Cinema Xavante: inicia hoje em Barra do Garças a primeira mostra de filmes com temática e produzidos por indígenas

O Cinema Xavante enquanto instrumento de memória e resistência

Por Maíra Ribeiro

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Xavante Divino Tserewahu – Imagem de Bernand Belisario

Com a exibição do filme Daritidzé – Aprendiz de curador (Divino Tserewahú, começa nesta quarta-feira (30), em Barra do Garças a I Mostra de Cinema Xavante. O filme de estreia é dirigido pelo cineasta Xavante Divino Tserewahú. Nas três noites da Mostra, serão exibidos  sete filmes com temática indígena, dirigidos por indígenas e não indígenas. Em cada noite, realizadores e idealizadores das obras debaterão com a plateia. Pela manhã e à tarde haverá  sessões de curtas-metragens indígenas dirigidas para estudantes da cidade. As exibições são abertas a toda a população e acontecem na sede do Sindicato dos Trabalhadores no Ensino Público de Mato Grosso (Sintep/MT) em Barra do Garças.

Uma das atrações da Mostra é o premiado Jururã, o espírito da floresta, de Armando Lacerda, que virá debater seu filme na Mostra. O documentário acompanha a vida do Xavante Mário Juruna, primeiro e único indígena a se eleger deputado no Brasil. Mário Juruna foi pioneiro na apropriação das tecnologias não-indígenas como instrumento de luta política e defesa dos direitos indígenas. Na década de 1970, Juruna ficou famoso por usar um gravador de voz nas reuniões e negociações com autoridades. Esse artifício não só intimidava, como gerava provas sobre as promessas não cumpridas e os desrespeitos aos povos indígenas.

Quatro décadas depois, o cinema se firma como uma das principais tecnologias não-indígenas apropriadas pelos povos indígenas. Assim como a comunicação tradicional indígena, a ferramenta audiovisual trabalha com a oralidade. Se antigamente, o registro audiovisual era feito sob a ótica do pesquisador ou do cinegrafista vindos de fora da aldeia, atualmente, os próprios indígenas dirigem seus filmes, elaboram os roteiros, empunham as câmeras e editam as cenas. O cinema indígena promove a auto-representação dos povos frente ao mundo acostumado a encarar a diversidade cultural como algo invisível, superficial ou caricato.

O povo Xavante tem uma vasta filmografia, realizada por cineastas indígenas e não-indígenas. Os primeiros cineastas Xavante começaram sua formação na década de 1990, como Caimi Waiassé e Divino Tserewahú. Darini – Iniciação Espiritual Xavante, de Caimi Waiassé e Jorge Prodoti, foi selecionado para a 29ª Mostra de Cinema de São Paulo em 2005 e ganhou o prêmio de melhor documentário indígena na Mostra de Cinema da Cidade do México. “Os velhos indígenas sabem que a cultura é dinâmica e sempre falam que a nova geração vai ter lidar com as coisas novas que chegam e também com aquilo que nos limita”, diz Caimi. “Já na época do Mário juruna Xavante com seu gravador, ele deixou bem claro que a máquina chegou para servir de aliado”.

Já Divino Tserewahú é um dos mais experientes cineastas Xavante, tendo realizado mais de dez filmes e ministrado oficinas de produção audiovisual indígena. Divino, que é coordenador indígena da Mostra, ressalta que há uma grande diferença entre os filmes produzidos pelos próprios indígenas e aqueles feitos por não-indígenas. “É muito importante que os indígenas mesmo aprendam a fazer e registrar as coisas, o próprio indígena falar dos seus problemas porque ele sabe da sua realidade”. (Leia abaixo a entrevista).

Por esse motivo, o realizador audiovisual indígena nem sempre está preocupado com prêmios em festivais, renomes autorais ou exibição em circuitos comerciais. Em diversas aldeias do povo Xavante, jovens são indicados como responsáveis pelo registro das atividades e rituais da comunidade. Estes registros são valiosos pois reforçam tanto a memória do que aconteceu – uma luta cerimonial, uma corrida de tora, um ritual de iniciação – como a memória dos anciãos que passam os ensinamentos e que em breve não estarão mais vivos. Parte dessa produção cinematográfica xavante não está legendada ou editada para ser compreendida pelo público em geral.

A ferramenta audiovisual também pode ter um caráter de denúncia e luta política, como o filme “Índios no Poder”, de Rodrigo Arajeju, que discute a falta de acesso de indígenas à representatividade política. Ou ainda, assume uma função educativa nas aldeias. No início deste ano, a Coordenação Regional Xavante da Fundação Nacional do Índio (Funai) produziu as caixas “Cinema nas Aldeias Xavante” contendo sete filmes. As caixas foram distribuídas em todas as escolas indígenas xavante, como material de apoio didático. Esse trabalho de compilação e divulgação da produção audiovisual xavante resultou na proposta da Mostra de Cinema Xavante.

Filmes como os que serão exibidos na Mostra, permitem ao espectador o contato com o universo indígena, trazendo novas perspectivas sobre diferentes formas de viver, além de trazer a compreensão do outro, das suas motivações e desafios. Neste sentido, o filme Martírio, de Vincent Carelli, que encerrará a Mostra, dá voz ao povo Guarani Kaiowá sobre o conflito de terras e o massacre histórico que vem sofrendo. Já o filme a ser exibido na Mostra Escolar, “A’uwẽ Uptabi – O Povo Verdadeiro”, de Angela Pappiani, Belisário Franca, Cristina Flória e Jurandir Siridiwe, de 1998, traz um poético e emocionante sobrevôo sobre a cultura Xavante, sob a ótica do povo Xavante de Etenhiritipá.

A Mostra de Cinema Xavante é organizada pela Coordenação Regional Xavante dentro do Programa de Apoio a Projetos Culturais do Museu do Índio, em parceria com o Núcleo de Produção Digital da Universidade Federal de Mato Grosso – NPD/UFMT Araguaia. A Mostra tem o apoio local do Pólo Barra do Garças do Sintep/MT, do Centro de Formação e Atualização dos Profissionais da Educação Básica de Mato Grosso – Cefapro, Seduc/MT, da Operação Amazônia Nativa – Opan, do Museu Comunitário e Centro de Cultura Xavante de Sangradouro, da Secretaria Municipal de Educação de Barra do Garças/MT e da Assessoria Pedagógica de Barra do Garças – Seduc/MT.

PROGRAMAÇÃO

Quarta-feira, 30 de novembro
Tarde: Oficina de produção audiovisual com participantes indígenas. Local: NPD/UFMT
Noite: Abertura da Mostra de Cinema Xavante. Local: Sintep
Exibição de filmes e debates com realizadores:
Daritidzé – Aprendiz de curador (Divino Tserewahú, 2003, 35 min)
Xavante: Memória, Cultura e Resistência (Gilson Costa, 2016, 28 min
Dasiwa’ubureze – Nossa Cultura (Cristina Flória e Wagner Pinto, 2014, 50 min)

Quinta-feira, 1 de dezembro
Manhã e tarde: Oficina de produção audiovisual com participantes indígenas. Local: NPD/UFMT
Sessões de curtas para estudantes do ensino médio. Local: Sintep
Noite: Exibição de filmes e debate com realizadores. Local: Sintep
Para onde foram as andorinhas? (Mari Correa, 2016, 22 min)
Uma Casa Uma Vida (Raiz das Imagens, 2013, 24 min)
Mário Jururã – O espírito da floresta (Armando Lacerda, 2009, 1h26min)

Sexta-feira, 2 de dezembro
Manhã e tarde: Oficina de produção audiovisual com participantes indígenas. Local: NPD/UFMT
Sessões de curtas para estudantes do ensino médio. Local: Sintep
Noite: Exibição de filmes e debate com realizadores.
Martírio (Vincent Carelli, 2016, 2h40min). Local: SINTEP

Sábado, 3 de dezembro
Manhã: Troca de experiências e apresentação de projetos entre realizadores audiovisuais Xavante e de outros povos e parceiros. Local: NPD/UFMT

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