Eduardo Mahon: É Para Já, Governador!

É PARA JÁ, GOVERNADOR! (E.M)Ao articulista ainda não é dado o dom da infalibilidade. Que se saiba, só o Papa é…

Publicado por Eduardo Mahon em Sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

É PARA JÁ, GOVERNADOR! (E.M)

Ao articulista ainda não é dado o dom da infalibilidade. Que se saiba, só o Papa é infalível. Claro, essa é a opinião da Igreja, pelo Concílio Vaticano I. Eu que não sou cardeal, não confio tanto assim. Por outro lado, dizem que as cartas não mentem jamais e essa é outra mentira. Tarô, runas, búzios, borra de café, o diabo a quatro – tudo é uma questão de interpretação e o intérprete sempre pode errar. Foi assim comigo: misturar análise e torcida não dá boa coisa. Imaginei, juntamente com mais de 830 mil mato-grossenses, que Pedro Taques daria uma guinada na administração pública, promovendo uma austeridade nunca experimentada. Até as pedras da esquina sabiam que ele herdava um Estado saqueado em plena crise financeira nacional. No entanto, a gente torce, acredita, deposita fé e sonhos. Político sem ficha criminal é um trevo de quatro folhas e, de tão raro, imaginei que Taques fosse chegar a Presidente da República.

Depois de quatro anos, esse eleitorado mingou para 217 mil. O governador ficou atrás da soma de votos brancos e nulos, o que é o mesmo que dizer “debaixo de cú de cachorro”, como se diz em Cuiabá. Saiu do Paiaguás sem dizer adeus, sem discurso, sem uma fala em que pudesse fazer um balanço. No fundo, pensa – sentirão saudades. Política brasileira é assim, sai um ruim e entra um pior e, nessa confiança, Pedro Taques imagina uma vida nova, talvez como deputado federal, quem sabe prefeito. Dizer o que todos já disseram do governo que passou é chover no molhado e, portanto, não vou interpretar o papel de profeta do passado. Prefiro me arriscar de novo a uma nova análise – dessa vez, Mauro Mendes. Tem um ponto a seu favor, falando assim, teoricamente: observou dois governadores saírem pela porta dos fundos. Não é possível que não se tenha aprendido a escolher bons interlocutores políticos, fazer intensiva comunicação social e manter o pé no chão.

O novo governador não terá seis meses de lua de mel. É que não há mais a costumeira tolerância com a quarentena política, essa bolha agradável dos rapapés que se concede ao administrador entrante. Até porque Mauro Mendes não é nenhum novato. Saiu bem avaliado da Prefeitura de Cuiabá, com a expressiva marca de 76%. Pergunta-se hoje em dia: se não fosse o apoio de Silval e de Taques, seria assim? Para mim, pouco importa. Cuiabá é a capital do Estado e tem mesmo que ser apoiada em qualquer circunstância. É aqui que desaguam os grandes gargalos, as maiores deficiências do resto desse imenso continente mato-grossense como, por exemplo, a saúde. Aliás, diante da disparidade do crescimento estadual, Cuiabá ficou encapsulada no tempo. Porque sim ou porque não, o fato é que Mauro Mendes foi bem na administração pública, entregando hospitais, asfalto, escolas e parques, muito embora eu ainda ache fake a maquete do Porto para inglês ver.

E agora? São cinco Estados que estão em débito como funcionalismo público. Do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte, as unidades federativas estão quebradas. Mato Grosso não é diferente. Depois de quatro anos, herdamos uma dívida bilionária, o 13º salário em aberto e a folha pronta para o escalonamento. Culpar o servidor público foi o que começou a enterrar a administração de Pedro Taques. O segundo equívoco dele foi culpar a administração anterior, olhando o futuro pelo retrovisor. Quem casa com a viúva, leva os filhos, ora. Demonstrar a real situação caótica da economia é obrigação, mas fazer da crise um discurso monotemático não resolve a situação. Quem tem que resolver é o gestor e o caminho é a reforma administrativa, de um lado, e a simplificação tributária, de outro. Mato Grosso precisa ser um Estado sedutor para o investimento e a questão que o novo governador Mauro Mendes deve se fazer é: por que outros empresários como eu investiriam em Mato Grosso? Se não houver boas respostas, estamos condenados.

É sabido e ressabido que as vinculações constitucionais da receita atam os pés e as mãos dos gestores. Resolve-se isso no âmbito estadual? Não. Então não adianta queimar vela com defunto ruim e ficar reclamando do que não se pode mudar. O que é possível fazer aqui? Aproveitar a força inicial do governo para reduzir a máquina, para desatrelar a receita dos automáticos repasses aos demais poderes, diminuir o orçamento já existente em todas as esferas, rever a política de incentivos fiscais e debater profundamente a questão do agronegócio. A hora de maximizar ganhos é agora. Um dia que passa é uma eternidade para o servidor público sem o salário e para os milhares de desempregados que andam sem esperança. Tudo se acomoda, se afrouxa, se conforma, se ajeita e se cansa. Assim também é um governo – o momento das reformas é nos primeiros meses. Depois, Inês é morta.

Paralelamente à cartilha de austeridade financeira que o próprio Mauro Mendes se impõe, cuide ele de encontrar um bom anteparo, uma pessoa que possa falar pelo governo, que seja rápido e articulado o suficiente para desarmar as bombas antes de estourarem. Alguém com traquejo e credibilidade junto à mídia e aos demais poderes. Não pode o Governador se bronzear nos holofotes a todo o momento defendendo o próprio governo, é preciso terceirizar o abacaxi. Esse é a primeira sugestão, misturada com torcida. Quem torce contra um governo novo em folha – qualquer que seja – torce contra si mesmo. Não chego a cometer o mesmo erro, mas espero que o governador faça uma excelente gestão. Dessa vez, não lanço ninguém a Presidente da República. Deu muito azar. Pé de pato, mangalô, três vezes!

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