Estado de Gestação – Por Eduardo Mahon

Por Eduardo Mahon

O bordão “Estado de Transformação” é muito pretensioso. O que é transformação? Entendo que o novo governo propunha uma reformulação na forma de gerir a máquina pública, estancando os desvios dos administradores criminosos, o desperdício burocrático de servidores pouco engajados e, finalmente, o lançamento de uma plataforma consistente para o futuro em termos de educação. Transformação não é reformar escolas ou construir novas unidades, mas repensar a modalidade educacional com escolas de tempo integral, aulas interdisciplinares, aporte tecnológico, estímulo à pesquisa e consumo de material produzido no próprio Estado. Transformação é salvar uma criança sem futuro para transformá-la num cidadão criativo, produtivo e independente. Asfalto é importante? Claro que sim. Saúde é importante? Evidente que sim. Segurança pública é essencial? Sem dúvida que sim. Mas nada transforma uma sociedade, se não for pela educação. Isso sim é comprometer-se com o futuro.

Tive o orgulho de presidir a Academia Mato-Grossense de Letras, instituição que completa 95 anos. Fizemos audições com os candidatos ao governo. Todos comprometeram-se com a Casa Barão de Melgaço que é a instituição cultural mais tradicional do Centro-Oeste. Pedro Taques foi eleito. Ficamos felizes por acreditarmos num governante instruído que prezaria a educação como prioridade máxima do governo. Na oportunidade, firmamos um contrato para a transferência da Biblioteca Estevão de Mendonça para o anexo da Casa, num arrojado projeto de popularização da literatura para a juventude. Fomos além. Cobramos o cumprimento de duas legislações mato-grossenses (1993, de iniciativa do dep. Francisco Monteiro e de 2000, do deputado Hermes de Abreu) que tratam da inserção da história, geografia e literatura mato-grossense em sala de aula com a aquisição de livros produzidos por autores regionais. E o fizemos não em favor da Academia de Letras ou do Instituto Histórico e Geográfico e sim em benefício da sociedade mato-grossense. Nada foi cumprido.

Tenho vergonha de mim mesmo pelo Estado de Mato Grosso. O tempo passa sem nenhuma resposta. Não será possível transformar nada em Mato Grosso sem um maciço incentivo à cultura e à educação fundamental e de ensino médio. Enquanto discute-se a polêmica parceria público-privada num diálogo de surdos-mudos, o que importa de verdade não é colocado à mesa – pedagogia. De um lado, a máquina pública quer de desonerar da gestão de obras, o que faz muito bem. De outro, os sindicatos lutam por melhores salários, o que também não é errado. Mas quem defende o ensino? Quem debate pedagogia? Quem aponta as deficiências no rendimento escolar? Ninguém. As editoras mato-grossenses passam dificuldades, muito embora nunca tenhamos tanta produção de qualidade como a dos tempos atuais. Não há compra de lotes de livros pela Seduc, pela Secitec, pela Unemat. Estamos condenados a mais uma geração de estudantes ignorantes na própria história, geografia e literatura produzida no Estado em que vivem. Aposto que os alunos não sabem nem sequer a origem dos símbolos Mato Grosso. Aliás, sou capaz de apostar a vida que nenhum político sabe o hino do Estado que representam.

Quero lembrar ao Senhor Governador Pedro Taques do trecho do nosso grande escritor Ricardo Guilherme Dicke, citado por ele mesmo no discurso de posse que fez da tribuna da Assembleia Legislativa: “Saciado como a preponderância do sonho sacia, entre os caminhos que se multiplicam no presente, saciado enfim do tempo que quanto mais sacia, mais fica por saciar; persigo o sonho que não sacia, saciado da opulência do sonho, sequioso da sofrida realidade”. Ora, foram quase dois anos de administração. Não fomos saciados em nossos sonhos que nem sequer começaram a ser sonhados. O ensino mato-grossense continua carecendo de história, geografia e literatura mato-grossense. É triste. Não preciso ser nenhum vidente para concluir que, sem livros, não haverá qualquer transformação verdadeira em Mato Grosso. Se não melhora o fundamento mais importante da formação de um povo – a educação – tudo será exatamente igual em dez, vinte, trinta anos. Continuamos num “estado de gestação”, de eterna espera não saciada do tão prometido quanto pretensioso “estado de transformação”. Saudade de Dicke que o governador sabe quem foi, mas os governados nunca chegaram a ler.

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