Errando e Mentindo – Por Johnny Marcus

johnnymarcusEm um de seus editoriais de hoje (27/11), a Folha debate a propagação de notícias falsas pela internet. Em “A perna longa da mentira”, o editorialista argumenta que “no Brasil, a prática também preocupa. Como nos Estados Unidos, trata-se de um recurso incorporado à prática política, à esquerda e à direita. Dificilmente um usuário de redes sociais deixou de ler que um filho do ex-presidente Lula (PT) é o dono do frigorífico Friboi ou que o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) foi citado na Lava Jato, informações tão enganosas quanto populares. Muitas vezes, veículos da imprensa profissional precisam desmentir as mentiras, tão depressa elas se espalham”.

Correto. Os prejuízos causados pelos comitês da maldade são incomensuráveis. Contudo, ainda que pertinente, o raciocínio não deixa de ser hipócrita. Basta notar a sistemática repercussão que o jornal concede às falácias de veículos que há muito assassinaram o jornalismo, como é o caso de revista Veja.

Isso quando ela mesma, a Folha, não sai com as suas. Vide o caso da divulgação em primeira página, em 5 de abril de 2009, da falsa ficha do Dops que apontava como terrorista a ex-presidenta Dilma Rousseff. Acuada, vinte dias depois, em matéria de tom enviesado, fez um mea culpa estranho: “O primeiro erro foi afirmar na Primeira Página que a origem da ficha era o ‘arquivo [do] Dops’. Na verdade, o jornal recebeu a imagem por e-mail. O segundo erro foi tratar como autêntica uma ficha cuja autenticidade, pelas informações hoje disponíveis, não pode ser assegurada – bem como não pode ser descartada”.

Mas o delirium tremens não para por aí. Mire e veja: “Os grandes oligopólios da internet fogem como o diabo da cruz da responsabilização pela montanha de barbaridades a que dão vazão. Não pecam apenas pela passividade, contudo. Associam-se, como fez o conglomerado Facebook, às estratégias liberticidas e censórias de ditaduras como a chinesa. Nesse quadro de ameaças a pilares da arquitetura democrática do Ocidente, o jornalismo profissional, compromissado com os fatos e a ampla circulação das ideias, torna-se ainda mais necessário”.

Mais uma vez – espertamente – a Folha exime-se de uma urgente autocrítica. Ela e outros veículos da chamada grande mídia é que fogem como o diabo da cruz da regulação dos meios de comunicação. Com a velha cantilena de que trata-se de censura à imprensa, o que tanto Folha e que tais querem é a total liberdade para prosseguirem com sua militância político-partidária disfarçada de jornalismo.

É sempre bom lembrar como o ex-deputado federal Eduardo Cunha foi durante muito tempo protegido pela mídia. “Se for eleito [presidente da Câmara] engaveto a regulação da mídia”, declarou em 2014. Promessa feita, promessa cumprida.

Talvez o que exista de mais contraditório no editorial da Folha seja o fato de se posicionar contra a disseminação de boatos ao mesmo tempo em que se omite de divulgar (quando lhe convém) fatos verídicos. Não fosse pela mesma internet que ela agora criminaliza, jamais ficaríamos sabendo de acontecimentos importantíssimos que a grande rede trouxe à tona e que a mídia hegemônica solenemente ignorou.

Por último, mas não menos importante, é perfeita a percepção do escritor Fernando Morais sobre a deontologia da Folha: “Ao lado do ‘Erramos’, sugiro que seja criada uma nova seção no jornal, intitulada ‘Mentimos’”.

Fonte: Johnny Marcus – ERRANDO E MENTINDO Por Johnny Marcus Em um de…

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