ribeiro

Por Sebastião Carlos | Pode ser um lugar comum, mas não há como deixar de repeti-lo num instante de lamento. O passamento de Luiz Carlos Ribeiro causa um vácuo em nossa escassa história do teatro em Mato Grosso.

Conheci-o, através dessa sempre presente e ativa Lúcia Palma, em 1974, numa das minhas esporádicas vindas a Cuiabá. Fui a um sarau e lá estava ele declamando, com a mesma ênfase e perfeito locução de sempre. Desde então mantivemos um relacionamento de fraterna amizade. Acompanhei o seu esforço, quase solitário, de organização dos grupos teatrais amadores em Mato Grosso, como cofundador, e depois presidente, da Federação Mato-grossense de Teatro – FEMATA. Posteriormente, se tornaria um dos diretores da Confederação Nacional de Teatro, a CONFENATA.

Ator e diretor autodidata alcançou o auge no início dos anos oitenta quando participou do Projeto Mambembão, atuando como ator e assistente de direção de “Rio Abaixo- Rio Acima, ou Ergue o Mocho e Vamos Palestrar”. Essa peça, de autoria e sob a direção de Maria da Glória Albuês, a “Glorinha”, outra figura marcante do teatro e da cultura atual mato-grossense, recebeu elogios de importantes críticos, um dos quais, o respeitado Yan Michalski, que a indicou para receber dois prêmios mambembes. Nesse período, escreveu e dirigiu “Gudibai Meu Boizinho”, peça que apresentaria em diversas comunidades rurais e pequenas cidades. Depois viria a trilogia “Pelos Cotovelos”, “A Virgindade Contestada” e “Vespa Sete”, escritas e dirigidas por ele.

Em 2006, LC publicaria o seu primeiro texto não teatral, o livro de contos “A Mala de Fugir e Outras Histórias”. No entanto, a atração do palco lhe era tão vital que logo ele o adaptaria para uma peça, com o mesmo nome, na qual atuou como ator. Em 2009, com esse incansável Flávio Ferreira, diretor da Companhia Cena Onze encenam a peça “Fica, Pedro”, de sua autoria, uma biografia do bispo Pedro Casaldáliga.

Quando estive, pela segunda vez, presidente da AML promovi uma série de palestras e apresentações musicais, abrangendo todas as áreas da cultura. Luiz Carlos fez uma excelente apresentação sobre a história do teatro em Mato Grosso, abordando aspectos até então pouco conhecidos. Vi-o pela última vez na comemoração do Centenário de Manoel de Barros, em evento realizado na Universidade Federal. A dicção, o gesto correto, a cadência estudada, numa comunhão perfeita do intérprete com o texto interpretado eram a sua marca.

Luiz Carlos Ribeiro, o ator e o ativista cultural, será recordado sempre não somente pelos amantes da arte teatral, mas por todos aqueles que tiveram a oportunidade de com ele conviver. A figura de aparência tranquila, o seu conhecimento discreto, a cordialidade na melhor tradição cuiabana estão inscritas em sua trajetória.

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Ainda sobre censuras – Por Sebastião Carlos

Por Sebastião Carlos | Há duas semanas estive no Museu Egípcio de Barcelona. Há nele, por exemplo, toda uma ala dedicada ao erotismo. E isto com esculturas de há 4000 anos antes de Cristo. A humanidade não tem sido diferente ao longo dos séculos. E mesmo em plena Idade Média, com o domínio absoluto do puritanismo religioso, havia os espíritos inconformados, rebeldes. Nos séculos seguintes, para só citar um exemplo, entre tantos, um veneziano de nome Zorzi Baffo [1694 – 1768] se torna com os seus sonetos-crônicas o observador por excelência daquela Veneza ao mesmo tempo pudica e libertina. E neste caso foi tanto execrado e difamado como celebrado. Artistas, poetas, novelistas alguns hoje completamente esquecidos ou outros que o tempo consagrou não deixaram de abordar temas considerados por seus contemporâneos como escabrosos. No já licencioso anos 1800 Coubert, Daumier, Toulose-Lautrec e outros foram ignorados e depois combatidos pelas boas e ricas famílias de uma França que se tornava o centro cultural do mundo. Hoje são celebrados. Uma tela de Picasso, [1881 – 1973], “Mulher de virtude fácil”, de 1903, já na modernidade do século XX, causou enorme escândalo, ou mesmo “O Sonho”, de 1932, um retrato erótico de sua jovem amante Marie-Therèse Walter, espantou e foi detestada, e nem se fale nas várias telas do surrealista Salvador Dali [1904 – 1989], como, por exemplo, a denominada [os pudicos saltem esta linha] “O Grande Masturbador”, que se encontra exposta no Museu Nacional Centro de Arte Moderna e Contemporânea Reina Sofia, em Madrid. Ambos se tornariam em mestres consagrados, disputadíssimos por marchands e colecionadores endinheirados do mundo todo e expostos nos principais museus símbolos da civilização. Tanto estes dois espanhóis, bem assim como aqueles que os antecederam nos século anteriores, enfrentaram o fundamentalismo da censura. Não da crítica, que esta é sempre bem vinda, mas da censura que não quer convencer, mas derrotar, destruir, fazer desaparecer.
Mas não são apenas aquelas obras tidas como pornográficas ou atentatórias à moral, que são hostilizadas pelos censores. Eles se preocupam, e muito, quando a obra fere questões sociais que incomodam os bem postos na vida. Assim, atenção, a censura às vezes começa em um ponto tendo um objetivo especifico e não tarda, seja pela velada aquiescência ou omissão de muitos, a estender seu manto sobre outros aspectos da obra de arte. Não vamos longe nos vários exemplos. Fiquemos com um de nossos grandes. Cândido Portinari [1903 – 1962] com os seus quadros e murais de forte denuncia social, e quem não se impacta diante de “Criança Morta” ou “Os Retirantes”, ambos de 1944, foi um perseguido, censurado e até exilado político. Com isso, Portinari seria primeiro reconhecido fora do Brasil. Hoje é um nome dos mais respeitados da pintura mundial.
A censura tem quase sempre duas características básicas: por um lado, presta subordinação e atende aos interesses dos grupos dominantes, sejam eles políticos, religiosos ou econômicos e, por outro, é sempre apresentada como uma medida que visa ao bem comum, de interesse coletivo da sociedade. O estadista que foi Mário Soares, vitorioso após 40 anos da ditadura salazarista, constatou que “De todos os mecanismos repressivos, a Censura foi sem dúvida o mais eficiente, aquele que conseguiu manter o regime sem alterações estruturais durante quatro décadas.”.
Impedir um artista de expor seus quadros ou esculturas ou um escritor de publicar ou fazer circular seus livros seja pela força bruta ou por esquemas de pressão burocrática, seja pela mal disfarçada censura econômica, representa uma faca na cabeça do artista ou uma tesoura aberta na garganta do poeta. Todavia a Historia mostra que não será por esse mecanismo que se impedirá o surgimento de manifestações artísticas. Para a arte, a força bruta nada vale, apenas adia a sua emergência. Mesmo porque o que a faz sobreviver é só o verdadeiro talento. E não é a censura que faz essa escolha. Esse tipo de contraste existirá sempre. Faz parte da vida. O artista tem que demonstrar com determinação que o seu talento vencerá a perspectiva transmontana vigente em todas as épocas. Este é um processo argumentativo dialético. Bom lembrar Picasso: “Não se consegue convencer um rato de que um gato pode trazer boa sorte”.
Como sabemos, o futuro sempre se pronuncia sobre quem fica na História: o censor ou o criador. Desnecessário dizer que os censores vêm perdendo essa batalha

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Então Vamos Falar de Literatura… 2 – Por Sebastião Carlos

Por Sebastião Carlos | O Prêmio Nobel de Literatura é sem sombra de dúvida o prêmio literário mais importante do mundo. Não somente pelo aporte financeiro, mas sobretudo pelo prestigio social e cultural que dá ao ganhador. Talvez por isso mesmo nem sempre essa outorga tem sido consensual, e em muitas ocasiões foi altamente polêmica. Em duas ocasiões ele foi recusado. Em 1958, o poeta e romancista russo Boris Pasternak foi impedido de aceitar pela pressão do governo soviético e, em 1964, Jean – Paul Sartre, o conhecido intelectual francês, recusou formalmente alegando que a aceitação do prêmio implicaria em perder a sua identidade e independência de filósofo. Mas as criticas mais fundamentadas que se faz à Academia Sueca é que ela deixou de lado escritores de fundamental importância para a cultura mundial. O prêmio, outorgado desde 1901, não concedeu o galardão a clássicos do porte Tolstoi, Zola, Marcel Proust, Franz Kafka, Ibsen, James Joyce, Paul Valéry, Nobokov, Jorge Luis Borges e alguns outros. O Brasil, apesar de sua importância no contexto latino-americano, até agora não conseguiu. [O pequeno Chile tem dois, significativamente, poetas: Gabriela Mistral e Pablo Neruda].

Pois bem, o último prêmio também causou celeuma. O premiado, que só confirmou a aceitação várias semanas depois e que não foi à a entrega oficial em 10 de dezembro mandando apenas o discurso, foi Bob Dylan. Merecia? Não merecia? Tem porte e obra para tanto? Foram as discussões que logo surgiram. Alguns disseram que se era para premiar, pela primeira vez, um compositor – cantor por que não Leonard Norman Cohen, o celebrado cantor, compositor, poeta e escritor canadense, autor de inúmeras e marcantes canções como Hallelujah, que por sinal faleceria no mês seguinte ao anuncio, aos 86 anos.
O fato, com controvérsias ou não, é que Robert Allen Zimmerman, nascido em 24 de maio de 1941, em Duluth, Minnesota, foi indicado por, conforme a Academia, “ter criado novos modos de expressão poética no quadro da tradição da música americana”.

Aqueles que viveram os intensos e inquietantes anos 60 sabem da importância politica e romântica, ou se preferirem, politica com romantismo que Dylan representou. Em suas canções estão presentes estilos que vão do protesto pacifista, as denúncias de injustiças e de explorações, o retrato do caos humano e social da sociedade contemporânea. A raiva e as angustias daqueles anos tumultuados e esperançosos da Guerra Fria, das ditaduras no continente latino americano, da intervenção ianque no Vietnã, enfim, das transformações dos costumes fizeram dele o grande interprete do período. Particularmente, considero algumas musicas suas muito longas e, como não sou nada em inglês, algumas letras muito difícil de assimilação, mesmo com boa tradução. De toda forma, não há como deixar de considerar que uma das maiores canções de nosso século, por ao mesmo tempo reunir bela construção poética, ser um vigoroso protesto humanitário e possuir um romantismo mais que envolvente foi escrita e interpreta pelo novo Prêmio Nobel. No meu entender, e acredito de imensa maioria, esta canção é Blowin’ In The Wind, em português “Soprando ao vento”.

ENTÃO VAMOS FALAR DE LITERATURA …. – 2 O Prêmio Nobel de Literatura é sem sombra de dúvida o prêmio literário…

Publicado por S Carlos Gomes de Carvalho em Domingo, 18 de junho de 2017

 

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Frankenstein e o monstro Araponga – I Por Sebastião Carlos

A Lei que autoriza a “interceptação de comunicações telefônicas, de qualquer natureza, para prova em investigação criminal e em instrução processual penal” – Lei nº 9.296/96 – flexibilizando assim os direitos individuais encastelados no artigo 5º da Constituição, de igual modo estabelece mecanismos para impedir o seu uso criminoso e abusivo como vem de ocorrer em Mato Grosso. O primeiro deles é o que exige que, para a decretação da permissão para o ‘grampo’ ou, na dicção da lei, da interceptação, exista alguma evidencia de que haja aquilo que em juridiquês se denomina de “fumus comissi delicti”, ou seja, da fumaça de cometimento do delito. Isto significa que é preciso ficar cabalmente demonstrado que na conduta do individuo a ser investigado existam indícios de que praticou ou participou de algum delito e, por conseguinte, continua a praticá-los ou de que há fortes indícios que virá a cometê-los. É precisamente por isso que a intercepção jamais poderá ser o “ponta pé inicial” de uma investigação. O inciso II do artigo 2º da referida Lei afirma peremptoriamente que a interceptação não será permitida quando “a prova puder ser feita por outros meios disponíveis”. Quer dizer: a interceptação só será autorizada quando for imprescindível, ou seja, quando não houver outros meios de descobrir o modus operandi dos criminosos.

Mas aqui surge o problema denominado “barriga de aluguel” que é quando são introduzidos clandestinamente nomes que não estavam no pedido original feito ao Juiz e que por ele fora autorizado. Ocorre então a pratica de dois crimes simultâneos. Quando se adultera o decreto judicial e, na sequencia, comete-se a invasão da privacidade de terceiros. Surge aqui a questão: pode prevalecer o argumento de que o juiz foi induzido a erro? Entendo ser muito discutível essa premissa. Vejamos: os indivíduos a serem interceptados, esgotados todos os outros meios investigatórios, terão que ter cometido, ou estarem na iminência, de cometerem grave delito. Ora, está evidente, que não basta colocar nomes numa lista e enviá-la para a autorização judicial, pois ela deve estar instruída com provas cabais e inequívocas. Inclusive, obviamente, uma “biografia”, ou se preferirem, a “ficha corrida” daqueles a serem espionados. Até porque a intercepção, a lei mesmo o determina, é o recurso último. Continue Reading

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Cultura: Fusão é idéia inaceitável

SebastiãiCarlosÉ inconcebível que, perto de completar trezentos anos, Cuiabá tenha que estar discutindo a possível extinção de sua Secretaria de Cultura. No entanto, é disto que se cogita em gabinetes alencastrinos. Lamentável, para dizer-se o mínimo. Esta não é certamente a melhor ideia do novo alcaide. Alguns aspectos da questão devem ser pensados antes da propositura ao Legislativo.

A motivação básica para a iniciativa parece ser a da economia de custos e a da eficiência administrativa. Pode, no entanto, vir a ser um tiro no pé. Fundir cultura com turismo é ver de modo vesgo a importância do processo cultural para uma comunidade. Administrativamente, a gestão da cultura sempre esteve adstrita, como um apendiculo, à da educação. Era a prima pobre. Embora se constate que nem mesmo aquela atingiu o patamar necessário ao grau de modernidade exigido para uma nação do porte da brasileira. O país se modernizou e foi criado um Ministério da Cultura, e órgãos assemelhados surgiram nos Estados e nos municípios. Embora com as menores dotações orçamentárias, a gestão da cultura adquiriu certa evidência e autonomia. Todos os Estados e suas capitais possuem uma Secretaria de Cultura e vários municípios, inclusive em Mato Grosso, também as têm. Querer extinguir a da capital do Estado, nas vésperas de um magno evento como a tão decantada Copa do Mundo e nas imediações do tricentenário, trata-se, inegavelmente, de um contrassenso. Será, sem dúvida, empreender uma marcha ré na história da cultura do município.

Em pleno século XXI, já não mais se permite a ninguém, minimamente antenado com as exigências sociais, políticas e econômicas contemporâneas, desconhecer a importância fundamental que a Cultura, como um conjunto homogêneo, isto é, em todas as suas vertentes, representa para proporcionar ao homem de nosso tempo uma vida condigna. Mas, está claro, para que se tenha essa compreensão exige-se igualmente que se possua um mínimo de sensibilidade. Política e moral. Mais que os elementos da produção material que são tão entusiasticamente celebrados por governantes de todos os matizes políticos – traduzidos em números e contabilizados nas bolsas de valores e de commodity – a cultura, por sua essência imaterial e eterna, representa a identidade de um povo. Estimular a produção cultural significa contribuir decisivamente para consolidar uma autoimagem positiva e aprofundar o autorrespeito desse povo.

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O Código (des) Florestal – III (final) – artigo de Sebastião Carlos

A opção dramática que os deputados fizeram, ao contemplar ainda mais os interesses de proprietários rurais, representa, em longo prazo, um tiro no pé. Qualquer cartilha de ecologia mostra que a proteção dos recursos naturais é fator primordial para a sobrevivência das atividades econômicas. A História está repleta de exemplos de países que encontraram a decadência com a crescente depauperação havida ao longo do tempo de seus ecossistemas. E no Brasil mesmo temos um exemplo expressivo: a seca no Nordeste é bem uma consequência da destruição de seus recursos naturais, desde o Descobrimento, ou, se quisermos ficar mais perto, Mato Grosso e seus recursos hídricos estão gravemente ameaçados. Só os cegos e tontos não enxergam. E estes, infelizmente, têm o poder nas mãos.

Não é com este Código Florestal capenga que o país conseguirá legar para as futuras gerações um patrimônio que representa a garantia de uma vida saudável e digna. A bancada mato-grossense (oito deputados) votou unânime pelo texto elaborado na Câmara. Assim, num Estado em que os ecossistemas estão cada vez mais ameaçados e que se encontra no topo dos desmatadores e degradadores, a sua representação política votou pelo atraso, votou contra o futuro. Mas, infelizmente, não ficam sozinhos nesse entendimento caolho. Na última reunião do Conselho Estadual do Meio Ambiente (26/04) propusemos uma moção a ser endereçada à presidente da República para que ela exerça o poder de veto, se não total, pelo menos sobre a parte não incluída no acordo feito no Senado. Lamentavelmente, o CONSEMA, que poderia ter tido uma iniciativa pioneira e exemplar em âmbito nacional nesse movimento que cresce a favor do veto, decidiu em contrário, foi contra o envio da moção pedindo o veto presidencial, e assim se mostrou a favor da nova lei florestal.

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O Código (des) Florestal – II – artigo de Sebastião Carlos

Nessa esdrúxula anistia aos desmatadores há uma ironia cruel. Os deputados dizendo estar defendendo o proprietário rural, na realidade estão punindo aquele que cumpre a legislação atual, já que este não terá nenhum benefício e estará em pé de igualdade legal com quem desmatou. Sem se falar que sua terra será desvalorizada, já que para futuros compradores será muito mais negócio comprar uma terra sem vegetação do que uma preservada. O Código aprovado igualmente não indica penalidade para quem não reflorestar suas terras.

Outro ponto extremamente preocupante e que representa um retrocesso de décadas é o referente às áreas de preservação nas margens dos cursos d’água. Na legislação anterior elas eram de 30m, agora caem para 15m, e serão contadas da borda da calha do leito regular, e não do rio em período de cheia. As encostas com inclinação entre 25º e 45º não são consideradas áreas de preservação, livrando a pecuária e a produção leiteira. A responsabilidade pelas regras de reflorestamento nas margens de rios com mais de dez metros de largura é transferida para os Estados. E, todos sabemos, aí é que mora o perigo. (Afinal, quem manda na maioria dos governantes estaduais?). E veja ainda leitor, que burrice: qualquer aluno de primeiro grau sabe que o desmatamento das margens favorece a erosão e o consequente ciclo da água, com inegável prejuízo ao proprietário.

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O Código (des) Florestal – I – Artigo de Sebastião Carlos

Nos dias que correm, até as crianças sabem da importância dos ecossistemas para a qualidade de vida e para a existência mesma. A proteção das florestas e dos recursos naturais é capitulo fundamental do conhecimento social e das políticas públicas voltadas para a melhoria da condição da população. A regulação do ciclo das chuvas e dos recursos hídricos, o equilíbrio do clima, a polinização das plantas, enfim, a biodiversidade e a riqueza vital que ela representa, é sustentada pela existência dos biomas florestais. Daí que o Código Florestal tem tudo a ver com a qualidade de vida de todos os brasileiros. Isto já era legalmente entendido lá atrás, em 1934, com a primeira lei geral das florestas e depois consolidada em 1965 com o Código. Portanto a ideia, esposada legalmente há décadas, de que o Código Florestal interessa a toda sociedade já de há muito havia se tornado evidente. Paralelamente, subsiste o entendimento de que a política de proteção aos recursos florestais tem implicação direta na vida econômica, com interesse imediato para aqueles que vivem da atividade agrícola. Isto sem se falar que, ao vetar a ocupação de áreas de riscos sujeitas a inundações e a deslizamentos de terra, diminuindo as catástrofes provocadas pela erosão em encostas e enchentes de rios, o Código Florestal tem igualmente um alcance significativo para os núcleos urbanos. Supunha-se, por truísmo, que tal entendimento fosse realmente pacífico, inequívoco, incontestável. Ledo engano. No entanto, não é isso o que pensa a Câmara dos Deputados.

Por significativa maioria, (274 a 184), os deputados deformaram o projeto do Código Florestal que havia sido costurado consensualmente no Senado. Já não era o ideal, mas com ele havia se chegado a um consenso que representava um avanço em relação ao texto que saíra ano passado da Câmara. No entanto, rompendo com a tradição parlamentar, faltando com a palavra empenhada no acordo com os senadores, os deputados entregaram ao país um arremedo de Código, uma lei que representa o retrocesso, que nasce velho, distanciado dos anseios mais avançados do país que nas próximas semanas irá abrigar uma cúpula mundial de chefes de Estados para, precisamente, discutir a questão ambiental. Com esse Código do retrocesso com que cara o Brasil irá se apresentar?

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Rumo aos 300 – A Cidade que está em nossa imaginação

uma cidade nasce antes / na imaginação /
e é filha de sentimentos /menos que fruto da razão.
ingrata com os que a louvam
loas entoa aos que a desamam
assim se tece a história de uma cidade
entretecida nos aranzéis do sarãzal do tempo.

A intervenção da poesia no conceito de urbanismo, e por consequência na paisagem urbana, é para consignar a cidade como um local de paz e de felicidade. Elisabeth Bishop, a consagrada poetisa norte-americana que nos anos cinquenta viveu no Rio de Janeiro, escreveu com propriedade que “o Rio não é uma cidade maravilhosa, é apenas um cenário maravilhoso para uma cidade.” Um cenário que, de resto, pode ser despedaçado, desfigurado. Daí que a ignorância, o desconhecimento da realidade ecológica, a ganância e a falta de amor à cidade e de civismo pode transformar um local, originalmente paradisíaco, em ambiente de caos urbano, de inchamento populacional ao invés de crescimento ordenado, enfim tornar uma cidade infernal e infeliz para se viver.

No ano de 1884 esteve em Cuiabá, rumando para a descoberta da foz do rio Xingu, o cientista alemão Karl Von den Steinen. Passou aqui algumas semanas e em 1886 publicou na Alemanha o livro em que registrou as impressões que teve de Cuiabá. Conto essa história e trago trechos dessa estada em meu livro Viagens ao Extremo Oeste. O tedesco se referiu a Cuiabá como uma “idílica cidadezinha residencial, no interior do sertão” e comparou a hoje praça Alencastro: “Aqui se tem a impressão de uma linda cidade balneária alemã, numa tarde de domingo”, e ainda, “tudo é de tal modo cheio de indizível tranquilidade idílica que se tem a impressão de perambular por um vilarejo da Turíngia.” Faço referência a essas passagens, como poderia fazer a de tantos outros viajantes que por aqui estiveram. Já vejo que os modernosos, autorreferenciados como progressistas, estão rindo e soltando chistes de ironia a dizerem: “esse tonto sonhador, e, portanto ultrapassado, quer que Cuiabá retorne ao século dezenove.” Sabem, porém, muito bem que não é disso que se trata. Quis apenas estabelecer um marco referencial para dizer que Cuiabá já foi tida como uma cidade agradabilíssima para se viver e, se deixou de sê-lo não significa que precisa continuar a ser um lugar impessoal feito apenas de concreto e de asfalto.

Poderemos, entre um parâmetro e outro, estabelecer um modus vivendi mais agradável que o atual e o que poderá vir a ser. Por exemplo, nessa discussão novelesca entre VLT e BRT, por que não se pensar na possibilidade de bondes? Ledo engano supor que a implementação de qualquer desses sistemas de transporte, que só percorrerá a área mais central da cidade, irá representar, como num passe de mágica, a melhoria dos transportes coletivos das duas cidades gêmeas.

Sim, podem continuar a rir os céticos e gozadores de plantão. Bondes que funcionam, que são belos, simpáticos e que atraem inúmeros passageiros existem em Portugal, chamados de eletro, em São Francisco, na Califórnia, os cable car, e mesmo no Rio de Janeiro, em Santa Tereza.

Romantismo à parte, a questão do “transporte urbano não se resume apenas ao deslocamento de passageiros e cargas, mas também à organização espacial de todas as atividades dentro da cidade”, lembra John Dyckman, doutor em planejamento urbano da Universidade da Califórnia. A preocupação maior – estarão discutindo isso? – é o entorno desse transporte sobre trilhos, ou seja, aquilo que outro especialista norte-americano, Wilfred Owen, chamou de “criar uma atmosfera na qual o sistema de transporte possa funcionar.

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Que cidade queremos? Que cidade teremos? [Final] – artigo de Sebastião Carlos

Então, estas questões elementares, sobre se Cuiabá está sendo devidamente preparada para atender ao seu crescimento demográfico e a todas as demandas sociais, econômicas, ambientais, que virão após a realização da Copa, precisam ser respondidas. Enfim, passada a euforia atual, terão sido criadas as condições ideais de qualidade sócio-ambiental e da melhoria dos serviços públicos para aqui se viver dignamente?

Longe de mim querer discutir aspectos os mais variados e complexos que envolvem a questão do que seja uma cidade ideal. Muito menos em um artigo, necessariamente sucinto como este. Creio, não obstante, ter uma visão que não destoa, em substância, daquela de quantos se debruçaram, ao longo dos anos, sobre o que é uma cidade e qual a sua função e sua importância para aqueles que a habitam. A reflexão sobre esse tema abrange, além do âmbito da Arquitetura e do Urbanismo, também os campos da História, da Sociologia, da Filosofia e do Direito. E, se me permitam, da poesia. Em outras palavras, quero dizer que esse debate não deve, nem pode, ficar adstrito aos governantes ocasionais. Embora as decisões administrativas sejam antes decisões políticas, é unânime consenso que elas precisam ser embasadas em fundamentos estabelecidos a partir daquelas ciências. Assim foram as melhores decisões tomadas na história recente do urbanismo, em todo o mundo.

Um mapa das discussões sobre urbanismo realizadas nos dois últimos séculos traz para o debate figuras que vão de Ildefons Cerdà, um dos fundadores do urbanismo moderno, que no século dezenove modernizou Barcelona, passa por Le Corbusier, Lewis Mumford até chegar aos nossos Lúcio Costa e Milton Santos, sem se falar em Fustel de Coulanges que em seu clássico A Cidade Antiga traçou a distinção entre cidade e urbe havida entre os antigos. Referência imperiosa neste contexto se faz ao manifesto urbanístico que resultou do IV Congresso Internacional de Arquitetura Moderna realizado em 1933, na Grécia, e que ficou conhecido como A Carta de Atenas. Nela se lançou os conceitos da chamada Cidade Funcional, que viriam a influenciar a reconstrução de cidades européias após a Segunda Guerra e que praticamente basilou a criação do Plano Piloto de Brasília, elaborado por Lúcio Costa. Contemporaneamente, os teóricos discutem as bases do que se convencionou chamar de Novo Urbanismo.

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Que cidade queremos? Que cidade teremos? [3] – Artigo de Sebastião Carlos

Não se trata, por evidência, de questionar a alocação dos recursos públicos destinado para Cuiabá. O que se trata é de trazer à luz, e discutir, algumas questões referentes às prioridades e opções dadas para as intervenções que se darão na paisagem urbana. Por exemplo, continuo achando que a demolição do Verdão foi um erro imperdoável. Será que foi mesmo uma boa opção erguer um estádio no mesmo local que o antigo, tendo para isso que demoli-lo? Nenhuma das frágeis e raras explicações que li me convenceram do contrário. Continuo entendendo que um novo estádio deveria ter sido construído numa zona menos povoada da cidade para a qual o fluxo de crescimento urbano seria naturalmente deslocado. Como, aliás, aconteceu em outras cidades do mundo. Com isso não apenas o transporte urbano como problemas relacionados a saneamento básico, a impermeabilização do solo, ao plano de arborização, a poluição aérea, entre outros, seriam melhores solucionadas, além de que, seguramente, teriam custos mais compatíveis. Manter o estádio numa região demograficamente já congestionada foi deveras um erro a que, infelizmente, os que assim decidiram por ele não pagarão.

O mesmo se verifica sobre a necessidade de uma ampla discussão em torno da questão de qual seja o melhor tipo de sistema de transporte a ser escolhido. Esclarecimentos devem ser dados, entre outros, de qual será o preço da passagem? E por quanto tempo? Será ela ou não subsidiada? Nesse quesito, já divulgaram que enquanto no BRT ela custaria em torno de R$ 2,00, no VLT não sairia por menos de R$ 4,35, conforme a exposição que o então diretor da Agecopa, Yenes Magalhães, fez à Assembléia Legislativa. Igualmente, é necessário saber qual será o custo da manutenção do sistema ao longo dos próximos dez ou vinte anos?

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Que cidade queremos? Que cidade teremos? [2]

Uma cidade não pertence aos seus governantes. Estes são apenas os gestores transitórios das suas mazelas e das suas belezas, por mais que se agarrem aos cargos, por mais que queiram acreditar de modo diverso. Governantes e cidadãos deverão ser parceiros na longa jornada da construção diária da cidade. Talvez seja oportuno mais uma vez parafrasear o primeiro-ministro francês no período da guerra de 1914. Não sei se foi Poincaré ou Clemenceau quem disse que a guerra era um assunto tão sério que não poderia ficar nas mãos dos militares. Pois, repitamos: a preocupação quanto ao futuro de uma cidade é assunto tão sério que não pode ficar a sob responsabilidade exclusiva dos eventuais detentores de cargos públicos. E quando acontece um fato de grande relevância como é essa inesperada alocação de recursos públicos, os cidadãos não podem se comportar como se estivessem assistindo a um desfile de escola de samba, distantes e omissos. A intervenção popular, por mais sábios que porventura se julguem os administradores e representantes políticos, se faz necessária. Pois digo, também, que a sabedoria desses governantes estaria em convocar o povo para ser co-participe desse grande debate. As autoridades do alto dos palácios têm a nobilíssima tarefa de facilitar e estimular a participação de quantos se acham motivados e interessados no futuro de sua cidade.

As universidades, as escolas, os sindicatos e associações, as entidades representativas dos diferentes segmentos sociais deveriam estar envolvidas no grande debate: que cidade queremos? Seria igualmente oportunidade única para o exercício da mais legitima Democracia. Os gregos, inventores desse insubstituível sistema de governo, convocavam seus cidadãos à Àgora e nela decidiam seus destinos.

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Que cidade queremos? Que cidade teremos? [1]

Os recursos que estão vindos para Cuiabá, e as obras deles decorrentes, sem dúvida modificarão definitivamente a face da cidade. Mas, para além das preocupações mais imediatas que estamos vendo diariamente seja do uso dos recursos, das desapropriações que se farão e, sobretudo se teremos o VLT ou o BRT, a questão central, a meu ver, não foi colocada. O fulcro do problema é: que cidade queremos que a quase tricentenária Cuiabá se torne? Ou, perguntando de outro modo: em que cidade aspiramos a viver nos próximos anos?

Esta indagação, lamentavelmente, não se fez presente com tanta insistência ao longo das últimas décadas. Nos anos finais da década de trinta do século passado certamente ela se colocou perante alguns com a vitoriosa visão de estadista que teve Júlio Müller ao querer consolidar a cidade como a capital definitiva de Mato Grosso. Com efeito, as chamadas Obras Oficiaes estabeleceram o marco para uma Cuiabá que se queria modernizar, num contraponto com a então pujante Campo Grande, permanente rival na disputa para ser a cabeça do Estado. Esta questão igualmente não foi colocada com a veemência necessária por ocasião da divisão do Estado e do novo remanejamento urbano representado pelo CPA. Estes foram, a meu ver, dois momentos decisivos da nossa história contemporânea, comparável talvez ao ano de 1835, quando, no dia 28 de agosto, o presidente da Província Antônio Pedro de Alencastro assinou a Lei nº 19 transferindo a capital. Direi que desses dois momentos marcantes, o segundo foi perdido. Agora, com a excepcional oportunidade do aporte de significativos recursos proporcionados pela realização de alguns dos jogos da Copa do Mundo outro momento decisivo na nossa história urbana surge inesperadamente. Portanto, questões vitais deveriam estar sendo colocadas diante desse horizonte. A idéia de um novo urbanismo, de uma cidade sendo redirecionada para outro futuro deveria estar ressurgindo. Perderemos ou não esse momento histórico?

Esta série de curtos artigos pretende trazer uma modesta contribuição para um debate que já tarda.

As perguntas que nos devemos fazer são: as melhores opções para o futuro da cidade foram, e estão sendo, feitas? Qual o perfil urbano passará a ter nossa capital com essas obras? Uma discussão deveria nascer e tomar fôlego diante de uma questão central e fundamental: qual o melhor futuro para a cidade e para aqueles que nela vivem o seu cotidiano? Enfim, que herança estamos deixando para aqueles que virão depois de nós?

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Entre uma opção e outra, qual a herança? – artigo de Sebastião Carlos

Não existe novela mais empolgante e cheia de imprevistos que esta que em que se debate se melhor é ter o VLT ou o BRT. Os lances se fazem à vista e há também os que se desenrolam nos subterrâneos. Destes, porém, os pobres mortais só saberemos, se soubermos, daqui a alguns anos. Não importa se a descoberto ou não, o fato é que a conta já está pendurada na parede e por ela nós, e nossos filhos e netos, pagaremos todos. A glória será dos vencedores, mas e a conta? ah! essa é nossa. Espanta ver como situações essas dos preparativos para a sub sede da Copa do Mundo, que afetarão a vida de todos, estão sendo decididas por tão poucos. Argumentarão que é impossível colocar uma discussão dessas para a população decidir, que a questão envolve elementos de complexidade tal que, pobre do povo inculto e belo, jamais terá condições de decidir sobre o melhor modal (esta a palavra da moda). Mas fora do âmbito oficial não existiriam pessoas, nas diferentes instituições da sociedade civil, com competência que poderiam opinar, sugerir, indicar, enfim, pelo menos, oferecer alternativas? Esqueça amigo, não estamos em período de eleição, e, portanto, não cabe a elas falarem.

Não, não adianta discutir, a decisão já está tomada – vem logo a afirmação peremptória. Qualquer questionamento significa nadar contra a corrente. Qualquer ponderação é querer ser contra o progresso do Estado, dizem. Mas, senhores, acabo de ler nos jornais a declaração de uma figura insuspeita, longe de ser alguém que nada contra a corrente, não é ele um opositor e, no entanto, vem de afirmar: “Temo que essas intervenções de mobilidade, a serem inevitavelmente realizadas às pressas, baseiem-se em projetos sem o devido amadurecimento quanto ao seu detalhamento técnico; e mesmo quanto à sua viabilidade. Preocupa-me o risco de conceber uma herança que não corresponda às reais necessidades da população ao término dos jogos”, diz Ministro Valmir Campelo, do TCU, e relator responsável pelo acompanhamento das obras da Copa. E dias depois, O Estado de S. Paulo publica matéria revelando que o VLT foi aprovado pelo Ministério das Cidades mediante um documento fraudado. O projeto original era o BRT, que custava R$ 489 milhões. Segundo o jornal um acordo político do governo federal com o estadual alterou o projeto. Só que uma análise técnica anterior feita pela pasta vetava a mudança imediata. Mas aí veio o aval do ministro Negromonte e a diretora de Mobilidade Urbana adulterou o parecer original, forçando a conclusão a favor do VLT.

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Tem jabuti no poste – artigo de Sebastião Carlos

A expressão do folclore diz sobre a dificuldade de se entender alguma coisa. Quando se usa o dito popular quer-se sempre dizer que aquilo não tem lógica alguma. Claro! O jabuti, cágado, tartaruga, são animais da ordem dos quelônios que, como todos sabem, não sobem em árvore. Pachorrentos que são, têm uma dura carapaça, que lhes tolhe qualquer ânimo de agilidade. Se você encontrar algum desses animais trepados no alto de um poste, pode ter certeza, lá foram colocados. E permanecem enquanto lá forem mantidos.

Já não precisa mais ser atento observador da cena política matogrossense para se perceber o jabutizal (se me é permitido o termo) que por aqui está prosperando. Não apenas os grãos, mas seremos, em breve, também campeões na criação de quelônios. E hoje a mais frondosa árvore – mais está aberto o ranking – de criatório de jabutis é certamente a SECOPA, ou Agecopa, dá na mesma. É de se espantar os inúmeros, e cada vez mais questionáveis, problemas que surgem no âmbito desse agente governamental. Qualquer cidadão vê a olhos vistos os problemas que se encaixam uns nos outros numa seqüência inesperada. Tantos erros, tantos equívocos, alguns até hilários, e tantos atos de duvidosa seriedade estão acontecendo que a gente se espanta e até ri. Mas isto só num primeiro momento, porque depois, quando se percebe que tudo isso ainda vai pesar no nosso bolso, a vontade será de chorar.

O primeiro e mais dramático desses erros seguramente se deu na própria criação da Agecopa. Foi um organismo criado para ser uma poderosa estrutura, na verdade um governo dentro do governo, que iria prescindir ou mesmo se sobrepor a um futuro governo que não pertencesse às fileiras do então governador. Na época, denunciei essa característica arrogante e antidemocrática. Infelizmente, a própria “oposição” (oposição de ocasião, diga-se) calou-se. Assim como, depois, contestei – e continuo a fazê-lo – a demolição do Verdão. A realidade é que a Agecopa se transformou num vespeiro. A primeira vítima foi o seu presidente, mas a briga intestinal não teve fim, até que acabou por ser extinta. Isso tudo acontecendo num governo de aliados e supostos amigos, imagine-se então se a oposição tivesse ganho. Então, o erro nasce com a forma arrogante e pretensiosa com que foi partejada. Porém, nem mesmo a sua filha, apelidada de Secopa, tomou juízo. Herdeira da mãe, herda igualmente os seus trambolhos. Mas poderia, pelos menos, agir diferente. Lamentavelmente, não o faz.

A nossa primeira surpresa na imediata troca das siglas foi saber que a substituta só utilizaria um terço dos servidores. Ora, para se poder dispensar dois de cada três servidores era porque lá se contratava gente em excesso. Foi então a Agecopa um cabide de empregos? Mas ninguém quis saber disso. Depois se anunciou o cancelamento de contrato, no valor de R$ 6 milhões, para a obra de um teleférico na Chapada dos Guimarães. A seguir, sempre pela imprensa, ficamos sabendo de uma compra de veículos, com tecnologia russa, sem licitação, para a montagem do chamado Conjuntos Móveis Autônomos de Monitoramento – Comam pelo valor de 14,1 milhões de reais. É muito jabuti na árvore, ou não?

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Impunidade – artigo de Sebastião Carlos

Não creio existir na vida em sociedade mal maior que a impunidade. Talvez seja maior ainda que a injustiça mesma. Quando existe a injustiça, existirá sempre a esperança de que, ainda que tardia, a Justiça se fará. Com a impunidade, não. A impunidade impregna o tecido social e a consciência individual de uma impotência, de certo sentimento de inutilidade na luta pela justiça e de que não vale a pena esperar pela punição do criminoso. E assim se gera o estímulo a novos delitos. O entendimento dessa realidade é tão antigo que há mesmo um provérbio latino que diz que impunitas peccandi illecebra, ou, a impunidade estimula a delinqüência.

A impunidade é um soco no estomago da sociedade e têm naturalmente várias faces. Há a impunidade pela certeza de que, cometendo o delito, pela categoria social que o indivíduo ocupa ele não irá receber a pena devida ou ela será tão leve que pena não será. Há a impunidade causada pela lentidão excessiva do Judiciário que, graças aos bons advogados que o dinheiro pode contratar, o processo judicial será postergado ao máximo, o que, não raro, levará a prescrição do delito. Existe ainda aquela impunidade que consiste no não-cumprimento da pena, embora tendo sido formalmente condenado, o indiviudo se evade, isso mesmo que a mão do Estado pudesse tê-lo detido. Há a impunidade daquele que, embora condenado, recebe pena que mais parece prêmio. É o caso, por exemplo, da pena aplicada sobre o juíz que, afastado da magistratura por graves delitos, é mandado para casa com todos os direitos de uma boa aposentadoria. Enfim, independente de ser considerada em seu aspecto objetivo (técnico) ou subjetivo (ligado a impressões individuais) a impunidade é elemento altamente desagregador da vida em sociedade. Ela se constitui, em si mesma, numa violência contra a vida em uma sociedade que se pretende civilizada. Seja por ineficiência do sistema penal, seja por elementos de ordem sociológica e política, a impunidade se revela um fator de destruição da confiança na democracia e num modo de vida de respeito aos direitos coletivos e individuais. É elementar dizer que a lei penal, desde os seus primórdios, foi criada para tutelar bens jurídicos considerados importantes, e, em troca, a sociedade abriu mão da vingança privada, transferindo para o Estado o poder de equacionar os seus diferentes conflitos de interesses. Quando, por qualquer razão ou razão nenhuma, a ação de um individuo contraria principios legais harmonicamente aceitos e sobre ele não recai sanção, ou apenas sanção insignificante, cria-se evidentemente uma situação de desistimulo a harmonia social. Essa afronta pode tanto estimular o cometimento de delitos iguais ou maiores ou desaguar numa rebelião social sem controle.

A impunidade não alcança apenas as classes socialmente melhores aquinhoadas. No Brasil de hoje, ela praticamente se generalizou para chegar a até mesmo a aqueles segmentos sociais mais sofridos. Lembro os ínumeros casos de violência contra a mulher em que, mesmo denunciado e sob o conhecimento da polícia, o companheiro chega ao extremo do assassinato. É bem verdade, porém, que, graças à midia, a população, com relativa com freqüência, vem tomando conhecimento da impunidade que permeia a vida dos políticos, dos executivos públicos e privados, de pessoas com posições de destaque social e profissional ou mesmo daqueles mais conhecidos criminosos como seqüestradores, homicidas, traficantes de segundo escalão, policiais corruptos e servidores públicos corruptos.

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Um brasileiro acima de seu tempo – Artigo de Sebastião Carlos

Olha-se o horizonte da vida pública do país e se enxerga a imensa maioria de homens pequenos, melhor diria apequenados. O quadro é quase desolador. A esperança sobrevive, no entanto, porque ainda existem as exceções, embora poucas, que confirmam a regra. Rendo aqui minha homenagem a um homem imenso. Ele acaba de fazer 90 anos. Mas propriamente no dia 14 de setembro. Afastado por algum tempo de minhas colaborações à imprensa, não pude celebrá-lo, como fiz dez anos atrás. Ele é um desses homens agigantados pela dimensão com que atuaram na História. Sob qualquer aspecto que se o veja, a sua grandeza se sobrepõe. Não é necessário ser religioso, sequer um crente, para admirá-lo. Não seria exagero se o denominássemos de um santo civil. A dimensão de sua grandeza vai além de filiações religiosas ou ideológicas, atravessa as classes sociais. Ele ergue-se acima de seu tempo. Ele é motivo de orgulho para os homens de bem deste país assolado. Estou me referindo a D. Paulo Evaristo Arns.

A atuação pastoral de Dom Paulo foi, desde sempre, voltada para atender às necessidades mais prementes dos desvalidos das periferias. Necessidades não somente espirituais. Um religioso com formação erudita, com doutorado em Letras na Sorbonne, se dedicou com afinco às comunidades eclesiais de base e ao trabalho cultural junto aos trabalhadores. Quando veio a ditadura, acrescentou a essa atuação uma destemida luta em defesa da promoção dos direitos humanos. Os perseguidos, os torturados, aqueles que não podiam ter voz, nele se socorreram. Num período que o simples falar já era uma demonstração de coragem, Dom Arns foi um dos que mais falaram. E aquela foi uma época em que não poucos homens de coragem se destacaram.

Não é num pequeno artigo que se tem espaço para falar desse jovem nonagenário. Vamos a alguns poucos fatos, porém. Em 1973, ano em que foi nomeado cardeal, num ato que surpreendeu e desgostou a muitos de seus pares, vendeu por 5 milhões de dólares o Palácio Episcopal e empregou o dinheiro na construção de 1.200 centros comunitários na periferia. Em 1975 foi protagonista de um marco na história da luta contra o regime militar. Com um rabino e um pastor protestante, D. Paulo celebrou na Catedral da Sé um ato ecumênico de sétimo dia em homenagem ao jornalista Wladimir Herzog, torturado até a morte nas masmorras do DOI-CODI, o aparelho de repressão. O ato corajoso do cardeal Arns foi um refrigério para aqueles que lutavam contra o regime e causou enorme impacto no exterior. Nunca como então a ditadura brasileira ficou tão exposta aos olhos do mundo. Já antes, D. Paulo tinha ido a Brasília levar ao presidente Médici denúncias de torturas e mortes nos quartéis e nos aparelhos de repressão. Conta-se que o general o recebeu em seu gabinete, de pé, com a cara amarrada, e sem sentar-se e nem ao menos cumprimentá-lo, recebeu a pasta, e, apontando o dedo para a porta de saída, disse-lhe “o seu lugar é na sacristia”. Em 1986, foi o estimulador e coordenador da equipe que elaborou o livro “Brasil: Nunca Mais”, importante relato dos crimes praticados contra a dignidade humana durante o regime militar. O corajoso catarinense não enfrentou apenas os militares brasileiros. Não temeu fazer críticas públicas ao papa João Paulo II e manteve vários embates com o cardeal Joseph Ratzinger, o atual papa Bento XVI. E, é claro, sofreu retaliações do Vaticano, uma delas foi, em 1989, com a divisão em cinco da diocese de São Paulo, até então uma das maiores do mundo.

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A artilharia do pensamento contra a censura

Forças solertes se articulam para lenta e inexoravelmente destruírem conquistas seculares. A liberdade de imprensa é o fundamento dos países soberanos e apanágio dos homens livres. O avanço da civilização não se fez, e desde as conquistas da Revolução Gloriosa [1685-1689] que, na Inglaterra, eliminou o Absolutismo e introduziu o Parlamentarismo, e da Revolução Francesa [1789-1799] que trouxe à luz solar os princípios norteadores de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, sem a participação essencial da imprensa. Desde então os países a consagraram em suas Cartas Magnas. É a imprensa a primeira instituição a ser atingida quando os inimigos da liberdade se preparam para darem o bote contra a Democracia. A imprensa livre é a irmã gêmea das consciências libertas do medo, da subserviência, do acanalhamento moral. A imprensa é, enfim, a artilharia do pensamento. Quando a imprensa não é livre todas as instituições democráticas, entre elas as liberdades individuais, ficam com uma espada de Dâmocles pendente sob a cabeça do cidadão. Por isso é que a imprensa livre não é apenas do interesse daqueles que nela atuam. Estes podem até vir a serem os primeiros a sofrerem as conseqüências, mas o ar que faltar aos jornalistas faltará também ao cidadão. Vivemos os anos da ditadura e a imprensa, ainda que sob o cerco da censura, conseguiu contribuir para que o país conquistasse de volta a Democracia. Assim é que a Constituição de 88 consagrou a liberdade de expressão como um dos elementos basilares na vida de nosso povo.

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Qual a sua imagem de Cristo?

Às vésperas de final de ano, de entremeio o Natal, é a época em que nos vemos imantados por um sentimento difuso de fraternidade, de solidariedade e, vamos lá, usemos a palavra, de amor. Mas, venho me perguntando, isto será mesmo verdadeiro na atualidade ou não passa de um lance de romantismo, herança do passado, um dejá vu? Se tal sentimento foi outrora mais disseminado e intenso, podemos dizer que ele persiste ainda? Ou, o que nos parece restar agora é tão somente a corrida rumo às compras, aos shoppings centers e à necessidade imperiosa de partir para algum lugar no espairecimento das férias? A maioria de nós, desde a mais tenra idade, pelo menos nesta época do ano, foi estimulada a pensar no maior profeta da humanidade, suas lições, sua vida, seu padecimento.

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A liberdade de imprensa é o ar do cidadão

Forças solertes se articulam para lenta e inexoravelmente destruírem conquistas seculares. A liberdade de imprensa é o fundamento dos países soberanos e apanágio dos homens livres. O avanço da civilização não se fez, e desde as conquistas da Revolução Gloriosa [1685-1689] que, na Inglaterra, eliminou o Absolutismo e introduziu o Parlamentarismo, e da Revolução Francesa [1789-1799] que trouxe à luz solar os princípios norteadores de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, sem a participação essencial da imprensa. Desde então os países a consagraram em suas Cartas Magnas. É a imprensa a primeira instituição a ser atingida quando os inimigos da liberdade se preparam para darem o bote contra a Democracia. A imprensa livre é a irmã gêmea das consciências libertas do medo, da subserviência, do acanalhamento moral. A imprensa é, enfim, a artilharia do pensamento. Quando a imprensa não é livre todas as instituições democráticas, entre elas as liberdades individuais, ficam com uma espada de Dâmocles pendente sobre a cabeça do cidadão. Por isso é que uma imprensa livre não é apenas do interesse daqueles que nela atuam. Estes podem até vir a serem os primeiros a sofrerem as conseqüências, mas o ar que faltar aos jornalistas faltará também ao cidadão. Vivemos os anos da ditadura e a imprensa, ainda que sob o cerco da censura, conseguiu contribuir para que o país conquistasse de volta a Democracia. Assim é que a Constituição de 88 consagrou a liberdade de expressão como um dos elementos basilares na vida de nosso povo.

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Fábulas Contemporâneas

Em tempos idos, existiu um Rei, com um altíssimo índice de aprovação de seus súditos. Com o tempo se tornou um senhor muito poderoso, que viajava por todas as partes da Terra, quando então lhe eram tributadas homenagens várias, nas quais sempre era ressaltada a sua origem humilde. Sim, esse era um rei que, nascido em ásperas paragens, castigadas pelo sol inclemente e violentada desde sempre pelo poderio de gente tão impiedosa como o cáustico clima, dele fugira, indo para terras mais amenas. Continue Reading

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Paranóia

Não sei se este seria o termo mais apropriado para definir o momento político que vivemos. De todo modo, com conhecimento psicanalítico perto de zero, não encontrei termo mais adequado para falar sobre os vários, e cada vez mais surpreendentes, modos do comportamento de nossos candidatos. Falo no geral, porque a exceção a regra é que é a “anormalidade”. Veja que paradoxo e veja em que situação estamos, meu paciente leitor, para um único exemplo. De que outra forma tentar entender a seguinte situação: um político tem um projeto de seu Partido, ao qual ele segue fielmente, mostrado no horário de propaganda eleitoral pelo adversário. O projeto é, de certa forma, polêmico e discutível. O adversário quer tirar proveito junto a setores sociais que não concordam com a proposta e com isso, naturalmente, fazer o político perder votos provindos desses setores. O candidato, autor do referido projeto, se sentindo prejudicado com essa exposição recorre ao Judiciário que, lhe atendendo, determina a retirada daquela referência. Então, veja a paranóia gerada. O político que, utilizando de seu tempo na TV, divulga a ação parlamentar legítima de um seu adversário, deveria receber deste efusivos agradecimentos. E, em contrapartida, ser considerado por todos, homem público da mais alta estirpe que, em plena campanha eleitoral, reconhece o valor de seu adversário. Ou então poderia ser tido como um arrematado tolo, que divulga feitos daquele que pretende derrotar. Por outro lado, o político que apresentou o projeto não há porque reclamar de sua divulgação porque, embora polêmico, é fruto da legitimidade de seu mandato popular. Afinal, não é para isso mesmo que os deputados são eleitos? E, mais ainda, gozam até desse abusado e mal compreendido instituto da imunidade parlamentar, para exercer o mandato em sua plenitude. Bem isto seria natural em outros tempos, em outras terras. Não nesta nossa generosa terra matogrossense.

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De repente, Vinícius

Alma de poeta. Vida de poeta. Se todos fossem iguais a você, que maravilha viver, como disseste em um de seus versos-música. Não, nem todos tem a alma de poeta. E quantos gostariam de ter a vida de poeta? Destino de poucos, possibilidades ínfimas da grande maioria dos viventes, terem a alma de poeta. De repente, não mais que de repente, neste deserto de almas áridas, de mentes avaras, em que o país se mergulhou, voltadas mais para o ter do que para o ser, de quem posso estar falando? De repente, não mais de repente, falo de quem estava distante e tão próximo se fez. Falo de Vinicius de Moraes.

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A oposição que se autodestruiu

Um dos aspectos mais interessantes na presente campanha eleitoral parece ser o da morte da oposição. Nunca antes se viu uma oposição tão inerme, tão incompetente, tão desprezível. Temos hoje, em pleno regime democrático, uma oposição atemorizada, quase envergonhada. E não por força do governismo, mas por culpa dela mesma. Ninguém, em sã consciência, quer uma oposição agressiva, descabelada, com metralhadora giratória atacando a tudo e a todos os que lhe passam na frente, como, aliás, se viu em passado não tão longínquo.

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A Cena é Móbile – II

Da política ao cemitério, passando pela estética do feio.

Catilina(s), até quando?

Até quando, enfim, ó Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda este teu rancor nos enganará? Até que ponto a tua audácia desenfreada se gabará?” (Livro I, cap. I)

“Efetivamente nenhuma nação existe que temamos; nenhum rei há que possa fazer a guerra ao povo romano. Todas as coisas externas estão pacificadas (…) resta só a guerra doméstica.” (Livro II, cap. V)

(por Sebastião Carlos) Muitos fatos da História podem, sem nenhum exotismo, serem trazidos para a atualidade. Por mais avanços tecnológicos e científicos, o homem, em sua essência, continua o mesmo. O trecho acima pertence às Catilinárias, os célebres quatro discursos que o grande Marco Túlio Cícero pronunciou no Senado romano contra o senador Lúcio Catilina, que conspirava contra a República. A pronta, decisiva e eloqüente reação de Cícero deu uma sobrevida ao regime republicano. Ao longo dos mais de dois mil anos desde que estes discursos foram proferidos, as Catilinárias, que se tornou um texto clássico da política, vem sendo citada sempre que existe uma real ameaça contra o interesse público. De outra sorte, as Catilinárias se ergueu como um símbolo da vitória da ética sobre a corrupção.

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