Cuiabá, a Pérola e os Porcos

Desde que Cuiabá ganhou a sede da Copa do Pantanal repeti algumas vezes que esse privilégio e responsabilidade teria sido um estratagema do Senhor Bom Jesus de Cuiabá para dar uma sacudida nos cuiabanos,governantes e governados, para que se liguem no momento especial que a cidade vive, agora polo de uma das regiões mais dinâmicas e produtivas do planeta, visando a festa do Tricentenário em 2019, esta sim a maior efeméride cuiabana no século. E parece que esse plano começa a dar certo. A Copa resgatou o futuro no imaginário cuiabano, virando sua cabeça cidadã para a frente e para o alto.

O que ainda resta alcançar é a distinção entre a cidade e os problemas que a cidade enfrenta. Na verdade ela é vítima de um sistema de gestão urbana defasado, ilegal e corrupto, por isso incompetente. A má gestão pública fez a cidade deficitária em infraestrutura, equipamentos e serviços urbanos que deixaram de acompanhar seu dinamismo. As novas administrações municipais de Cuiabá e Várzea Grande trazem esperança de superação para esta situação crítica. A cidade embora tricentenária revitalizou-se e está em pleno desenvolvimento como uma adolescente saudável que não pode ser criticada por necessitar de vestuário novo e maior a cada momento. Cuiabá está viva e moderna como atestam os avanços trazidos pela iniciativa privada em empreendimentos de grande porte e alta sofisticação no ramo imobiliário, no comércio, saúde, educação, lazer e indústria de um modo geral, que não podem passar despercebidos.

A Grande Cuiabá é sim uma velha e linda senhora muito maltratada, mas que rejuvenesceu-se no desenvolvimento regional que ajudou a construir. Só precisa ser tratada de forma digna por aqueles a quem cabe cuidá-la, suas autoridades públicas, em especial as dos municípios que a compõem. Cuiabá é como uma pérola que escapou às mãos da cidadania e ficou à mercê dos porcos. Há que ser resgatada e trabalhada em todas as suas facetas de potencialidades e beleza. Nela está o centro da América do Sul, por exemplo. Uma noite dessas passei lá e nem a luminária do poste de rua em frente estava acesa. Tem seu centro histórico tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional, com um peculiar traçado urbanístico e belos exemplares arquitetônicos, também desprezado e abandonado. Tem em seu sítio urbano o privilégio de 2 rios e 21 córregos, riqueza florística, faunística, paisagística e de composição climática para os quais demos as costas, assim como também nem notamos que a cidade é caprichosamente emoldurada pelas silhuetas da Chapada e do Morro de Santo Antonio. Nas proximidades Cuiabá potencializa ainda o Pantanal, a Chapada dos Guimarães, as termas de São Vicente, as grutas de Nobres e o lago de Manso.

Além das belezas e potencialidades naturais a cidade desfruta de posição estratégica em termos da logística continental e nacional. É o encontro natural dos caminhos. Cuiabá viabilizou a chegada e o avanço das rodovias, aerovias e da ferrovia em Mato Grosso e tem tudo para centralizar o moderno sistema intermodal de transportes que o estado tanto precisa. Tem Manso como equipamento de proteção urbana contra as maiores cheias e sua grande caixa d’água a 100 metros de altura permitindo-lhe um abastecimento por gravidade seguro e contínuo, mas desprezada. Como também está desprezada a energia

abundante, limpa e barata do gás trazido por um gasoduto que custou US$ 250,0 milhões. Todas essas maravilhas, naturais ou construídas, compõem a beleza e a potencialidade real de Cuiabá. Desprezadas aqui, seriam exploradas por qualquer cidade minimamente gerida como fonte de emprego, renda e qualidade de vida para sua população. Mas, que fazer?

JOSÉ ANTONIO LEMOS DOS SANTOS, arquiteto e urbanista, é professor

universitário.

 

joseantoniols2@gmail.com

 

José Antônio Lemos dos Santos

José Antonio Lemos dos Santos, arquiteto e urbanista, é professor universitário. Troféu “João Thimóteo”-1991-IAB/MT/ “Diploma do Mérito IAB 80 Anos”/ Troféu “O Construtor” – Sinduscon MT Ano 2000 / Arquiteto do Ano 2010 pelo CREA-MT.

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