Das páginas do facebook: As valiosas Bugigangas de Divanize Carbonieri

AS VALIOSAS BUGIGANGAS DE DIVANIZE CARBONIERI(Eduardo Mahon)Em qualquer inventário, sobretudo o literário, importa…

Publicado por Eduardo Mahon em Segunda, 8 de outubro de 2018

AS VALIOSAS BUGIGANGAS DE DIVANIZE CARBONIERI
Por Eduardo Mahon | Em qualquer inventário, sobretudo o literário, importa tanto saber o que está arrolado, quanto o que está esquecido. É que o que o autor não diz pode ser mais importante do que a própria escrita. Esse tipo de arrolamento é prazeroso em autores que escondem propositalmente a intenção, ou ainda, escondem-se nas palavras. Talvez tenhamos aí um bom termômetro para mensurar a densidade de uma obra e, por isso, quero destacar a poeta Divanize Carbonieri que pipocou pronta para o consumo nacional, temperada com sal e pimenta, nas duas obras publicadas recentemente pela Editora Carlini e Caniato – Entraves e Grande Depósito de Bugigangas.
Os títulos são complementares, não coincidentemente. Há uma estrutura que sustenta a lógica autoral – não existe um depósito de bugigangas que não sejam, de certa forma, entraves. O entrave é o que atrapalha, impede, obstrui. Pode ou não ser uma bugiganga. Sendo ou não, o que importa é que Divanize quer cantar o excesso acumulado, colocando o subjetivo e o objetivo no mesmo patamar de quinquilharias. Ocorre que, em meio a tanta coisa inútil que incomoda e está confusamente superposta, a autora esconde uma ausência – e é aí que a poesia torna-se maior. Pergunto: como a poeta faz caber em si tanta coisa?
Divanize começa o poema Inventário (em algum momento, em meio à montanha de itens poéticos, a mania de listagem iria surgir) referindo-se à desimportâncias tão caras a Manoel de Barros: “um inventário de/ pequenas coisas/ cachos de açucenas/frascos de alfazemas/ caixas de brinquedos/ bonecas e bodoques”… e termina por negar-se à faxina: “poucos são os badulaques/ realmente necessários/ mas dispensá-los/ é uma sabotagem/ para o espírito/ inventariante e/ catalogador”. O discurso da eficiência é descartado pela poeta. Ela é uma acumuladora de memórias, de sentimentos, de impressões. Romântica? É muito provável. No ato acumulativo, a sobrevalorização do passado, a conservação próxima dos antigos significados, a resistência por desembaraçar-se de velhos hábitos são práticas comuns.
Na rica linguagem de Entraves, Divanize enumera toda a sorte de “embaraços”: flores pisadas, homens de terno, animais vagabundos, guarda-roupas e mesmo paquidermes de toda a sorte. Chama particular atenção como a poeta enxerga o corpo obeso do paquiderme, ele mesmo mais um entrave entre tantos outros. A composição Paquiderme é repleta de duplos sentidos, enriquecida por um vocabulário denotativo: “a pele do paquiderme/ padece na secura do deserto/ ranhuras prenhes de pó/ sulcos desenhados como/ quadrados na epiderme/ enquanto pasce ressequidos/ ramos sem se impacientar/ em súbita e sibilante sequência/ na sediciosa intempérie/ uma tempestade de areia/ delineia-se diante dele/ sente o impulso de desertar/ mas empaca apalermado/ tomado de paralisia suicida/ permanece parado e quieto/ em pouco tempo se alquebra/ enterrado no granito cristalino/ sucumbe na grande estrutura/ arquitetônica de seu corpo/ uma catedral de carne rota”.
É comum observar a relação entre as contradições do vazio e cheio – tudo se transforma: a pele em piso, o osso em ogivas e o corpo, em igreja. O jogo travoso entre a proximidade vernacular – epiderme, paquiderme, apalermado, intempérie – causa admiração pela erudição da autora. O binômico deserto/desertar também soma qualidade estética ao entrave vocabular e estético de Divanize Carbonieri. Nesse mesmo sentido, a pele é um tema recorrente. No poema Entraves, por exemplo, “um talho rasgado em plena epiderme/ não é qualquer falha de caráter que torna/ arrastado o existir por entre trastes/ é o completo sequestro da sanidade/ que arruína para sempre toda a chance/ de se desentulhar os últimos entraves” e, também em Riscos: a pele não é mais pintada nem riscada/ sua aspereza não se dá pelo sulcos/ arranhados por poucos espinhos e ossos”. Por fim, cito um trecho de Mestiça: “cicatriz herdada/ bordada na epiderme/ o verme que devora/ rememora o ancestral/ espectral ascendente/ resplandecente rama/ da trama antiga”. Finalmente, pinço do poema Lacuna: “a tez do tecido igual ao tema urdido/ da derme rota dessa menina morta”. Percebe-se a obsessão com a comparação entre pele e morte.
Chamo atenção para o “jogo travoso” de Divanize porque quase todas as composições são hostis à primeira leitura. É como os “tigres tristes atravessando o trem das três” ou “o rato roendo a roupa do rei de Roma”. Os entraves começam na linguagem truncada, abusando de proparoxítonas: súbito, decúbito, espírito, moléstia etc. Vai truncando, truncando até chegarmos no violento poema Úvula: “ululando/ a úvula/ uma válvula/ volátil/ da voz/ lamentosa/ o látego/ do grito/ regurgitado/ gira e atinge/ três/ tons/ timbres/ brados/ brutos urros/ roucos/ rosnados/ o couro/ cru da/ dor”. E também no poema Gatas do qual seleciono um trecho: “tigradas/ tricolores/ chitadas/ ciciando/ no colo preguiçosas/ esticando/ as garras/ estreitando/ as presas/ sorrateiras/ no assoalho das casas/ cascalho/ areia/ saltando nos galhos/ das goiabeiras”. Ainda: “mulher é a trava/ ataviada/ travestida/ avestruz/ atroz”.
Toda essa riqueza de entraves poéticos, estorvos fonéticos, de inutilidades subjetivas, esse entulho cuidadosamente inventariado por Divanize Carbonieri (vide o poema Utensílios), quer esconder uma falta – a falta do amor. O que sobra inevitavelmente sublinha o que falta. No Grande Depósito de Bugigangas, é possível rever os gatos, os utensílios, as roupas, as fotos, um conjunto sufocante. Mas, entrelinhas, a poeta acaba por se confessar: “muito eu amei/ como se animada/ por uma mania”, do poema Melodia. Ou ainda: “cumpre-se o fado/ admirável sina/ de dardejar/ o alvo que se quer/ sobejamente amar”. No poema Empório, a poeta arrola “desse grande depósito de bugigangas/ilusões empoeiradas à escolha/ de todos os catadores de destroços/ que emprestam seus esforços/ para a recolha dos cacos de sonhos”. Tantos trastes colecionados podem ser decepções que se colecionam em cartas extraviadas, em fotos amarelecidas, em pequenas lembranças opacas.
Já no final do segundo livro, Divanize entrega-se completamente: “um formidável espécime/ pusilânime caráter/ energúmeno exemplar/ imprestável indivíduo/ um infame mequetrefe/ matusquela infantil/ um cafajeste sem par/ errante meliante/ um patife de marca maior/ um amante/ amado cada vez mais e melhor”. Importante sublinhar o “matusquela infantil” e contrapor essa expressão de desejo/rejeição com o poema Corpo: “corpo é empecilho/ um castigo/ no meio uma chaga/ encharcada/ uma parelha errada/ para o macho/ menor na estatura/ piorada por todo o lado/ pelo corpo se mensura/ a capacidade/ dimensiona-se o préstimo/ e a utilidade/ com o corpo/ faço um pacto/ de ser amotinada/ desengonçada/ desgraçada/ escapando ao corpo/ posso ser de verdade”.
Na poesia de Divanize Carbonieri há muitos empecilhos contemporâneos. O corpo é o maior deles, sem nenhuma dúvida. Sua relação com outros corpos, com o espaço exíguo, com a vida e com a morte, faz do corpo o protagonista (talvez antagonista) da pós-modernidade, onde se pode riscar, traçar, tatuar, compor, recompor, fustigar, identificar. É provável que a própria Divanize inclua-se nesse grande depósito de bugigangas, no mais das vezes como um entrave, ela que incorpora o espaço de acumulação e preenche esse enorme vazio que há em todo grande poeta.

Eduardo Mahon é escritor.

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A conquista da França agora na Rússia não se deu por acaso como um “dom natural” dos franceses para o futebol. A conquista de 2018 é resultante de uma política de estado, deflagrada em fins dos anos 70 após três eliminações sucessivas

VIVE LA RÉPUBLIQUE!

José Antônio Lemos | A Copa do Mundo deste ano não havia me entusiasmado. Até gostei da seleção brasileira, torci, mas quase burocraticamente. Talvez a Copa do Pantanal, com seu sucesso, seus problemas e suas polêmicas nos tenha supitado com o assunto. No entanto a importante vitória do Cuiabá diante do Joinville sábado passado na Arena Pantanal, renovaram o interesse e novas luzes iluminaram a Copa destacando alguns aspectos que valem refletir aqui na nossa pátria mãe gentil.

A conquista da França agora na Rússia não se deu por acaso como um “dom natural” dos franceses para o futebol, ainda mais sendo o futebol,  chamado “esporte bretão” na locução dos antigos “speakers” brasileiros, um esporte inventado pela gente do outro lado da Mancha, pelos quais o francês não nutre grande simpatia. A conquista de 2018 é resultante de uma política de estado, deflagrada em fins dos anos 70 após três eliminações sucessivas do “scratch” gaulês. O governo francês criou um instituto para o desenvolvimento específico do futebol, com centros de treinamento nas periferias das maiores cidades. Política séria, de longo prazo, sem pensar nas próximas eleições, mas no bem do povo francês. De lá saíram para a seleção  Pavard, Varane, Umtiti, Matuidi, Pogba, Giraud e Mbappé. Que tal?

Uma política assim parte da visão do esporte como uma das formas mais sublimes de expressão da vida, todos os esportes, mas em especial o futebol, pela paixão que desperta não só entre brasileiros, mas, quer queiram quer não, no mundo inteiro, mesmo nas nações mais desenvolvidas. Nunca vi a Champs-Élyssés cheia daquele jeito como vi no domingo. O esporte tratado como política séria, catalisadora da juventude agregando-lhe ao mesmo tempo educação, saúde, inclusão social e racial, e uma alternativa digna de futuro em um dos maiores e mais promissores mercados de trabalho no mundo, neutralizando as alternativas das drogas, da violência e da exclusão. Em troca a sociedade recebe benefícios imediatos em segurança e saúde públicas, e, mais importante, garante futuras gerações de cidadãos com melhores níveis de vida e preparadas para conduzir seus próprios destinos.

Mesmo sem muitas informações de lá, na Croácia também teve algo semelhante quando nos idos de 90 seu primeiro presidente disse que o esporte seria a primeira coisa capaz de levantar um país depois de uma guerra. Terceiro lugar na Copa de 98 e agora vice-campeão mundial. Um país quase com a mesma população de Mato Grosso e recém-destruído pelas guerras. O Brasil e Mato Grosso deveriam seguir o mesmo caminho. Um dos objetivos do Brasil ter investido na Copa de 2014 era esse, ao menos nos discursos. Mas ficou nos discursos. O atual governador de Mato Grosso chegou a prometer em campanha a construção de quatro centros de formação de atletas, com registro em cartório. Também ficou na promessa, mesmo com a Copa tendo deixado a Arena Pantanal, que poderia ter se transformado na cabeça de um sistema estadual de formação de atletas, complementado pelos COT’s inacabados e as diversas iniciativas existentes pelo interior do estado. David Moura, Felipe Lima, Ana Sátila puxariam como exemplos um programa desses.

Mas o melhor desta Copa da Rússia foi o atacante campeão Griezmann concluir sua entrevista após o jogo final bradando “Vive la République!” O técnico fez o mesmo. Entendi que para eles a República, a res-publica, o bem comum de todos os franceses é mais importante que a própria França. Ou melhor, a França é a República.  Esta é a grande diferença para um país onde o que vale são interesses pessoais ou de grupos em detrimento do bem comum, de uma República que não significa nada e que precisa ser reproclamada com urgência. Viva os campeões!

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Hoje, 13 de junho completam 4 anos do primeiro jogo da Copa do Pantanal, lembra Zé Lemos

Copa do Pantanal, 4 anos

Por José Antônio Lemos | O cuiabano sempre foi amante do futebol. Na minha infância jogava-se bola em qualquer lugar com qualquer objeto de aparência esférica que aparecesse, um papel amassado, uma laranja e às vezes até uma tampinha de garrafa abandonada no pátio da escola, com dois “bambolês” de traves. Porém nem mesmo o mais apaixonado cuiabano amante do futebol havia sequer pensado que um dia Cuiabá pudesse sediar uma Copa do Mundo, o olimpo mundial de tão querido esporte. E não é que aconteceu? No próximo dia 13 de junho já se completam 4 anos do primeiro jogo da Copa do Pantanal, evento que foi até o dia 24 do mesmo mês, abrindo com Santo Antônio e fechando com São João. Contudo, um triste processo de desconstrução política a faz parecer bem mais distante, já quase esquecida. Mas não dá para esquecê-la fácil.

Junho de 2014 chegou com os primeiros turistas. O primeiro, Cristian Guerra, chileno, chegou depois de 4 meses de viagem de bicicleta. E logo chegaram aos milhares, alegres, dando aula de como torcer aos brasileiros. Os chilenos uníssonos com seus “chi-chi-lê-lê”, os australianos de cangurus e coalas. E também vieram os russos, nigerianos, coreanos, os bósnio-herzegovinos, colombianos e os japoneses ensinando civilidade ao limpar a Arena após o jogo, lição usada pela torcida do Cuiabá no primeiro jogo de seu time após a Copa, mas ficou só nesse primeiro e depois esqueceram. Podiam relembrar.

Os colombianos trouxeram sua rainha, a bela Shakira e deixaram a lembrança do gol de James Rodriguez, escolhido por ele como o seu mais bonito, ele que depois foi eleito o Craque das Américas e que chegara como mero substituto do então astro maior colombiano machucado. Veio Bachelet, a presidente do Chile, Wolverine, o príncipe da Austrália e outras personalidades globais que nem foram percebidas em meio a turba alegre e festiva que lotou a Arena, o Fan Park, a Arena Cultural e a Praça Popular ponto de encontro de todas as torcidas. Fora dos jogos e das festas, o Centro Geodésico foi lugar de visitação constante, com os turistas sul-americanos procurando suas capitais no piso do marco.

Ao final as pesquisas noticiadas constataram que 91,6% dos visitantes aprovaram Cuiabá e recomendariam Mato Grosso como destino turístico. Em pesquisa do Ministério do Turismo 99% dos visitantes escolheram Cuiabá como a sede mais hospitaleira e a Arena Pantanal foi a preferida entre os jornalistas estrangeiros pelo site UOL, logo a UOL, sempre tão dura com Cuiabá. Até o New York Times se rendeu àquela que chamou de “a menor das cidades-sede”. Quer mais? Mais importante, cerca de três quartos da população local aprovaram as transformações trazidas pela Copa e acham que a cidade não passou vergonha, isso a 4 anos atrás, quando bem menos obras estavam concluídas ou em uso.

Mas para Cuiabá a Copa vai além dessa festa tão bonita. Ela elevou sua autoestima e ensinou o cuiabano a cobrar pelas obras e serviços públicos a que tem direito pressionando-o a continuar cobrando a conclusão de todo o legado prometido de obras públicas e que ainda estão a exigir muita atenção e cobrança pela população. Mas, uma vez aprendido, no rastro da cobrança das obras da Copa, que sejam cobradas também as demais obras públicas, muitas das quais vêm de bem antes da Copa e ainda se arrastam sem perspectivas de conclusão.

O importante é que a Copa do Pantanal, o evento em si, aconteceu com enorme sucesso em todos os sentidos, superando as expectativas dos maiores otimistas. Para aqueles que apostavam que a cidade seria o “patinho feio” da Copa no Brasil, Cuiabá acabou se mostrando como um belo tuiuiú serenando bonito no alto, para depois se assentar vitorioso no chão, como na letra do siriri tão conhecido.

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Das quatro lagoas projetadas para o CPA só uma vingou, ainda que tenha precisado de mais de quatro décadas para vir enfim cumprir seu destino

Lição do Esgoto

Por José Antônio Lemos | O arquiteto é um profissional que tem no otimismo e na esperança, com pés no chão, suas principais condições de trabalho. Principalmente o urbanista. Trabalhando com aquilo que ainda não existe, mas visando sua futura existência ele tem que acreditar na possibilidade concreta daquilo que projeta. Assim, está sempre entre aqueles que acreditam que os problemas trazem em si o germe de sua própria solução e que quanto maiores as dificuldades, maiores as chances de grandes resultados, grandes não necessariamente no tamanho ou complexidade, mas também no seu inusitado ou simplicidade. Na maioria das vezes é preciso de coragem para expor a cara à tapa propondo algo singular, jamais visto, não por desejo de aparecer, mas apenas por ser aquela a solução cabível para aquele problema específico, também singular.

No último artigo tratei da paralisação nacional dos caminhoneiros e da possibilidade dessa grande crise forçar a solução para a grande questão da logística nacional dos transportes em especial para Mato Grosso, com o avanço da ferrovia e o desenvolvimento de outros modais de imensos potenciais no estado como o hidroviário, o dutoviário, o aeroviário e mesmo o rodoviário que sempre será necessário, mas sem ser o único como é agora. Possibilidades também para o uso da energia solar abundante e dos biocombustíveis como o biodiesel e o etanol com amplas vantagens ambientais e logísticas, com farta produção no estado, geradores locais de emprego e renda. Um grande problema visto como perspectiva para grandes soluções. Não desespero, mas esperança.

Este artigo é dedicado ao esgoto da lagoa do Parque das Águas em Cuiabá, problema antigo agravado com a criação do Parque, espaço urbano que cativou de pronto o coração dos cuiabanos. Antes já caía na lagoa e já era um grande problema, mas com o Parque a situação se expôs aos olhos do público também como agressão a um dos equipamentos mais queridos pela cidade. A propósito do Parque das Águas idealizado e implantado pelo prefeito Mauro Mendes, lembro lá por 1974 o engenheiro Sátyro Castilho projetando quatro lagoas para o futuro CPA buscando elevar a umidade do ar e proporcionar áreas públicas de qualidade para o lazer social urbano. Castilho, um bom nome a ser homenageado no local como um dos criadores do CPA. Das quatro lagoas só uma vingou, ainda que tenha precisado de mais de quatro décadas para vir enfim cumprir seu destino. O saudoso ex-prefeito coronel Meirelles, dizia que a boa arquitetura e o bom urbanismo precisam ter alma para se realizarem. E a alma do Parque das Águas se fortalece com a felicidade diária de seus usuários e, assim, não será fácil ser desleixado pelos gestores públicos. Tem muita gente zelando por ele.

Voltando ao esgoto, este era intocável pois tinha origem nos órgãos máximos da administração estadual. Com receio de afrontar excrementos de tão altos escalões, o problema foi enrolado por várias administrações. Até que depois de muitas notificações, autuações e TACs malsucedidos, e com os usuários reclamando, o atual secretário municipal de Serviços Urbanos José Roberto Stopa no fim do mês de abril concretou os tubos que despejavam o esgoto na lagoa, fazendo retornar os efluentes aos palácios de onde originavam. No mesmo dia as providências fluíram e hoje o tão querido Parque das Águas está livre da poluição para felicidade de seu jacaré, seus peixes, capivaras e outros usuários bípedes ou não que compõem sua alma. Simples assim. Basta um gestor republicano decidido a resolver. Que a corajosa decisão sirva de inspiração para outros graves problemas que se arrastam circulando pelas repartições do Brasil afora.

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Festejar os 299 anos é exaltar uma cidade nascida entre as pepitas de um corguinho com muito ouro chamado pelos nativos de Ikuiebo, Córrego das Estrelas, que desagua em um belo rio entre grandes pedras chamadas Ikuiapá

CUIABÁ 300-1

    Por José Antônio Lemos | Desde 2009 a cada aniversário de Cuiabá tenho escrito artigos com títulos fazendo uma contagem regressiva destacando quantos anos faltam para o Tricentenário e, em especial, o tempo disponível para a preparação da cidade para essa grande data. Começou faltando 10 anos, agora falta só 1. A preocupação era comemorar a efeméride mais do que com uma simples festa, mas com a cidade engalanada com melhores padrões urbanísticos, radiante com sua população usufruindo níveis superiores de qualidade de vida. Este seria o maior presente.

     Essa preocupação já vinha de 1989 com a Lei Orgânica de Cuiabá na qual foi trabalhado o capítulo “Política Urbana” visando estabelecer as bases de uma gestão urbana moderna, contínua, técnica e participativa, feita sob medida para Cuiabá, tendo 30 anos como horizonte de planejamento, isto é 2019, o Tricentenário. O capítulo continua lá na Lei, mas a cidade não consolidou sua política urbana, ao invés, desfez o que vinha sendo montado ficando para trás das irmãs brasileiras que tomaram igual iniciativa, mesmo que depois.

    Interrompido o processo a alternativa seria a preparação de uma agenda de projetos, ainda que pontuais, para presentear a cidade. Foi quando aconteceu o milagre. Em 2009 a história surpreende os cuiabanos com o desafio da Copa do Mundo e sua agenda de importantes projetos envolvendo recursos públicos e privados que de outra forma jamais se viabilizariam nem nos próximos 50 anos. Cheguei a acreditar que esse grande evento tivesse sido um artifício do Bom Jesus para treinar a nnós cuiabanos na preparação de sua cidade dignamente para os 300 anos. Um aprendizado de 5 anos e depois trabalhar uma outra agenda própria para a festa, com outros 5 anos de execução. Parece que não aprendemos nada, ainda que tenham acontecido algumas iniciativas dignas de registro tais como as edições da feira “Edificar – Cuiabá 300”, promovidas pelo Sinduscon/MT e Secovi/MT, o projeto “VerdeNovo” da JUVAM/Cuiabá lançado este ano, e o formidável “Famílias Pioneiras” criado nas redes sociais sob a liderança do Muxirum Cuiabano. Quanto às iniciativas públicas a prefeitura criou no ano passado uma secretaria especial para os 300 anos e uma agenda de 20 projetos especiais. O estado trabalha na conclusão de diversas obras da Copa e na retomada de alguns importantes projetos que se encontravam adormecidos tais como as saídas para a Chapada e Guia.

    Festejar os 299 anos é exaltar uma cidade nascida entre as pepitas de um corguinho com muito ouro chamado pelos nativos de Ikuiebo, Córrego das Estrelas, que desagua em um belo rio entre grandes pedras chamadas Ikuiapá, lugar onde se pesca com flecha-arpão em bororo. E ela floresceu bonita, célula-mater deste “ocidente do imenso Brasil”. Mãe de cidades e estados, o aniversário de Cuiabá é também o aniversário do vasto Oeste brasileiro. O Oeste nasceu em Cuiabá. Por 3 séculos resistiu a duras penas, tempo heroico forjador de uma gente corajosa e sofrida, mas alegre e hospitaleira, dona de rico patrimônio cultural e com proezas que merecem maior atenção da história oficial. Como o astronauta pioneiro, vanguarda humana na imensidão do espaço ligado à nave só por um cordão prateado, assim foi Cuiabá por séculos, solta na vastidão centro-continental, ligada à civilização também só pelo cordão platino dos rios do Prata. Hoje a cidade vibra em dinamismo, globalizada e provinciana, festeira e trabalhadora, centro de uma das regiões mais produtivas do planeta que ajudou a ocupar e desenvolver. Festejar os 300 anos de Cuiabá é celebrar passado, presente e, especialmente saudar e preparar o extraordinário futuro, principal legado de sua história.     

    JOSÉ ANTONIO LEMOS DOS SANTOS, arquiteto e urbanista, é conselheiro do CAU/MT e professor universitário aposentado.

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Amanheceu mais um dia de luta e desafios – Telma Ribeiro Preza

DESABAFOAmanheceu mais um dia de luta e desafios. Como costumamos dizer lá na Santa Casa, matamos um touro a unha todos…

Publicado por Telma Ribeiro Preza em Terça-feira, 13 de março de 2018

DESABAFO
Amanheceu mais um dia de luta e desafios. Como costumamos dizer lá na Santa Casa, matamos um touro a unha todos os dias, se deixarmos para amanhã, serão dois ou mais… Acordei com uma estranha sensação de tristeza, pois para mim é incompreensível, que tratem a saúde como um jogo de forças ou moeda de troca.
Onde está o planejamento necessário para atender a população que precisa de atendimento à saúde pela rede pública? Quais os serviços públicos de saúde estão em funcionamento de conformidade com a real necessidade do estado?
A certeza que todos temos é que a rede estadual de saúde pública está destroçada, inoperante e seus usuários à mercê da sorte.
Os hospitais filantrópicos estão lutando arduamente para continuar mantendo atendimento digno e humano à população, todavia, não sei se por incompetência ou simplesmente falta de gestão, apesar de serem os responsáveis por cerca de 80% do atendimento do SUS em Mato Grosso, os hospitais filantrópicos estão sendo penalizados e impedidos de continuar prestando serviços à comunidade.
Então, por que não unir as forças e juntos continuar prestando um serviço digno e humano a todos?
Uma auditoria feita pela PLANISA, empresa nacional de renome em auditoria em saúde ficou durante um ano auditando, verificando o funcionamento dos hospitais filantrópicos no estado levantou, verificou e constatou um déficit crescente de 40% na tabela de pagamento do SUS, de outro modo verificou ainda, que em relação aos serviços de saúde prestados pelos hospitais filantrópicos, o serviço prestado pelas OSS fica em torno de 4 a 6 vezes mais caro, e, em relação aos serviços públicos, estes são de 6 a 8 vezes mais caros do que as entidades filantrópicas.
Vale ressaltar, que a empresa que realizou o estudo e entregou o relatório da auditoria foi sugerido pelo próprio governo do estado. E, ainda, foi pago pelas filantrópicas com muita dificuldade. Com o resultado da auditoria externa realizada o governo se propôs a completar os valores deficitários oriundos da tabela do SUS a fim de que não houvesse interrupção do funcionamento.
Esta solução foi encontrada pelo Governo de São Paulo, quando teve um salto gastronômico no custo com a saúde e, após estudos e auditorias realizadas, verificou que o fechamento de várias Santas Casas no estado, em virtude da tabela defasada do SUS, originou esse aumento significativo com os gastos da saúde pelo governo e a solução encontrada foi fazer o repasse das diferenças as entidades, que reabriram suas portas, viabilizando a saúde em São Paulo.
E esse mesmo problema foi comprovado pelo relatório da PLANISA em Mato Grosso, com o qual o governo concordou, mas, ainda assim, resolveu que pagaria apenas 50% da diferença, ou seja, R$ 2.500.000,00 (dois milhões e meio de reais), diga-se de passagem, que de o governo de plano roeu a corda. Bem, com tudo isso, os hospitais vêm lutando para manter suas portas abertas.
Todavia, não há o que possa com os atrasos constantes nos repasses das verbas referentes aos serviços prestados à população, UTI, etc. Quer dizer, além da defasagem da tabela do SUS, ainda um atraso de (três meses)?
Chega de descaso!!! Chega de inverdades!!! Mostrem que tem alguma solução!!! CADÊ A REDE PÚBLICA?????? Não tem??? Deixe os filantrópicos trabalharem, então…O povo não merece sofrer!

Telma Preza
Coordenadora Voluntária de Projetos e Ações da Santa Casa da Misericórdia de Cuiabá

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Eduardo Mahon: O político é um homem público que tem obrigação de ser simpático, de atender bem, de ser educado e atencioso, de mostrar-se solícito e sensível aos problemas dos outros

MISS ANTIPATIA (E.M)O personalismo político é tão atraente como repulsivo. No início, costumamos apostar na figura do…

Publicado por Eduardo Mahon em Sexta, 2 de março de 2018

O personalismo político é tão atraente como repulsivo. No início, costumamos apostar na figura do herói, do salvador, do xerife, quando não nas três imagens unidas numa única pessoa, como no caso do atual Governador Pedro Taques. Era bastante simples a opção de voto, após a passagem da nuvem de gafanhotos que devastou Mato Grosso. Eu mesmo cheguei a lançar Taques à Presidência da República por três motivos: não havia (e não há) candidato moralmente decente, Taques vinha de uma excelente performance no Senado e, ainda, poderia consertar o estrago que garimpeiros amadores fizeram às contas públicas do Estado. Portanto, era natural a esperança. Ocorre que, quanto maior a esperança, maior a frustração. A atração pelo chefe, pelo líder, pelo homem que prometia a moralização da máquina pública foi dissolvida em repulsa pelo megalômano, pelo egocêntrico, pelo capataz-administrador que menospreza de servidores a parlamentares.

Nas pesquisas mais sérias, a enorme rejeição não se volta contra o governo e sim contra o governador. Por que? Pela crônica antipatia. Ele diz – e disse comigo ao lado – que fez concurso para miss simpatia. Parece, no entanto, que estamos lidando com o vencedor do troféu miss antipatia. O político é um homem público que tem obrigação de ser simpático, de atender bem, de ser educado e atencioso, de mostrar-se solícito e sensível aos problemas dos outros. Diria, inclusive, que em tempos tão bicudos como os nossos um governador deve ser mais simpático que a própria miss simpatia, para manter a motivação, a autoestima, a convicção no projeto, mesmo diante da crise financeira. Não é o único problema. A teimosia com a comparação, a fixação em medir-se com um criminoso, preso, confesso, rebaixou a figura de Pedro Taques, até porque muitos aliados ficaram (e ainda ficam) constrangidos por terem apoiado o adversário criticado. Novamente, uma falta de sensibilidade política.

Durante o governo, Taques desprezou completamente a tradição política mato-grossense, incorporando a síndrome petista do “nunca antes na história”. Cheguei a ver o Governador assegurando, em matéria de cultura, muitos fatos inéditos que, no final das contas, tratam-se de reedições de atos passados sem o devido crédito. O resultado vê-se a olhos desarmados: museus fechados, artistas sem receber, contratos não cumpridos. A altíssima rotatividade de secretários – um a um, investigados, presos ou simplesmente improdutivos, já demonstra que o Governador – estreante na política – não vinha com uma equipe, um grupo, uma aliança. Fez questão, ao revés, de sublinhar o caráter técnico do primeiro escalão quando, na verdade, o que precisávamos era de diálogo, de boa vontade, de estrutura política capaz de administrar as frustrações que cimentaram um caminho pedregoso da rejeição.

No início, o que havia de errado no governo Taques era ter Taques demais no governo. Explico: espera-se de um homem com dificuldades de articulação, de comunicação e de simpatia, alguém com esse talento para fazer o meio-de-campo na Casa Civil. Blindando-se da “turba bandoleira”, Taques duplicou-se e entronizou outro Taques na articulação política, sofrendo o rescaldo de críticas mornas, o banho-maria lento e a repulsa velada dos agentes políticos que tratavam com o Palácio Paiaguás e encontravam uma cápsula, uma redoma, uma muralha em torno do governante. Também tive ocasião de apontar o grave equívoco de comunicação, preferindo o Governador rivalizar com questões miúdas, numa linguagem técnica, pouco popular e dialógica. Passou recibo de críticas feitas por pessoas sem voto algum. Respondeu com arrogância, com processos, coincidentemente os mesmos críticos que foram grampeados.

Por derradeiro, cito o equívoco, o gravíssimo desencontro lógico, de culpar o funcionalismo público pela crise financeira. Se realmente fosse esta uma verdade, deveria o Governador manejar os artifícios jurídicos adequados para cassar vantagens ilegais, aumentos inconstitucionais, equiparações financeiramente insustentáveis. A mesmíssima artilharia deveria voltar-se contra contratos equivocados ou fraudulentos (como o do VLT que chegou a ser defendido pelo Governo e Secretários de Estado, buscando inclusive autorização legislativa para novos empréstimos), que curiosamente foram mantidos ou mesmo aumentados. Não, não estou insinuando corrupção. Prefiro não pensar que o Governador tenha relação com qualquer dos fatos que levou tantos Secretários à cadeia, inclusive por corrupção. Ainda quero desacreditar nos depoimentos de réus, de colaboradores, de antigos aliados financeiros e acreditar que o tropeço administrativo de Taques deve-se única e exclusivamente a equívocos pessoais e políticos.

Se vou votar em Taques em 2018? Nem os aliados que ainda frequentam feijoadas do Governador sabem se votam nele. Não há pior solidão do que o próprio vice criticar a gestão da qual faz parte. O resta de melhor? Para mim – e para milhares de mato-grossenses – o voto virou um excruciante jogo do “menos pior”. Havendo uma alternativa viável, prefiro colar os cacos das esperanças espatifadas e entregar a alguém mais político, mais parceiro, mais leal, mais dialógico, mais cordial, mais humilde, mais estrategista, mais eficiente e, sobretudo, mais simpático. Porque, afinal de contas, errar uma vez é humano, duas já é burrice.

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Breve [e oportuna] lição da História – Por Sebastião Carlos

Por Sebastião Carlos | A vida política costuma ser um mar de decepções. Mas igualmente pode trazer ensinamentos.

A África do Sul é agora o último exemplo. A sociedade multirracial lá hoje existente é fruto da liderança tenaz de um homem invejavelmente corajoso. Nelson Mandela [18/07/18 – 05/12/13], que passou mais de três décadas preso, pelo “crime de consciência”, desejou construir uma pátria moderna, democrática e isenta da corrupção. Com a renúncia forçada pelo Parlamento do até então prestigiado presidente Jacob Zuma, um fiel discípulo seu, ocorrida ontem, sob pesadas acusações de corrupção, de incompetência e de malversação de bens públicos, o grande líder deve estar dando voltas no túmulo. Que legado inglório. Que traição a ideais tão longamente acalentados por gerações inteiras que morreram sob tortura nas masmorras do regime do apartheid? Que tisnaram de sangue as vielas das favelas de Johanesburgo, do Cabo, de Pretória? Tanto esforço, tantas esperanças. O antigo camponês, que foi igualmente figura importante na luta antissegregacionista, preso por dez anos e que passou mais de quinze anos no exílio, vice-presidente de Mandela e depois seu sucessor, a partir de maio de 2009, desandou totalmente quando assumiu o poder. Está sendo alvo de mais de 800 acusações que vão de investigações sobre corrupção ao favorecimento a empresários com concessões públicas milionárias. Foi forçado a renunciar por seu majoritário partido, o Congresso Nacional Africano (ANC, na sigla em inglês), e se não o fizesse esta semana mesmo sofreria um rápido processo de impeachment. Como, aliás, ocorre nos países que se querem democráticos. Não houve movimentos organizados que foram às ruas para defendê-lo. Não houve acusações de que havia um “golpe em andamento”. Sinal de amadurecimento político, de respeito e confiança nas instituições ou simplesmente descaso? O fato é que ninguém se atreveu a apoiá-lo. No entanto, a bem da verdade é preciso fazer um registro: pelo menos em sua ultima fala, em cadeia nacional de rádio e TV, foi honesto o suficiente para dizer que tinha que aceitar que “se meu partido e meus compatriotas desejam que eu saia, eles têm que exercer esse direito e fazer isso da maneira prescrita na Constituição“.

Ou seja, pelo menos por lá, ninguém ousou dizer que houve um “golpe”. Não que ele não tivesse sido eleito democraticamente, não que seu partido não tivesse maioria no Parlamento. Democracia é isso: respeito às leis e às instituições. Nesse ponto o grande Nelson deixou um legado vitorioso.

É oportuno lembrar que na Polônia ocorreu o mesmo. O Sindicato Solidariedade, originalmente formado por metalúrgicos, liderou a luta contra o governo autoritário. Vários de seus membros foram presos, torturados e exilados. Após a derrocada do regime comunista, seu líder, o operário Lech Walesa [Prêmio Nobel da Paz em 1983], foi eleito presidente para o período de 1990 a 1995. Deu impulsos a mudanças profundas na vida política, econômica e cultural polonesa, contribuindo para a transição política de um regime socialista governado por um partido único a uma economia de mercado nos moldes dos países da Europa ocidental. Todavia, tempos depois, acusações de corrupção e de incompetência administrativa, o tiraria do poder [também lá não houve acusações de “golpe” ou de ingratidão do povo] e Walesa, o então “respeitado e heroico” líder, e verdadeiramente o havia sido, seria levado ao ostracismo. Nos anos seguintes, o poderoso Solidariedade, que havia tido nos áureos tempos mais de 10 milhões de filiados, foi definhando para hoje não ter mais que alguns poucos milhares de seguidores. Nele não permaneceu nenhuma liderança importante, com capacidade para reerguê-lo. Os poloneses não lamentaram. Não tentaram armar nenhuma resistência ao poder constituído. O Estado de Direito estava fortalecido. E o país segue normalmente sua rota.

Haveria outros casos assemelhados? Claro que sim. Mas todos se encaixam conforme espelhou o gênio de N. Maquiavel: “Uma república sem cidadãos de boa reputação não pode existir nem ser bem governada; por outro lado, a reputação dos cidadãos é motivo de tirania das repúblicas”. Que pode muito bem ser complementada por esta outra: “O primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta”.

Os exemplos servem para quê?

Para encerrar, voltemos a Mandela: “Perigos e dificuldade não nos travaram no passado e não nos assustarão agora, mas devemos preparar-nos para eles, como homens determinados quanto ao que pretendem e que não perdem tempo com conversas vãs e inação.”

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Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado e historiador. Publicou, entre outros, “Viagens ao Extremo Oeste – Desbravadores, aventureiros e cientistas nos caminhos de Mato Grosso” e “Perfis Mato-Grossenses”.

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Revitalizando o Centro – Por José Antônio Lemos

Por José Antônio Lemos | O artigo da semana passada sobre a possibilidade da UFMT ocupar a antiga sede da Delegacia da Receita Federal (DRF) na avenida Getúlio Vargas, despertou bastante interesse dos leitores, alguns entusiasmados com a proposta do professor José Afonso Portocarrero. Relembrando, a ideia é a instalação de uma faculdade, em princípio a de Arquitetura e Urbanismo, trazendo toda a cadeia de atividades a ela relacionada, tais como livrarias, lanchonetes, copiadoras, repúblicas, sorveterias, restaurantes e outras, resgatando o movimento de pessoas e da economia característicos dessa região em décadas passadas.

    A revitalização do centro histórico de Cuiabá tombado pelo Património Histórico Nacional e suas cercanias é antigo desejo da cuiabania, uma necessidade urbanística e uma imposição da história não só local, mas de Mato Grosso e do Brasil. Alguns menos ligados à história do Brasil e mesmo do continente sul-americano podem desconhecer que este lado do oeste brasileiro pertencia à coroa espanhola e Cuiabá foi o primeiro polo fixo da ocupação portuguesa por estas bandas. Primeiro e único durante muito tempo. Daí Cuiabá ser considerada a célula “mater” deste “ocidente do imenso Brasil” na letra do hino de Dom Aquino, mãe remota de todas suas cidades e estados.  O cuiabano comeu o pão que o diabo amassou para assegurar como brasileira esta rica parte do Brasil. Por isso a importância do Centro Histórico de Cuiabá ultrapassa os limites da própria cidade e deve ser cuidado com o carinho de uma relíquia urbanística não só pela cuiabania e governo municipal, mas também pelo estado e federação.

    A ideia soma-se à uma anterior determinação do prefeito Emanuel Pinheiro no mesmo sentido propondo incentivos fiscais para faculdades e escolas instalarem na região. Não sou da prefeitura, já questionei alguns projetos do prefeito e sou contra algumas atitudes suas até que explicadas convincentemente, mas ele está sendo brilhante com esta proposta concreta, em especial pela proximidade do Tricentenário da cidade. E ele sabe que só isto não basta. Mas é um passo importante.

    Como disse, o projeto de revitalização do centro histórico é sonho antigo da gente cuiabana e da própria prefeitura e que vem sendo atrapalhado pela mesquinharia política de alguns governantes que ainda creem na bobagem de que ajudar um projeto de outro seria como colocar azeitona na empadinha daquele que um dia poderá ser seu adversário. Até outro dia quando a prefeitura tomava a iniciativa o estado puxava o tapete, e quando o estado queria, a prefeitura atrapalhava. Presenciei algumas vezes. Tal desunião torna-se grave neste projeto porque seu grande gargalo é o rebaixamento da fiação, projeto muito caro, que não se viabiliza sem o apoio federal. E se não houver união não haverá força suficiente para sensibilizar o governo federal diante da grande demanda de projetos semelhantes que pressiona Brasília.

    Nada menos histórico do que um poste desproporcional, com um transformador gigante e um monte de fios pendurados, agredindo uma fachada restaurada a muito custo. Com a fibra ótica muitos desses fios foram inutilizados e hoje são lixos aéreos que, segundo soube, não são retirados pelo custo de sua remoção. Fala sério! Como podem empresas imensas, algumas multinacionais, concessionárias públicas, deixar seu lixo pendurado pelas ruas enfeando a já combalida paisagem urbana e pondo em risco o cidadão? Senhor prefeito, a retirada urgente desse lixo aéreo seria outro passo de sua administração em sinal de respeito ao centro histórico no rumo da revitalização. Isto, sem prejuízo da busca de recursos para o rebaixamento da fiação junto com o estado, unidos finalmente. O Tricentenário é a chance. 

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Preservação de um monumento – Por José Antônio Lemos

Por José Antônio Lemos – Há alguns dias quando em visita técnica com seus alunos da UFMT ao edifício sede do Tribunal de Contas da União (TCU-MT) em Cuiabá o professor doutor José Afonso Portocarrero tomou conhecimento de que o TCU está deixando aquele local em busca de mais espaço. Soube, inclusive, que haveria risco de demolição dependendo do órgão que viesse ocupar o edifício. Espantado ligou de imediato ao presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Mato Grosso (CAU-MT), Wilson Andrade, informando a perspectiva absurda, sendo logo agendada uma audiência com a superintendente do Serviço do Patrimônio da União em Mato Grosso (SPU-MT), senhora Lucimara Tavares, onde foi confirmada a desocupação do prédio pelo TCU.

Na mesma audiência a superintendente informou que, tratando-se de um patrimônio público da União, uma vez desocupado e para não se transformar em um patrimônio ocioso, fica à disposição de outros órgãos públicos que manifestarem interesse junto à SPU-MT, sendo tais pleitos encaminhados após as devidas análises ao Ministério do Planejamento em Brasília para decisão sobre cada requerimento. Informou ainda já existirem no sistema do SPU 3 ou 4, não me lembro, solicitações para uso do prédio do TCU, sendo uma instituição federal.

O CAU é instituição federal jovem, às vésperas de completar o sétimo ano de existência, definido em sua lei de criação como uma autarquia federal que tem por função “orientar, disciplinar e fiscalizar o exercício da profissão de arquitetura e urbanismo, zelar pela fiel observância dos princípios de ética e disciplina da classe em todo o território nacional, bem como pugnar pelo aperfeiçoamento do exercício da arquitetura e urbanismo”. E o zelo pelo patrimônio arquitetônico e urbanístico do país faz parte de sua nobre missão.

E o que tem o edifício do TCU-MT de tão especial para os arquitetos? Além de ser um edifício que surpreende por suas formas e encanta usuários e transeuntes por sua beleza sinuosa e colorida, o edifício do TCU-MT é um dos mais perfeitos exemplares do tardomodernismo high-tech em sua vertente cuja composição estética não se encontra apenas na expressão de sua alta tecnologia, mas na busca também da beleza através dela. Trata-se de uma obra do genial João da Gama Filgueiras de Lima, o arquiteto carinhosamente conhecido dentro e fora do país como Lelé, falecido em 2014, considerado ao lado de Niemeyer e Lúcio Costa um dos componentes da tríade que trouxe o modernismo para o Brasil. Só isso. Deixando a dimensão apenas edilícia, o edifício transforma-se hoje em um monumento da arquitetura brasileira implantado em Mato Grosso encontrando-se basicamente bem conservado em sua estrutura estética e física. O grande risco não é só uma eventual demolição, mas seu desrespeito enquanto obra de arte com os célebres “puxadinhos” e outras mutilações a um projeto tão bem concebido e importante, heresias estas tão comuns em nossa terra.

Ainda em fase de instalação e consolidação, mas em funcionamento pleno, o CAU-MT tem entre suas prioridades o estabelecimento em uma sede própria, compatível com sua funcionalidade e orçamento, mas à altura do simbolismo de sua nobre função. Não pode ser apenas um espaço físico, qualquer edificação, tem que expressar bem a arquitetura e o urbanismo em Mato Grosso. E o edifício do TCU vem ao encontro dessas preocupações, em benefício da preservação do monumento arquitetônico nacional e na solução do espaço digno de sediar a entidade cuja função é “pugnar”, lutar pela arquitetura e urbanismo em Mato Grosso. Mais que um espaço, uma relíquia arquitetônica!

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Entre o que Palocci queria denunciar e o que Moro queria ouvir existia um oceano de diferença

O jornalista Joaquim Carvalho neste vídeo mostra a realidade dos fatos. Nada, nada interessa ao juiz Sérgio Moro senão as delações contra o ex-presidente Lula.

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Importante Projeto – Por José Antônio Lemos

Por José Antônio Lemos | Existem projetos importantes que custam muito dinheiro enquanto que outros custam pouco ou quase nada e mesmo assim podem ser tão ou mais importantes. Estes muitas vezes envolvem apenas a integração de recursos já disponíveis sem mais gastos. Atualmente são raros no serviço público talvez por isso mesmo, isto é, porque não envolvem grandes verbas, e, nestes últimos tempos, o que não tem dinheiro no meio de um modo geral não anima os gestores públicos.

    Assim, aplaudo a iniciativa da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH) e da Câmara de Diretores Lojistas de Cuiabá (CDL Cuiabá) em lançar o projeto “Viva Cuiabá Viva”, contando também com a participação do governo do estado, da prefeitura da capital e de diversos outros parceiros.  Trata-se de um projeto com retorno previsto a médio prazo visando atrair em especial o turista do próprio estado com sua alta renda per capita ou alongar a estada do visitante que já se encontra aqui, tendo como objetivo movimentar a cidade nos feriados prolongados aproveitando suas atrações normalmente já existentes. Os resultados certamente não virão na primeira edição, mas com a sucessão das edições, como já alertado pelos organizadores do projeto. E com uma inteligente divulgação pelo interior, completo.

    O antigo IPDU da prefeitura de Cuiabá chegou a desenhar um projeto com as mesmas características denominado “Cuiabá ConVida”, que se desenvolveria através de cartazes mensais distribuídos em pontos estratégicos das cidades mato-grossenses, tais como hotéis, restaurantes divulgando as atrações culturais, desportivas e artísticas programadas para cada mês. Infelizmente o projeto não despertou interesse na época.

    Nesta primeira edição a programação começa já no próximo dia 7 e é vasta com a solenidade de abertura da Semana da Pátria na Arena Pantanal com desfile cívico, feira gastronômica, feira de artesanato, exposições militares e atrações regionais. No mesmo dia acontece o Festival do Peixe na Orla do Porto e na Praça da Mandioca um festival de músicas autorais e shows regionais, que prosseguirão até o sábado dia 9 de setembro. Nos dias 8 e 9 acontecerá mais uma edição do VEM PARA A ARENA, também com shows populares, gastronomia, exibições de bandas e corais militares e um espetáculo com o conjunto de danças Flor Ribeirinha, campeão mundial de folclore recentemente na Turquia.

    Se pudesse fazer alguma sugestão, incluiria o interior da Arena Pantanal, considerada uma das arenas mais espetaculares do mundo, com visitas orientadas bem como o próprio jogo decisivo do Cuiabá na série “C” do campeonato brasileiro de futebol, contra o CSA de Alagoas marcado para o próprio dia 9 de setembro, às 18:30h. O jogo e o evento VEM PARA A ARENA se complementariam com um reforçando o outro.

    Diz a antiga anedota que todos preferem ovos de galinha aos da pata, mesmo sendo mais nutritivos, porque as galinhas cacarejam estridentemente ao botarem seus ovos, isto é, fazem publicidade de seu produto e as patas não. Cuiabá é um pacote de atrações nela mesma ou em suas proximidades, mas pouco divulgado. A Copa ajudou muito, mas as autoridades não deram continuidade a essa alavancagem. O “Viva Cuiabá Viva” pode ser o início planejado do aproveitamento deste grande potencial. Servida por boa rede de rodovias e um aeroporto de categoria internacional, dispõe ainda de excelente estrutura comercial, hoteleira e de bares e restaurantes, testada e aprovada na Copa, e pode promover seu potencial turístico. Faltava união, organização, divulgação e vontade de fazer.

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Deixaram acabar o campo sagrado do futebol mato-grossense onde jogaram Pelé, Garrincha, Mazurkiewicz, Ruiter, Bife e outros. Ninguém punido. Só o sofá!

O SOFÁ

Por José Antonio Lemos | Ainda com a alma exultante pela vitória do Cuiabá no último domingo em Alagoas, lembro a antiga piada do marido que chega de repente em casa e flagra uma cena de traição no sofá da sala. Tentando demonstrar autoridade e poder toma uma decisão drástica, vendeu o sofá. Ela pode até nem ser mais tão gozada, mas traduz muito bem muitas situações sérias que vivemos no Brasil, do Caburaí ao Chuí.

    Senão, vejamos. O estádio Presidente Dutra, o histórico “Dutrinha” como é carinhosamente chamado foi fechado por mais de 2 anos sob alegação de falta de segurança, após uma manifestação irresponsável de agressão aos árbitros ao final de uma partida por parte de alguns torcedores. A agressão só não foi às vias de fato justamente pela proteção que o estádio deu ao trio, protegido por um gradeado metálico que vai do campo até um local seguro, sob a arquibancada. Ainda devem existir vídeos na internet desse triste espetáculo onde se pode ver os agressores enfurecidos, tentando em vão vencer a proteção metálica. O que aconteceu? Ninguém foi punido, mas o Dutrinha foi prontamente fechado, com graves prejuízos ao esporte mato-grossense, com jogos sendo realizados em campos de bairros, estes sim sem a menor condição de jogo ou de segurança, higiene, tanto para jogadores como aos torcedores. Nesse tempo de interdição o Dutrinha foi abandonado por seu proprietário, o município, e reaberto degradado, agora em condições muito piores do que quando foi fechado. Deixaram acabar o campo sagrado do futebol mato-grossense onde jogaram Pelé, Garrincha, Mazurkiewicz, Ruiter, Bife e outros, impossível para receber uma partida e terá que ser refeito. Ninguém punido. Só o sofá!

    Tem o caso também do VLT que, por responsabilidades conhecidas publicamente, substituiu a 2 anos da Copa o BRT, o outro modal, menos sofisticado, que já havia sido escolhido 2 anos antes, com projetos e financiamentos definidos. Na época em que aconteceu a troca cheguei a escrever artigos colocando-me a favor da continuidade do BRT, não porque o VLT fosse necessariamente inadequado para Cuiabá, mas por que não havia mais tempo hábil para concluí-lo para a Copa, apenas 2 anos depois. Não deu para ser feito. Desconfiava-se e hoje é confirmado que pintaram os canecos em cima do VLT, como no sofá. Sabem o que está acontecendo? Estamos discutindo se jogamos fora o sofá ou não. Depois do cidadão mato-grossense ter pago pelo sofá mais de 1 bilhão de reais! E desconversa-se sobre os que se esbaldaram sobre o VLT. Na época correta fui contra o VLT, hoje sou pela sua conclusão, bem executado, integrado à cidade e aos demais modais, e com rápida punição aos de culpa comprovada, nos mais elevados rigores da lei.

    O país precisa de uma reforma política séria que não seja apenas a troca de um sofá eleitoral por outro como é sempre feito. Com frequência a lei é mudada sob o argumento de que a nova não será fraudada. E os danadinhos fraudam. Aí mudam de novo e de novo é fraudada pelos mesmos bandidos de nomes e caras conhecidos no noticiário nacional e internacional. E fica esse mimimi em busca de um sistema à prova de corrupção, quando o que falta é punição aos corruptos. Não são as leis que se auto corrompem, elas são corrompidas. Mas sobre os fraudadores, necas de pitibiribas!  Agora a panaceia política será uma nova troca de sofá. Fingem trabalhar sério, mas estão certos de que não serão incomodados e continuarão a se esbaldar em qualquer modelo de legislação. E a tão esperada reforma política, a mãe de todas as reformas, corre o risco de ser apenas uma nova troca de sofá na sala para desfrute dos protagonistas de sempre.

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A canção que celebra a vida – Por Sebastião Carlos

Por Sebastião Carlos | Produtor dos melhores vinhos da América, o Chile é também fonte das melhores poesias. E não digo apenas por seus dois mais conhecidos, e por isso ganhadores do Nobel de Literatura, Gabriela Mistral [em 1945] e Pablo Neruda [em 1971]. Poderíamos dizer, e eu o digo com prazer por ser desde sempre admirador desse país e de seu povo, tratar-se de uma terra de poemas e de vinhos. Lá estive por algumas vezes, e na última visitei as três casas, hoje museus, em que viveu Pablo Neruda. Foram os poemas de Neruda, ao lado dos brasileiros Thiago de Melo e Ferreira Gullar, que contribuíram para manter em minha juventude a chama viva da resistência política e literária durante o regime militar. Embora Neruda, com seus ‘Vinte poemas de amor e uma canção desesperada”, entre outros, tenha nos inspirado a modos de viver com paixão e tesão.

Esses dois, Neruda e Mistral, pertencem a uma geração que mostrou o melhor do Chile poético. Para só ficarmos a partir das três décadas iniciais do século passado, a eles se somam dois outros grandes poetas, embora muito pouco conhecidos no Brasil. No entanto, Vicente Huidobro [10/01/1893 – 2/01/1948] e Pablo de Rokha [17/10/1895 – 10/12/1968] trouxeram uma contribuição de fundamental importância para a literatura latino-americana, em que mesclaram um estilo inovador e de ruptura com o passado a uma acentuada visão socialista, na qual a militância contestatória esteve presente. A exceção a essa militância foi Gabriela Mistral, que se manteve sempre distante dos embates políticos. No entanto, do ponto de vista estritamente literário esses poetas são considerados “os quatro grandes do Chile”. Mas esse pequeno – grande país, naturalmente, não se resume a uma magnífica plêiade de poetas, novelistas e romancistas.

O que hoje quero aqui falar aqui é sobre outra grande mulher, já que semanas atrás comentei sobre Gabriela Mistral e o verdadeiro culto que lhe fazem nas escolas chilenas. E indaguei, quando isso será possível no Brasil com os nossos poetas maiores? Bem, vamos ver sobre uma poeta e cantante, esta bem mais conhecida. Violeta Parra. Por que falo sobre ela? Entre outras razões, porque há cinquenta anos foi composta e gravada por ela uma das musicas e letras mais marcantes deste nosso tumultuado e áspero tempo. Violeta pertence a uma espécie a que os hispanos denominam de cantautora. Compôs inúmeras canções e poesias marcantes por sua sensibilidade e humanismo. Canções e poemas que tocam a alma e mobilizam a mente.

Violeta del Carmen Parra Sandoval [San Carlos, 4/10/1917 – Santiago do Chile, 5/02/1967] além de poeta, compositora, cantora, foi artista plástica, ceramista e folclorista. Autodidata. A pobreza extrema a forçou, desde os nove anos, com os irmãos, a cantar em bares e circos. A partir de 1961 passou longos períodos fora de seu país, apresentando-se na Argentina e depois na Europa. Em 1965 retorna definitivamente, move-lhe a ambição de criar, com seus filhos e alguns amigos, um centro de estudos e de referência da cultura folclórica chilena. Próximo a Santiago, instala uma grande tenda que denomina de ‘Comuna de la Reina’. Não obteve o apoio que esperava para seu projeto e a iniciativa fracassaria, trazendo-lhes prejuízos financeiros e emocionais. Na sequência, um rompimento amoroso causa-lhe grande trauma. Acha-se abatida e derrotada. Em 5 de fevereiro de 1967 a grande e atormentada cantante comete suicídio. É hoje tida por muitos críticos como a fundadora da atual música popular chilena e inspiradora do movimento estético-musical-político chamado de ‘Nova Canção Chilena’.

Poderia falar mais sobre Violeta e sobre as suas inúmeras canções marcantes e sensíveis. Mas quero me referir [o espaço é pequeno] a uma só canção que por sua grandeza, lucidez e humanismo, baila no peito dos homens e das mulheres que sonham e lutam por um mundo mais justo. Refiro-me a ‘Gracias a la vida’.

Seja na pioneira e conhecidíssima gravação de Mercedes Sosa [1971] ou nas interpretações de Joan Baez [1974], cujo objetivo nas apresentações era denunciar os crimes da ditadura de Pinochet, de Elis Regina [1975] ou até mesmo do pianista Richard Clayderman [1992], além de centenas de outras, inclusive sueco e finlandês. Qualificada como um “hino humanista” e considerada uma obra universal, ‘Gracias a la vida’ é uma das musicas latino-americanas mais conhecidas e interpretadas no mundo.

Gracias a la vida que me ha dado tanto

Me ha dado la risa y me ha dado el llanto

Así yo distingo dicha de quebranto

Los dos materiales que forman mi canto

Y el canto de ustedes que es el mismo canto

Y el canto de todos que es mi propio canto

Gracias a la vida, gracias a la vida.

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  1. Carlos Gomes de Carvalho é professor. Publicou, entre outros, ‘Pássaros sonhadores’ e ‘A Arquitetura do Homem’.

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“Diálogos da Cultura” tem como foco assuntos relacionados ao livro, leitura, literatura e bibliotecas

Plano Estadual do Livro e Leitura

Por Leandro Carvalho* | SEC-MT

Com o objetivo de implantar uma política de Estado que assegure o acesso ao livro, a leitura, e a formação de leitores, lançamos para consulta pública a minuta que instituirá o Plano Estadual do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (PELLLB), e o documento base com os parâmetros e metas a serem implementados nos próximos anos.

O PELLLB é uma iniciativa da Secretaria de Estado de Cultura de Mato Grosso (SEC), por meio da Coordenação do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas e Gerência do Livro e Leitura. O objetivo é somar esforços às diferentes iniciativas de instituições privadas e da sociedade civil já desenvolvidas para democratizar o acesso ao livro, fomentar e valorizar a leitura, incentivar e difundir a produção literária mato-grossense e dinamizar a cadeia produtiva do livro.

Entendemos que para que os resultados sejam cada vez mais positivos e para garantir a continuidade dessas ações, é necessário que as mesmas estejam institucionalizadas, reunidas e organizadas. Assim, a SEC apresenta uma proposta inicial construída a partir de diversos eixos, como (I) democratização e ampliação do acesso, (II) fomento à leitura e à formação, (III) valorização institucional da leitura e incremento de seu valor simbólico, (IV) desenvolvimento da economia do livro e (V) literatura.

O marco inicial ocorre nesta semana, de 05 a 07 de julho, no auditório da Escola Estadual Presidente Médici, em Cuiabá, no contexto do I Fórum Estadual de Bibliotecas Públicas, quando a SEC realizará mais uma edição da série “Diálogos da Cultura”, com foco em assuntos relacionados ao livro, leitura, literatura e bibliotecas, e apresentará, na ocasião, a minuta e o documento base. Teremos a participação especial de Cristian Brayner, diretor nacional do Ministério da Cultura do segmento, para compartilhar conosco o caminho percorrido por outros Estados da federação que já implementaram seus planos e também para falar sobre a Política Nacional do Livro (Lei nº 10.753/2003) e o Plano Nacional do Livro e Leitura (Decreto nº 7.559/2011).

Um dos resultados desse processo será a criação de uma lei que garanta metas, objetivos e orçamento para o segmento do livro e leitura em nosso estado. Para atingir este objetivo, passaremos por várias etapas que incluem a sensibilização da sociedade sobre a importância da criação do Plano Estadual do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas, por meio de encontros em diversas regiões de Mato Grosso.

O PELLLB integrará o Plano Estadual da Cultura (Lei 10.363/2016), abarcando as três dimensões da política cultural contida no conjunto de leis sancionadas pelo governador Pedro Taques, em 2016, que chamamos de “CPF da Cultura”.

Como fio condutor do desenvolvimento dessas ações, temos a dimensão econômica, por meio do livro, cabendo ao Estado fomentar a economia da cultura como um sistema de produção materializado em cadeias produtivas, incluídas as fases finais de distribuição e consumo; a dimensão cidadã, por meio da leitura, cabendo ao Estado assegurar o pleno exercício dos direitos culturais a todos os cidadãos, promovendo o acesso universal à cultura por meio do estímulo à criação artística, da democratização das condições de produção, da oferta de formação, da expansão dos meios de difusão, da ampliação das possibilidades de fruição e da livre circulação de valores culturais; e a dimensão simbólica, por meio da literatura, cabendo ao Estado promover e proteger as infinitas possibilidades de criação expressas em modos de vida, crenças, valores, práticas, rituais e identidades.

Movidos pelo desejo de transformação de Mato Grosso, mesmo diante das adversidades e das limitações financeiras que se impõem, seguiremos trabalhando para assegurar os direitos de cidadania, que incluem a escolha entre diferentes fontes de informação, muitas vezes dificultadas pela padronização dos gostos e do consumo.

Acreditamos que a imaginação criadora desenvolvida pela leitura, no autor e no leitor, será fundamental também para o desenvolvimento de Mato Grosso e do Brasil.

*Leandro Carvalho é maestro da Orquestra do Estado de Mato Grosso e secretário de Estado de Cultura

 

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O Gás de Mato Grosso e suas Ilações – Por José Antonio Lemos

Inadvertidamente o chefe do grupo J&F em sua polêmica gravação no Jaburu pode ter prestado um grande serviço a Mato Grosso. Preferia vê-lo preso pelos prejuízos que causou e continua causando ao Brasil, e em especial a Mato Grosso, maior produtor de gado do país e ele o maior o maior produtor de proteína animal do mundo. Um dos focos de sua famosa conversa com o presidente Temer foi um pedido de interferência presidencial junto ao CADE em uma suposta discriminação da Petrobrás contra a Termelétrica de Cuiabá em termos do preço do fornecimento de gás para a usina hoje de propriedade do grupo.
A Termelétrica de Cuiabá é fruto da visão de futuro de um dos maiores estadistas que o Brasil teve, Dante de Oliveira, não valorizado entre nós como merecia justamente por ser daqui. Integra um complexo com o gasoduto Bolívia-Brasil (Cuiabá) implantado a um custo total de US$ 1,0 bilhão à época. Com sua perspectiva de futuro o então governador anteviu a grande produção agropecuária atual de Mato Grosso, já prevendo a energia e a logística de transportes como os dois gargalos para esse desenvolvimento. Hoje Mato Grosso é o líder do agronegócio nacional, fiador fundamental do saldo comercial e do PIB nacional, mas está encalacrado na logística e na energia para ir além.
Instalado no estado um parque agropecuário de alta tecnologia e produtividade, Dante via ser fundamental a criação das condições para a verticalização no estado de toda essa produção, agregando valor à produção primária. Gerar empregos aqui em vez de exportá-los. Entendia que a Baixada Cuiabana poderia ser a base desse processo de verticalização com apoio da ZPE de Cáceres. Para esse salto restava resolver as questões da energia e do transporte para levar e trazer o desenvolvimento. Arrancou assim das barrancas do Paraná os trilhos da Ferronorte, criou o FETHAB, implantou o Porto Seco e internacionalizou o Aeroporto Marechal Rondon, providenciando sua ampliação a quatro mãos com o também saudoso Orlando Boni, cuiabano então presidente da Infraero. Na questão da energia destravou a APM de Manso, com canteiro de obras e máquinas parados a bastante tempo e trouxe a Enron.
Então o complexo foi implantado com o gasoduto, a Termelétrica, e as vantagens regionais comparativas para a indústria e outros investimentos. Só que o plano não avançou a ponto do gás hoje não sensibilizar nem os taxistas e a Termelétrica ter um funcionamento descontinuado. Inconfiabilizados, em suma. Tirando a falência de seu primeiro dono, a Enron, outro grupo internacional logo assumiu, sempre me intrigou as causas desse aparente insucesso e do estranho silêncio de nossas lideranças empresariais e políticas sobre o assunto.
Entre as causas está a interrupção do fornecimento do gás pelo governo Evo Morales, recém empossado, mantendo o fornecimento para outros ramais do Brasil. Começava a discriminação e também minhas ilações, palavra tão na moda hoje. Discutia-se a instalação de uma grande fábrica de fertilizantes da Petrobrás para atender o Centro-Oeste, cuja melhor localização seria uma posição central, no caso, Cuiabá. O gás era a principal matéria-prima. O governo boliviano, com os governos federal e de Mato Grosso do Sul, então companheiros ideológicos, queriam a fábrica no estado irmão. E o gás para Mato Grosso foi cortado, sob mil pretextos. A primeira ilação estava pronta. Com a omissão das lideranças políticas e empresariais mato-grossenses a fábrica foi instalada em Três Lagoas, colada a São Paulo, excêntrica a seu mercado. Agora aparece a reclamação do chefe da J&F. Seria verdade? Por que a diferenciação contra a Termelétrica de Cuiabá? Não é Brasil? Outras ilações ficam para futuros artigos.

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