Espelho Cansado – por Eduardo Mahon

ESPELHO CANSADOAloísio saiu de casa logo cedo. Era um sábado que se emendava ao feriado. Pegou as chaves, deu partida…

Publicado por Eduardo Mahon em Sexta, 3 de novembro de 2017

ESPELHO CANSADO
Aloísio saiu de casa logo cedo. Era um sábado que se emendava ao feriado. Pegou as chaves, deu partida no carro e seguiu para o centro da cidade. Quero um espelho – pediu ao vendedor. Não estava em uma vidraçaria, como recomendou a mulher, e sim num pregão de usados. O sujeito voltou-se para o interior e, de lá, veio com um espelho numa moldura de madeira. Só tem esse? – perguntou Aloísio. Só esse, por quê? É que o espelho é para o banheiro. O banheiro da casa era forrado de ladrilhos azuis e a última coisa que a mulher dele iria querer seria aquele espelho com moldura velha. Art déco, sabe quando vale? – foi o argumento do vendedor para empurrar o item encalhado na loja. Aloísio levou aquele mesmo, sem embrulhar. Chegou em casa, apanhou o martelo e, três minutos depois, pendurava o trambolho sobre a pia. Olhou-se demoradamente. Tudo normal. O espelho fazia o que era esperado: refletia o rosto de Aloísio, repleto de pelos que espocavam pelo rosto cansado. Não se barbeava no feriado. Ao levantar o braço direito, a imagem refletida também levantou. Foi a vez do braço esquerdo. O espelho pôs-se a imitar, como de hábito. Espelho bom – concluiu Aloísio. O homem enfrentou a crítica da esposa: desse tamanho, no banheiro, onde é que já se viu? Mas é art déco, não reparou? – ele respondeu. É velho, Aloísio, apenas velho. Não é déco, não é nouveau, não é nada! Ele preferiu ficar calado. Intimamente, porém, gostava do espelho. Havia nele um trabalho bonito na madeira da beirada que emprestava sofisticação àquele banheiro esteticamente prejudicado pela cortina de plástico que envolvia o chuveiro. Resolveu fazer a barba só para aproveitar melhor o achado. Além do próprio reflexo, observou cada detalhe: a fina lâmina prateada avariada pelo tempo, o formato ovalado perfeitamente integrado ao caixilho de madeira talhada à mão. Enquanto fazia barba, percebeu que na imagem refletida faltava os trejeitos que fazia ao escanhoar-se. Estava lá somente o rosto de Aloísio, repleto de espuma branca que caía sobre o lábio superior. Mas não havia as caretas, o nariz torcido, o beiço que se formava ao passar a navalha pelo pescoço. De imediato, parou de se barbear. Diante dele, no espelho, estava o rosto de Aloísio escondido em meio à grossa espuma branca, mesmo com ele mesmo tendo a metade da cara já raspada. Ora essa! – exclamou perplexo. Com os dedos, deu um peteleco no espelho para ver se voltava a funcionar. Espelho não é televisão – ouviu do outro lado. Como?! É isso mesmo, não adianta dar peteleco, cascudo ou piparote que não vou refletir na marra. Aloísio abriu os olhos assustado e viu, do outro lado, um outro Aloísio imitando o a expressão preocupada. Sem questionar, acabou de fazer a barba olhando fixamente para a pia. Lavou o rosto, enxugou-se com a toalha e permaneceu alguns instantes de olhos fechados. Quando olhou-se novamente, estava tudo em ordem: o rosto dele estava perfeitamente liso, dentro e fora do espelho. Ao ponderar sobre o que havia acontecido, permaneceu estático na mesma posição, mirando-se sem piscar. De repente, do outro lado, o reflexo piscou e disse: com licença, odeio olho ressecado. Pela primeira vez, Aloísio entendeu que o fenômeno não era algum lapso. Quem é você? – perguntou ao reflexo que, por sua vez, repetiu com a boca a mesma pergunta. O outro Aloísio, o de dentro da moldura de madeira, respondeu: estou farto de refletir a imagem alheia. O homem retirou o espelho do parafuso que o prendia à parede, colocou-o numa caixa de papelão e voltou ao pregão para pedir o dinheiro de volta. Não presta! – disse ao vendedor. Qual o problema, meu freguês? Está cansado de refletir, disse-me o preguiçoso! Mas isso é impossível, o senhor vai me desculpar. Recalcitrante em devolver o dinheiro faturado, o vendedor retirou o espelho da caixa e o colocou sobre um tampo antigo de mármore. Aqui está! O que não funciona? Não está refletindo tudo? Olhe aqui, sou eu. É o senhor, a loja, tudo à nossa volta. Aloísio olhou apalermado para espelho. Ameaçou: não vai falhar de novo? Não vai estragar? À míngua de resposta, colocou o objeto novamente na caixa e o levou de volta para casa. Tendo recolocado o espelho na parede, perguntou: qual o seu problema, afinal? De dentro, Aloísio ouviu: é que não aguento mais refletir outras pessoas, sem poder escolher. O que fazer para ajudá-lo? O reflexo de Aloísio fez uma careta e respondeu: acredito que espelhos deveriam direito à aposentadoria. Está cansado, não é? Estou esgotado, disse o espelho. Tudo tem um limite. O senhor sabe quantas pessoas eu já refleti? Passei a vida vendo as pessoas envelhecerem. Isso não é nada bonito. Até que a minha antiga dona morreu. No fim, ela estava sem nenhum cabelo. Me deu pena. Eu não queria refleti-la assim, mas fui obrigado. Refleti tudo, até o último brilho nos olhos dela. Depois, me cansei daquilo tudo. Comecei a refleti-la como nova, uma linda moça de lábios carnudos e longos cabelos castanhos. Antes de morrer, ela me agradeceu, mas se esqueceu de me levar. Seguiu-se um silêncio curto. Aloísio era um homem tão caridoso quanto objetivo: o que fazer? quebrá-lo? Pode ser – respondeu o reflexo sem mostrar apego. Não dá azar quebrar espelho? É mito, não seja bobo. Sendo assim, vou ajudá-lo, prometeu Aloísio. Foi à garagem, tirou da caixa de ferramentas o martelo e voltou em seguida: quebra-se de uma vez ou há alguma forma especial? Não há fórmulas, pode quebrar tudo – ouviu a resposta num tom conformado. O homem meteu a cabeça do martelo no meio do espelho que estilhaçou para formar uma teia de milhares de quebraduras. Em cada caco, Aloísio ainda se via, no entanto. Basta ou preciso quebrar ainda mais? Os inúmeros triângulos que resultaram do trinco central responderam: ainda sou espelho quebrado, é verdade, mas posso refletir; é preciso esmigalhar tudo até virar pó, se não for pedir demais. Assim foi feito. Do espelho morto, sobrou um pó grosso que quase entupiu a pia e a moldura nua sobre os ladrilhos azuis. A mulher encheu-se de razão: não falei que estava velho, Aloísio? É verdade, meu amor, mas todos nós ficamos – retrucou. Espelho novo não resolve, disse antes de ir almoçar.

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