Neste momento chove em Cuiabá. Para celebrar, um poema que fala ‘chuva’:

Nada é para sempre

Nada é para sempre
inclusive a manga verde
que um dia ficará perpitola
e um guri faminto
vai passar a mão

 

Nada é para sempre…
A manga rosa
também será saboreada
quando chegar a chuva
da temporada

 

Nada é para sempre…
– A mangueira, resultado
de uma semente,
treme ao vento.

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Eduardo Mahon: A literatura sem pedágios de Luciene Carvalho

CUIABÁ DO AGORA – Eduardo Mahon

A literatura sem pedágios de Luciene Carvalho

Na resenha anterior, pretendi mostrar como a terra influencia a literatura em seus diversos momentos históricos, mais especificamente fenômenos ligados à Cuiabá e suas transições no tempo e espaço. Tracei um paralelo entre o cânone “aquiniano” que pretendia idealizar a imagem mato-grossense e cuiabana como uma espécie de Éden, cruzando-se raças fortes e corajosas, com a poesia da geração seguinte que se viu aturdida com o crescimento da cidade, com a descaracterização daquela vida bucólica da pequena urbe. O projeto identitário foi concebido pela dupla D. Aquino Correa e José de Mesquita.

No excelente ensaio A Cruz encobre a Espada, o escritor e estudioso Luiz Renato de Souza Pinto deixa anotado: “A construção de elogios, opúsculos, narrativas encomiásticas e qualquer texto de caráter laudatório a ‘grandes’ homens do período colonial e imperial brasileiro era apenas parte da tarefa a que se dispuseram cronistas como Varnhagen, Capistrano de Abreu, também serve de espelho para José de Mesquita, oferecendo outra visão para a historiografia nacional”. A conclusão de seu artigo retrata a força institucionalizadora do grupo literário da época: “José de Mesquita escreve para registrar uma visão canônica da história. A sua verdade legitima a ocupação do espaço do saber pelos que dominam o conhecimento. Seu cânone gira em torno de uma profusão de ideias capazes de reproduzir forças políticas nos embates. O lugar social de Mesquita é a representação institucional de uma suposta verdade, construto que procura não colocar o preto no branco, no sentido conotativo, e sim tapar os pontos escuros com a pátina do silêncio, já que, como diria Ferro (1985, p.37): esses silêncios sobre as origens, assim como todos os silêncios ligados à legitimidade, são garantidos pela própria força das instituições”.

Pois bem. A relação com a imagem idealizada de Mato Grosso e de Cuiabá parece ter gerado sofrimento nos escritores que a confrontavam com a realidade. Como simples amostragem, recorri à poesia de Moisés Martins que recorda o passado com nostalgia, Ronaldo de Castro que se revolta e denuncia e de Silva Freire que pretende uma reconciliação com o telúrico – três formas diferentes de perplexidade diante de uma cidade que crescia e continua crescendo. Enfim, apontei na poesia de Marli Walker uma nova perspectiva de visão sobre a terra – o olhar do migrante, o desengano com a opulência aparente, o custo ambiental, a exploração da terra e das famílias que gravitam em torno do agronegócio.

O cânone sobreviveu no tempo, porém. Parece-me que a produção mato-grossense era filtrada, recebida e reconhecida, desde que não se afastasse muito do padrão estabelecido inicialmente por Aquino/Mesquita. Outros poetas poderiam muito bem nos servir para retratar a terra pela visão canônica (terra mater) como, por exemplo, Maria de Arruda Muller:

No enredamento feraz, das silvas tropicais/ Cheias de ásperas, terríficas surpresas./ Dormias sob o céu estrelado, no silêncio/ Feito de mil sons da Natureza!…/ Vieram a ti, paulistas desabridos,/ Panache sem par, de homens destemidos/ Homens “de sertão”, impávidos, fogosos/ Mais feitos de aço, que de carne,/ Trazem a esta solidão, imensurável,/ O som da língua portuguesa,/ Misturado ao jargão do curiboca…/ Eles vieram, apresar índios e encontraram/ Tanto ouro, que em vez de ir, aqui ficaram!/ Berço de aborígenes valentes,/ Paiaguás, borôros, guatós, coxiponés/ Rebentos das raças ameríndias/ Que, na imensidade do torrão, viviam/ Há milênios, livres, soberanos…/ Mansos uns, outros agressivos,/ Receberam o invasor, apreensivos./ Coroada e rica, de silva e de flores/ Em ti se mesclam, frondes de gramíneas./ – Os épicos bramidos das torrentes,/ Os tonos do trovão, o grito das araras,/ Tudo convida a ficar, nela permanecer!/ Mas, o chocar de inúbias nas monções de caça/ Assusta e impele a luta, homens de outra raça/ Porque, do áureo metal, eras matriz,/ Metal que, então como hoje, tenta e impele,/ Tendo, no seio virginal a misteriosa flama/ Atraindo homens como chama a mariposa,/ Enfrentam a luta, afrontando a morte!/ Os pés cansados, da intérmina jornada,/ Pele curtida, veste esfarrapada,/ De Itu, Porto Feliz, de Sorocaba,/ Em grandes levas, vadeando rios/ Galgando serras, varando socavões e brenhas/ Transpondo cachoeiras, precipícios,/ Elegeram estes sítios pra morada!/ Moreira Cabral, Sutil, Martins Bonilha/ Contemplai Cuiabá, após “Forquilha”…

Já vimos que a festejada poeta comungava da mesma visão dos “homens destemidos” de Aquino/Mesquita. Veremos agora como observa Cuiabá, mais particularmente:

“Cidade Verde”, de claro céu e ardentias/ luminosas de arrojado pôr-de-sol…/ As tuas águas correntias,/ os teus suaves arrebóis…/ e tuas matas de ametista,/ que fascinam a fantasia de um artista!/ Terra tapisada de flores, broquelada/ de gemas…/ És Ariel, preso ao mundo pelos pés./ Atenta a um forte impulso, para a liberdade/ que a ferrovia te dará, gentil cidade./ “Cidade Verde”! Ao tropel de loucas ilusões/ fatigado: o seio palpitante/ patenteou alfim, o bandeirante,/ a ofuscadora e incrível realidade,/ nas tuas grupiaras e monchões…/ Daí, o núcleo, todo alacridade/ Do “Senhor Bom Jesus de Cuiabá”./ Rainha e primogênita desde a fundação,/ és de Mato Grosso e da Pátria o coração:/ vigias os misteriosos estendais, que balizam os pontos cardeais…/ De norte ao sul, de leste ao oeste,/ riquezas tão faustosas, quais de Ali Babá./ Dos confins da Amazônia ao Apa sorridente,/ o látex corre a flux e a ilex viridente,/ quanto mais se ceifa, mais de adensa em mata agreste./ E os diamantes, o ouro; do Garças ao Galera/ que fizeram a grandeza de vividas eras!/ “Cidade Verde”, és um tesouro!/ Tens ainda o mesmo ouro/ que fez ricos os reinos;/ sob o solo e no caráter dos teus filhos,/ Terra mater,/ ele faísca em mil fulgores./ Amplia a tua história!/ Escalando o céu de tua glória,/ filha de audazes, mãe de heróis!

A relação com a terra dá-se noutro eixo quando se trata dos últimos fluxos migratórios. Com relação aos “chegantes”, além de Marli Walker, eu bem poderia apontar Luiz Renato, Marta Cocco e o excepcional Santiago Villela Marques. Deste último, reproduzo “Confidências do Mato-Grossense” que retirei da coletânea “Nossas Vozes, Nosso Chão”, didática que deveria ser mais apoiada pelos poderes públicos. Eis Santiago:

Nesta vida de meus anos
nunca nasci em Mato Grosso.
Mas que saudade me dá
de morrer aqui.
O corpo encerrado no oco
do último tronco de cedro
antes que o inverso leve
da praia as folhas de jacarés
no vento,
e caia a pena do tuiuiú
madurada à força.
Além da chuvinha de agosto
ninguém não vai chorar por mim
que não tenho fazenda, não
nem sou dono de gado
nem sujo a mão de soja.
Que eu sou mato-grossense
e o Mato Grosso é dos outros.
Mas sou tantos couros
que quando me esfolarem
a pele de bicho morto
nem vai doer.

Portanto, além das novas fronteiras, há uma nova percepção de Mato Grosso, como era de se esperar com a contemporaneidade. O poeta denuncia a desigualdade social e confessa o “despertencimento”, percebendo a si mesmo como um mero objeto. Esse sentimento de exclusão não é uma grande surpresa. As análises literárias que cuidam de fluxos migratórios voluntários e compulsórios registram essa reação. O que me chama atenção é como o próprio mato-grossense, o próprio cuiabano, passou a se perceber. Mesmo em Cuiabá, esse paradigma poético de D. Aquino começou a ser revisto. Na cidade que passara pelas obras modernizantes, novas impressões surgiram sobre o relacionamento com a terra natal.
Um olhar menos idílico e mais realista surgiu no final do processo de reestruturação da cidade, ultimado com a queda da antiga catedral. Caía um símbolo. Como a poesia contemporânea se relaciona com essa Cuiabá renovada? Teremos algum vestígio de ressentimento, de resistência ou de luta? Ou as mudanças já estarão integradas na mentalidade do escritor? Qual o cenário que escolhem para a nova literatura produzida na capital?

Para responder à questão, gostaria de apontar Luciene Carvalho. A escritora é comumente estudada pelas múltiplas escrituras femininas em sua obra literária. No entanto, gostaria de analisar especificamente o relacionamento dos autores com a própria terra. No livro Ladra de Flores, ela também tenta escapar da descaracterização da cuiabania, fugindo para o quintal, porto seguro da poeta:

(…)
Vi o tempo que passava
Na Cuiabá dos meus trajetos
E a cidade era tão eu…
O que eram lágrimas
Fez-se pranto e arritmia
Não sabia
Se solidões
Ou poesia
Já na Barão, novo dilema
Como atravessar
O cinturão dos conhecidos
Amigas de infância e parentes
P’ra chegar ao meu quintal?

O quintal atual de Luciene Carvalho, localizado numa das antigas casas do Porto é um recorte da memória da poeta, uma fotografia onde ela vive ou se refugia. A topologia do Porto, aliás, está descolada da capital, talvez porque, desde o início, os habitantes do distante bairro tenham vivido à parte, com sua própria comunidade religiosa, sua escola pública e sua pracinha onde brincavam as crianças. O Porto é, de certa forma, uma oposição à cidade e à tradição, um mundo à parte ou uma outra tradição. A melhor poesia de Luciene Carvalho que representa essa bolha apartada do corpo urbano é “Outros Tempos”, do livro Porto:

Fui andando pelas ruelas/ tão aquelas/ do Porto de Cuiabá// têm história…/ crianças de hoje/ brincam com netos/ de vizinhos de outros tempos// o dono da padaria/ conhece Dona Maria/ sobrinha do seo João/ Jacira que lava a roupa/ em outros tempos foi louca/ de amor por Sebastião/ que hoje toca a padaria/ porque casou com Sofia/ a filha de um alemão./ E, aqui no bairro do Porto/ vizinho é de porta adentro/ é um bairro de outros tempos,/ tem outra arquitetura./ E o que se procura acha:/ é linha, anzol, borracha;/ macumba é na baianinha,/ chá de folha é no Suat// hortaliça, arame, linha/ tem vidraceiro, engraxate/ café moído na feira/ cabelereira, sapato// o que tem de história triste/ muito serviço barato.// tem puta de qualidade/ tem putinha de tostão/ pano de prato/ cultura/ tem pedinte/ tem cafetão/ tem virgem/ tem traficante/ tem carretel, tem barbante/ suor trabalho, mistura// tem Cuiabá neste bairro/ que em Cuiabá não tem/ tem tanta história importante/ que Deus salve o Porto, amém”.

Como se vê, as referências de Luciene Carvalho são completamente diferentes do cânone que tratava da Cuiabá bela e radiante, lugar para bravos e destemidos, terra de heróis que se doavam pela pátria. Para a poeta contemporânea, a tradição desloca-se para outra geografia, muito embora a intimidade típica de cidade pequena esteja sempre presente. No entanto, temos claro uma “Cuiabá do Agora”, representação de cidade que muda e a escritora segue esse fluxo contínuo. Novos cenários são integrados à paisagem. Muito mais do que na poesia, é na prosa que Luciene inverte o eixo saudosista. Cuiabá é usada como um cenário qualquer, sem o ressentimento típico da Cuiabanália, por exemplo. Percebam o tom de Ronaldo de Castro, na poesia Meninos de Rua:

Um crime sob os céus se perpetua,
que à bandeira da pátria traz vergonha…
É o desfile da infância seca e nua
a transpirar miséria, fel, maconha.
Qual lixo humano, soltos pela rua,
são meninos sem pais, a voz tristonha
a pedir pão, mostrando a face crua
da dor de quem não come e quem não sonha.
A rua, amarga escola de bandidos,
é o palco dos meninos preteridos
pela nação que não é mãe – é algoz…
Ó pátria desgraçada!… Os maltrapilhos
da rua, eles também são vossos filhos
– apertai-os no peito junto a vós!

É no livro Conta Gotas que a escritora evidencia mais agudamente essa “nova cidade”: febril, caótica e sensual – a metrópole que Cuiabá virou. No conto Nervoso, temos a periferia cuiabana sendo escolhida como cenário: (…) lanchonetezinha chinfrim, estreita e comprida, fruto de uma casa cuiabana revisitada. O texto não tem nostalgia, não usa expressões como “demolição”, “esquecimento”, uma melancolia típica na resistência à urbanização. Prossegue a escritora: então falei que ia na sua casa e fui no campinho do CPA IV. O bairro citado é distante do centro de poder cuiabano, deslocado do quadrilátero histórico tradicional e das igrejas respectivas. Dá-se o mesmo no conto Revelação: num domingo, ela havia sido liberada para ir a uma matinê no Clube Náutico, ali no comecinho da Várzea Grande, passando um pouquinho a ponte do Porto. Na ida, tudo certo, a turminha da vizinhança se divertiu pelo caminho e se esbaldou com o som de discoteca que embalava aquele fim de anos 70.

Durante a formação do cânone literário mato-grossense, nas primeiras décadas do século XX, seria vedado o cenário, a forma, e a intencionalidade da escrita de Luciene: os arrabaldes como CPA IV e a vizinha Várzea Grande estavam fora do interesse da capital. Isso para não dizer do enfoque principal do trabalho da escritora que é a revelação da mulher, seus desejos, mistérios, rituais, cobiças. Quero, porém, voltar a me concentrar no relacionamento com a terra. No mesmo Conta Gotas, a periferia é sempre relembrada, uma margem que está integrada com o centro, não cobra e não deve nada à tradição. Eis um trecho do conto Rota:

Ela desceu do ponto de ônibus da Prainha, perto do calçadão ainda meio tonta; passou em frente à joalheria onde haviam comprado as alianças em setembro passado, numa tarde de risos e cumplicidade. As lágrimas sucumbiram às lembranças, desabando pelo seu rosto, enquanto descia a 13 de junho em direção à farmácia Pax. Comprou uma Água de Melissa de um balconista solícito que, vendo seus olhos cheios de lágrimas, perguntou se ela queria mais alguma coisa. Quero, quero sim – ela pensava, enquanto seus lábios murmuravam um obrigada pálido “quero voltar as horas, mudar o caminho das coisas, quero acordar de novo nesse sábado…” ela decidiu ir a pé pra casa após pagar a nota da farmácia. Sua dor precisava de espaço e sua cabeça tinha entrado num rodamoinho de pensamentos sem controle… quero acordar de novo neste sábado e não inventar moda de querer ir à casa de Frederico pra ter uma conversa sobre nós dois – esse negócio de discutir relação é bobagem – ainda que eu saia de casa, que eu não pegue o ônibus do CPA, que eu vá ao Porto visitar Anginha. E mesmo que eu pegue o ônibus, que eu desça na subida do Araés e vá ver Zulma, que eu desça no centro e torre meu cartão. Quero qualquer força que me mude a rota, que me impeça de chegar à casa do meu Fred e usar a chave na porta.

O trato com a cidade é diferente. Os casarões já estão no chão, a igrejinha não existe mais. O aspecto provinciano deixou Cuiabá. Já estão incorporadas as mudanças que não são opostas. Explico a provável razão: a escritora Luciene Carvalho nunca partilhou das regalias do “centro”, dos costumes dos abastados, das viagens internacionais. E, se algum dia gozou do fausto das mais tradicionais famílias, o hábito não se incorporou à mulher geograficamente plantada no Porto, uma outra cidade, um outro universo. Em geral, há saudade da perda. Se imaginarmos que a escritora não comunga do sentido convencional de tradição e nem tampouco pretende replicá-la, não há porque a obsessão com um passado naturalmente mutante.

A vida da escritora está vinculada ao quotidiano urbano quando sai do mundo paralelo que é o quintal remanescente. Ela não se lamenta por ter perdido nada porque nada era realmente seu. Da mesa aristocrática, Luciene nunca se fartou. Aquele idílio cuiabano, cantado em verso e prosa, não pertenceu à maioria da população cuiabana. A atenção da escritora está voltada para uma cidade que, até então, era apagada na literatura: a Cuiabá da mulher comum que ganha um salário mínimo, anda de ônibus, espera nas filas de banco e consome comida de rua. Destaco um dos contos de Luciene Carvalho que mais me impressiona:

As lentes dos óculos Jackie O. refletem o cumprimento ‘oi!!!’ e só então seu dia começava de verdade. A calça branca de lycra agarrava com vontade o quadril farto que se demorava na ferragem da roleta, enquanto mãos cegas fingiam procurar o vale-transporte nos escaninhos mais que conhecidos da bolsa curta de camelô. Aquele breve interlúdio matinal vinha dando alma nova à manhã dela; já não se preparava apenas para limpar os corredores intermináveis do Hospital Geral, já não se exasperava com clorofórmios e desinfetantes, já não se incomodava com o escarro do pai que se levantava para continuar o porre interrompido na noite anterior; já não lhe pesava a chegada dos 45 anos. Não! Acordava para ele, se vestia e maquiava para ele; o cobrador da linha 508. Tinha que ser pontual para pegar o ônibus certo e poder realizar aquela cena matinal: unhas pintadas com esmalte vermelho escondiam o contato com os corrosivos e descansavam por um minuto sobre a caixa de dinheiro. O cabelo alisado com chapinha no fim-de-semana exigia que ela se inclinasse em direção à bolsa para mostrar seu balanço, a língua umedecia o lábio roxo de cuiabana antiga e: ‘Oi’!!!

O que se evidencia no texto de Luciene é a empregada doméstica, a secretária, a babá, a frentista, a enfermeira, milhares de mulheres do povo grandemente desaparecidas da primeira geração de escritores mato-grossenses. Esse “apagamento” como tão bem estudado por Marli Walker é simplesmente uma barreira imposta por intelectuais alinhados com o conservadorismo provinciano: não se publica e, se publica, não se comenta. Daí que a poesia divergente desaparece dos compêndios, das antologias, dos estudos universitários, da bibliografia enfim. Luciene Carvalho encontra-se desafiando o “standard” feminino consolidado em Mato Grosso: a mulher do lar, obediente e intelectualmente conformada. Mulheres havia, é certo, mas nenhuma com os quadris metidos na “calça de lycra”, as unhas enfeitadas de “esmalte vermelho” e os “lábios roxos”. Essas mulheres de Luciene Carvalho não estão castradas, para resumir numa frase.

De qualquer forma, essa “nova Cuiabá”, igualmente feminina e sensual, não censurada e livre de pedágios institucionais, vai surgir entre 1980 e 2000, mostrando-se mais mundana do que supunham os autores pudicos, religiosos e patrióticos que forjaram o cânone mato-grossense. Os tempos são outros: é a vez do agora. Luciene Carvalho continua produzindo. Estou à espera de “Dona”, o novo livro. A poeta promete que vai dar BO. Ela sabe o que está fazendo, sabe o quê e quem está provocando. Como dizia Bakhtin no seu Teoria do Romance: “por trás da narração do narrador lemos uma segunda narração: a narração do autor sobre a mesma coisa narrada pelo narrador e, além disso, sobre o próprio narrador. (…) Não perceber esse segundo plano intencional e acentual do autor implica não compreender a obra”. A gente está sacando tudo, Luciene. Vá em frente!

CUIABÁ DO AGORA – Eduardo MahonA literatura sem pedágios de Luciene CarvalhoNa resenha anterior, pretendi mostrar…

Publicado por Eduardo Mahon em Segunda, 25 de junho de 2018

 

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Marli Walker: um novo marco literário em Mato Grosso

MARLI WALKER: um novo marco literário em Mato Grosso (E.M)Considero “Pó de Serra” e “Apesar do Amor”, de Marli Walker,…

Publicado por Eduardo Mahon em Quarta-feira, 6 de junho de 2018

Considero “Pó de Serra” e “Apesar do Amor”, de Marli Walker, um marco para a literatura mato-grossense. Walker inaugura a visão realista sobre o desbravamento das terras nativas, fazendo uma contraposição evidente com o idealismo típico dos primeiros autores. Não sei realmente se os críticos Mário César Silva Leite e Marta Cocco estão corretos em afirmar ter havido um projeto literário parecido com o que se viu em termos nacionais após a independência: a visão grandiloquente da terra e do homem. José de Mesquita, irmão intelectual de D. Aquino, retrata a figura do bandeirante como o introdutor da salvadora fé cristã em Cuiabá:

Mãos de mulher, na velha e heroica Sorocaba,
fizeram esta augusta imagem do Senhor.
Trouxe-a não um estranho, um ádvena, um emboaba, mas Pedro de Moraes, paulista sem temor.

Dura a rota, cruel a jornada, em que acaba
o ânimo do mais rude e audaz desbravador:
rios nove a vencer, desde Araritaguaba!
Serras e boqueirões medonhos a transpor!

Mas quando, baldo o esforço, a energia vencida,
param em Camapuã desalentadamente,
vem a imagem buscar uma turma luzida,

que, entre festas e gáudio, às minas a conduz:
e doando o Bom Jesus à Cuiabá virente,
a linda Cuiabá consagra ao Bom Jesus!

A idealização romântica em Mesquita, comungada com D. Aquino, está presente em Civitas Mater:

Meu carinho filial e meu sonho de poeta
Vêem-te, ó doce cidade ideal dos meus amores,
Em teu plácido vale, entre colinas, quieta,
Como um Éden terreal de encantos sedutores.

É provável que, em maior ou menos escala, essa tendência tenha sido fixada como padrão por D. Aquino, uma espécie de alterego literário mato-grossense que virou canônico pela força institucional da própria personalidade e do elemento identificador que propunha. A exaltação de Aquino Correa já foi objeto de estudo de muitos pesquisadores: cidade verde, ouro reluzente, brava gente, amor pela pátria, são elementos que forjam uma identidade inventada, uma lição que Antonio Candido deixou a seus discípulos: interpretar o sistema literário historicamente, a fim de perceber que coincidências são, na verdade, um tipo, uma forma, um projeto intelectual e (por que não?) político.

Se os autores do final do século XIX e princípio do século XX tinham mesmo como proposta política a construção de um Mato Grosso de riquezas que abundavam e se entregavam ao conquistador, sem maiores turbulências, em Marli Walker percebemos o anticlímax dessa visão idealizada choca o leitor. O enfrentamento da escritora é notório. Ela não está interessada em idealizar a conquista da terra, forjar heróis ou elaborar epopeias. Dá-se justamente o contrário, em razão do momento histórico diverso. Com crueza e desencanto, narra o cerrado conquistado à força, ceifado, queimado, aniquilado em favor da grande produção agrícola. Se o locus literário é o mesmo, o ethos é radicalmente alterado. Por isso, Walker é um marco, ou melhor, uma das marcações históricas de uma “virada” interpretativa. Vejamos como define o “norte”:

há o silêncio encolhido nos restos de paisagem
há o solo recortado
há promessas que se foram
e há vida que não foi
há o susto
o injusto
o sujo
o feio
há o sangue no seio da espera
paraíso de leite e mel
partido ao meio

As esperanças de uma “terra prometida” não se concretizaram. Nem para os nativos, nem para os migrantes. Se, no início do século XX, a terra era uma promessa de riqueza, um destino de grandeza, no final já era tida como arena de conflitos. Marli Walker produziu em meio ao cerrado visto como oportunidade comercial e não como terra prometida. Era de se esperar a adesão ufanista ao modelo do agronegócio ou a denúncia das contradições do sistema predatório. Poucos poetas estão imersos nesse dilema e, por isso, a poesia de Walker produz efeitos diferentes dos tradicionais.

O poema “destino”, além de reproduzir a temática de muitos outros, em “Apesar do Amor”, faz um jogo de palavras com “capital”, identificando Cuiabá com o centro dos interesses financeiros do contraditório agronegócio que se nega a distribuir riqueza:

entre uma e outra safra
não se colhe para a fome
a colheita é o capital
na capital que é sem nome

A crítica da poeta intensifica-se no poema “celeiro”. Repetem-se as obsessões literárias de Marli Walker: o grão, a comida, a terra, a miséria em meio à produção. A cornucópia nortista (esse agressivo modelo desenvolvimentista que os chegantes ufanam-se), é profundamente questionada:

em cada grão a ração
o germe a fome a fé
estoque frio de comida
princípio início embrião
será pasto ou será pão?

O livro “Apesar do Amor” prossegue como reflexo da opção da autora por registrar o progresso deletério, a exploração irresponsável, o crescimento irrefletido. O pasto largo, o campo fértil, a semeadura constante vão contrastar com a mesa magra. “Os meninos” de Marli Walker (uma figura recorrente) são anjos famintos que morrem e viram sementes, mas não as sementes das quais vão surgir outras gerações. Não brota esperança nos campos e nos pastos da poeta. No poema “sementes”, a escritora questiona:

quantos grãos são necessários
pra abastecer os armários
das casas que não têm chão?
tantos grãos desperdiçados
tantos meninos ilhados
no mar inglório de grãos

A denúncia do desenvolvimento já se vê em Silva Freire e, principalmente, em Ronaldo de Castro. Mesmo o poeta Moisés Martins Mendes Júnior denuncia seguidamente o desmonte da terra acolhedora e o não reconhecimento nesta nova realidade. Há duas diferença marcante entre eles, contudo – o tempo e o ponto de vista. Os poetas citados não participaram do processo de desbravamento, estiveram longe das motosserras, dos tratores de plantio e colheita. O Mato Grosso de Silva Freire, no máximo, tinha no garimpo um símbolo de exploração. O de Marli Walker está repleto de um verde organizado, alinhado, metódica e artificialmente plantado, experiência não partilhada pela maioria dos escritores que sublinharam a terra.

Benedito Sant’Anna Silva Freire tinha o compromisso estético inovador, sem romper com o cânone tradicional, contudo. Portanto, ainda que houvesse o descontentamento com a modernidade, o elemento regional ainda estava bastante idealizado, ou melhor, reinventado pelo próprio autor. As minhas faiscantes de Aquino iriam ser mescladas com as peraputangas brilhantes de Freire. Até mesmo a visão do garimpo vem acompanhada por uma dose de romantismo. Parece-me que o mérito de Freire foi deglutir o nativismo para criar uma civilização própria, aquela que cabia no entendimento do bugre, mas que encantaria o estrangeiro. Nesse ponto, concordo integralmente com Mário César e Marta Cocco.

Já Ronaldo de Castro escracha o protesto, ressentindo-se de uma “Cuiabá Canalha”, no seu inesquecível Cuiabanália. Ele não entende o desenvolvimento por que passa. Quer romper, quer quebrar, quer impedir a todo o custo. Finalmente, Moisés Martins é essencialmente nostálgico, relembrando a belle époque vivida pela capital na primeira metade do século XX. São três grandes referências para compreender a crise contemporânea, a desfiguração da cidade-província, o despertencimento que causa a ruptura da tradição. O trio esteve imerso em Cuiabá, nas tradições cuiabanas, e não situados na lonjura da “nortista” Marli Walker. Portanto, o tempo e o espaço fazem toda a diferença na expressão final de cada um deles e, mais particularmente, da poeta analisada.

Vejamos como Silva Freire resiste ao processo de descaracterização da terra:

Cotxipó-da-ponte
É reduto e atalaia na resistência estacada
De seresteiros
Ou resumo orquestral
De chorinhos
Rasqueados
E valsas puras
Quase um turbilhão de abismo tropical de Rosa…
Ao violão
Violinos
Flauta
E cavaquinho

De Moisés Martins, cito a nostalgia como forma de resistência:

Cadê seus becos?
Em casa esquina, um “chinfrim”
Um bêbado alegre, trançando as pernas, “ansim, ansim”
Beco sem cara, chamado “Chico”
Sem moagem, sem fuchico
Sem vira-lata que late,
Sem biscate sem donzela,
Namorando na janela.
Sem feijoada na panela,
Sem carrinho do peixeiro, sem o grito do padeiro
Sem pagode, sem rasqueado, não é Beco não!
Onde andam os meus becos,
Do sovaco, quente, torto, urubu,
São Gonçalo e candeeiro.
Cadê meus becos? Cadê meus becos.
Entre prédios e arranha-céus, abafados,
Morrendo tudo que Deus me deu
Sepultado pelo tempo!

E, de Ronaldo de Castro, é claro que vou revisitar um trecho de Cuiabanália:

Ah! Cuiabá canalha
Cuiabanália
Cortesã das multinacionais
Com seu arsenal eletrônico
Agônico
Estereofônico
Biônico
Supersônico
Atômico

Os elementos antigos são sublinhados, a tradição da terra, engrandecida em Freire e Moisés. Ambos se perguntam onde está o meio ambiente típico, onde cresceram, onde quiseram ficar no tempo. Não se encontram mais espelhados no presente e, portanto, pretendem produzir uma espécie de inventário. Por outro lado, as multinacionais já estavam preditas e malditas pelo inquieto Ronaldo de Castro. Ocorre que o poeta ainda cita o aspecto telúrico da terra, da raça, dando continuidade às loas típicas ao povo mato-grossense, mais especificamente ao povo cuiabano. Ronaldo de Castro culpa o elemento externo, muito embora aponte para a leniência da própria cuiabania que se deixa dominar facilmente. Ainda assim, o nativo é pintado como vítima.

Já Marli Walker não pretende a continuidade da tradição, não se mostra revoltada e nem tampouco nostálgica. A visão literária trazida em “Pó de Serra” é exterior ao fenômeno da cuiabania típica. Embora a autora viva em Mato Grosso há mais de 30 anos, não bebeu do saudosismo de quem nasceu e cresceu entre 1918 e 1968. Além do mais, deliberadamente não se mostra sujeita a prosseguir com a tradição de cantar a terra simbólica, a terra agarrativa e linda, como diria Gervásio Leite, outro modernista cuiabano seduzido pela tradição.

A questão para Walker é desnudar o processo de colonização brutal, os efeitos deletérios, os enormes desertos de sentido da fronteira brasileira empobrecida e dominada por interesses financeiros. Como essa mulher está inserida nesse meio masculino de trabalho braçal? O que admirar e o que detestar? Qual o resultado do novo ciclo econômico? A desilusão com essa “nova bandeira”, o desencanto frente à ganância, o sutil trabalho de convencimento do leitor para as contradições do capitalismo, tudo isso é matéria-prima da poeta, um alvo que é o mesmo dos poetas já citados, mas sob enfoque absolutamente diferente.

De certa forma, a autora é também uma defensora de Mato Grosso e suas riquezas. É que cada qual defende a terra como pode. Ela o faz de forma realista e do ponto de vista dúplice: a poesia produzida por Walker volta-se contra os conterrâneos chegantes e os responsabiliza pela voracidade desregulada no trato com a terra. Mas o faz de maneira inovadora. Não vitimiza o nativo, não induz ao banzo ou à catarse coletiva. Deixo sublinhada a produção de Marli Walker porque ela alcança o ineditismo frente a duas correntes literárias que a precederam – de um lado, a terra romanceada e, de outro, o tom ressentido do que viria depois. Temos uma poesia equilibrada na realidade vivida com a migração e o horror diante do projeto de fixação financeiramente bem-sucedido e ambientalmente malogrado. Nesse sentido, convém destacar um poema de “Pó de Serra”:

Árvores mortas
Labirintos de madeira
Sonhos esculpidos
Com suor e fé
Paisagem com sede
De homens valentes
Imitadores do mundo
Tão pequeno, tão perto
Vigiando a respiração
Da mata remanescente
Invasores pós-modernos
Carentes de árvores
De peles-vermelhas
De água e pássaros
Carentes de paz

Como vimos, a denúncia não vem com a rudeza ressentida de Ronaldo de Castro, nem com a nostalgia de Moisés Martins, nem ainda com a reinvenção cabocla de Silva Freire a tentar mesclar o velho e o novo, o endógeno e o exógeno. De outro lado, não há o tratamento romântico emprestado ao bandeirante por Aquino Correa. Em Walker os adjetivos são outros: “invasores”. Noutro poema de Pó de Serra, aprofunda-se a desterritorialização do migrante:

Sociedade de povos errantes…
Imagens de sul, de sol e de sal
Nas tuas praças e no mapa da mina
Os teus pecados lamentam teu mal
Povos silenciados no teu sonho Capital

Novamente, percebe-se o jogo de palavras com “capital”, variando entre a grandeza e a morte. O povo identificado por Marli Walker veio do sul e do litoral, perdeu-se na própria gula exploratória e ainda não se encontrou.

Marli Walker caminha com ironia, tecendo uma crítica mordaz nas entrelinhas de sua poesia. O “verde que sobra na calçada” (presente no Pó de Serra) é um deboche sofisticado, por exemplo. Portanto, a literatura desenvolvida por ela seja um marco: o olhar de fora sobre esse novo ciclo econômico, concomitantemente ao olhar por dentro do elemento alienígena, algo inédito na literatura mato-grossense, comparável mesmo a Lobivar Matos que nos legou uma visão completamente distinta da tradicional sobre o negro, o índio, o trabalhador e os conflitos sociais contemporâneos, abrindo mão do tão precioso soneto. Vejamos um trecho de um poema do Sarobá de Lobivar:

Naquela roça grande não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações:
Naquela roça grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.
O café vai ser torrado
pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do contratado.
Negro da cor do contratado!
(…)
Quem faz o branco prosperar
ter barriga grande – ter dinheiro?
Quem?

A poesia de Marli Walker passa a ser leitura obrigatória para estudiosos que pretendam dialogar sobre o contemporâneo de Mato Grosso, uma terra continental. O Estado precisa ser enxergado além das típicas idiossincrasias convencionais, fora do rodamoinho costumeiro para onde são arrastados muitos escritores no rebojo do cânone literário e, finalmente, fora da gravidade cuiabana. Não pode passar despercebida essa poética nova que servirá de parâmetro para se compreender, no futuro, o que se passou conosco neste desencantado presente.

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Rubenio Marcelo lança em Campo Grande livro de crítica cultural que também contempla autores de MT

Da Redação | O lançamento do livro Palavras em Plenitude – prosa e crítica cultural”, a 12ª publicação autoral do escritor Rubenio Marcelo, será na próxima terça-feira, 22, a partir das 19h30, em Campo Grande (MS). O evento será no auditório da Academia Sul-Mato-Grossense, que se situa na Rua 14 de Julho nº 4653, altos do São Francisco, na Capital Morena. Em seguida, o livro será lançado também no Festival América do Sul Pantanal (FASP), que vai acontecer de 24 a 27 de maio/2018 em Corumbá/MS.

    Aprovado pelo FMIC/Sectur-CG/MS e chancelado pela Ed. Life, o livro traz textos em prosa, enfeixando resenhas, crônicas, ensaios com enfoques de crítica cultural acerca de personagens regionais desta área e, dentre os contemplados na obra, nomes também de Mato Grosso, como Eduardo Mahon, Benedito Pedro Dorileo, Olga Maria Castrillon Mendes, além dos saudosos Dom Aquino Corrêa e Zulmira Canavarros, a ‘Coleção Obras Raras da Literatura Mato-Grossense’, e a Histórica 1ª Sessão Conjunta das duas Academias de Letras estaduais: AML e ASL, que ocorreu na sede da AML, em Cuiabá/MT, na noite de 10/09/2015.

O livro possui prefácio do escritor Geraldo Ramon, membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras; apresentação de Valmir Batista Corrêa, da ASL e do IHGMS; além de comentário de ‘orelha’ de Samuel Medeiros, da ASL e do IHGMS; e resenha (quarta capa) de Paulo Nolasco, escritor e crítico literário.

O prefaciador assim afirma num trecho: “Este novo livro de Rubenio Marcelo é uma oportuna coleção de análises críticas, literárias e/ou outras, com crônicas originais, cada qual confeitada numa evolução temática específica, fluente e bem concatenada. Cada capítulo é uma peça colorida de uma vívida engrenagem, cuja textura global – além de transmitir interessantes informações – alenta a alma do leitor, conforme sua necessidade no momento.  Já o escritor e historiador Valmir Corrêa assegura: “O livro ‘Palavras em Plenitude’, de Rubenio Marcelo, reúne textos e ensaios autorais que sintetizam produção artística regional contemporânea, bem como a memória cultural, e também outros em prosa, todos dosados de expressiva qualidade literária”.

    Rubenio Marcelo é poeta, escritor, compositor e crítico cultural, membro efetivo e secretário-geral da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (Cadeira nº 35) e membro correspondente da Academia Mato-Grossense de Letras, empossado em 10/09/2015.

Autor de doze livros e três CDs, é filiado à União Brasileira de Escritores (UBE-MS). Recentemente, lançou o livro de poemas “Vias do Infinito Ser” (pela Ed. Letra Livre), e – em show aberto no Sesc Morada dos Baís / Campo Grande – o CD musical “Parcerias: na poética de Rubenio Marcelo”. Destacam-se também em suas produções os livros: “Graal das Metáforas”, “Horizontes d’Versos”,  “Voo de Polens”, e “Veleiros da Essência”. No mês de março próximo passado, lançou livro e o seu CD “Parcerias” em Portugal, no Departamento de Línguas e Cultura da Universidade de Aveiro, onde também realizou outras atividades culturais. Também advogado e revisor, reside em Campo Grande/MS. (Com material da Assessoria)

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O Mundo Binário de Eduardo Mahon – por Ana Lúcia Rabecchi

Por Ana Lúcia G. S. Rabecchi | As histórias de Eduardo Mahon, além de serem nutridas pela experiência de leitura que reconhecemos num grande repertório, elas oferecem e tiram a ilusão de compreensão. O romance O homem binário e outras memórias da senhora Bertha Kowalski é uma alegoria das atitudes que o homem toma, ou se entrega, diante da perspectiva da morte, daí a narrativa ter como conteúdo a busca incansável por aquilo que ele, até então, não podia comprar: a imortalidade. Naturalmente essa busca é permeada pela discussão do conceito de humanidade de “forma mais radical”, como diz o autor, que termina por nos levar a uma reflexão do que seja humano versus desumano e da vida versus a morte. Vejamos a reflexão da psiquiatra Justyna Klos:

“Não é preciso nem mesmo estar num consultório médico, senhora Kowalski. Basta recorrer aos arquivos de história. Homens podem não ter humanidade alguma. O que chamamos de humanidade é, na verdade, uma construção tão rebuscada quanto fictícia. A humanidade, enfim, não é uma propriedade inata. E, se esse conjunto de atributos que apelidamos de humanidade não é partilhado por todos os seres humanos, é verdade que pode ser observado noutros seres, até mesmo nos virtuais. Basta não ter preconceito e levar a proposta do senhor Platek às últimas consequências” (p.143, grifo meu).

É exatamente discutir esse “e se…” que o romance faz ao nos deixar sufocados não pela morte em si, mas pela clausura da vida num software, que pode encarnar também a metáfora dolorosa do mito de Prometeu Acorrentado. Essas reflexões justificam a boa trama de O homem binário, onde vida e morte são verso e reverso da mesma moeda. A fragilidade e finitude da vida na realidade realçam o medo e a angústia da morte.

A vontade de se perpetuar mesmo numa vida diferente faz com que a empresa Continuum Co alcance sucesso com sua fórmula de prolongar a vida e vender a felicidade ao homem através da visão de eternidade. A morte, então, perde o “caráter monstruoso” e passa a ser um estado de mudança de existência, uma migração deste lugar para outro como diz a epígrafe Apologia de Sócrates, com a qual o romance mantém diálogo, dentre outras obras.

Mahon, porém, vai além, banaliza a morte ao exaltar ironicamente a ciência e a tecnologia que conseguem guardar a personalidade, mas não abrandar seus medos, pois Josef Platek se ressente de ser um homem torturado ao “virar uma alma sem corpo, penando sem espaço e sem tempo”, o que a personagem diz ser uma condenação “não dormir, não acordar, não envelhecer e não morrer”, ou seja, uma cópia desumana do homem.

Em Alegria a questão da aparência e da realidade que permeiam toda boa ficção continua em pauta. Assim como Macondo em Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Márquez, Alegria é uma ilha da imaginação. A narrativa passa da criação ao apocalipse cumprindo um ciclo de vida e morte, onde esta mostra suas múltiplas faces. A cidade é vitimada por uma epidemia de suicídio em massa de peixes que desencadeia o medo, a angústia, a tristeza, o desespero, a solidão e, consequentemente, o suicídio dos homens, que vai se transformar em epidemia por impotência diante de um fato inexplicável, onde “a morte alcança até quem não havia nascido” (p.107).

Assim como A peste, de Albert Camus, que serve de epígrafe em Alegria, a iminência da morte relembra ao homem a sua pequenez diante da finitude e o faz querer agarrar com todas as forças à vida, que teme perder a qualquer momento. O desespero das pessoas é narrado por um dos médicos da cidade que tenta amenizar os males sem sucesso, restando-lhe apenas a solidariedade e a compaixão.

A morte neste romance de Mahon é recorrente e faz com que o narrador vá refletindo sobre a postura do homem perante o mundo e a si próprio. Com seu senso de humanidade e/ou desumanidade vive toda tragédia e reflete: “Há solidão em qualquer lugar, não é preciso buscá-la, com tanto afinco. Na ilha estive nessas condições sem buscar por elas” (p.160). A ilha, então, vem ser a clausura do homem abandonado à própria sorte.

Nessa contação de história, cujo final nos desestabiliza, valemo-nos de Garcia Márquez em O amor no tempo do cólera, para também afirmar a suspeita de que em Alegria “é a vida, mais que a morte, a que não tem limites”.

* Profª. Drª Ana Lúcia G. S. Rabecchi é professora da UNEMAT – Cáceres.

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Luiz Renato lança o seu terceiro romance, “Xibio” que fecha a trilogia amazônica

Por João Bosquo | O escritor mato-grossense Luiz Renato de Souza Pinto lança no próximo dia 10 de maio, em Ouricuri (PE), o romance “Xibio”, que fecha a trilogia amazônica iniciada em 1998, com “Matrinchã do Teles Pires”. O livro também será apresentado durante a quarta edição do Congresso Internacional do Livro, Leitura e Literatura do Sertão (CLISERTÃO), na Universidade de Pernambuco (UPE), que acontece  entre os dias 7 a 11 de maio, em Petrolina. O lançamento em Cuiabá será no Sesc Arsenal no dia 25 de maio, das 19 às 22 horas, no espaço da Choperia. Na véspera acontece um pré-lançamento durante a Feira Literária do Colégio Máxi.

Luiz Renato diz que o romance “Matrinchã do Teles Pires”, que dá início à trilogia, trata da colonização do norte do Mato Grosso ao longo dos anos setenta, durante a ditadura militar que expandiu as fronteiras agrícolas avançando sobre a região amazônica.

Em 2014, foi publicado segundo romance, “Flor do Ingá”, no qual se desdobra a aventura e é apresentando o cotidiano de um casal que se conhece em Londrina (PR) e vem para Mato Grosso, quando então se separam.

Agora, segundo Luiz Renato, vinte anos depois, fechando a trilogia, “Xibio”, editado pela Carlini&Caniato, destaca a vinda de nordestinos para garimpos de diamante em Mato Grosso e Goiás. Mesclando elementos da cultura local com pitadas do nordeste, o volume apresenta a cidade de Ouricuri, daí a razão do lançamento nessa cidade, de onde parte um garimpeiro que vem para Balisa, região deTorixoréo atrás do minério.

Padre Cícero, Frei Damião, São Sebastião, Lampião, Luiz Gonzaga e Patativa do Assaré compõem o mosaico de fundo histórico para complementar a viagem.

O escritor explica que entre 2015 e 2018 foram 16 viagens ao nordeste para pesquisas e desenvolvimento empírico das situações de busca e apreensão de elementos para se transformar em literatura.

“Matrinchã do Teles Pires”  foi objeto de monografias de graduação e especialização no campus da Unemat de Tangará da Serra, sob a orientação do professor doutor Dante Gatto, dissertação de mestrado de Luzia Oliva, na Unesp, Campus de São José do Rio Preto (SP), bem como objeto de artigos da professora doutora Gilvone Furtado Miguel, da UFMT de Barra do Garças (MT).

Acerca de “Xibio”, o escritor paranaense Cézar Tridapalli registra em redes sociais que “ao costurar com lirismo realidade objetiva e interior, faz um passeio pela vida de Irene, afetada por experiências tão dolorosas quantos as flechadas recebidas por São Sebastião (e é Irene quem lhe ameniza as dores). De quebra, no meio da leitura, a personagem lê o meu “O beijo de Schiller”, um fragmento que também fala da imagem de uma Irene mitigando o sofrimento de Sebastião, onde se misturam dor e sensualidade”. Em texto que registra a trilogia em sua edição finalizada, a professora doutora Luzia Oliva retrata o que significa a realização dessa empreitada. (Com material da Assessoria)

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Jurista Joaquim Falcão é eleito para a ABL

O novo imortal, Joaquim Falcão (Divulgação/ABL)

O jurista e educador Joaquim Falcão, de 74 anos, foi eleito hoje (19) para a Cadeira 3 da Academia Brasileira de Letras (ABL), sucedendo o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony, que morreu no dia 5 de janeiro deste ano. Antes de Cony, a Cadeira 3 foi ocupada pelo fundador da instituição, Filinto de Almeida, por Roberto Simonsen, por Aníbal Freire da Fonseca e por Herberto Sales.

Participaram da sessão, no Petit Trianon, como é conhecido o prédio-sede da ABL, 24 acadêmicos, e 11 encaminharam seus votos por carta. Por motivo de saúde, quatro imortais não votaram. Além disso, houve três votos em branco.

Joaquim Falcão disse que sua eleição simboliza a busca de Brasil pelo Brasil. “Simboliza a capacidade de ver e interpretar o Brasil, a liberdade de informação e a adversidade do Brasil.”

Ao comemorar em casa, junto com parentes e amigos, a eleição para a ABL, Falcão adiantou qual será a sua contribuição para os debates com os imortais, como são chamados os membros da academia. Ele lembrou que sua origem é jurídica e que é especializado em Supremo Tribunal Federal (STF). “O Supremo representa o sentimento de justiça do Brasil, assim como os intelectuais representam a consciência do povo brasileiro”, afirmou.

Ao comentar o papel do STF no momento atual, Falcão foi direto: “O Supremo não vai falhar ao Brasil.”

Sucessão – Para Falcão, o fato de suceder o escritor Carlos Heitor Cony na ABL também é motivo de satisfação. “Cony representou, nos meses mais difíceis que o Brasil passou, uma voz que ia além de si mesmo. Cony foi uma voz de liberdade. Ele disse o que o Brasil inteiro queria dizer.”

O presidente da ABL, Marco Lucchesi, ressaltou que o novo imortal é figura de destaque no meio jurídico, e uma conquista para a Casa. Joaquim Falcão é um nome de marca na área jurídica e um intérprete sensível e profundo de nosso país. Tem uma cultura ecumênica e plural, raro conhecedor do STF e dos desafios do Brasil. É um grande nome para a Casa.”

A acadêmica Rosiska Darcy de Oliveira, destacou que Falcão já deveria sido eleito para a ABL. “Joaquim Falcão é não só um jurista notável, é também uma figura incontornável da cultura brasileira. Seu lugar é nesta Casa e já tardava esta eleição. Joaquim é muito querido entre os Acadêmicos, como prova a sua votação”, afirmou a escritora.

O novo acadêmico nasceu no Rio, mas é de origem pernambucana. Bacharel em direito pela Universidade Católica do Rio de Janeiro, é mestre em direito na Harvard Law School e em planejamento de educação, além de ter doutorado na Universidade de Genebra. Foi diretor da Faculdade de Direito da PUC-Rio, professor associado da Universidade Federal de Pernambuco e da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, fundador e professor titular da Escola de Direito da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro.

Entre outros cargos políticos, Joaquim Falcão foi chefe de gabinete do ministro da Justiça no governo Sarney, Fernando Lyra; fez parte da Comissão Provisória de Estudos Constitucionais, a Comissão Afonso Arinos; presidiu a Fundação Nacional Pró-Memória, responsável pelas principais casas de cultura do Brasil, como Biblioteca Nacional, o Museu Nacional de Belas Artes e o Museu Histórico Nacional.

No fim dos anos 70, começou a colaborar com o jornal Folha de S.Paulo, escrevendo durante anos na página 2. Seu livro A Favor da Democracia, publicado em 2004, é resultado desse período.

O livro Mensalão – Diário de um Julgamento: Supremo, Mídia e Opinião Pública, publicado em 2013, descreve uma nova estratégia de “difusão de massa do conhecimento jurídico”, traduzindo para o grande público, as grandes questões sobre estado democrático de direito.

Source: Jurista Joaquim Falcão é eleito para a ABL | Agência Brasil

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Lembranças Eternas – Um poema de João Bosquo

Não tenho tantas dores para contar:
Quebrei o braço, fui pro Santa Casa,
Me roubaram a namorada e chorei,
Perdi o ônibus, atrasado, perdi o emprego…

As alegrias, por inúmeras, são várias
Que não saberia contá-las
Chego tentar calcular uma centena,
Uma milhar, como aquela aposta
E passou raspando

Ser alegre não é ser feliz,
Mas momentos felizes acontecem
Assim num repente,
Como o qual quando o filho nasce,
O coração palpita ao ver o bichinho no berçário…

Outra alegria, de menos é mais,
Quando, mesmo desempregado,
Alguém nos procura, não pra socorrer,
Mas pedir ajuda que só podemos dar…

A vida tem traços, nuances,
Marcas, algumas indeléveis,
Talvez, por isso, vale a pena viver
E forçar a memória
Pras lembranças eternas.

21/10/2017
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Um Doce Marido – Um conto de Eduardo Mahon

UM DOCE DE MARIDO (E.M)Antônio Carlos sentiu a pele grudar-se ao lençol macio de tão novo. No início, maldisse a…

Publicado por Eduardo Mahon em Sábado, 27 de janeiro de 2018

Antônio Carlos sentiu a pele grudar-se ao lençol macio de tão novo. No início, maldisse a mulher que tinha mania de tomar sorvete na cama. Por ela, fariam as refeições no quarto, do café da manhã ao jantar. É romântico – justificava-se. Não para Antônio Carlos, no entanto. Do signo de capricórnio, o homem era um perfeccionista. Não suportava os bombons, biscoitos amanteigados e restos de sanduíches que competiam com os livros empilhados sobre o criado-mudo. Na convicção cartesiana do engenheiro, cama era lugar de dormir. No máximo, fazer amor e ler nas noites de insônia. Certo ou errado sobre a serventia do leito, enganou-se redondamente acerca da origem do grude que se pregou às costas. Ao levantar, acionou o abajur que montava guarda ao lado da cama. A investigação restou frustrada: a fina perícia empreendida por Antônio Carlos não constatou nódoa de sorvete, bolo ou iogurte. Em vez disso, jazia no seu lado da cama um delicado decalque do corpo, uma sombra adocicada dele mesmo. Até então, a mulher ignorava as suspeitas do marido. Virada para o outro lado, via-se dela apenas os cabelos castanhos que escondiam completamente o travesseiro magro sob a cabeça. No relógio, três e meia. E agora? – perguntou-se como se estivesse perguntando à esposa, uma das tantas manias de homem casado. Fosse por ela, trocariam de lençol, talvez toda a roupa de cama. Mas não. No meio da noite, a mulher estava flanando em dimensões que nunca alcançam os insones. Antônio Carlos decidiu tomar banho, muito embora soubesse que, sozinho, seria quase impossível a manobra dos braços curtos alcançar as costas do corpanzil obeso. Fez o que pôde: deixou que a água afogasse a substância viscosa e a levasse das costas até o pequeno ralo do box de vidro temperado. Depois de enxugar-se, Antônio Carlos apanhou outra toalha para forrar o local no qual o contorno dele mesmo havia deixado a borda grudenta. Horas depois, quem o acordou foi a mulher, preocupada com algo estranho que o marido transpirava. Acorda, Antônio Carlos! Tem algo errado contigo. Ele quis cobrar com juros e correção monetária todo o tempo de sono que havia gasto na madrugada, mas antes que pudesse reclamar, viu nos braços uma camada gelatinosa e brilhante de baba transparente que escorria pelos dedos das mãos. O mesmo visgo era secretado pelo restante do corpo que se melava na temperatura crescente da manhã ensolarada. O que você tem?! – ele ouviu da mulher a mesma pergunta que se fazia. Levantou-se, olhou a pele anfíbia no espelho do banheiro e, perdido na ausência de explicação razoável, meteu-se na ducha, dessa vez sob a supervisão atenta da mulher que já desconfiava que o marido havia saído no meio da noite. Magoada pela mudez de Antônio Carlos, cansou-se de esfregar as costas, pernas e o couro cabeludo do marido. É doce – ela comentou. Isso já sei. É como se eu houvesse mergulhado num tonel de xarope. Podia ser assim que ele se sentisse. Ocorre que, fosse mesmo xarope, sairia daquele banho livre de qualquer resquício melequento. Foi a mulher que percebeu não adiantar bucha e sabão. Além de não remover a gosma que continuava a minar pelos poros de Antônio Carlos, gastava o marido como se fosse ele uma bala de hortelã que vai afinando lentamente. Saia daí! – alertou ao perceber que Antônio Carlos se dissolvia em contato com a água. O que aconteceu com aquele homem, a medicina não conseguiu explicar e nós, tampouco. No entanto, após o diagnóstico inconclusivo sobre a doença desconhecida, a mulher aproveitou a oportunidade para envazar em pequenos frascos o xarope destilado por Antônio Carlos, coqueluche na sofisticada gastronomia experimental. Um doce de marido – era o que dizia no rótulo.

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Fim da linha pra você, ex-presidente ladrão – Um poema realista de Herton Gustavo Gratto 

Por Herton Gustavo Gratto | 

Fim da linha pra você, ex – presidente ladrão
mesmo sem provas
bato panelas
em prol da sua condenação
isso é pra você aprender
que o pobre não tem direito a mais que uma refeição

Fim da linha pra você, metalúrgico boçal
isso é pra você aprender
a nunca mais fazer assistência social
com meu dinheiro
e nem se atrever a transformar em engenheira
a filha do pedreiro

Fim da linha pra você ex presidente aleijado
não é pelo triplex
que você está sendo condenado
é pela sua ousadia em ajudar o garçom a virar advogado
em contribuir pra ascensão do negro favelado
que agora acredita que pode estudar medicina
sair da miséria e até conhecer a Capela Sistina

Fim da linha pra você, ex presidente bandido
isso é pra você aprender
que o nordeste deve continuar a ser esquecido
e que saúde e educação é pra quem pode
e não é que pra quem quer

Fim da linha pra você, semi analfabeto atrevido
graças a sua insensatez
o filho da faxineira chamou o meu filho de amigo
você está sendo condenado
pela sua falta de noção
de achar que é pobre é gente
que agora pode usar aparelho nos dentes
ter casa própria e andar de avião

Fim da linha pra você, ex presidente imundo
isso é pra você parar com essa palhaçada
de estimular a minha cozinheira
a querer ter carteira assinada
era só o que me faltava
o proletariado sonhar com qualidade de vida
você devia saber que essa gente nasceu pra me servir
e não pra servida, mas você é tão inconsequente
não enxerga um palmo diante do nariz
que fez a babá do meu caçula
sonhar que pode estudar pra ser atriz
e fazer aula de inglês
essa pouca vergonha é resultado da sua insensatez
da sua irresponsabilidade desmedida
aprenda de uma vez
barriga vazia e bala perdida
fazem parte do cotidiano
dessa gente bronzeada
foi querer mudar o mundo
se meteu numa enrascada

Fim da linha pra você, ex presidente imbecil
você está sendo condenado
não por ter roubado
porque isso não foi provado
seu erro
foi ser fazer história
ser do tamanho do Brasil
ter oitenta por cento de aprovação popular
acreditar em igualdade
e saber governar.

FIM DA LINHA PRA VOCÊ, EX-PRESIDENTE!

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Antes da Física Quântica – uma imitação de soneto de João Bosquo

Não conhecer física, o princípio de Einstein,
Demora mais para entender que o amor,
Como as velhas e novas coisas universais,
Também é variável no espaço e tempo

O amor, embora a causa primeira de tudo,
Em nós, enquanto gente = energia concentrada,
É a mais instável dentre todas as equações
E invariavelmente apostamos no contrário

A causa primeira de tudo, escrevo, é o Amor
O Amor imanente, permanente em cada um,
Contudo dessa permanência não entendamos

Perfeitamente como ela se estabeleceu e fica
Nos cobrando que amemos uns aos outros,
Na mais simples das equações, como a nós mesmos.

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Sereno – Uma imitação de soneto de João Bosquo

Vamos fechar nossos olhos, procurar o sereno
Que se encontra nas partículas gotas da madrugada
E suavemente deitam nas gramas dos jardins,
Nos telhados, como um calmo lençol à forrar…

Quando tudo serenar, ao fechar nossos olhos,
Vamos olhar para dentro e ver que a alma ainda,
Sendo alma, procura o ponto ideal de equilíbrio

Serenar os ânimos em favor de tudo e todos
Vamos olhar para fora de nós e ver o que ainda
Está sendo trabalhado para a harmonia final…

Vamos fechar os olhos e abrir as portas, perenes
Portas do coração, e deixar esse ar do amanhecer
Penetrar suavemente nos poros, como um fluído
Vivo, alentar a alma e deixar o corpo descansar.

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Carlos Heitor Cony previa lançar “Operação Condor” este ano de 2018

Obra é uma reedição de “O beijo da Morte” (2003) em coautoria com a escritora e jornalista Anna Lee

Da Assessoria | A Ediouro lamenta profundamente o falecimento de Carlos Heitor Cony, um importante membro de nossa casa, que nos deixou na noite desta sexta-feira (5), aos 91 anos, em decorrência de falência múltipla dos órgãos.

Cony estava para lançar “Operação Condor”, uma reedição revista e ampliada de “O Beijo da Morte”, romance-reportagem em coautoria com a escritora e jornalista Anna Lee sobre a morte de JK, Jango e Carlos Lacerda. Com a exumação do corpo de Jango, Anna colheu novas informações, viajou, entrevistou diferentes pessoas, pesquisou documentos e está finalizando o original para entregar à Nova Fronteira.

“Sem dúvida, a literatura brasileira perde um grande escritor. E, nós, seus editores e companheiros, perdemos um amigo”, lamenta Jorge Carneiro, presidente da Ediouro.

Trajetória Nossa história com o escritor começou há mais de 50 anos, com sua obra juvenil e suas famosas adaptações dos clássicos da literatura universal, entre as quais estão: “Moby Dick”, “Taras Bulba” e “Viagem ao Centro da Terra”.

Cony conciliava o talento e a criatividade de um mestre da palavra ao profissionalismo do escritor sob demanda, cumprindo prazos e revisando provas de cada reedição. Em 2013 toda sua obra passou a ser publicada pela Nova Fronteira, selo editorial da Ediouro. Ele participou ativamente de todo o plano de edição, com sugestões e aprovação de capas.

Nascido no Rio de Janeiro em 1926, Cony estreou na literatura ganhando por duas vezes consecutivas o Prêmio Manuel Antônio de Almeida, com os romances “A verdade de cada dia” e “Tijolo de segurança”.

Considerado um dos maiores expoentes do romance neorrelista brasileiro, o escritor também se aventurou de maneira bem-sucedida em outros gêneros, como crônicas, ensaios, adaptações de clássicos, contos, entre outros.

Ganhou em quatro ocasiões o Prêmio Jabuti na categoria Romance, duas vezes o Prêmio Livro do Ano da Câmara Brasileira do Livro e o Prêmio Nacional Nestlé de Literatura. Em 1998, foi condecorado pelo governo francês com a L’Ordre des Arts et des Lettres. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em março de 2000.

Atuava na imprensa desde 1952, ano em que entrou no Jornal do Brasil. Mais tarde passou pelo Correio da Manhã, onde foi redator, cronista e editor. Entre suas últimas ocupações estava o cargo de colunista da Folha de S.Paulo e comentarista da rádio CBN.

Muito ativo, frequentemente aceitava convites para palestras, tendo participado das últimas edições da Bienal do Livro e da Flip. Atualmente, estava selecionando o vencedor do Prêmio Kindle de Literatura, uma parceria da Amazon com a Nova Fronteira.

Source: Cony previa lançar “Operação Condor” em 2018 

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Poema Escrito – uma imitação de soneto de João Bosquo

Olho-te e vejo
Como estás,
Meio sem graça

Não faço nada
E me perguntas
Se passo fome

Respondo: não!
E continuo são
Na minha tarefa

Isso te perturbas
Vês assombrações, e
Segues os meus passos

Como se fosse possível
Desentortar que está escrito…

><>Poema integrante do livro “Imitações de Soneto”, à venda, combinar pelo facebook.com/joaobosquocartola

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Da salvação da pátria, uma deliciosa crônica de Carlos Heitor Cony sobre a ‘revolução’ de 1964

Por Carlos Heitor Cony | Posto em sossego por uma cirurgia e suas complicações, eis que o sossego subitamente se transforma em desassossego: minha filha surge esbaforida dizendo que há revolução na rua .

Apesar da ordem médica, decido interromper o sossego e assuntar: ali no Posto 6, segundo me afirmam, há briga e morte. Confiando estupidamente no patriotismo e nos sadios princípios que norteiam as nossas gloriosas Forças Armadas, lá vou eu, trôpego e atordoado, ver o povo e a história que ali, em minhas barbas, está sendo feita.

E vejo. Vejo um heróico general, à paisana, comandar alguns rapazes naquilo que mais tarde o repórter da TV-Rio chamou de “gloriosa barricada”. Os rapazes arrancam bancos e árvores. Impedem o cruzamento da Avenida Atlântica com a Rua Joaquim Nabuco. Mas o general destina-se à missão mais importante e gloriosa: apanha dois paralelepípedos e concentra-se na brava façanha de colocar um em cima do outro. Estou impossibilitado de ajudar os gloriosos herdeiros de Caxias, mas vendo o general em tarefa aparentemente tão insignificante, chego-me a ele e antes de oferecer meus préstimos patrióticos, pergunto para que servem aqueles paralelepípedos tão sabiamente colocados um sobre o outro.

– General, para que é isto? O intrépido soldado não se dignou olhar-me. Rosna, modestamente:

– Isso é para impedir os tanques do I Exército! Apesar de oficial da Reserva – ou talvez por isso mesmo – sempre nutri profunda e inarredável ignorância em assuntos militares. Acreditava, até então, que dificilmente se deteria todo um Exército com dois paralelepípedos ali na esquina da rua onde moro. Não digo nem pergunto mais nada. Retiro-me à minha estúpida ignorância.

Qual não é meu pasmo quando, dali a pouco, em companhia do bardo Carlos Drummond de Andrade, que descera à rua para saber o que se passava, ouço pelo rádio que os dois paralelepípedos do general foram eficazes: o I Exército, em sabendo que havia tão sólida resistência, desistiu do vexame: aderiu aos que se chamavam de rebeldes.

Nessa altura, há confusão na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, pois ninguém sabe ao certo o que significa “aderir aos rebeldes”. A confusão é rápida. Não há rebeldes e todos, rebeldes ou não, aderem, que a natural tendência da humana espécie é aderir.

Os rapazes de Copacabana, belos espécimes: de nossa sadia juventude, bem nutridos, bem fumados, bem motorizados, erguem o general em triunfo. Vejo o bravo cabo-de-guerra passar em glória sobre minha cabeça. Olho o chão.

Por acaso ou não, os dois paralelepípedos lá estão, intatos, invencidos, um em cima do outro. Vou lá perto, com a ponta do sapato tento derrubá-los. É coisa relativamente fácil.

Das janelas, cai papel picado. Senhoras pias exibem seus pios e alvacentos lençóis, em sinal de vitória. Um cadillac conversível pára perto do “Six” e surge uma bandeira nacional. Cantam o Hino também Nacional e declaram todos que a Pátria está salva.

Minha filha, ao meu lado, exige uma explicação para aquilo tudo.

– É carnaval, papai ?

– Não.

– É campeonato do mundo?

– Também não.

Ela fica sem saber o que é. E eu também fico. Recolho-me ao sossego e sinto na boca um gosto azedo de covardia.

><>Carlos Heitor Cony publicou a crônica “Da salvação da pátria” um dia após o golpe militar de 1964. Nos dias seguintes ele insistiria no tema, criticando o que chamava de “revolução de caranguejos” e mantendo uma dura oposição que rendeu sérias ameças a ele e a sua família. Todos os textos escritos nesta época seriam reunidos posteriormente na coletânea de crônicas “O Ato e o Fato”. (Henrique Fendrich)

Source: Crônicas inesquecíveis: Da salvação da pátria (Carlos Heitor Cony) | RUBEM

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Como este poema desejo a todos, amigos, comparsas, companheiros e desafetos, um feliz ano 2018

Café do Ano Novo

Estou aqui. Bebi o café quente do ano novo,
lembrei-me de pessoas e dum livro de poemas lidos
quando queria ficar triste, mas alegre permaneci
olhando para fora da janela do próprio tempo

Contar o tempo quando se vê no espelho do banheiro,
ao fazer barba de pelos brancos, é obrigação diária
sem se exaltar, sem desespero, sem indignação vária

Estou aqui, neste mesmo recinto que me verá
quiçá, centenas de anos, procurando palavras
nesta inglória luta com a linguagem materna
entre o sentir e o papel em branco de poesia…

Este meu recinto, sinto, precisa de limpeza interna:
menos egoísmo, mais compaixão e decisão na busca
pra superar o Pantanal desta minha humanidade.

 

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Sarau Literário em Santo Antônio de Leverger reúne poetas vivos

O evento aconteceu na última quinta-feira, 7, no Centro Comunitário da Igreja Matriz, uma promoção da E.E. Faustino Amorim, com coordenação da professora Kelly Carvalho

Por João Bosquo | O sarau literário-musical “Com a Palavra” em Santo Antônio de Leverger, na última quinta-feira, 07, realizando no salão paroquial da Igreja Matriz abriu com a belíssima apresentação do Coral Arte Cidadã, uma associação cultural que existe há mais de 15 anos na cidade. Só essa apresentação seria mais que suficiente para valer o ingresso, se ele fosse cobrado.

A plateia formada por alunos das escolas da rede estadual E.E. Faustino Dias de Amorim, E.E. Dr. Hermes Rodrigues de Alcântara e E.E. Leônidas de Matos, com organização da escola Faustino Amorim, tendo à frente a professora Kelly Carvalho na coordenação, que destaca a parceria com os poetas presentes ao evento, além do apoio institucional da Carlini & Caniato, que doou alguns livros de autores mato-grossenses e foram sorteados entre os alunos presentes.

O evento abriu com a apresentação do coral da Associação Arte Cidadã sob a batuta de Jeferson Ribeiro, que toca junto coma esposa, Maguidalena da Silva Ribeiro, há 15 anos vem desenvolvendo esse trabalho. Jeferson é formado em pedagogia, filosofia e música pela UFMT e começou a trabalhar com os jovens dentro da igreja, mas para poder expandir o repertório fundo a ONG que agora já tem seis integrantes estudando música na UFMT.

Após a belíssima apresentação do coral, a escritora Marilia de Beatriz de Figueiredo Leite foi a primeira a se apresentar e falar da sua poesia. Marília Beatriz fez uso de sua experiência de anos e anos como professor da UFMT e dominou a plateia como uma verdadeira Silvio Santos. Falou da poesia, de poetas e da sua produção literária.

Marília Beatriz de Figueiredo Leite disse que “em Santo Antônio encontrou encantadores e encantadoras tudo sob a batuta da Professora Kelly. ‘Com a Palavra’ evento que realizou a mágica de deixar nas paredes do Salão Paroquial as assinaturas literárias de todos os que foram enriquecidos na fascinante aventura que escorre dos poetas. Os estudantes viajaram nos verbos de todos nós e por nossa vez saímos embevecidos com o modo que o ‘ser poético’ foi traduzido. ”

O escritor, poeta, membro da Academia Mato-grossense de Letras e a partir do próximo dia 16 (sábado) também do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, Eduardo Mahon falou um pouco sobre educação e da necessidade que nós temos de estudar e da sua produção poética e de ficcionista, autor de romances “O Cambista” e “O Fantástico Encontro de Paul Zimmermann” e mais um que está no prelo “O Homem Binário”.

Sobre a participação no evento Eduardo Mahon declara: “De minha parte, posso dizer que encerrei o ano da melhor forma. Santo Antônio do Leverger foi a oitava cidade por onde passei promovendo a literatura mato-grossense. Fomos recebidos com carinho por professores e estudantes da rede pública de ensino, o que redobra a responsabilidade em produzir com qualidade. Ano que vem, começo por onde finalizei, lançando com essa molecada linda mais dois livros”.

Outro participante foi o jornalista e poeta Antônio Peres Pacheco que explicou sua dificuldade em decorar o próprio texto por conta de sua trajetória nos veículos de comunicação, principalmente televisão.

Antônio Peres diz foi surpreendido pelo evento. “O Sarau Com a Palavra me surpreendeu, primeiro pelo convite para ser um dos literatos a conversar e compartilhar minha produção e impressões sobre a literatura, em especial, a poesia; segundo pelo grande número de adolescente a compor o público. Uma experiência inesquecível. Confirmei ali que a fome de conhecer daqueles jovens estudantes e testemunhei, uma vez mais, o poder fantástico de sedução da literatura e da poesia. Quantos não sairão desse evento com vontade de fazer e viver a poesia? Não sei dizer. Mas, se um apenas der este passo, já terá valido a pena”.

Aclyse Mattos, poeta, professor universitário e membro da Academia Mato-grossense de Letras, autor dos livros “Assalto a mão amada” (poemas) – que foi lançado em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Cuiabá-, “O Sexofonista” (contos), “Papel Picado” (poemas de 3 versos), “Natal tropical” (infantil), “Quem Muito Olha a Lua Fica Louco” e finalmente “Festa”, o mais recente, também claro fez uso de sua experiência de professor ao conversar com os jovens presentes.

Ao comentar o evento “Com a palavra” faz questão de destacar a integração entre alunos e poetas. “O encontro integrou alunos e professores de três escolas de Santo Antônio em torno de autores mato-grossenses. Luiz Carlos Ribeiro voltou ao local de sua estreia no teatro. Marília Beatriz animou a todos com suas histórias e comunicabilidade. O professor poeta Carlos Amorim expôs sua obra mostrando aos alunos sua atuação para além da sala de aula. Assistir aos alunos da escola Faustino Dias declamando versos dos poetas convidados foi maravilhoso”, disse Aclyse.

Além dos já citados por Aclyse – Luiz Carlos Ribeiro e Carlos Amorim – também participou a escritora e acadêmica Cristina Campos, autora dos premiados livros infanto-juvenis “Bicho Grilo” e “Papo cabeça de criança travessa” também foi uma das participantes desta alegre tarde de literatura.

Kelly Carvalho disse que para realizar o evento contou com a parceria dos poetas, do editor Ramon Carlini, do cineasta João Manteufel e do deputado Allan Kardec. Presentes ainda a diretora da escola, professora Eliane Dolens Almeida Garcia e a coordenadora pedagógica, Rosângela Campos.

PS. Este repórter também participou do evento e noticiou a edição do seu último livrinho: “Imitações de Soneto”, e aleatoriamente leu um dos poemas.

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Vanguarda – Uma imitação de soneto de João Bosquo

Qual é a saída pra vanguarda?
Qual a saída pra crise, pela vanguarda?
A vanguarda está em crise
Ou a crise não afeta a vanguarda?

O que é ser vanguarda?
Sou fã ou fui guarda?
A vanguarda vem de avião?
Ônibus? De van?
Vem pelo correio
Ou pelos fios da internet?

A vanguarda deixa-se ser metrópole
se planta na interior Cuiabá
ou, um palmo antes de sair do prelo,
atropela o pobre leitor de óculos?

><> Poema integrante do livro “Imitações de Soneto – Ou de Falar Pantanal” (2015), que continua a disposição dos amigos leitores.

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Assim Caminha… – uma imitação de soneto de João Bosquo

O Brasil era Estados Unidos do Brazil
Agora somos República Federativa
A cidadania nem por isso ficou mais ativa
Os gestores menos corruptos e espertos…

O antigo Primário, o antigo Ginasial…
Estudei em todos eles e mudaram de nomes
Terminei, pois, o Segundo Grau

Professores, por hora são educadores
Como motorista passou a condutor
Mas um não educa, nem outro conduz

Mudam-se as nomenclaturas das instituições
Das coisas, dos objetos, das profissões…
O caráter Macunaíma, coitado, perpetua
No faz de conta e somos politicamente corretos.

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Da Água que Bebo – Uma imitação de soneto de João Bosquo

Dessa água não beberei
Depois de morto
E enterrado acima da cabeira
Do rio que desce
Rumo ao mar Pantanal

Posso beber, não sei,
Das águas subterrâneas
Que procriam águas
As quais meu corpo líquido
Em transparência procura

Dessa água, repara,
Que brota vívida,
De mim, tem um pouco
Como no ciclo eterno.

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Medo – Por João Bosquo

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Espelho Cansado – por Eduardo Mahon

ESPELHO CANSADOAloísio saiu de casa logo cedo. Era um sábado que se emendava ao feriado. Pegou as chaves, deu partida…

Publicado por Eduardo Mahon em Sexta, 3 de novembro de 2017

ESPELHO CANSADO
Aloísio saiu de casa logo cedo. Era um sábado que se emendava ao feriado. Pegou as chaves, deu partida no carro e seguiu para o centro da cidade. Quero um espelho – pediu ao vendedor. Não estava em uma vidraçaria, como recomendou a mulher, e sim num pregão de usados. O sujeito voltou-se para o interior e, de lá, veio com um espelho numa moldura de madeira. Só tem esse? – perguntou Aloísio. Só esse, por quê? É que o espelho é para o banheiro. O banheiro da casa era forrado de ladrilhos azuis e a última coisa que a mulher dele iria querer seria aquele espelho com moldura velha. Art déco, sabe quando vale? – foi o argumento do vendedor para empurrar o item encalhado na loja. Aloísio levou aquele mesmo, sem embrulhar. Chegou em casa, apanhou o martelo e, três minutos depois, pendurava o trambolho sobre a pia. Olhou-se demoradamente. Tudo normal. O espelho fazia o que era esperado: refletia o rosto de Aloísio, repleto de pelos que espocavam pelo rosto cansado. Não se barbeava no feriado. Ao levantar o braço direito, a imagem refletida também levantou. Foi a vez do braço esquerdo. O espelho pôs-se a imitar, como de hábito. Espelho bom – concluiu Aloísio. O homem enfrentou a crítica da esposa: desse tamanho, no banheiro, onde é que já se viu? Mas é art déco, não reparou? – ele respondeu. É velho, Aloísio, apenas velho. Não é déco, não é nouveau, não é nada! Ele preferiu ficar calado. Intimamente, porém, gostava do espelho. Havia nele um trabalho bonito na madeira da beirada que emprestava sofisticação àquele banheiro esteticamente prejudicado pela cortina de plástico que envolvia o chuveiro. Resolveu fazer a barba só para aproveitar melhor o achado. Além do próprio reflexo, observou cada detalhe: a fina lâmina prateada avariada pelo tempo, o formato ovalado perfeitamente integrado ao caixilho de madeira talhada à mão. Enquanto fazia barba, percebeu que na imagem refletida faltava os trejeitos que fazia ao escanhoar-se. Estava lá somente o rosto de Aloísio, repleto de espuma branca que caía sobre o lábio superior. Mas não havia as caretas, o nariz torcido, o beiço que se formava ao passar a navalha pelo pescoço. De imediato, parou de se barbear. Diante dele, no espelho, estava o rosto de Aloísio escondido em meio à grossa espuma branca, mesmo com ele mesmo tendo a metade da cara já raspada. Ora essa! – exclamou perplexo. Com os dedos, deu um peteleco no espelho para ver se voltava a funcionar. Espelho não é televisão – ouviu do outro lado. Como?! É isso mesmo, não adianta dar peteleco, cascudo ou piparote que não vou refletir na marra. Aloísio abriu os olhos assustado e viu, do outro lado, um outro Aloísio imitando o a expressão preocupada. Sem questionar, acabou de fazer a barba olhando fixamente para a pia. Lavou o rosto, enxugou-se com a toalha e permaneceu alguns instantes de olhos fechados. Quando olhou-se novamente, estava tudo em ordem: o rosto dele estava perfeitamente liso, dentro e fora do espelho. Ao ponderar sobre o que havia acontecido, permaneceu estático na mesma posição, mirando-se sem piscar. De repente, do outro lado, o reflexo piscou e disse: com licença, odeio olho ressecado. Pela primeira vez, Aloísio entendeu que o fenômeno não era algum lapso. Quem é você? – perguntou ao reflexo que, por sua vez, repetiu com a boca a mesma pergunta. O outro Aloísio, o de dentro da moldura de madeira, respondeu: estou farto de refletir a imagem alheia. O homem retirou o espelho do parafuso que o prendia à parede, colocou-o numa caixa de papelão e voltou ao pregão para pedir o dinheiro de volta. Não presta! – disse ao vendedor. Qual o problema, meu freguês? Está cansado de refletir, disse-me o preguiçoso! Mas isso é impossível, o senhor vai me desculpar. Recalcitrante em devolver o dinheiro faturado, o vendedor retirou o espelho da caixa e o colocou sobre um tampo antigo de mármore. Aqui está! O que não funciona? Não está refletindo tudo? Olhe aqui, sou eu. É o senhor, a loja, tudo à nossa volta. Aloísio olhou apalermado para espelho. Ameaçou: não vai falhar de novo? Não vai estragar? À míngua de resposta, colocou o objeto novamente na caixa e o levou de volta para casa. Tendo recolocado o espelho na parede, perguntou: qual o seu problema, afinal? De dentro, Aloísio ouviu: é que não aguento mais refletir outras pessoas, sem poder escolher. O que fazer para ajudá-lo? O reflexo de Aloísio fez uma careta e respondeu: acredito que espelhos deveriam direito à aposentadoria. Está cansado, não é? Estou esgotado, disse o espelho. Tudo tem um limite. O senhor sabe quantas pessoas eu já refleti? Passei a vida vendo as pessoas envelhecerem. Isso não é nada bonito. Até que a minha antiga dona morreu. No fim, ela estava sem nenhum cabelo. Me deu pena. Eu não queria refleti-la assim, mas fui obrigado. Refleti tudo, até o último brilho nos olhos dela. Depois, me cansei daquilo tudo. Comecei a refleti-la como nova, uma linda moça de lábios carnudos e longos cabelos castanhos. Antes de morrer, ela me agradeceu, mas se esqueceu de me levar. Seguiu-se um silêncio curto. Aloísio era um homem tão caridoso quanto objetivo: o que fazer? quebrá-lo? Pode ser – respondeu o reflexo sem mostrar apego. Não dá azar quebrar espelho? É mito, não seja bobo. Sendo assim, vou ajudá-lo, prometeu Aloísio. Foi à garagem, tirou da caixa de ferramentas o martelo e voltou em seguida: quebra-se de uma vez ou há alguma forma especial? Não há fórmulas, pode quebrar tudo – ouviu a resposta num tom conformado. O homem meteu a cabeça do martelo no meio do espelho que estilhaçou para formar uma teia de milhares de quebraduras. Em cada caco, Aloísio ainda se via, no entanto. Basta ou preciso quebrar ainda mais? Os inúmeros triângulos que resultaram do trinco central responderam: ainda sou espelho quebrado, é verdade, mas posso refletir; é preciso esmigalhar tudo até virar pó, se não for pedir demais. Assim foi feito. Do espelho morto, sobrou um pó grosso que quase entupiu a pia e a moldura nua sobre os ladrilhos azuis. A mulher encheu-se de razão: não falei que estava velho, Aloísio? É verdade, meu amor, mas todos nós ficamos – retrucou. Espelho novo não resolve, disse antes de ir almoçar.

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Morte – Um poema de Marília Beatriz

A cruz é a sentença,

o verbo é presença

onde a morte?

O surto é periférico

o vôo é atmosférico

onde a morte?

Se a cruz é o surto

o verbo e o vôo

continuam.

O sorriso é o estádio

e a lembrança da promessa

é pressa.

 

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Luiz Renato ressuscita o seu Garçom Performático

Personagem reaparece para animar lançamentos de seu novo livro que acontecerão a partir deste sábado, 4, em Rondonópolis

Por João Bosquo | O escritor Luiz Renato de Souza Pinto não esconde a satisfação de ser um dos ganhadores do Prêmio MT Literatura. Defende a lisura do pleito e fica mordido quando alguém, querendo atacar a figura do governador José Pedro Taques, passa a querer desmerecer o prêmio. Isso não. Embora faça uma autocrítica, lembrando que antigamente – todos que já passaram dos 50 podem falar ‘antigamente’ – acreditava que um selo comemorativo, ou de referência ao prêmio na capa do livro, desmerecia a obra. Hoje, no entanto, vê o selo “Prêmio MT de Literatura” na capa da obra “Gênero, Número, Graal” ( Carlini&Caniato Editorial ) como uma importante referência ao seu trabalho de poeta.

Outro ponto destacado para a manifesta satisfação é que fazem mais de 20 anos que Luiz Renato não publicava um livro de poemas. “Sempre me considerei um poeta bissexto”. Porque ‘bissexto’? Por que Luiz Renato faz uma distinção entre o escritor (prosa) e o poeta. Ele explica essa distinção quando alguém o chama de poeta ao que ele retruca: “Rapaz, quando escrevo poesia eu brinco com as palavras e quando escrevo sério é prosa”.

Entendido isso, o novo livro de poemas de LRSP traz uma série de sacadas que fazem o leitor rir, como uma espécie de trocadilhos, mas que provocam também uma reflexão.

Os poemas não tem títulos, mas estão numerados, e o de 35 é apenas

na arena
o mdb era outro

Talvez os jovens muitos jovens não saquem, mas- como já disse – os mais de 50 sacam na hora. A arena é uma referência à Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e mdb (emedebe) ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB), os dois únicos partidos, que não podiam ser identificados como partidos por cismas dos militares golpistas de 1964, criados após as eleições de 1965 por meio do AI-2. A Arena aceitou bem o disfarce e chegou a ter Arena 1 e Arena 2 e após o ciclo militar, depois foi PDS. O PDS, posteriormente alterou seu nome para Partido Progressista Renovador (PPR), depois para Partido Progressista Brasileiro (PPB) e hoje se chama Partido Progressista (PP). Por conta de Maluf surgiu a Frente Liberal, que se tornou PFL e hoje Democratas. Enquanto o MDB colocou apenas um “P” na frente e tornou-se o PMDB, hoje um aglomerado político… Antes, por conta de Orestes Quércia uma turma saiu do partido e fundou o PSDB e hoje PMDB e PSDB, um a outra face do outro… Lembro tudo isso lendo o poema de Luiz Renato.

O poema 2 também é político:

pegar o touro a unha
já que não posso pegar o cunha

O Cunha, Eduardo Cunha, está encarcerado (até quando?), como mote de disfarce para se prender Luiz Inácio Lula da Silva, conforme anunciam os integrantes da republica de Curitiba.

O livro de Luiz Renato anterior a este foi Cardápio Poético (1993), lançado quando morava no Rio de Janeiro e levantou junto a sindicatos, ongs e partidos 1.200 dólares e fez uma edição de 2 mil exemplares e, com esse livro debaixo do braço, Luiz Renato viajou 97 cidades de 17 estados do Brasil, falando e divulgando a sua literatura.

Para essa viagem ele criou o personagem Garçom Performático que oferecia o “Cardápio Poético” que agora está voltando. Luiz Renato brinca: “Pink Floyd já voltou, The Who voltou, por que o garçom não pode voltar?!?”

A volta triunfal acontece neste próximo sábado, 4 de novembro, no Casario – Casa do Rio? -, em Rondonopolis, em um evento multimídia com participação também de Amauri Lobo. O segundo evento será 5 de dezembro, na UFMT de Barra do Garças; no dia seguinte estarão em Goiás Velho, e a temporada fecha com Cariri, Petrolina, Uricuri (PE), Crato e Juazeiro do Norte (CE).

Luiz Renato tem publicado “Matrinchã do Teles Pires” (1998) e “Flor do Ingá” (2014), ambos romances, e em parceria com o pernambucano Carlos Barros, “Duplo Sentido” (2016), este último de crônicas e já comentado aqui no DC Ilustrado..

Os romances tratam da colonização do norte do Mato Grosso ao longo da ditadura militar, projeto transformado em trilogia. Flor do Ingá foi lançado em várias cidades nordestinas entre 2014 e 2015.

Graduado em Letras, pela Universidade Federal de Mato Grosso (2001), Mestre em História pela mesma universidade (2005) e Doutor em Literatura em Língua Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2012).

O poeta Luiz Renato e seu personagem, o Garçom Performático, reaparecem no próximo sábado, em Rondonópolis, onde acontece o lançamento de “Gênero, Número, Graal”, livro premiado no MT Literatura

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Uma festa modesta no Paiaguás, mas real, para premiação dos escritores do 2º MT literatura

Foto: Chico Valdiner / GCom

Por João Bosquo | A festa de entrega do II Prêmio MT Literatura no palácio Paiaguás – um arranjo de última hora – foi bem mais modesta que o esperado. O público – por diminuto que seria – foi menor ainda por conta de não se combinar com São Pedro que decidiu liberar uma pancada de chuva que caiu na região e, com certeza, ajudou a afugentar o público mais ainda.

A alegria dos vencedores, é claro, superou tudo isso. A alegria, principalmente, por poder tornar público os trabalhos em livro e fazer o árduo trabalho de atrair leitores. Atrair leitores, vamos combinar, não é o mesmo que vender livros.

Dos dez vencedores do II Prêmio MT Literatura, somados aos dez do prêmio passado, poucos, pouquíssimos são figuras carimbadas. Da eleição anterior lembro aqui do nome de Marilza Ribeiro e nesta os de Cristina Campos e Luiz Renato de Souza Pinto. Os demais todos são novos valores, alguns com potencial incrível, entre as quais a jovem poética de Helena Werneck.

O governador Pedro Taques imitando Pedro Taques – ou fazendo remake de outras aparições, na área cultural – como sempre não deixou de provocar o cerimonial (ou aquilo que estava combinado): ao ser chamado para falar, ordenou que a ordem fosse inversa e o secretario de cultura, Leandro Carvalho, abriu a falação prometendo ser breve, mas não escapou de fazer um resumão de toda as atividades da pasta, na qual o prêmios está inserido. Lembrando que o Prêmio Mato Grosso de Literatura integra as políticas públicas implementadas pela SEC-MT na área da literatura, previstas no Plano Estadual de Cultura, que inclui o Plano Estadual do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca de Mato Grosso (PELLLB-MT).

As metas do PELLLB-MT, por sua vez, objetivam a democratização do acesso ao livro; fomento e valorização da leitura, literatura e bibliotecas; formação de mediadores para o incentivo à leitura; valorização institucional do livro, leitura, literatura e bibliotecas; desenvolvimento da economia do livro como estímulo à produção intelectual e ao desenvolvimento da economia estadual; fomento à cadeia criativa e produtiva do livro; acesso aos bens culturais e desenvolvimento intelectual e promoção da cidadania no Estado.

O governador Pedro Taques após a explanação do secretário Leandro Carvalho, fez uma enquete, tipo “quem sabia dessas ações desenvolvidas pela SEC, que levantasse o braço” e ficou surpreso, digamos, com o resultado. Muita gente levantou os braços. Mas, vamos combinar, o maior veículo de comunicação estado não colabora para com essa efetiva divulgação, com reportagens mais completas sobre ações noutras áreas que não apenas o denuncismo pelo denuncismo.

Voltemos ao prêmio. O governador até ia bem quando disse que a “cultura é a forma de viver de cada um. Nós conhecemos o mundo por meio de determinados autores. O mais importante desse prêmio é poder revelar aqueles que sabem contar o que somos, o que queremos e o que desejamos. Cultura não tem fronteiras, quero que o mundo conheça a nossa literatura, que não é de Mato Grosso e sim, universal”, para, no final, pisar na bola ao dizer que nenhum governo antes tinha feito um prêmio como este.

Ora, ora é o típico pensamento de quem acha que chegou em Cuiabá junto com Miguel Sutil e Pascoal Moreira Cabral ou que começou o governo da província junto com Rolim de Moura, só pode ser.

Olha que o governador é mato-grossense de quatro costados. Assim de cabeça, lembro que nos anos 80, no governo de Carlos Bezerra, a Fundação Cultural de Mato Grosso, então sob o comando de Sebastião Carlos Gomes de Carvalho (que nesta terça toma posse como novo presidente da Academia Mato-grossense de Letras) editou cinco ou seis livros entre os quais o primeiro livro de poemas de Ricardo Guilherme Dicke, que já tinha faturado o prêmio Walmap, com de “Deus de Caim”, o prêmio Remington de Literatura com “Caeira”, mas não tinha nenhum livro de poemas publicados. Assim também aconteceu com Ronaldo de Castro, Dom Pedro Casaldálica, que teve então o seu primeiro livro em território mato-grossense, Silva Freire e o próprio Sebastião Carlos.

Nesses mesmos anos, mais precisamente em 1988, a prefeitura de Cuiabá, na gestão de Dante de Oliveira, por meio da Casa da Cultura, patrocinou a edição do livro “Último Horizonte”, de Ricardo Guilherme Dicke… Ah!, a prefeitura de Wilson Santos ameaçou a fazer um concurso, mas, na reta final, cancelou o evento sob a singela desculpa de não haver trabalhos qualificados.

Voltemos mais uma vez ao prêmio. A cerimônia contou com a presença dos escritores premiados no certame que, na ocasião, lançaram e autografaram as obras selecionadas.

No final, por derradeiro, o governador convidou os premiados para um almoço, que pelo site da SEC ficamos sabendo, com registro de fotos, que o mesmo aconteceu.

Foram ao todo 89 inscrições e dez obras literárias contempladas com R$ 30 mil cada, totalizando R$ 300 mil em investimentos. Os trabalhos são inéditos e contemplam as seguintes categorias: duas obras em poesia, quatro obras em prosa, duas obras na categoria revelação e duas obras na categoria infanto-juvenil, uma novidade nessa segunda edição.

Para o escritor Victor Angels, vencedor na categoria infanto-juvenil com a obra “Mundo dos sonhos, o ferreiro e a cartola”, ter sido contemplado com a primeira história escrita para crianças foi uma grata surpresa e um incentivo a se manter no gênero literário. O autor, que se inspirou na própria infância, já possui um romance para jovens adultos lançado em Portugal.

Luiz Renato Souza Pinto, vencedor na categoria poesia com a obra Gênero, Número, Graal, foi o porta voz dos premiados e disse que antes fazia desfeita dos livros premiados e agora vê com orgulho o selo na capa do seu livro. Ele incentivou ainda os escritores a participar da próxima edição do prêmio. “As pessoas precisam acreditar, se inscrever, participar. Me sinto orgulhoso de ter recebido esse prêmio e pretendo estar presente na próxima edição, seja como participante ou para prestigiar os vencedores”, ressaltou.

Além dos citados, as obras vencedoras foram “Entraves”, poesia, de Divanize Carbonieri; na categoria prosa: “Os mesmos”, de Teodorico Campos de Almeida Filho; “O assassinato na Casa Barão”, de Marcelo Leite Ferraz; “Contos do Corte”, de Afonso Henrique Rodrigues Alves; “As intermitências da água”, de Fernando Gil Paiva Martins. Na categoria infanto-juvenil: “Papo cabeça de criança travessa”, de Cristina Campos. E na categoria revelação, além “NU”, de Helena Werneck, foi premiada a obra “Tikare, alma de gato”, de Alexandre Marcos Rolim de Moraes.

Em tempo: em conversa com nosso editor, Enock Cavalcanti, o governador Pedro Taques registrou que já tem dois livros publicamos, mas que não pretende, nunca, disputar uma vaga na Academia Mato-grossense de Letras.

LEIA TAMBÉM: SEC corre contra o tempo e marca para a próxima quarta-feira, 25, a entrega dos prêmios aos contemplados do MT Literatura

Minuta do edital do Prêmio MT de Literatura já está disponível para contribuição da sociedade; o prazo termina dia 30

 

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O Velho Palacete – Por Eduardo Mahon

Por Eduardo Mahon | Ninguém diria que o palácio nasceu do mesmo tamanho que todos os demais casarões na rua de terra batida. Contudo, a despeito do que ignorem os meninos que estudam arquitetura contemporânea, esses mesmos que acham que o aço, o vidro e o concreto aparente constituem o catecismo do futuro, naquela rua algum dia estiveram alinhados casarões da aristocratas, mas na medida da fortuna dos vaidosos proprietários. Depois, a queda. Pior: a depreciação lenta da meia idade. Instalou-se, ao lado, o primeiro edifício que fez pouco caso do palácio, talvez porque a grande maioria dos moradores dos demais sobrados houvessem se mudado para lá. Subia arrogantes vinte e dois andares, reinando do alto nunca visto por aquelas casas que não sobreviveriam por muito tempo. No lugar dos anônimos demolidos, nasceram outros prédios, maiores e mais altos do que aquele primogênito soçobrado diante das evidências: quanto mais moderno, mais alto. Em meio à disputa pelas nuvens, o antigo palacete de dimensões pigmeias viu-se na contingência de ser excluído do clube dos verticais e, com o tempo, perdeu os próprios moradores originais, sucedidos por sobrinhos menos afortunados, incapazes de manter o amor-próprio da única construção daquela avenida alargada e asfaltada pelo prefeito com vertigens de futuro. Houve quem sentisse pena da edificação transformada em pensão medíocre, povoada de gente pobre que se espremia nos quartos ainda forrados por tábuas de carvalho, lentamente consumidas pelo tempo e falta de resina hidratante. Apodrecido por vermes que se multiplicavam no pouco de carne ainda adrede aos ossos evidentes, o palácio mergulhou na pior fase. Os remedos nas janelas do segundo pavimento, pixos a tatuar a delicada casca neoclássica e as gambiarras da fiação telefônica, deformaram o rosto do absorto decano. Como o tempo não passa apenas para o casarão, os prédios mais antigos tornaram-se solidários com o parente mais velho. Também eles – os obsoletos arranha-céus que, hoje em dia, são baixotes em comparação com outros vizinhos mais novos e mais potentes – sofriam com rachaduras e estavam abandonados pelas famílias ricas que se foram no êxodo para condomínios distantes. O palácio, então, sofrendo de enfisema e artrites, mantinha a dignidade em não se vingar de comentários maldosos daqueles edifícios decadentes que cediam espaço barato para o comércio de bijuterias e outros cacarecos. Quando, enfim, o palácio fechou as portas, sofrendo de profunda depressão, sucumbiu para o abate de capitalistas que fariam dali um shopping, um estacionamento ou qualquer coisa mais lucrativa do que aquele esqueleto de adobe que esperava o golpe derradeiro. Entretanto, em virtude do bom-gosto de um magano extravagante, o provecto palacete foi sacado do acervo do eterno inventário em que jazia. Sediaria um museu de arte moderna e uma sala de concertos com acústica irreparável. Em tempo, quase abatido pelo tremor de veículos que trafegam em manadas, recebeu transfusão de tijolos e cimento, reboco e telhas, piso e pintura e, após lona internação por trás de tapumes, ressurgia exibindo-se em holofotes que banhavam de luz o recauchutado palácio. Os prédios do entorno, agora tomados de viciados e prostitutas que se mantinham em alugueis baratos, cedendo à majestade do palácio que reinava austero, mas nunca presunçoso, ascendiam e apagavam as luzes para saudar o sobrevivente. Assim são os casarões e as pessoas velhas, muito velhas: à beira da demolição, quando ultrapassam certos limites de existência, deixam de ser ultrapassados para ganhar foro de clássicos e, daí, receberem homenagens de quem, antes, os exprobavam pela senilidade. Já não os rejeitam. Já não os maltratam. São, ao contrário, francamente queridos para a admiração dos velhos e dos novos arquitetos que, enfim, percebem que o futuro não se faz apenas de juventude.
Eduardo Mahon é escritor.

O VELHO PALACETE (E.M)Ninguém diria que o palácio nasceu do mesmo tamanho que todos os demais casarões na rua de terra…

Publicado por Eduardo Mahon em Sexta, 20 de outubro de 2017

 

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SEC corre contra o tempo e marca para a próxima quarta-feira, 25, a entrega dos prêmios aos contemplados do MT Literatura

Depois do chabu da Literamato e sua planejada apoteose que custaria R$ 3 milhões aos cofres públicos, autores participarão de noite de autógrafos coletiva no Paiaguás

Por João Bosquo | Quando seria a entrega dos prêmios e cheques aos vencedores do II Prêmio MT Literatura? Eis a pergunta que não queria calar. Os vencedores do certame, depois de idas e vindas, ficaram todos entusiasmados, diria até eufóricos, enfim tornariam público os seus trabalhos, com o anúncio que o mesmo aconteceria no dia 20, sexta-feira, dentro programação da LiteraMato, que prometia ser o grande evento literário de 2017, quiçá da década, com os 3 milhões de investimentos pretendidos pela Casa Guimarães, através de emendas parlamentares. Mas acabou dando chabu e não aconteceu.

A Secretaria de Estado de Cultura divulgou na manhã destas quarta-feira que premiação e lançamento das obras do 2º prêmio será no dia 25 de outubro, às 19h30 no auditório Cloves Vetoratto, no Palácio Paiaguás, como nas vezes anteriores. Presença garantida do governador Pedro Taques. A presença de representantes da Casa Guimarães não se pode garantir.

O cancelamento, vamos combinar, foi até providencial para a Secretaria de Estado de Cultura (SEC) que, no último dia 10, disponibilizou em seu site, para participação popular, a minuta do regulamento para a 3ª edição do MT Literatura, para que os “interessados possam ter acesso ao conteúdo e contribuir com críticas e sugestões até o dia 30 de outubro”.

A pergunta que fica no ar é se o lançamento será no dia 25, ainda com o regulamento sendo debatido pelos interessados, ou a participação popular é apenas um ‘faz de conta’? Fica o questionamento.

Os escritores anunciados como premiados no 2º MT Literatura na categoria poesia são Luiz Renato Souza Pinto, com o livro “Gênero, Número, Graal”, um conjunto de oitenta e cinco poemas que atravessam os anos 1990, 2000 e a década atual, divididos em cinco partes: Sinto, Corpo, Neutro, Azul, Face. Em Sinto (verbo) os poemas que simbolizam ação. Os dois substantivos (CORPO E FACE) reúnem os poemas que remetem às coisas substanciais em nossa vida. Os dois adjetivos (NEUTRO E AZUL) qualificando algumas iniciativas. “No conjunto buscam aliar o humor e a leveza com alguma profundidade analítica e existencial”, diz o autor.

Na poesia, a outra premiada foi Divanize Carbonieri, com o livro “Entraves” que, segundo a professora e escritora Flávia Helena, que assina o texto de orelha, “não é apenas sobre obstáculos. “Entraves propõe, principalmente, caminhos. Todos, claro, cheios de percalços”. O livro é um conjunto de 30 poemas escritos ao longo de 2016.

Na categoria prosa, os premiados foram Teodorico Campos de Almeida Filho, com o livro “Os mesmos”. Neste livro, segundo a professora Maria de Jesus Patatas – a mesma que levou Mario Cezar a ser professor – diz que “o autor estabelece uma relação entre a história de Cuiabá e a história universal, citando localidades e acontecimentos verdadeiros enredados com a ficção, nos coloca como participantes ativos dos destinos do mundo, com personagens que estão, simultaneamente, dentro do mundo da fantasia e do mundo real, envolto numa nuvem que carrega o fantástico e a realidade”.

Outro premiado é Marcelo Leite Ferraz, com a obra “O assassinato na Casa Barão”, que poderíamos dizer é um romance baseado em fatos reais. O livro resultou de pesquisas do autor no Arquivo Público. Nele o autor narra a vida de um jornalista que investiga uma organização criminosa que, por sua vez, subverteu os princípios éticos da Maçonaria para tentar omitir um segredo místico da instituição.

Afonso Henrique Rodrigues Alves, com o livro “Contos do Corte” reúne, em cinco capítulos (infância, escrita-criação, erótico, misticismo, morte e homem-natureza) uma série de contos partidos das vivências pessoais do autor. “A maioria das histórias veio por sonhos ou depois de meditações”, diz.

Fernando Gil Paiva Martins, também premiado na prosa com “As intermitências da água”, um romance que “narra a história de uma cidade que passa por um fenômeno atípico,chuva em excesso seguido de seca em igual escala. Com isso, muitos terão que decidir o seu presente e, logo, também o seu futuro. O que cada um escolhe para si é um mistério que se revela a cada página, a cada gota que não cai, a cada quilômetro percorrido”. A conferir.

Na categoria infanto-juvenil, a escritora e acadêmica Cristina Campos, com a obra “Papo cabeça de criança travessa”, que tem as ilustrações assinadas por Vanessa Prezoto. A obra construída a partir do registro etnográfico de coisas interessantes – as “tiradas” – que as crianças repentinamente falam quando estão descobrindo o mundo, com os olhos livres de uma linguagem acostumada. De certa forma, é uma coletânea reinventada pela autora, a fim de valorizar imagens poéticas e filosóficas, neologismos e construções sintáticas não usuais. O livro, é claro, voltado às crianças.

O outro premiado, na categoria é Victor Angels, com “Mundo dos sonhos – O ferreiro e a cartola”, cuja obra narra a missão confiada à pequena Rita que é a de salvar o Mundo dos Sonhos. Depois de aceitar a proposta de um desconhecido, após encontrar uma cartola caída em seu quintal, Rita decide salvar um mundo onde tudo pode acontecer, somente para ter o seu irmão mais novo e sua mãe de volta em casa.

Na categoria revelação temos os nomes de Alexandre Rolim, com “Tikare: alma de gato”. Alexandre é mato-grossense de Tangará da Serra, repórter de jornais, sites, rádio e TV desde 2004, e nesta “ficção que registra/recupera histórias, mitos e práticas de um povo indígena que vive no imenso Chapadão do Parecis-MT, propõe uma reflexão sobre os modos de contato entre indígenas e não indígenas e sobre a necessária garantia de espaço para a vida dessas comunidades”.

A outra revelação é Helena Werneck dos Santos, com “NU”, um compêndio com 80 poesias inéditas. “Apesar de ter 17 anos, Helena é uma escritora contumaz. Desde que aprendeu a ler e escrever demonstra amor pelos livros e, justamente na adolescência, o desejo de escrever poesias aflorou”, nos conta a mãe, a jornalista Keka Werneck. “No poema que dá nome ao livro, propõe que sejamos despidos de tantas regras ditadas por vozes alheias e que a gente tenha experiência íntima de ficar nu e escrever a própria poesia”.

Desses dez, oito publicados pela Carlini & Caniato / Tanta Tinta enquanto outros dois, de Afonso Henrique e Helena Werneck pela Entrelinhas.

Esses livros, sim, amigos leitores, seriam lançados durante a Literamato, mas o evento, por conta de seus altos custos, que atingiriam o citado montante de R$ 3 milhões, acabou sendo barrado pelos técnicos pareceristas da Secretaria de Educação. Enquanto isso temos entidades e produtores querendo receber menos, bem menos que isso.

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Manuel Bandeira: Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Manuel Bandeira

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Literamato uma festa para o livro mato-grossense

O evento conta com participação de literatos e escritores locais e palestrantes de outros estados

A Literamato (Festa de Literatura de Mato Grosso) que começa no próximo dia 19, quinta-feira, e irá até o domingo, 22, no Centro de Eventos Pantanal – só pra provocar – não é nenhuma Literamérica. Mas, sem dúvida nenhuma, será um grande evento, talvez o maior evento dos últimos anos voltado para as letras, com participação de escritores – de vários matizes como teatro, cinema, música, artes plásticas e, claro, a literatura e o livro, no qual todas as letras perenizam.

O propósito – segundo os realizadores de forma bem piegas no site do evento –  é “gerar uma experiência inesquecível e positiva relacionada a literatura” lembrando sempre que “as letras vão muito além do livro e do que pode ser impresso nos papéis e nas telas. Com elas é que se compõem as músicas. O teatro, o cinema e a televisão não existiriam se não fossem estruturados sobre os roteiros e textos de onde saem a magia que vemos nos palcos, nos filmes e nas salas das nossas casas. As artes plásticas e as artes digitais se valem das histórias, escritas ou contadas, para inspirar as telas, quadros, fotos e instalações que tanto encantam”.

Fica o dito pelo não dito e vamos à programação e o elenco de palestrantes que irão dar vida a este evento, cuja solenidade de abertura acontece às 18 horas do dia 19, com as presenças de autoridades, como de praxe. O evento, porém, tem início antes, às 14 horas, com a oficina do Livro ao Palco, com Juliana Capilé; seguindo-se do espetáculo “A Donzela Guerreira”, baseada no conto de João Guimarães Rosa, com a Cia Mundu Rodá, de São Paulo, no auditório Borboletas, o mesmo das oficialidades. Enquanto isso, no Pavilhão, as atividades na área de teatro e artes plásticas.

Na parte literária, propriamente dita, acontece o laboratório de worldboilding, que é a construção de cenário para ficção científica. Demorei pra entender a razão, mas aceitei quando me lembrei do livro “Budapeste”, romance de Chico Buarque, que nunca tinha estado na capital da Hungria, mas a usou como pano de fundo, utilizando-se de mapas e fotografias, sempre precisar ‘inventar’ nada. Na sequencia, no Espaço Criança, tem contação de histórias e para fechar a noite – neste segmento – o painel Literatura de Vanguarda em Mato Grosso com as escritoras, professoras e doutoras Cristina Campos e Olga Mendes.

Na parte do cinema, com Patrícia Oriolo, teremos a oficina de roteiro: Como começar a escrever para cinema, TV e internet. Enquanto na música acontece a oficina Poética Musical, com Magno Mello .

No segundo dia, sexta, 20, a programação é uma continuidade das oficinas, nas mesmas salas e instrutores, mas na parte da literatura já acontecem varias atividades, como palestras, audiências e painel, como Identidade e escrita do autor indígena, com Cristino Wapixana  e Marcelo Mahuari ; A importância da literatura para a crítica social, com Paulo Lins  e Flavia Helena ; Audiência Pública: Plano Estadual de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas, tendo como mediadora Waldineia Almeida, e A literatura brasileira e o livro hoje, com Luiz Ruffato , Stella Maris Rezende , Marta Cocco . Na parte musical, enfim, num palco externo, shows com Caio Mattoso e Geraldo Espindola.

No sábado, 21, continuação das oficinas, e as diferentes palestras e audiências na Literatura, como Oficina de Escrita Criativa, com Luiz Renato; A Cabeça dos Novos Autores, com Marcelo Maluf , Sheyla Smaniotto , Lucas Rodrigues , Santiago Santos ; Formando leitores na escola e em casa e Caminhos para aproximar crianças e jovens dos livros, com Illan Brenman ; Literatura de ficção científica e fantasia brasileira, com Dr. Fábio Fernandes  e Eduardo Mahon ; Leitura e Acessibilidade: Como leem as crianças com deficiência?, com Wanda Gomes  e Marcino Oliveira ;  painel A literatura brasileira e o livro hoje, com Luiz Ruffato , Stella Maris Rezende , Marta Cocco . Na parte musical Show Fábulas, com Caixa de Brinquedos e Show Dilúvio, com Dani Black , ambos no palco externo. Dentro da programação oficial a entrega da premiação do 2º MT Literatura e lançamento da terceira edição.

Dentro da programação oficial, acontece a entrega do 2º Prêmio MT de Literatura, cujos ganhadores são: Categoria Poesia – “Gênero, Número, Graal”, de Luiz Renato e “Entraves”, de Divanize Carbonieri. Categoria Prosa – “Os mesmos”, de Teodorico Campos de Almeida Filho, “O assassinato na Casa Barão”, de Marcelo Leite Ferraz; “Contos do Corte”, de Afonso Henrique Rodrigues Alves e “As intermitências da água”, de Fernando Gil Paiva Martins. Categoria Infanto-juvenil – “Papo cabeça de criança travessa”, de Maria Cristina de Aguiar Campos e “Mundo dos sonhos – O ferreiro e a cartola”, de Victor Hugo Machado dos Anjos. Categoria Revelação – “Nu”, de Helena Werneck dos Santos e “Tikare: alma de gato”, de Alexandre Marcos Rolim de Moraes.

Agora vamos abrir um parêntese, pois merece. Na sequência acontece o lançamento do 3º Prêmio MT de Literatura. \o/ Viva! Urra!, mas, peralá. No último dia 10, a SEC disponibilizou em seu site, para participação popular, a minuta do regulamento para  que o “Interessados possam ter acesso ao conteúdo e contribuir com críticas e sugestões até o dia 30 de outubro”.

Como? O lançamento será no dia 20, ainda com o regulamento sendo debatido pelos interessados ou a participação popular é apenas um ‘faz de conta’.  Este repórter, que também escreve seus versos, irá contribuir e desde já apresenta sua sugestão de que o capítulo da contrapartida, com obrigatoriedade de publicar as obras seja suprimido. Prêmio é prêmio e recebedor do prêmio deve gastar com aquilo que lhe aprouver, ou na mesa de bar tomando todas, ou – sei lá – na reforma da casa.

A SEC não pode alegar que não disponibiliza de recursos. Basta, simplesmente reduzir a premiação, de R$ 30 mil pra R$ 20 mil, e com os R$ 100 mil abrir uma licitação pra ver qual editora (tem que ser editora mesmo) topa lançar os 10 livros por esse valor e a editora dirá o formato se brochura ou capa dura, se papel sulfite ou papel jornal, pois ela sabe os custos.

No último dia teremos, na parte de teatro, Dramaturgia mato-grossense contemporânea, com Juliana Capilé, Tatiana Horevich, Anderson Lana e Marilia Beatriz; nas artes a fala Um passeio da literatura no campo das artes Plásticas, com a sem papas na língua, Aline Figueiredo. Na área da literatura, a palestra Literatura nas Escolas, com Luiz Renato, Odair Moraes e Aclyse Matos. Depois uma Conversa de Criança, com Niara Terena, autora de “Amor Essencial” e o painel Poéticas Contemporâneas, com Marli Walker, Luciene de Carvalho, Ivens Scaff e Lucinda Persona.

No capítulo Cinema acontece a Sessão de cinema e papo com roteiristas e pra fechar Show Paulo Monarco e 5 a Seco .

Porque lembramos da Literamérica, lá no início?  Porque nós cuiabanos, temos o triste hábito, desde Miguel Sutil e Pascoal Moreira Cabral de sermos o primeiro.

A Literamérica tinha um propósito mais amplo, de promover o intercâmbio cultural entre todos os países da América do Sul, na primeira edição, em 2005, teve-se a participação de oito embaixadores, sendo que 13 países representados. Embora tenham realizadas duas edições em anos seguidos, a ideia era fazer uma bienal. Embora na segunda edição tenha a visitação de mais de 200 mil pessoas, o governador de então – pra economizar – mandou cancelar o evento. Um evento que promovia o nome de Cuiabá, Mato Grosso de forma positiva, portanto gerador de renda pelo turismo. Mas…

O escritor João Carlos Vicente Ferreira, então secretário de Cultura, nos contou que “a ideia era de fazer com que a feira acontecesse de dois em dois anos, em Cuiabá e de dois em dois anos em outro país da América do Sul, ou mesmo uma cidade brasileira, com esse nome: Literamérica, por conta de que foi Mato Grosso que iniciou essa proposta, pelo fato de sermos o Centro Geodésico da América do Sul”.

Recentemente tivemos em Chapada dos Guimarães a FLIC – Festa Literária de Chapada dos Guimarães, que acreditamos deve continuar receber todo apoio – não só da prefeitura local, mas também da prefeitura de Cuiabá. Os gestores cuiabanos devem lembrar que, quanto maior o sucesso de um evento realizado em Chapada, mas turistas Cuiabá recebe, pois, vamos combinar novamente – a capacidade hoteleira chapadense não é das maiores.

IMPORTANTE 

><>Na tarde deste sábado, 14, os organizadores publicaram no site do evento uma lacônica nota de CANCELAMENTO

Em virtude de questões técnicas e operacionais, e com o intuito de fazer a melhor festa literária de Mato Grosso, a Casa de Guimarães informa o adiamento da Literamato, que seria realizada de 19 a 22 de Outubro, em Cuiabá. O evento acontecerá no início de 2018 e a data será informada em breve.

Este blogueiro e Meu Peixe estamos apurando para saber a verdade dos fatos. Esta matéria, como de praxe, também seria publicada no DC Ilustrado, na próxima terça, véspera do evento.

Acreditamos que é muito, muito estranho um can14celamento dessa magnitude praticamente momentos antes da largada inicial. (14/10/2017, às 22h)

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O Incomensurável nada – por Eduardo Mahon

O INCOMENSURÁVEL NADA (E.M)Ao cabo de uma pia de louça suja, a mulher olha para o nada, como uma coruja que acaba de…

Publicado por Eduardo Mahon em Domingo, 1 de outubro de 2017

O INCOMENSURÁVEL NADA (E.M)
Ao cabo de uma pia de louça suja, a mulher olha para o nada, como uma coruja que acaba de acordar ao final da tarde e ainda não se decidiu sobre a própria fome, como uma duna de areia que não tem certeza exatamente do próprio tamanho ao ser inchada e ressecada a cada tempestade de vento, como uma ponte sobre um riacho seco que sabe ter perdido a função, mas ainda assim não perde a natureza de ponte. Parada, a mulher parece árvore que sente os tremores da terra e se solidariza com outras tantas que cresceram ao lado e hoje estão cerradas a servir de mesinha, de criado mudo ou de cama de casal em alguma casa de gente rica. Ela se sente passada como as uvas que são propositalmente esquecidas no pé até ficarem murchas para uma colheita tardia quem sabe para a produção de licores ou simplesmente cristalizadas e encaixotadas para o exigente mercado consumidor, tão passada como uma música que já arrastou multidões pelas ruas e hoje é tocada às duas da tarde de domingo pelo rádio que anuncia o flashback da década anterior. Imóvel como o pêndulo do relógio inglês que ganhei de uma amiga e que nunca mais dei corda, nem sequer por curiosidade de escutar o blim-blon classudo emitido pelo bronze que se fazia antigamente, como o crocodilo que aguarda a manada de zebus apenas com as narinas de fora para não agitar a água turva de rio africano, esquecida como as lápides que se camuflam de musgo e hibisco capazes de sacar as inscrições dos mortos que estão lá enterrados, apodrecidos, secos, reduzidos a ossadas imprestáveis para a cadeira alimentar subterrânea. Ela olha distante como um grande binóculo que busca o falcão que ataca o pombo ao descer vertiginosamente de mil e quatrocentos metros, um telescópio instalado nos altiplanos chilenos que vai dirimir se Plutão é ou não é um planeta, enfim, como o próprio tempo consumindo uma pessoa sem que ela saiba, desde o nascimento até que se dê conta de que, algum dia, vai acabar morrendo dessa doença das horas. Está calada como o fundo de uma caverna onde não há nenhuma água que pingue para formar estalagmites, como uma cobra que se enrola sobre si para tencionar os músculos e dar o bote certeiro uma vez e meia a medida do próprio corpo, como uma lágrima que corre do senhor da quinta fila do cinema escuro onde é exibido A Cor Púrpura na matinê cultural. A senhora equilibra-se sobre o corpo magro como juncos que estão fincados desde sempre na lama egípcia ou os bambuzais altíssimos chineses que teimam com a gravidade, o mesmo equilíbrio do homem de collant rosa que passeia por um fio de aço a trinta e dois metros de altura com uma desbotada sombrinha à mão trazendo alegria a expectativa aos quatro filhos da família que vão ao circo pela primeira vez, como um copo americano – desses de boteco – que cai da mesa ao chão e circula pelas bordas reforçadas de vidro para que não se quebre, como a estátua do Cristo Salvador fincado na cúpula da igreja antiga, pálida frente aos piores ventos e chuvas que vão de outubro a março. Ela está só como um ator coadjuvante abandonado no camarim do teatro de periferia sem o nome na porta, como a aranha caranguejeira que urde sua teia para pegar mosquitos, moscas, besouros e talvez canibalizar outras aranhas menores ou como uma res perdida em meio ao charco onde não se vê mais do que o horizonte úmido antes de se afogar. Ali, na cozinha, vencida a pia de louça suja, a velha olha o nada como um unicórnio e sente que faz parte do nada, sem fazer sentido algum ou fazendo um sentido absolutamente particular para quem, como ela, está só e calada, equilibrando-se no tempo e espaço para continuar vivendo o despropósito comparável com todo e qualquer outro despropósito da vida.
Eduardo Mahon é escritor.

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