Grupo ECCO da Universidade Federal de Mato Grosso patrocina trabalhos de vanguarda

Hoje, o Grupo ECCO da Universidade Federal de Mato Grosso pariu mais um trabalho acadêmico que faz jus à…

Publicado por Eduardo Mahon em Segunda, 27 de março de 2017

Hoje, o Grupo ECCO da Universidade Federal de Mato Grosso pariu mais um trabalho acadêmico que faz jus à interdisciplinaridade a que o grupo de estudos contemporâneos se presta. A mestranda Raquel Mützenberg apresentou sua dissertação, acolhida por plateia lotada. Basicamente, os estudos (e práticas) da expositora dão conta da ressignificação do corpo no contemporâneo teatro de bonecos, num movimento duplo: se, por um lado, o ator sai dos bastidores para protagonizar, presentificando-se em cena, por outro, o boneco humaniza-se de modo inovador, colhendo do ator todo o arsenal cinético que não teria longe da integralidade do corpo. Forma-se um tertium genus, nem ator, nem boneco, mas uma soma que gera um novo personagem, uma nova forma de representar. O mestrado orientado pela Profa. Dra. Maria Tereza Azevedo avalia como contracenam no contemporâneo a realidade e o reflexo, o real e o imaginário, a presença física e a imaterial.

Se voltarmos a mirada para observar os gregos, poderíamos constatar as “personas” como elemento de descorporificação do ator até que o corpo fosse, ele mesmo, sonegado em cena com a introdução dos bonecos, por todo o longo período medievo e moderno. Esse pêndulo entre a exposição e a ocultação do corpo foi objeto de estudo de Foucault. O estatuto do corpo foi, não só no teatro mas em outras vivências, diminuído, substituído ou mesmo suprimido. Com a contemporânea ressignificação/emancipação do corpo, o teatro de bonecos ganhou a franquia para albergar novamente o ator, presente, identificado, revalorizado. O público sentirá, no ator, uma parte que se projeta, mas permanece indissociável do corpo humano, ao mesmo tempo em que sentirá a encarnação humana no objeto que se mescla ao criador. Essa “longa manus” cênico-corporal não interfere de forma alguma no resultado da expressão. Ao contrário: potencializa os efeitos de parte a parte nessa simbiose inovadora.

Da apresentação, me restaram dúvidas que ficam para Raquel Mützenberg. Essa equação ator/boneco não teria esquecido outras duas pontas epistemológicas– autor/público? Como os espectadores enxergam não só o retorno cênico do corpo do ator, mas a fusão de dois corpos numa única expressão numa narrativa construída para apenas um? A mesma conjectura é válida para o autor, com mais razão: como reage o autor com a duplicidade presencial, reinventada pelo binômio ator/boneco? Uma resposta instintiva me toma de assalto: a sociedade está tão habituada com as múltiplas “personas” na relação entre público e privado, que não há nenhum estranhamento. É provável, inclusive, que o ultrarrealismo do boneco desnudado com a presença ostensiva do ator seja, para o espectador, mais uma atração num mundo de máscaras cada vez mais virtualizado. Outras duas questões que não estão fechadas (e nem devem): por que o ator presente geralmente usa máscara?; por que o boneco geralmente está “inacabado”, exposto sem epiderme? Ora, se o corpo do ator é protagonista, apresentar-se mascarado poderia ser um contrassenso.

Fiquei feliz por saber que o Grupo ECCO da UFMT patrocina trabalhos de vanguarda, cuja tônica é a cultura contemporânea. No repositório acadêmico, constam títulos que nos ajudam a compreender o fenômeno pós-moderno, muito embora estejamos interagindo com ele no tempo e no espaço, transformando a nós próprios e ao nosso objeto de estudo todas as vezes em que nos colocamos frente a frente. É assim também em linguagem, em filosofia, em sociologia e com tantos outros saberes, enriquecidos pelo diálogo acadêmico aberto, interativo e interdisciplinar. Parabéns à mestranda, à orientadora, e à equipe da Universidade Federal de Mato Grosso que nos orgulha há décadas.

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