“Lamentavelmente, é impossível ignorar a ignorância”, diz Mahon

Gervane de Paula, o artista

Por João Bosquo e Enock Cavalcanti | O artista censurado foi nada mais nada menos que Gervane de Paula, artista premiado, conhecido em praticamente todos estados brasileiros. Gervane de Paula – o nosso Gervane de Paula, do Araés, em uma de suas primeiras fases tinha a manga como temática e chegou a ter um painel na Avenida Rubens de Mendonça, a do CPA, que a população cuiabana pode admirar por quase uma década, e agora nesta penúltima (a última ainda deve demorar dezenas de anos) o artista está mais engajado social e politicamente e denuncia as mazelas do nosso dia a dia.

Uma dessas mazelas é o uso das drogas pela pobreza, pelas pessoas que não tem renda. Os grã-finos em seus apartamentos de luxo tem inclusive o serviço delivery das drogas e ninguém se incomoda. O filho da desembargadora com mais de 100 quilos de maconha, lá no Mato Grosso do Sul, está em casa, enquanto aquele pobre coitado com um cigarro da cannabis e um pinho sol ainda está amargando atrás das grandes.

Pois é esse Gervane que foi denunciado como pornográfico. Um quadro no qual se destacam a frase “crack is wack” (droga é ruim) e mostra o desenho de duas pessoas nuas, consumindo droga, teria chocado nada pacato cidadão.

Artur Garcia, repórter e censor

Por conta desse vídeo, o jornalista Artur Garcia, que mantém canal privativo no You Tube e também trabalha no Pop Show, da Band, voltou à mesma exposição – que não tinha mais o quadro para mostrar – pois o quadro já tinha sido retirado, e demonstrou sua gana pela audiência ao repercutir o pensamento mais conservador, e se manifestar contra o pensamento livre, contra a arte, sempre com os argumentos de defesa dos pretensos bons costumes.

O advogado Eduardo Mahon, um dos mais respeitados jurista de Mato Grosso, também escritor, poeta e admirador da boa arte, embora possa até não concordar com alguns aspectos artísticos, defende a liberdade de expressão. Pois ele, mais que ninguém, sabe que o trabalho do artista, do escritor, do poeta e romancista dependem da liberdade.

“Lamentavelmente, é impossível ignorar a ignorância. Em todos os momentos de virada, o conservadorismo opôs-se à vanguarda. Essa tensão é absolutamente natural e até esperada. O que não é possível admitir é a censura por meio do patrulhamento de cunho moralista ou religioso. Os modernistas do século XIX foram chamados de pornográficos, imorais, infantis e desastrados. Renoir foi hostilizado por retratar a vida profana parisiense, entre outros tantos que hoje estão consagrados. O mesmo se disse da pop art e do dadaísmo. Vejo a reação como natural à proposta artística. Arte que não incomoda, que não faz pensar, que não desaloja o espectador do comodismo, nunca terá sido verdadeiramente arte. Trata-se de decoração. É preciso enfrentar os nossos próprios fantasmas, do preconceito interno aos abusos sociais. Para isso, temos a lei, de um lado, e a educação, de outro. Os artistas catalisam a mudança de comportamentos. Recomendo que quem quer apreciar ópera, música clássica, ballet, vinho, seja lá o que for, estude antes de falar tanta bobeira. O que há por aí é gente passando recibo de ignorante ao abrir a boca”, disse Mahon.

O Lau, da dupla Nico & Lau, o ator Justino Astrevo, ao saber da censura envolvendo um quadro do Gervane de Paula, reagiu assim: “Esse olhar de censura sobre essas obras está atrasado pelo menos uns 500 anos. É triste a falta de visão libertária e de conhecimento histórico! Vade retro”. (JB/EC)

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João Bosquo

João Bosquo, poeta e jornalista, editor deste blogue NAMARRA.COM.BR nas redes sociais: @joaobosquo

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