Há Natal e Há Natais

A Glorinha Albuês

Existe, sim, um natal diferente do nosso.
Diferente de tudo aquilo que podemos apossar
com nossos olhos vorazes, dentro de uma casa
que difere de outras tantas casas de uma cidade.

(Essa diferença está na felicidade da fartura
àquele que não tem pão, o que muito tem é privação)

O natal do negro, negro, sempre negro,
por exemplo, é diferente do branco.

Como também é diferente o natal
dos que viveram das sombras nos porões
aos daqueles que sofreram suas torturas;
Embora contemporâneos não são cúmplices neste natal.

É, ainda, diferente o natal
que se levanta em duros tragos de cachaça,
em companhia do cansaço, fome, filhos e mulher,
e a certeza de que não está adiando um natal melhor;
daqueles à base de champanhe, vestindo chambre
ao lado do poder chanceler e dólares.

O natal do índio, que se tornou na marra cristão,
difere, em essência, do cidadão terno e gravata,
esquivo nos olhos, medo e avareza de ladrão.
Que outro ladrão terá 100 natais de perdão.

Como é avesso o natal das mulheres
que nunca sentem orgasmo,
foram estupradas em longínquas noites escuras
e procriam e criam como se isso fosse sina
daquelas que se perfumam e, mesmo no começo,
vivem o fim de suas vidas esposas
de uso exclusivo em serviço.

Como é diferente o natal
do homem doente ao do homem enfermo,
do homem demente ao do homem loquaz,
do homem mendigo ao homem subserviente,
do homem bandido ao do homem marginal,
do homem animal ao do homem falido…

E o natal se diferencia anualmente
em toda América Latina Operária que trabalha,
na esperança comum de um amanhã diferente,
e por que há no ventre de Maria
– concepção do amor pleno –
uma criança que vai se chamar Jesus Allende.

><>Poema ‘produzido’ – meio que na marra – após a manifestação de Glorinha Albuês, quando trabalhávamos na mesma Casa da Cultura. Ela, por um período de tempo também era produtora de TV do programa Vitrine, na TVCA,  me disse que desejava apresentar um poema de natal e perguntou se eu tinha algum e respondi que poderia fazer.

O programa – se bem me lembro – era gravado, até na véspera dessa gravação, o poema não tinha saído… Nesse dia, saímos compadre Raimundo Henrique e Sirley, a historiadora, do serviço e fomos beber numa uisqueria que tinha sido inaugurada e no meio da conversa, falando de natal, o Henrique soltou uma afirmativa: “O natal do negro é diferente do branco” e ali tive o ‘estalo’, anotei.

No dia seguinte, mesmo  sem expediente fui pra Casa da Cultura para poder usar a máquina de escrever e de uma lapada só, escrevi o poema, sendo que os versos finais estava do meu lado Amaury Tangará, que iria recitar o poema.

Saímos dali até a TVCA e gravamos e no programa da semana de natal, o poema foi apresentado.

Não vi, como sempre.

PS: O verso em destaque não foi ao ar, pois aqueles anos eram aqueles anos.

João Bosquo

João Bosquo, poeta e jornalista, editor deste blogue NAMARRA.COM.BR

Você pode gostar...

2 Resultados

  1. Raimundo Henrique disse:

    Sim, aqui no grotão meio norte do Brasil o Natal do negro, do caboclo, do índio, do branco pobre, dos poucos letrados continua diferente do Natal dos detentores do poder político de qualquer ideologia que infernizam nosso povo.