Ivens e as Asas de Ícaro

Os escritores Eduardo Mahon e Ivens Cuiabano Scaff / Foto: Divulgação

Ivens Cuiabano Scaff lançou Asas de Ícaro pela ed. Entrelinhas, obra que trata do amor. O surpreendente é que, já no título, comparou o sentimento humano ao delírio mitológico do personagem que pretende voar e chegar perto do Sol. O autor deixa claro, inicialmente, a leitura de que o amor (não a paixão, como seria costumeiro) não se coloca conservador como Dédalo, mas atrevido e inconsequente como Ícaro. Outra provocação – ou desconcerto – é também incluir os “antônimos” amorosos. É na irreverência que Ivens desabrocha completamente: “às vezes sinto/ que meu pensamento/ é um labirinto/ onde se perdeu// azar o meu”. Daí que, já na capa, sabemos que o poeta não vê só tragédia, mas o viés risível e patético do amor. Não seria Ivens Scaff, caso não houvesse deboche: “vai, desenha a casa/ vamos sonhar/ pagando por toda a vida/ as prestações do BNH”. Trata-se do signo da inteligência da civilização pantaneira.

Em geral, Ivens adota a poesia moderna e curta como referência, costurando uma rima eventual no arremate frasal inesperado. Alguns poemas de duplo sentido desnudam a picardia do espírito do autor: “terminou gozado/de dentro pra fora/ antes mesmo/ de você ir embora/ uma fria ordem:/ Vá!/ sozinho pelo mundo afora”. De qualquer forma, ainda que no formato moderno, o poeta é irremediavelmente romântico no conteúdo. Idealiza o passado como “melhor” do que o presente, indicando a regressão como caminho da felicidade. “O sinal aberto é uma inutilidade”, pretende convencer o leitor de que é melhor parar no tempo para amar. E, caso não haja sucesso, a culpa é exorcizada por Ivens: “não deu certo por um triz/ nós quisemos/ nos quisemos/ a vida é que não quis”. A conformação com o desfecho faz com que não haja rancor na visão amorosa: “vejo que o nosso amor/foi o que podia/ foi o que tinha que ser”. Ou seja, o Cronos de Ivens é mau, deletério, desagregador.

Como toda boa antologia amorosa, o poeta cuiabano também sente saudade e eleva o sofrimento à condição poética. O desenlace é uma dor camuflada, mas também um alívio: “ainda bem que acabou/me apego com a razão// vou procurar inteligência/ na palavra solidão”. Ivens estranha o presente, como já apontei. Estranha-se sem o amor passado, inclusive. Precisa continuar amando de alguma forma: “universos paralelos solitários/ separados por espaços siderais// penso em quando fomos/ quanto fomos/ anos atrás/ astros em conjunção astral”. Portanto, o poeta sofre, como sofrem em silêncio todos os poetas. Sofre por pensar em si mesmo, no amor vencido, no tempo passado: “é vazio, abismo, deserto, vácuo, espaço”. Dificilmente, o leitor observará o tempo presente, onde o autor não se expõe. É mais uma característica do romantismo apontado.

Para proteger-se de tanto sofrimento, temos em “Asas de Ícaro” confissões de grandes amores, transformados na escala de grandeza, em pequenos amores, objetivados, portáteis, capazes de serem embrulhados em papel de seda ou celofane. Trata-se de uma espécie de distanciamento que torna tudo menos pungente. O amor é sujeito, maior do que o objeto de amar. Tratado de forma independente do ser amado, como um relacionamento em si que começa e termina por acaso, quase sempre o amor é uma forma de engano: “amor, mas/ o amor é um caminho/ uma estrada, uma trilha/ cilada”. Talvez por essa visão amorosa de Ivens, o desfecho deva mesmo ser comparado à desventura de Ícaro, o ambicioso que feneceu com a realidade solar.

O sonho de voar (libertação?, redenção?) é uma constante na obra de Ivens Cuiabano Scaff, sendo conveniente lembrar do “Uma maneira simples de voar”, onde o paralelo não será traçado aqui. Tenho a impressão de que, para Ivens, vale a pena voar próximo do Sol e cair no Mar Egeu tantas vezes quantas forem necessárias. O sentimento de enamoramento é o que o faz viver, ainda que saiba do inevitável, do inexorável, do irremediável fim – a queda, o desencanto, a separação e a morte. Para o poeta Ivens Cuiabano Scaff: “sonhar é bom/ estranho é acordar”.

Vale a pena ler o livro e guarda-lo como registro de uma metamorfose autoral. Meus poemas preferidos? “Lambari” e “Ovo Frito”: um resumo do que Ivens diz, sem dizer, usando figuras de linguagem que revelam um autor culto, maduro e refinado que não entrega o jogo facilmente. Afinal, nem ele mesmo sabe se “o poeta está nu/ ou vestido de sua melhor fantasia?”.

Share Button