“Estamos no Estado que apresenta os maiores índices brasileiros de violência contra a mulher, uma tragédia sob todos os aspectos”, diz Eduardo Mahon

Ensinar a não bater (E.M)A deputada Janaína Riva apresentou um projeto para ensinar nas escolas métodos de prevenção à…

Publicado por Eduardo Mahon em Quarta-feira, 13 de junho de 2018

Ensinar a não bater (E.M)

A deputada Janaína Riva apresentou um projeto para ensinar nas escolas métodos de prevenção à violência contra a mulher. Foi o suficiente para que uma artilharia pesada fosse disparada nos grupos de discussão: a escola precisa ensinar matemática – é o melhor argumento. Os mais criativos dizem que a escola contemporânea precisa ensinar ao aluno a escrever machismo com “ch”. O tema vira piada. Ocorre que não é nenhuma piada. Estamos no Estado que apresenta os maiores índices brasileiros de violência contra a mulher, uma tragédia sob todos os aspectos. A escola precisa ensinar matemática? É claro. Mas, pense um segundo: quantas vezes, na vida prática, você utilizou a fórmula de báskara? Quantas vezes lembrou do logaritmo de base dez ou da fórmula do apótema da base de uma pirâmide triangular? O que mais temos no ensino é uma coleção de informações sem o menor nexo, sem que o professor saiba orientar quando e onde poderemos utilizar essa decoreba. Nas matérias humanas, dá-se o mesmo. Quem se lembra que a população de Palmas é de 217.056 habitantes?, que Ácia Balba Júlio Segunda Cesônia casou-se com Caio Otávio, primeiro imperador romano?, que “fato”, em bom português, significa terno enquanto facto é um acontecimento?

O que a escola ensina é uma eleição, ou melhor, uma convenção conforme o tempo e lugar. Não há conteúdo sagrado, um tabu escolar. As ementas das disciplinas estão a mudar e é bom que assim seja. Do contrário, estaríamos ainda na época das palmatórias, onde se aprendia os casos nominativo, genitivo, dativo, acusativo, ablativo, vocativo ou locativo, sob ameaça de ajoelhar no milho. A educação muda como a sociedade muda. Aprender na escola elementos do quotidiano que podem transformar a forma de convívio futuro é essencial. Não há regras na sociedade? Evidente. Por que a escola não ajudar a juventude a observar, entender e praticar valores e comportamentos? Não vejo qualquer problema. Mas e o seno, o cosseno e a tangente? Vão bem, obrigado. Ensinar valores em nada atrapalha o ensino da matemática, fiquem tranquilos. O que mais me causa perplexidade é gente esclarecida ser contra.

No mundo todo, há programas escolares de educação no trânsito. Por quê? A explicação é óbvia: as crianças e jovens, algum dia, serão condutores. Portanto, é preciso se habituar com a forma de convívio no trânsito, suas regras e, inclusive, a etiqueta: dar preferência ao pedestre, não guiar com luz alta, respeitar a velocidade. Ora, se crianças são ensinadas a respeitar placas de trânsito, qual a razão pela qual não seriam educadas para a não violência contra mulheres, pessoas com outras identidades sexuais, culturais e religiosas? Na minha opinião, o que mais falta no Brasil é o ensino da tolerância. Estamos ficando adoecidos. Há censores da vida alheia em toda a parte, pacíficos ou violentos. Não admitem a alteridade, o diferente. Incomodam-se com a diversidade. São esses mesmos que pretendem afastar a educação do caminho da tolerância. São esses mesmos que acreditam que a escola é lugar para decorar a tabuada, o emprego do hífen, a população de Palmas, a fórmula do apótema da base da pirâmide triangular.

Tenho uma certa pena de gente quadrada, ou seja, que tem as arestas idênticas. Sofrem com a convivência em sociedade, almejando que sejamos uniformemente tratados para que nos tornemos idênticos. A educação contemporânea não está aí para isso, felizmente. Quer-se um ser humano pleno, sensível a problemas sociais e que tenha meios para transformar a realidade. Quer-se ética. Ensinar a não bater em mulher, a não agredir negros, a não insultar judeus, a não roubar o público ou o particular, a respeitar decisões majoritárias, a não ser beligerante, enfim, é muito mais importante do que decorar o ciclo de Krebs. Francamente, como tem gente que fecha os olhos para a realidade e nega-se ao óbvio! Diante dos índices avassaladores de violência contra mulheres, contra gays, contra negros, deveríamos mesmo tornar obrigatória a disciplina de humanidade. Pois o que mais falta hoje em dia é isso: humanidade – voltar a conscientizar o homem de que não é mais um macaco e que, portanto, precisa aprender valores, convívio, diálogo etc. Eis o beabá da educação.

Eduardo Mahon é advogado e escritor.

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