Cuiabá 300-2 vista e revista por nossos escritores e poetas

Cuiabá 300-2. Roubo o título de nosso cronista urbanista José Antônio Lemos dos Santos, o arquiteto que conhece Cuiabá 300 em todos os seus traçados. No seu último artigo, publicado também aqui neste Diário de Cuiabá, José Lemos lamenta a falta de continuidade da política urbanística registrada em lei, 30 anos atrás para comemorar os 300 de Cuiabá forma mais bela… A política tupiniquim nunca tem continuidade por conta da nossa natural vaidade de acharmos que devemos ser os primeiros, embora os primeiros em Cuiabá, todos sabem, foram os índios paiaguás.

Mas, vamos combinar, apesar de tudo, de todos os percalços, Cuiabá continua. Somos Cuiabá! Assim é o pulsar de todas as vozes cuiabanas daqueles de tchapa e cruz ou naturalizados pela culinária (quem comer cabeça de pacu não sai daqui, já dizia Benjamim Ribeiro), pela cultura, pela arte ou, enfim, pelo calor cuiabano.

Eis os depoimentos de quem ama Cuiabá e seus motivos

“Precisamos reconstruir a memória”

A proximidade do tricentenário de Cuiabá intensifica a percepção de que o crescimento desordenado deixou para trás a identidade urbana original. O pior é o esquecimento, diante da recusa crônica dos governantes em implementar o ensino de história, geografia e literatura mato-grossense em sala de aula. Esse deve ser o principal desafio do tricentenário: reconstruir a memória em sala de aula como um penhor desta às novas gerações. Não adianta sabermos para onde vamos, se não sabemos de onde viemos – Eduardo Mahon, escritor

“Celebro, compartilho e agradeço”

Cuiabá – mais um ano de história que celebro, compartilho e agradeço. Todas às vezes em que contemplo ou percorro a cidade, ela sempre me parece outra, sempre me surpreende. Contém sonhos. Tem “a cor das oliveiras mansas” conforme cantou Dom Aquino. Abriga um povo que cumpre seu destino vencendo desafios e buscando o melhor. Cuiabá possui um mistério submerso em suas construções mais antigas, onde é possível redescobrir preciosidades. Minha linguagem sempre deságua na satisfação e na poesia de aqui viver. A cidade, pelos 298 anos, merece viva homenagem, tanto pelas qualidades, desenvolvimento a olhos vistos, infinitas possibilidades e riquezas naturais, quanto pela sabedoria, acolhimento e amabilidade de seu notável povo. Lucinda Persona, poeta

“Caminha pelo centro à noite, não dá mais”

Cuiabá comemora mais um ano, quase trezentos, mas quando o assunto é organização, distribuição de rendas e planejamento urbano, são outros quinhentos. Sem ser saudosista, mas já sendo, preciso relembrar de coisas boas que já não temos. Passear a pé pelas madrugadas, por exemplo, impossível. Caminhar pelas ruas do centro à noite, não dá mais. Escolher música naquelas máquinas como fiz no (falecido) Chuá e no Chopão, não existe mais. Mas é terra de poesia, de um povo de coração bom, de comidas que nos deixam “sopitados” de tanto comer – Luiz Renato de Souza Pinto, escritor

“Cuiabá, não quero chorar por ti”

Cuiabá é mãe, a padroeira de meus dois filhos, ordenadora do meu capital. Responsável pela minha intuição e todo o meu interior; que faz do lugar o meu lugar. E olha que já fui e voltei algumas vezes; nem por isso atribuo à cabeça do pacu tal responsabilidade. Também sou de abril, mas taurino, não ariano como nossa capital. Não creio em horóscopo, mas meu mapa astral combina demais com a cidade que abraço com o olhar desde a primeira vez, naquele dezembro de 1978. – Cuiabá, tu tens um patrimônio histórico e cultural. Suas ruas contam histórias.

Quero uma cidade pra todos os dias com cheiro de manga, caju e pequi. Com tudo aquilo que torna uma cidade humana… Que seja uma cidade de múltiplos prazeres.

Fico triste quando vejo que na noite há um ser humano sem abrigo noturno. A cidade perde seu encanto. Tem gente com fome, tem gente com sede de viver. Tem gente de todo canto, que chega pra morar e garantir seu sustento. Tem gente que faz os seus planos para sobreviver.

Sou cuiabana de Tchapa-e-cruz que te observa de longe. Sempre que estou aqui meus pensamentos voam. Fico matutando pra entender seu caminhar. Às vezes não gosto do jeito que está sendo cuidada. E nem da forma como está sendo disputada. Ando pelas ruas atrás de uma outra cidade. Uma cidade que precisa se reencontrar.

Trilhar a ponte entre o passado e o presente, recuperando a voz, a vida e o pensamento dos seres que construíram a tua história.

Cuiabá, não quero chorar por ti. Eu te amo por guardar memórias significativas da minha existência. Sou grata por me receber sempre como filha deste chão. Axé Cuiabá! – Meire Pedroso, atriz

“O presente e o futuro cabem a nós definir”

Nestes tempos de tragédia social e política que atravessamos, meu coração alimentado por memórias encantadoras desde que mudamos de Dourados para cá, a gratidão pelo presente de adotarmos esta cidade como nossa terra querida.

O lugar das gentes e convivência da nossa infância ficou para trás como uma reminiscência presente da família, que se estendeu para o norte, este Centro Geodésico da América do Sul a cidade verde veio esmaecendo nas últimas duas décadas, sucumbindo e sobrevivendo a incúria da gestão pública no trato do alcance de uma melhor qualidade de vida.

Há 50 anos, a família Milan Capilé está aqui, após residir em vários pontos acolhedores da cidade fixou-se aqui, na saída para Chapada, todos os irmãos e alguns sobrinhos estão aqui, desde a partida de minha mãe, Roma, e de meu pai, Sinjão Capilé.

Aqui é nosso paraíso dentro da cidade, com uma área imensa, única em toda redondeza com vegetação nativa. Por isso, uma reserva de animais, acuados pela especulação imobiliária desprezo aos recursos hídricos e até pela matança de animais que temos constatado tristemente nos últimos tempos.

Achei que esse cenário que passamos a viver cotidianamente aqui onde moramos é representativo das intempéries que abalam a Cidade de Cuiabá, no sentido de poder ser uma cidade saudável.

O líquido fétido e venenoso (chorume) que mina do lixão desde lá, e os esgotos e lixos neste nosso quase morto Ribeirão do Lipa continuam complementando o mal estar da cidade.

Penso que seria possível retomar a qualidade de rios como o Cuiabá, o Coxipó e tantas artérias e fontes de água que intercruzam nossa cidade. Saneamento não dá voto e os “espigões” vão avançando sem nenhum compromisso com o tratamento das sujeiras.

Sempre acham uma forma de burlar as leis ambientais, já que as câmaras de vereadores, em quase toda totalidade, defendem seus interesses comprometidas com o financiamento de reeleições.

Deste lugar que falo aqui, teço um observatório, andando pela cidade todos os dias. Pisei o chão das periferias trabalhando na Escola com Saúde, percebendo as condições de vida tão ruins desta população no acesso às políticas dos governos.

Resumo: miséria, violência, que pasmem, muita alegria e solidariedade. Por isso também, eu tenho esperança que sejam removidos os escombros, para que nossa Cidade Verde volte a brilhar.

Não antes, vimos coisas boas e melhorias, sim, os parques, o novo belo Parque das Águas e a minha insistência de longa data, que saia o Parque da Cidade para acesso de toda população.

O presente e o futuro cabem a nós definir. Amo esta minha Cidade, acredito que poderá ser melhor para todo o povo que aqui vive. Viva Cuiabá, eu te saúdo, melhor para os 300 anos! – Vera Capilé, cantora

História de amor pelas ruas

Era uma vez uma Bela do Juiz

que não se encontrava com a Esperança.

Corria perto da Formosa,

às vezes subia para a Caridade.

Acompanhava-a pela rua de Cima,

Seguia-a pela rua de Baixo.

Espreitava-a pela rua do Meio.

Dava lances na Prainha.

Se triscavam no Rosário

cada qual com seu Candeeiro.

Mas voltando pelo Beco Quente

passavam ao Largo da Mandioca.

Não importava se era Nova ou se era Velha.

Seria um Porto a que chegar.

Não queria era um Terceiro (de Dentro ou de Fora).

Se viram no Campo.

Subiram ao Bosque.

E no Tanque do Baú se apaixonaram no Lava-pés

quando tiravam o Areão.

Araés! Um amor impossível¿

Não! Se uniram de papel passado

Num antigo mapa

Das ruas de Cuiabá.

Aclyse de Mattos, poeta

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João Bosquo

João Bosquo, poeta e jornalista, editor deste blogue NAMARRA.COM.BR
nas redes sociais: @joaobosquo

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1 Resultado

  1. Ines disse:

    Muito linda essa homenagem com a palavra de ilustres escritores
    Parabéns pela matéria.