Eu bem que avisei – Por Eduardo Mahon

EU BEM QUE AVISEI (E.M)Há um inconfessável gozo na expressão – eu bem que avisei. Um prazer erótico, mórbido, sádico e…

Publicado por Eduardo Mahon em Sábado, 13 de maio de 2017

EU BEM QUE AVISEI (E.M)

Há um inconfessável gozo na expressão – eu bem que avisei. Um prazer erótico, mórbido, sádico e sórdido em ver concretizado o alerta que se deu a quem deu de ombros. Uma espécie de síndrome de Cassandra nos consome contra aqueles que fazem ouvidos moucos ao nosso mau augúrio mais bem-intencionado. Cassandra, coitada, recusou-se a dormir com Apolo e, por isso, não só foi amaldiçoada com o dom da previsão, como com a desgraça do descrédito. Tróia será invadida!, ela bradava descabelada pelas ruas. Adiantou? Claro que não. Desde então, impotentes diante do desprezo alheio, cultivamos essa alegria doentia em dizer com a boca cheia – eu bem que avisei. O velho avisa ao novo: cuidado com o dinheiro, o professor avisa ao aluno: cuidado com o estudo, o amigo avisa ao amigo: cuidado com a mulher, o governado avisa ao governante: cuidado com a vaidade. E, depois, quando tudo está consumado, o investidor falido, o aluno reprovado, o amigo traído, o político derrotado, a catástrofe enfim, mastiga-se entre os dentes o vaticínio ignorado tal qual um chiclete imaginário. Esse prazer perverso de ver o prognóstico realizado quase sempre é cuspido na cara do avisado que, como se espera, abaixa a cabeça até que passe a dor do erro, agravada agora pelo triunfo do vidente próximo. Essa espécie de pitonisa da desgraça bate na mesma tecla com monotonia – eu bem que avisei, eu bem que avisei, eu bem que avisei. Ora, que muita coisa pode dar errado, isso é certo. O passeio pode acabar em assalto, o combustível pode acabar no meio do caminho, a eleição pode ser perdida, pode chover durante as férias na praia, uma pletora de reveses tão típicos de roleta viciada em cassinos ilegais. Por isso, há que se distinguir quem é quem nesse mundo de oráculos. Há os pessimistas para os quais nada vai dar certo de qualquer maneira. São esses que tem o maior prazer em apontar erros, defeitos, problemas, enquanto invejam o protagonismo dos outros. O rabugento, porém, nunca consultou as runas, os búzios ou a borra de café. Longe disso. É próprio dos céticos desconfiar de tudo. Mulher bonita? Piranha. Homem rico? Ladrão. Governante honesto? Mito. Os incrédulos são, por natureza, os espectadores da vida e não lhes custa nada dispararem a esmo – eu bem que avisei. Avisaram, de fato, é inegável. Mas porque avisam tudo, toda hora, a todas as pessoas, acabam por não avisar nada a ninguém. Essas bocas-malditas nunca pertencerão à classe dos realizadores, dos homens que tentam e erram, que arriscam e fracassam, que insistem e, por fim, vencem. O derrotista perde antes do jogo começar, pensa que tem a sabedoria das pedras para as quais tanto faz se chove ou se faz calor. No fim, a opinião deles não conta, por ser igual em tempos de bonança e de tempestade. Há, porém, os verdadeiros videntes. Enxergam no escuro, antecipam o improvável, cheiram as tragédias, tateiam no infinito cosmo das probabilidades Estes sim, adivinhos do futuro alheio, pertencem geralmente ao nosso círculo íntimo e merecem o máximo da nossa consideração. Reparem bem: quem nos avisa, quem nos previne, quem se indispõe para evitar o erro, nunca é um inimigo ou desconhecido. Ao contrário! Quem sempre acerta é o amigo próximo, seja pai, seja mãe, seja esposa ou simplesmente um bom companheiro de bar. Quem nos ama sofre as nossas dores, paga pelos nossos erros, lamenta-se por nossos equívocos. É, para eles, um luto acertar no malogro previsto. Mas não se enganem. Mesmo estes que sentem a dor genuína da previsão concretizada, agasalham o júbilo de estarem certos o tempo todo. Mesmo estes que têm alma boa, limpa e solidária, regozijam-se calados por terem acertado o que iria acontecer. Mesmo os mais próximos, aqueles que são unha e carne, pele e costela, cu e calça, até mesmo estes, antes de darem a mão ao amigo atolado na merda, sussurram entre os dentes: eu bem que avisei!

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