Cadeiras e Carapuça

O maior sentido da Copa para Cuiabá é a oportunidade de grandes investimentos públicos e privados deixando importante legado em favor da qualidade de vida de seus habitantes. Uma chance de ouro para investimentos que de outra forma a cidade não veria em décadas. E bota décadas nisso. Ainda com uma imensa vantagem adicional: por ser um compromisso internacional do país, tudo está sendo feito sob os olhos atentos da imprensa nacional e internacional de maior confiabilidade pública que os dos sistemas oficiais de controle, os quais também se esforçam para não ficar para trás. Nunca um pacote de investimentos foi tão fiscalizado publicamente, certamente que ainda não o suficiente para acabar de vez com as “tenebrosas transações” que alquebram o Brasil. Assim, meio que brincando tenho dito que a Copa foi uma sacudida do Senhor Bom Jesus em nós cuiabanos para que preparemos bem sua cidade para o Tricentenário em 2019.

Sem querer rediscutir o que já está decidido e em fase avançada de implantação, sou dos que entendem que Cuiabá está ganhando com a Arena não só um estádio de futebol, mas uma arena multifuncional, equipamento de ponta em tecnologia de eventos de âmbito nacional e global, permitindo à cidade entrar na disputa pelos megaeventos via satélite e internet, apoiada no charme do centro sul-americano, das belezas naturais do Pantanal e Chapada, do cerrado e Amazônia, e das maravilhas tecnológicas dos grandes campos produtivos da agropecuária mato-grossense. Um elefante dourado. Cabe sermos competentes para pilotar essa nave intergalática, poderosa arma na disputa pela agenda dos grandes eventos com as poucas similares brasileiras e, em especial, saber defendê-la dos ataques dos que querem abatê-la antes mesmo de concluída pelo simples fato de ainda não terem assimilado sua perda para a pequena, pacata e ainda desajeitada Cuiabá.

A última pressão sobre a nossa Arena Pantanal veio por suas cadeiras serem melhores do que as cadeiras da Arena de Brasília. Segundo a Secopa, as cadeiras daqui obedecem às especificações técnicas do projeto e são diferentes das de Brasília, com preços também diferentes. Especificações de materiais e mobiliários em uma obra dessa envergadura são elementos técnicos integrantes dos projetos arquitetônicos, competência e responsabilidade do arquiteto, protegido por lei em suas decisões, inclusive quanto a direitos autorais. Questionamentos técnicos, só por técnicos legalmente competentes, observada a ética profissional. Seria como questionar as prescrições de um médico, embora muitos ainda achem que a arquitetura seja apenas uma questão de gosto. Cada projeto tem suas próprias especificações técnicas conforme seu partido arquitetônico e devem ser respeitadas. Ainda mais no caso de um projeto premiado dentro e fora do país.

Não sei qual será a decisão do estado sobre o assunto, mas seria uma pena a alteração da cadeira especificada. Nas novas arenas a cadeira é o trono do espectador e esta será uma das vantagens de nossa compacta e belíssima Arena Pantanal. Cuiabá já se orgulhou do antigo Cine Tropical com as poltronas mais confortáveis do país. Depois, do melhor gramado no saudoso Verdão. Por que não podemos ter a melhor cadeira de todas as arenas? Se coubesse questionar algum projeto, mais apropriado seria perguntar como a Arena Nacional de Brasília pode ter cadeiras inferiores, mesmo tendo custado mais de 3 vezes a arena cuiabana? A Arena de Brasília custou R$ 1,7 bilhão e a de Cuiabá R$ 0,56 bilhão. Não nos cabe essa carapuça. Por enquanto, melhor é lotar o Dutrinha amanhã e domingo apoiando Mixto e Cuiabá em suas partidas decisivas pela ascensão no futebol brasileiro. Força Mixto e Cuiabá!

*JOSÉ ANTONIO LEMOS DOS SANTOS, arquiteto e urbanista, é professor universitário

José Antônio Lemos dos Santos

José Antonio Lemos dos Santos, arquiteto e urbanista, é professor universitário. Troféu “João Thimóteo”-1991-IAB/MT/ “Diploma do Mérito IAB 80 Anos”/ Troféu “O Construtor” – Sinduscon MT Ano 2000 / Arquiteto do Ano 2010 pelo CREA-MT.

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