Eduardo Mahon faz picadinho de Ives Gandra Martins que se diz discriminado e não sabe como viver no país, pois não é negro, homossexual, índio, assaltante, guerrilheiro e nem invasor de terras, esquecendo-se apenas de dizer que é rico

A difícil vida do branco, hetero e ricoO Ives Gandra não é negro, nem homossexual, nem índio, nem sem-terra e pergunta…

Publicado por Eduardo Mahon em Quinta-feira, 16 de novembro de 2017

A difícil vida do branco, hetero e rico

O Ives Gandra não é negro, nem homossexual, nem índio, nem sem-terra e pergunta como vai fazer para viver no Brasil nos dias atuais. Alega o renomado tributarista que, de certo modo, virou minoria. Por um momento, fiquei com pena de Ives Gandra. Ele, coitado, é mesmo franca minoria em nosso país. Está confortavelmente instalado em 3 andares inteiros na Alameda Jaú, Cerqueira César, num dos bairros mais refinados de São Paulo. Não é para qualquer um. Trata-se de 0.001% da população. Como será aguenta viver nos Jardins? É quase impossível. Sendo branco, advogado, católico, professor aposentado, presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio de São Paulo, estou emocionado com as condições deploráveis de vida deste reles pagador de tributos. Até eu quero saber: como é que um cidadão como Ives Gandra Martins consegue viver no Brasil?

No Brasil, de acordo com o IBGE, mesmo com a política de cotas, 13% de jovens negros chegam às universidades, um escândalo para Ives Gandra Martins. É menos da metade que os pobres brancos que não têm a menor condição de cursar medicina, por exemplo, um curso em que 98% do corpo discente é composto pela minoria de Ives Gandra, ou seja, brancos. Já os pobres – ah, os pobres, sempre atrapalhando a riqueza nacional! – somam 8.3% dos estudantes universitários nas instituições públicas de ensino superior, e ficam com 4% das vagas nas faculdades particulares. É um absurdo que pretos e pobres tenham tanto espaço, tantas vagas, sejam tratados de forma mais benéfica, na visão do causídico que se desespera vivendo nesse regime opressor tupiniquim.

Na visão de Ives Gandra, ser índio no Brasil é morar num paraíso. De cada 1000 crianças indígenas, 50 morrem antes de completar 1 ano de vida, 100% mais do que a média nacional. Do alto dos 3 andares do escritório na Cerqueira César, Ives reclama que os índios estão com uma porção de terra absolutamente desproporcional ao número de habitantes que sobraram nas aldeias. Segundo o banco de dados do SUS, 55% das mortes por desnutrição ocorrem entre índios. Na visão do emérito professor Ives Gandra Martins, é provável que esses índios morram porque não querem comer. E, talvez, diga ele que são pobres – sim, são os cidadãos mais pobres do país – porque decidiram viver na extrema miséria. Há de mostrar três ou quatro índios com caminhonete, vivendo nababescamente, enquanto não diz que as tribos passam fome, morrem de diarreia, malária, tuberculose e outros presentes deixados por sociólogos, antropólogos e assemelhados.

A cada ano, morrem 365 gays, lésbicas , bissexuais e travestis. Apenas pela condição sexual, nada mais. Esse índice faz do Brasil o país que mais violenta sexualmente suas minorias que, na visão de Ives Gandra Martins, é privilegiada por políticas públicas com secretarias, comissões e outros disparates. Contra as mulheres, é contabilizado 5 mortes a cada 100 mil, o que coloca o país em 5º no ranking de mais violento. Especificamente contra mulheres negras, o homicídio subiu em 54% nos últimos 10 anos, conforme dados do Ipea. Num balanço recentemente realizado pela Central de Atendimento à Mulher, em comparação a 2014, houve aumento de: 44,74% no número de relatos de violência, 325% de cárcere privado (média de 11,8/dia), 129% de violência sexual (média de 9,53/dia), 151% de tráfico de pessoas (média de 29/mês).

O doutor Ives Gandra Martins deve sofrer com algum tipo de síndrome de alheamento. É acometido pelo pensamento simplista de que, quando há trabalho e educação, há prosperidade. Ocorre que os negros, índios e LGBTs têm 70% menos estudo e, portanto, menos chances no mercado de trabalho. A culpa é deles mesmos – essa gente preguiçosa que vive de bolsas do governo. Ele deve pensar que gays podem ser gays somente da porta de casa para dentro, pretos devam voltar para a África, assim como índios devam se confinar em aldeias inacessíveis. Concordo com o professor-doutor: é muito difícil viver no Brasil. Vou além: como é que nós conseguimos conviver com alguém como Ives Gandra Martins num mesmo país?

Leia abaixo o artigo de Ives Gandra

Não Sou: – Nem Negro, Nem Homossexual, Nem Índio, Nem Assaltante, Nem Guerrilheiro, Nem Invasor De Terras. Como faço para viver no Brasil nos dias atuais? Na …verdade eu sou branco, honesto, professor, advogado, contribuinte, eleitor, hétero… E tudo isso para quê?

Meu Nome é: Ives Gandra da Silva Martins* Hoje, tenho eu a impressão de que no Brasil o “cidadão comum e branco” é agressivamente discriminado pelas autoridades governamentais constituídas e pela legislação infraconstitucional, a favor de outros cidadãos, desde que eles sejam índios, afrodescendentes, sem terra, homossexuais ou se autodeclarem pertencentes a minorias submetidas a possíveis preconceitos.

Assim é que, se um branco, um índio e um afrodescendente tiverem a mesma nota em um vestibular, ou seja, um pouco acima da linha de corte para ingresso nas Universidades e as vagas forem limitadas, o branco será excluído, de imediato, a favor de um deles! Em igualdade de condições, o branco hoje é um cidadão inferior e deve ser discriminado, apesar da Lei Maior (Carta Magna).

Os índios, que pela Constituição (art. 231) só deveriam ter direito às terras que eles ocupassem em 05 de outubro de 1988, por lei infraconstitucional passaram a ter direito a terras que ocuparam no passado, e ponham passado nisso. Assim, menos de 450 mil índios brasileiros – não contando os argentinos, bolivianos, paraguaios, uruguaios que pretendem ser beneficiados também por tabela – passaram a ser donos de mais de 15% de todo o território nacional, enquanto os outros 195 milhões de habitantes dispõem apenas de 85% do restante dele. Nessa exegese equivocada da Lei Suprema, todos os brasileiros não-índios foram discriminados.

Aos ‘quilombolas’, que deveriam ser apenas aqueles descendentes dos participantes de quilombos, e não todos os afrodescendentes, em geral, que vivem em torno daquelas antigas comunidades, tem sido destinada, também, parcela de território consideravelmente maior do que a Constituição Federal permite (art. 68 ADCT), em clara discriminação ao cidadão que não se enquadra nesse conceito.

Os homossexuais obtiveram do Presidente Lula e da Ministra Dilma Rousseff o direito de ter um Congresso e Seminários financiados por dinheiro público, para realçar as suas tendências – algo que um cidadão comum jamais conseguiria do Governo!

Os invasores de terras, que matam, destroem e violentam, diariamente, a Constituição, vão passar a ter aposentadoria, num reconhecimento explícito de que este governo considera, mais que legítima, digamos justa e meritória, a conduta consistente em agredir o direito. Trata-se de clara discriminação em relação ao cidadão comum, desempregado, que não tem esse ‘privilégio’, simplesmente porque esse cumpre a lei.

Desertores, terroristas, assaltantes de bancos e assassinos que, no passado, participaram da guerrilha, garantem a seus descendentes polpudas indenizações, pagas pelos contribuintes brasileiros. Está, hoje, em torno de R$ 4 bilhões de reais o que é retirado dos pagadores de tributos para ‘ressarcir’ aqueles que resolveram pegar em armas contra o governo militar ou se disseram perseguidos. E são tantas as discriminações, que chegou a hora de se perguntar: de que vale o inciso IV, do art. 3º, da Lei Suprema? Como modesto professor, advogado, cidadão comum e além disso branco, sinto-me discriminado e cada vez com menos espaço nesta sociedade, em terra de castas e privilégios, deste governo.

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