João Manteufel, promotor de exposição diz que tirou quadro de Gervane por medo

A decisão de retirar a obra questionada pelo consumidor aconteceu após a veiculação do vídeo contra exposição de obra de arte. Manteufel isenta o Shopping Pantanal

Por João Bosquo e Enock Cavalcanti | A Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Mato Grosso (OAB-MT), por meio da Comissão de Cultura e Responsabilidade Social, irá promover no próximo dia 27, quarta-feira, às 16 h, uma reunião pública de manifesto contra a censura às artes e liberdade de expressão, em Cuiabá.

Tudo porque, no início desta semana, um quadro que integrava o painel do artista plástico Gervane de Paula na exposição “Eu Amo Cuiabá”, que acontece no Shopping Pantanal foi retirado após a reclamação de um cliente.

O curador da exposição, o cineasta e produtor cultural João Manteufel, o João Gordo, confessa que a decisão de retirar o quadro do artista Gervane de Paula foi uma decisão sua e que o Shopping Pantanal não teve nenhuma participação nessa decisão.

“Eu tirei por medo de meu funcionário que estava sendo coagido, sofrendo ameaças. Tive de colocar seguranças. Não foi por censura, foi por medo. o radicalismo assusta. Somos pessoas de bem, com intuito de fomentar cultura. Não estamos acostumados à violência. Foi uma decisão minha, exclusiva”, garante João Manteufel.

Em sua página no Facebook, João Manteufel posta que “na verdade, aqui, deveríamos elogiar a coragem do Shopping Pantanal em fazer uma exposição, pagar os artistas, pagar o local de exposição para que a população tenha acesso aos mais proeminentes artistas da nossa cidade. Afinal, uma empresa particular está fazendo o papel que deveria ser dos museus, que estão todos fechados e as autoridades competentes estão se lixando para a cultura do nosso Estado. Mas hoje todo mundo julga. Todo mundo é entendido. A geração dos head lines está se tornando perigosa. Triste. Triste”.

Um dos head lines a que se refere o promotor de artes, com certeza, é o repórter Arthur Garcia que, em seu canal postou um ‘video-denuncia’ e já alcançou milhares de visualizações, como vemos, tentando intimidar ainda mais o funcionário da promotora do evento.

As ironias dessa trágica história é que, lembramos aqui, o repórter trabalha na Band Mato Grosso, a emissora que se propõe a incentivar a arte e inclusive é mantenedora de uma Galeria de Arte com o nome de seu fundador: Beccari. É repórter de um programa popular, o Pop Show, que diz defender os interesses da comunidade.

O medo, a que se refere João Gordo, é o indutor da censura que o fez retirar, mesmo que contrariado, o quadro do artista da exposição.

O jornalista e professor Johnny Marcus lembra o poeta Ferreira Gullar, autor de “Poema Sujo”, proibido pela ditadura militar que colocou o Brasil por duas décadas nas trevas.

“Gullar nos ensina que ‘a arte existe porque a vida não basta’. E a vida não basta porque é preciso enxergá-la, também, com outros olhos, até mesmo para reforçar nossas crenças e convicções. A melhor forma de se fazer esse distanciamento é justamente através da arte. E ela tem mesmo essa função essencial de incomodar, de confrontar, de promover a discussão. É inaceitável que, em pleno século 21 ainda persistam pensamentos obscurantistas, impregnados de um moralismo anacrônico. A Era das Trevas já acabou faz muito tempo. Que artistas livres sejam os profetas a anunciar o nascimento de um admirável mundo novo”, disse.

O ator, diretor e escritor Ivan Belém também está preocupado com essa histeria que se instala no país e agora em Mato Grosso.

“Vejo com muita preocupação essa onda de caça às bruxas que se instalou no país. De repente, seguindo tal caminho, um sujeito despreparado posta um vídeo se queixando da obra de Gervane de Paula, fazendo uma análise pobre e moralista, e outros ignorantes o acompanham. E o artista e sua obra passam a ser linchados. A arte, a cultura, a identidade, tornaram-se assuntos de polícia…Como assim? Tristes tempos estes! Acho que tudo isso é reflexo da falta de mais investimento em educação e cultura. Um povo educado, com acesso à arte e à cultura, jamais protagonizaria tamanha barbárie. Sinto-me envergonhado!”

Sebastião Carlos Gomes de Carvalho, jurista, poeta, escritor, crítico literário e próximo presidente da Academia Mato-grossense de Letras, é taxativo: “Toda censura é odienta”.

“A arte, em sua essência, é o contraponto do conformismo e do acomodamento mental. E isso não é agora. Quem minimamente conhece a história da arte sabe que ela surge como um elemento de inquietação, de questionamento, de provocação. Neste ponto, Ocidente e Oriente se encontram. É bem verdade que não é (somente) por este aspecto que ela se valoriza, ou se eterniza. Outros elementos transportam um quadro, uma escultura ou um livro para o patamar da qualidade que transpõe os séculos. Não estou em Cuiabá há vários meses, portanto não vi a exposição da qual Gervane participa, mas sob esse artista, que conheço há décadas, posso afirmar, em sã consciência, que se trata de um dos melhores e mais instigantes da breve história das artes plásticas em Mato Grosso. O futuro sempre se pronuncia sobre quem fica na História: o censor ou o criador”, declarou.

O jornalista e escritor Antônio Peres Pacheco acredita que o tema é polêmico e confessa que não gostou da participação de Gervane na referida mostra.

“Vi a exposição e, pessoalmente, achei de mau gosto e inapropriada as duas obras do Gervane de Paula que, nesta ‘fase negra’ de sua produção artística, explora abertamente a escatologia em várias obras e performances, com um apelo sexual bastante forte e isso gera mal-estar. Mas, vamos lá. Primeiro: sou contra a censura de todo tipo e plenamente a favor da classificação etária para exibição de obras de arte e acesso à literatura. Entendo que essa “onda” moralista, que alguns classificam como fascista, é um efeito colateral do estado de libertinagem e corrupção ética e moral da sociedade brasileira como um todo”.

Segundo Pacheco, “tem faltado bom senso aos curadores. É preciso respeitar a suscetibilidade dos outros para sermos respeitados de volta. Chocar, denunciar, fazer pensar é função da arte, mas, não se deve fazer sexo ou expor cenas do ato sexual em praça pública nem defecar na porta de uma igreja para criticar a repressão sexual e a alienação pela fé e dogmas religiosos, por exemplo. A retirada das obras da exposição, ao meu ver, foi acertada”.

A cantora e compositora Vera Capilé, comentando o vídeo de Arthur Garcia disse que “o que presenciamos é a violência contra a arte, é praticamente um retorno rumo a Idade Média, onde a repressão à mensagem da arte, como no caso do pensamento e pinturas de Gervane de Paula, representa um atraso civilizatório e conservadorismo inconcebíveis! A pintura de Gervane tem uma estética de indignação contra a injustiça, na grita permanente contra o racismo, em sua negricia poética! Viva Gervane! Uma vergonha para o primeiro passo de repressão, negação a verdadeira história dos 300 anos de Cuiabá! Sabe o que acho mesmo? Que estes outros grandes artistas da exposição se retirem desta malfadada experiência que, para mim, é um desprezo profundo a verdadeira arte!”.

Leia também: OAB-MT promove reunião contra a censura

O Moralista no Divã – Por Eduardo Mahon

Pantanal Shopping retira quadro de Gervane de Paula da mostra “Eu Amo Cuiabá”

“Lamentavelmente, é impossível ignorar a ignorância”, diz Mahon

Share Button