João Ubaldo Ribeiro, se encarnado, estaria festejando 77 anos

Por João Bosquo | João Ubaldo Ribeiro foi um dos grandes da literatura brasileira. Embora grande li, confesso, apenas dois de seus romances: “Sargento Getúlio” (1971) e “Viva o Povo Brasileiro” (1984). Explico. Sou do tipo do leitor de uma ou duas obras. De preferência a obra-prima do autor.  Li “Sargento Getúlio”, uma década depois, nos anos 80 e nesses mesmos anos 80, quase uma exceção, leio a primeira edição de “Viva o Povo Brasileiro”.

Lembro-me como se fosse hoje. Compro o exemplar numa livraria que existia na Cândido Mariano, ao lado do Palácio Alencastro e vou para o trabalho. No meio da tarde, começo a ler e mais de 500 páginas são devoradas em questão de dias. Depois não senti mais necessidade de ler mais nada de João Ubaldo.

“Viva o Povo Brasileiro”, acredito, está no mesmo patamar de “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, e como este último deveria ser obrigatório nos cursos de letras e literaturas.

A citação que transcrevemos de João Ubaldo é sobre fraude.

Vejo, com o meu jeito de ver, que a educação, o ensino brasileiro, como uma fraude.

Os filhos das famílias da classe média alta vão para o ensino particular enquanto os filhos dos trabalhadores para o ensino público. Os melhores profissionais, que passaram num concurso de excelência, estão na escola pública, enquanto aqueles que não conseguiram estão na rede privada de ensino. Ganham menos que os concursados, mas se aplicam mais. Lógico tem praticamente tudo que precisam de auxilio pedagógico, enquanto no público falta quase tudo, às vezes até giz.

Mas, se a formação de nossos professores (e eu sou um dos formados por esse processo) começa por um equívoco. Os melhores alunos do ensino médio (lá atrás era do segundo grau), os mais bem preparados são escolhidos para as faculdades mais concorridas, de profissão mais rentável (que inclui a medicina, o que não deveria). O oposto, ao contrário, são escolhidos para o magistério.

Quando a escolha de professores deveria se basear no histórico escolar de cada aluno. O aluno excelência em MATEMÁTICA deveria ser convidado para ser professor de Matemática.  O aluno nota dez em PORTUGUÊS, professor de Português, aquele que escreveu melhores resenhas sobre os livros lidos, professor de literatura, enfim.

Para fazer uma opção nesse nível, o estado precisa oferecer uma remuneração condizente, se não para ficar rico, mas o profissional ter uma vida digna, na qual possa ter acesso aos bens culturais e de lazer, sem precisar pagar meia entrada nos cinemas e teatros.

Talvez, veja bem, talvez João Ubaldo, quando disse: “Não se lê porque não se gosta de ler, porque dá trabalho. Ler é chato porque a pessoa não aprendeu a ler. Ela aprendeu a ficar na frente da TV onde tudo é fornecido.” estava falando desse ensino.

O escritor nasce em 1941, na ilha de Itaparica, Bahia, na casa de seus avós, que naquele tempo os partos aconteciam em casa. Os pais, Manuel Ribeiro e de Maria Filipa Osório Pimentel eram advogados. Vive até os 11 anos em Sergipe, onde o pai trabalhava como professor e atuava na política. Os seus primeiros estudos foram no Instituto Ipiranga, de Aracaju. Em 1951 ingressa no Colégio Estadual Atheneu Sergipense. Em 1955 muda-se para Salvador, e ingressa no Colégio da Bahia.

Sua formação literária começa ainda nos seus primeiros anos de estudante. Foi jornalista ao junto com o amigo Glauber Rocha. Forma-se em Direito na Universidade Federal da Bahia em 1962, mas nunca exerce a profissão e em 1963 pulica seu primeiro romance, “Setembro Não Tem Sentido”.  Vai pra o Estados Unidos fazer mestrado em Administração Pública, na Universidade da Califórnia e participa do International Writing Program da Universidade de Iowa.  De volta ao Brasil, João Ubaldo leciona Ciência Política na UFBA, por seis anos.

Em 1969 casa-se com a historiadora Mônica Maria Rotes, com quem teve duas filhas. Separado, em 1980, casa-se com a fisioterapeuta Berenice de Carvalho Botelho, com quem teve um casal de filhos.

“Sargento Getúlio”, seu segundo livro, recebe o Prêmio Jabuti de Revelação, em 1972. A obra narra a saga de Getúlio Santos Bezerra, sargento da PM que busca a proteção de um político após matar a própria mulher. A obra chegou aos cinemas nos anos 80, protagonizada pelo ator Lima Duarte. Em 1984, ganhou o Prêmio Jabuti com o romance, “Viva o Povo Brasileiro” (1984). O livro, recheado de humor, recria quase quatro séculos da história do país, incluindo episódios marcantes, como a Guerra do Paraguai e a Revolta dos Canudos. A obra foi traduzida para o inglês, pelo próprio autor, ganhando versões em vários outros idiomas.

Obras de João Ubaldo Ribeiro

A Casa dos Budas Ditosos, romance, 1999

A Gente se Acostuma a Tudo, crônica, 2006

A Vida a Paixão de Pondonar, o Cruel, literatura infantil, 1983

A Vingança de Charles Tiburane, infanto juvenil, 1990

Arte e Ciência de Roubar Galinhas, crônica, 1999

Dez Bons Conselhos de Meu Pai, infanto juvenil, 2011

Dia do Farol, romance, 2002

Livro de Histórias, conto, 1981

Miséria e Grandeza do Amor de Benedita, romance, 2000

O Albatroz Azul, romance, 2009

O Conselheiro Come, crônica, 2000

O Feitiço da Ilha do Pavão, romance, 1997

O Rei da Noite, crônica, 2008

O Sorriso do Lagarto, romance, 1989

Política: Quem Manda, Porque Manda, Como Manda, ensaio, 1981

Sargento Getúlio, romance, 1971

Sempre aos Domingos, crônica, 1988

Setembro Não Tem Sentido, romance, 1968

Um Brasileiro em Berlim, crônica, 1995

Vence Cavalo e o Outro Povo, conto, 1974

Vila Real, romance, 1979

Viva o Povo Brasileiro, romance, 1984

“>

Share Button