Francelinildo, Higor e Calero – Por José Antônio Lemos

jose-antonio-lemosCorre à solta pelas redes sociais uma tese no mínimo temerária querendo igualar as gravíssimas e danosas façanhas dos grandes corruptos nacionais, públicos ou empresariais, de todos os partidos, com os pequenos erros cometidos pelos simples mortais pecadores. Que atire a primeira pedra … Nesta linha entram também órgãos públicos, como a CGU, e alguns órgãos da imprensa. Outro dia vi a notícia de um concurso de redações patrocinado pelo Ministério Público de Contas de Mato Grosso com o tema “Como evitar as pequenas corrupções do dia a dia” cuja “ideia é mostrar aos jovens que a corrupção não acontece só no poder público, mas quando furamos uma fila no banco ou não levantamos no ônibus para alguém mais velho sentar, por exemplo”, como explicado na matéria.

Seria correta a comparação? Qual o sentido em se levantar de forma tão massiva uma tese discutível como esta? Não vejo outro resultado mais imediato que não a fragilização do cidadão que neste momento cobra indignado, como nunca cobrou antes, a punição dos que lesaram e lesam os cofres públicos usando indevidamente as prerrogativas dos cargos ou mandatos que ocupam.

A Civilização é um estágio superior de consciência do Homem onde ele se submete a mecanismos de controle sociais para que possa viver e usufruir das grandes vantagens da vida em conjunto. O homem civilizado nada mais é que o bárbaro revestido por uma carapaça de normas, regras, padrões morais, religiosos, familiares, cívicos, etc. que grosso modo poderia ser chamada de Ética. O bárbaro continua existindo, doido para deixar essa couraça diante da menor fragilidade dela, para então buscar satisfazer a qualquer preço seus instintos animais sem pensar no outro ou na sociedade em que vive, que só existem para ele na conveniência do discurso. Quanto mais completa sua formação ética mais o civilizado resiste por si só às tentações da barbárie, quanto menos completa mais vulnerável.

Trigêmeas, Civilização, Cidade e Cidadania nasceram juntas, xipófogas inseparáveis. Uma cidade ou uma nação sem valores éticos, sem leis, ou com leis para inglês ver, é um amontoado de bárbaros, é caos que assistimos. No Brasil as cidades, a cidadania e o cidadão estão cada vez mais frágeis diante da liquidificação ou “relativização” dos valores e padrões que formam a carapaça ética civilizatória, que podem evoluir mas não deixar de existir. Muitos sucumbem ao barbarismo, porém a grande parte do povo brasileiro resiste bravamente, apesar da humilhação, da prepotência e do escárnio como tratados pelos que só visam seus interesses bárbaros, pessoais, empresariais ou de grupos, atropelando cínicos os interesses comuns.

Saltam à memória as figuras do caseiro Francenildo que em 2006 derrubou um poderoso ministro quando, apesar das ameaças e armações feitas contra ele, trouxe à luz algumas graves “malfeitorias” que a alta autoridade andava praticando. Lembro também de Higor Guerra, técnico do Ministério das Cidades, que em 2011 deu Nota Técnica desfavorável à mudança do BRT para o VLT em Cuiabá e diante da substituição de seu Parecer no processo veio a público denunciar a irregularidade e acabou derrubando outro poderoso ministro. Por fim, cabe homenagear a figura do ex-ministro da Cultura Marcelo Calero, que outro dia, agora em 2016, também não se atemorizou e denunciou as pressões que vinha sofrendo de um colega de ministério para forçar um órgão sob sua vinculação liberar um empreendimento em favor de interesses não republicanos. E existem milhões de Caleros, Higores e Francenildos pelo Brasil afora. Não somos bandidos, vamos cobrar sim!

JOSÉ ANTONIO LEMOS DOS SANTOS, arquiteto e urbanista, é conselheiro do CAU-MT e professor universitário. joseantoniols2@gmail.com

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