Bem Vindo – Artigo de José Antônio Lemos

Com a alma ‘lavada e enxaguada’ nas águas da goleada do Cuiabá Esporte Clube em João Pessoa contra o até então invicto Botafogo local, registro a chegada à Copa do Pantanal na semana passada do primeiro torcedor estrangeiro. Trata-se de um chileno chamado Cristian Guerra que veio de bicicleta de sua terra até Cuiabá em 4 meses de viagem, após um consumo de 5 jogos de pneus, tudo para assistir e dar força à sua “La Roja”, a seleção de seu país cuja formação atual é considerada a melhor de todas já formada no Chile, tanto que conquistou uma das 8 cabeças de chave da Copa 2014, superando poderosas seleções como as da Itália, Inglaterra, Holanda e França.

Cuiabano de ‘tchapa e cruz’, dou minhas boas-vindas a todos os torcedores que começam a chegar a Cuiabá em nome do destemido Cristian. Peço, entretanto, que releve a situação em que se encontra a cidade com muitas obras não-concluídas, grande parte delas envolvendo suas principais avenidas e o próprio aeroporto, do qual foi poupado, pois veio de bicicleta e voltará de carro. Acontece que Cuiabá é a menor das sedes da Copa no Brasil e aquela que mais precisava se esforçar para sediar um evento dessa envergadura. Mesmo assim, de forma corajosa, entrou na disputa por uma das sedes e ganhou, comprometendo-se a preparar-se para receber dignamente os torcedores que viessem acompanhar suas seleções. Para tanto, arriscou-se a desenvolver o maior pacote de obras públicas e privadas de sua história e, como você já deve ter percebido, nem tudo foi concluído.

Aliás, foi uma artimanha do destino escolher um chileno como o primeiro torcedor a chegar a Cuiabá, permitindo que se juntassem duas histórias bastante parecidas em relação às dificuldades em sediar uma Copa. Preparando-se para a Copa do Mundo de 1962, o Chile sofreu em 1960 um dos maiores terremotos da história recente deixando mais de 5 mil mortos e 25% de sua população desabrigada. Para muitos o Chile devia desistir, pois não daria conta de realizar tão grandioso evento ao mesmo tempo em que deveria socorrer tantos de seus filhos vítimas da grande tragédia. “Porque nada tenemos, lo haremos todo”, foi a frase que levantou o moral do Chile. Os chilenos enfrentaram o flagelo, se prepararam para o grande evento e ainda fizeram sua melhor campanha nas Copas. Não foi mais longe, pois teve pela frente o Brasil com Garrincha fazendo mágicas. O Brasil não tem terremotos, em compensação seu sistema político-administrativo vale mil cataclismas.

Entretanto, para quem se dispôs a vir de tão longe, nada será bastante para ofuscar as belezas da cidade e as maravilhas deste grande estado de Mato Grosso que pelo seu tamanho é impossível conhecê-las em tão pouco tempo. A começar pelo “calor sadio, às vezes melhor, muito melhor que o frio” do poeta Carmindo, que em princípio assusta, mas que logo nos leva aos barzinhos da cerveja estupidamente gelada, em especial aquelas feitas com águas platinas mato-grossenses. Nada impedirá uma foto junto ao obelisco do Centro da América do Sul, de conhecer o sabor do guaraná, do pacu e do matrinxã, o som forte e alegre do Siriri e do Rasqueado ou o gemido cantado e dançado do Cururu. É fácil chegar a Chapada e ao Pantanal. Se quiser, pode ainda ver as fazendas de gado ou plantações high-tech de soja, algodão, milho e girassol, como seus balés de colheitadeiras e plantadeiras, que ajudam Mato Grosso a matar a fome do mundo. O importante é que todos os visitantes sejam felizes em Mato Grosso, levem boas recordações e sintam vontade de voltar aqui de novo. E que cada uma das seleções que pisarem o gramado da Arena Pantanal consiga sempre seu melhor desempenho e avance o máximo na Copa.

* JOSÉ ANTONIO LEMOS DOS SANTOS, arquiteto e urbanista, é professor universitário

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José Antônio Lemos dos Santos

José Antonio Lemos dos Santos, arquiteto e urbanista, é professor universitário. Troféu "João Thimóteo"-1991-IAB/MT/ "Diploma do Mérito IAB 80 Anos"/ Troféu "O Construtor" - Sinduscon MT Ano 2000 / Arquiteto do Ano 2010 pelo CREA-MT.

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