E a juíza calou Silval

Meus amigos, meus inimigos: a juíza Selma Arruda, em plena audiência, mandou o ex-governador Silval se calar. Isso aconteceu quarta-feira, lá no atulhado Fórum de Cuiabá. Jornalistas e advogados ficaram atônitos. Na quinta, pela cidade, ouvi elogios à explosão da magistrada que é titular da 7ª Vara Criminal e cuida dos julgamentos da possível roubalheira praticada à sombra justamente do governo do Silval. Sim, a juíza Selma virou uma espécie de heroína do “Cadeia Neles” e já há quem imagine para ela uma carreira na política, tal e qual aconteceu com Zé Pedro Taques, Julier. À televisão ela já compareceu diversas vezes para entrevista, alimentando a sede da mídia corporativa pelas celebridades instantâneas.

Cuiabá e seus cidadãos adoram ver o Silval como réu, preso há quase um ano, e já começando a pagar pelos crimes que teria praticado. O nosso povo tem alma de Charles Bronson e parece que a juíza Selma identifica esse sentimento popular.

Acontece que eu estava lá, entre jornalistas e advogados que acompanhavam o depoimento, e não me entusiasmei com a atitude da juíza. Preso há tanto tempo, quase um ano, Silval pediu um tempo para extravasar seus sentimentos, a juíza concedeu, depois veio com o carão. Uma atitude incongruente de quem permitira o desabafo.

Além do mais, Silval reclamava do CIRA, o tal Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos, criado pelo governador Zé Pedro Taques e presidido pelo próprio Zé Pedro Taques e que, segundo o Silval, foi criado para caçá-lo, e atribuir a ele todas as culpas possíveis.

A juíza Selma, talvez ainda remoendo o carão público e vexatório que lhe passou o desembargador Orlando Perri, ao afastá-la do julgamento de Roseli Barbosa, parece que entendeu que Silval se queixava dela. Será que Sigmund Freud – citado, aliás, por Perri no tal carão dado na magistrada – explica a juíza Selma Arruda? O fato é que ela, atropelando o roteiro, mandou Silval ficar quieto, que calasse a boca, para alegria dos mancheteiros de plantão, que produziram títulos enormes talvez para fazer Zé Pedro Taques sorrir. Carão no desembargador Perri? Nada disso, nas suas declarações sobre seu afastamento do julgamento da ex-primeira dama, a magistrada não deu um pio sequer contra a decisão do desembargador que, pelo que consta, teria sido justamente quem a escolheu para a função que atualmente exerce.

Fico imaginando que a juíza Selma, se fosse aquela autoridade judiciária ideal, tão idealizada por Dickens, Victor Hugo e Simenon e outros autores, ao invés de se irritar com o homem que esperneava diante dela, deveria procurar auscultar mais atentamente as dores daquele farrapo humano. Mas me parece que muitas das nossas autoridades não sabem reconhecer um farrapo humano quando diante dele.

Silval diz que é vítima de armação, arquitetada por ex-auxiliares como Pedro Nadaf e César Zílio, réus-confessos. Eles teriam combinado ferrar com Silval para livrar o próprio rabo. De sobra, acusam ainda o filho de Silval, o Rodrigo e o cabeça pensante da Sefaz, Marcel de Cursi cujo grande crime parece ser justamente ter uma cabeça pensante.

O Cira e o Gaeco falam na existência de uma organização criminosa agindo à sombra do governo Silval. Silval levantou a hipótese de que seriam não uma, mais várias quadrilhas. Será que suas queixas não merecem a menor consideração? Será que não interessa à juíza Selma Arruda, em meio a julgamento tão complexo, identificar melhor todas as nuances por trás destas tramas que vão expondo as vísceras de nossas classes dominantes?

Poucos dias depois de receber a lição que lhe aplicou Perri quanto aos exageros que cometeu no caso Roseli, parece que a juíza Selma ainda não apreendeu a recomendação daquele encanecido magistrado no sentido de que “cabe a ela usar de linguagem moderada, sóbria e comedida”.

ENOCK CAVALCANTI, jornalista, é editor de Cultura do Diário de Cuiabá e blogueiro, prorietário do Paginadoe.com.br

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