Bovinices literárias

Em MS, acabaram com o ensino da literatura! Quando fiz o haicai “talvez seja o clima/ criando rebanhos/ de gente bovina”, estava sufocado com a bovinice da nossa intelligentsia mato-grossense. Tudo muito tacanho em termos de apoio cultural. Talvez por serem nossos governantes partidários do agronegócio, onde o que há para ler resume-se a um manual de tratores ou as instruções de um herbicida. Exceções aqui e acolá que só confirmam a regra: vivemos ilhados num bolsão de calor e de ignorância, onde o poder público não enxerga a cadeia produtiva da cultura e da educação. O caso piora em Mato Grosso do Sul. As autoridades resolveram extinguir o ensino de literatura como disciplina independente. Se quiser ler algo, o infeliz aluno do ensino público só poderá apreciar um fragmento de texto, caso estude gramática. Por aqui em Mato Grosso, estamos às vésperas de aplicar o ensino de história, geografia e literatura mato-grossense nas escolas que servirão de modelo. Trata-se de uma plataforma institucional da Academia de Letras que, após muito diálogo, foi encampada pelos gestores. Portanto, não só a literatura se conservará autônoma, como serão valorizadas as letras regionais. Autores como Manoel de Barros, Ricardo Guilherme Dicke e Silva Freire serão estudados em sala de aula como parte do curriculum básico e obrigatório. O próximo passo – um desafio – será a produção de material didático e a qualificação profissional específica do corpo docente. Pelo menos é isso que esperamos dos compromissos que firmamos ultimamente. É esperar para ver se o espírito bovino não muge mais alto. Enquanto o Exame Nacional de Cursos exige dos alunos a leitura de filosofia, sociologia e literatura, além de conhecimentos sobre arte, os nossos governantes insistem em optar pelo consumo cultural mais barato, mais fácil, mais confortável de especialistas em bovinices, matéria obrigatória em se tratando dos Mato Grossos. Parece que a grossura não é só do mato que temos em comum. Em lugares mais inteligentes, aprende-se a língua a partir da literatura e não o inverso. Vivemos na contramão do que se espera da formação humana de um jovem com habilidades e competências para ser produtivo e realizado. Lamentamos por uma geração de jovens tratados como rebanho de uma gente bovina. Talvez seja o clima…

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