Fábulas Contemporâneas

Em tempos idos, existiu um Rei, com um altíssimo índice de aprovação de seus súditos. Com o tempo se tornou um senhor muito poderoso, que viajava por todas as partes da Terra, quando então lhe eram tributadas homenagens várias, nas quais sempre era ressaltada a sua origem humilde. Sim, esse era um rei que, nascido em ásperas paragens, castigadas pelo sol inclemente e violentada desde sempre pelo poderio de gente tão impiedosa como o cáustico clima, dele fugira, indo para terras mais amenas. Com o passar do tempo, o pequeno migrante vencera, se dera bem na vida, pois soubera, com extraordinária habilidade e senso, incorporar a alma sofrida de sua gente e dessa angústia fazer seu campo de batalha. Por várias vezes assediara ao Trono e muito embora tendo dele chegado bem próximo só viesse a conquistá-lo depois que aquele pobre país se achou mais maduro. Acontece que o pretendente também mudara, e muito, em seus propósitos iniciais. Então, ambos se aceitaram e as núpcias foram realizadas. E entre altos e baixos o rei conquistou o amor coletivo de seu povo. É bem verdade, que tal se deu depois que uma Organização semi-religiosa, controlada por poucas pessoas, começou a medir os sentimentos, o ânimo e a pulsação cívica daquele povo. Uma Organização poderosíssima, tão poderosa, que existiu uma proposta feita por sábios amigos do rei para que fossem abolidas a realização de eleições, de todas, e sendo elas substituídas pelos resultados apresentados pela Organização, que também era conhecida como instituto de pesquisas. O sábio argumento a favor da tese seduziu a muitos: a final eleições, além de caras e dispendiosas, traziam muitos problemas e podiam causar divisão entre aquele povo tão cordial.

Nadando em mares antes nunca navegados, o soberano se tornou um homem feliz, alegre e satisfeito. Já lhe atribuíam até milagres, inclusive, acreditaram muitos, o de ser o criador de um novo país. E, por seu lado, ele não se pejava de reforçar essa imagem e vivia repetindo um bordão: “nunca antes neste país”, daí muitos acreditarem, nos confins mais distantes, que, sim, o país começara com ele. O mundo lhe sorria, o sol brilhava mais em seu palácio e a chuva era generosa em suas plantações. Acontece que nem tudo eram flores, e muito embora possam até sê-lo para alguns poucos privilegiados, elas às vezes trazem espinhos. O soberano infelizmente não esteve livre desses percalços. E alguns súditos bem próximos deixaram que uma parcela minoritária do povo visse esses seus atrapalhos, que, em algumas ocasiões, foram generosamente denominadas de trapalhadas ou de alopragem. E, então, quando se tornou impossível esconder esses lamentáveis espinhos, o Rei ouviu com muita atenção a estória que lhe contaram seus conselheiros, segundo a qual, outrora, em um Reino muito distante, o Grão-Vizir depois de cansado de ouvir as notícias ruins que lhe traziam os mensageiros, que naquele país se chamava Imprensa Livre, quis que eles fossem decapitados. Sim, o raciocínio era brilhante: se não se podia impedir as más noticias, que se eliminassem quem as transmitia. Era um caso a pensar, matutou com um sorriso malicioso o grande Rei.

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