Breve [e oportuna] lição da História – Por Sebastião Carlos

Por Sebastião Carlos | A vida política costuma ser um mar de decepções. Mas igualmente pode trazer ensinamentos.

A África do Sul é agora o último exemplo. A sociedade multirracial lá hoje existente é fruto da liderança tenaz de um homem invejavelmente corajoso. Nelson Mandela [18/07/18 – 05/12/13], que passou mais de três décadas preso, pelo “crime de consciência”, desejou construir uma pátria moderna, democrática e isenta da corrupção. Com a renúncia forçada pelo Parlamento do até então prestigiado presidente Jacob Zuma, um fiel discípulo seu, ocorrida ontem, sob pesadas acusações de corrupção, de incompetência e de malversação de bens públicos, o grande líder deve estar dando voltas no túmulo. Que legado inglório. Que traição a ideais tão longamente acalentados por gerações inteiras que morreram sob tortura nas masmorras do regime do apartheid? Que tisnaram de sangue as vielas das favelas de Johanesburgo, do Cabo, de Pretória? Tanto esforço, tantas esperanças. O antigo camponês, que foi igualmente figura importante na luta antissegregacionista, preso por dez anos e que passou mais de quinze anos no exílio, vice-presidente de Mandela e depois seu sucessor, a partir de maio de 2009, desandou totalmente quando assumiu o poder. Está sendo alvo de mais de 800 acusações que vão de investigações sobre corrupção ao favorecimento a empresários com concessões públicas milionárias. Foi forçado a renunciar por seu majoritário partido, o Congresso Nacional Africano (ANC, na sigla em inglês), e se não o fizesse esta semana mesmo sofreria um rápido processo de impeachment. Como, aliás, ocorre nos países que se querem democráticos. Não houve movimentos organizados que foram às ruas para defendê-lo. Não houve acusações de que havia um “golpe em andamento”. Sinal de amadurecimento político, de respeito e confiança nas instituições ou simplesmente descaso? O fato é que ninguém se atreveu a apoiá-lo. No entanto, a bem da verdade é preciso fazer um registro: pelo menos em sua ultima fala, em cadeia nacional de rádio e TV, foi honesto o suficiente para dizer que tinha que aceitar que “se meu partido e meus compatriotas desejam que eu saia, eles têm que exercer esse direito e fazer isso da maneira prescrita na Constituição“.

Ou seja, pelo menos por lá, ninguém ousou dizer que houve um “golpe”. Não que ele não tivesse sido eleito democraticamente, não que seu partido não tivesse maioria no Parlamento. Democracia é isso: respeito às leis e às instituições. Nesse ponto o grande Nelson deixou um legado vitorioso.

É oportuno lembrar que na Polônia ocorreu o mesmo. O Sindicato Solidariedade, originalmente formado por metalúrgicos, liderou a luta contra o governo autoritário. Vários de seus membros foram presos, torturados e exilados. Após a derrocada do regime comunista, seu líder, o operário Lech Walesa [Prêmio Nobel da Paz em 1983], foi eleito presidente para o período de 1990 a 1995. Deu impulsos a mudanças profundas na vida política, econômica e cultural polonesa, contribuindo para a transição política de um regime socialista governado por um partido único a uma economia de mercado nos moldes dos países da Europa ocidental. Todavia, tempos depois, acusações de corrupção e de incompetência administrativa, o tiraria do poder [também lá não houve acusações de “golpe” ou de ingratidão do povo] e Walesa, o então “respeitado e heroico” líder, e verdadeiramente o havia sido, seria levado ao ostracismo. Nos anos seguintes, o poderoso Solidariedade, que havia tido nos áureos tempos mais de 10 milhões de filiados, foi definhando para hoje não ter mais que alguns poucos milhares de seguidores. Nele não permaneceu nenhuma liderança importante, com capacidade para reerguê-lo. Os poloneses não lamentaram. Não tentaram armar nenhuma resistência ao poder constituído. O Estado de Direito estava fortalecido. E o país segue normalmente sua rota.

Haveria outros casos assemelhados? Claro que sim. Mas todos se encaixam conforme espelhou o gênio de N. Maquiavel: “Uma república sem cidadãos de boa reputação não pode existir nem ser bem governada; por outro lado, a reputação dos cidadãos é motivo de tirania das repúblicas”. Que pode muito bem ser complementada por esta outra: “O primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta”.

Os exemplos servem para quê?

Para encerrar, voltemos a Mandela: “Perigos e dificuldade não nos travaram no passado e não nos assustarão agora, mas devemos preparar-nos para eles, como homens determinados quanto ao que pretendem e que não perdem tempo com conversas vãs e inação.”

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Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado e historiador. Publicou, entre outros, “Viagens ao Extremo Oeste – Desbravadores, aventureiros e cientistas nos caminhos de Mato Grosso” e “Perfis Mato-Grossenses”.

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Sebastião Carlos

Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado, professor e historiador; membro da Academia Mato-Grossense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso e do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Autor de, entre outros, “Viagens ao Extremo Oeste – Desbravadores, aventureiros e cientistas nos caminhos de Mato Grosso” e “Perfis Mato-Grossenses”.

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