Cuiabá: Alguns motivos para te amar – artigo de Eduardo Póvoas

(por Eduardo Póvoas) Nossa cidade ligada a capital do país (Rio de Janeiro), apenas por navegação fluvial cujos barcos aportavam por aqui quatro vezes por mês, e por uma linha aérea comercial incipiente composta de hidro aviões que nos serviam duas vezes por semana, vivia uma quietude dos centros urbanos isolados e aconchegantes, onde a população, que se conhecia quase toda, era hospitaleira e solidária.

Poucas ou quase nenhuma eram as diversões. Um cinema instalado em um galpão exibia filmes projetado em partes. Uma vez por ano, senão de dois em dois anos, um circo de cavalinhos para encantar a gurizada.

A grande novidade da época eram os rádios receptores que começavam a aparecer e que as famílias mais abonadas adquiriam para suas residências, instalados com suas antenas de taquara amarela nos quintais e que sintonizavam com muito mais facilidade as estações de Buenos Aires do que as do Rio ou de São Paulo, mais fracas.

Até hoje, se você se distanciar do perímetro urbano, é comum sintonizar as rádios da Argentina, do Chile e do Paraguai. Experimente. Tudo em AM.

Cuiabá nessa época com 25 mil habitantes e distante cerca de dois mil quilômetros da metrópole cultural do pais, Rio de Janeiro, seria difícil senão impossível falar-se em cultura. Só por um milagre!

A leitura era a distração preferida das classes mais alta da população cuiabana.

O teatro era uma das maiores predileções do nosso povo.

Muitos dos nossos homens públicos e dos mestres da época, foram auto didatas. Universidade mais perto só no Rio ou são Paulo.

O poder econômico desde aquela época era avassalador, e quem vivia a margem dele praticamente era um exilado da vida.

Naquela Cuiabá confinada atrás da imensidão de léguas de pantanais, dotada de uma ou duas tipografias aptas a realizar pequenos trabalhos gráficos, raros eram os intelectuais que dispunham de recursos para editar suas produções literárias ou cientificas.

Não fosse a ajuda oficial, não teríamos hoje obras imortais de Dom Aquino Correa, não teríamos os trabalhos da comissão Rondon, que atestam o talento e a capacidade deste “Civilizador dos Sertões”, até a famosa Carta de Mato Grosso, que serviu de base para a elaboração do mapa do Brasil.

Uma pena que hoje são muito poucos aqueles que se dedicam a preservar a nossa história e pouquíssimos a conhece profundamente.

Sim Cuiabá, do seu berço brotou figuras responsáveis pelo reconhecimento de seres considerada a cidade intelectual do Estado de Mato Grosso.

Tínhamos nesta longínqua parte do território nacional nomes que sem nenhuma dúvida, possuíam condições de galgar postos, como muitos galgaram, de singular importância no cenário nacional.

Vai aqui, quase no seu tricentenário, a minha homenagem e o meu respeito aos nossos antepassados, àqueles que com um esforço quase sobrenatural, te projetaram nas colunas literárias deste pais.

É gratificante ser teu filho!

* Eduardo Póvoas- Cuiabano. E-mail: povoas@terra.com.br

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