Literamato, ao contrário da Literamérica, deu chabu

Cancelamento do evento, em meio ao feriadão, surpreendeu o mundo literário de Mato Grosso.

Festividades do 3º Prêmio MT de Literatura também estão suspensas

Por João Bosquo | A LiteraMato que estava aqui, que que aconteceu? Fugiu pro mato! Fugiu por quê? O dinheiro, a bufunfa, o bererê que iria patrocinar aquele que seria o maior evento literário dos últimos anos, no minuto final da largada, não apareceu. As chaves não abriram os cofres do Estado, melhor da Secretaria de Educação do Estado de Mato Grosso e deu chabu.

A LiteraMato (Festa de Literatura de Mato Grosso) que começaria na próxima quinta-feira, 19, e iria até o domingo, 22, no Centro de Eventos Pantanal foi cancelada com um lacônico comunicado pelos promotores do evento na página do site do evento, publicado no sábado, 14, simples assim: “Em virtude de questões técnicas e operacionais, e com o intuito de fazer a melhor festa literária de Mato Grosso, a Casa de Guimarães informa o adiamento da LiteraMato, que seria realizada de 19 a 22 de Outubro, em Cuiabá. O evento acontecerá no início de 2018 e a data será informada em breve. Agradecemos a todos pela compreensão!”

Apesar da boa vontade ficamos sem compreender que ‘questões técnicas e operacionais’ são essas.

Como já tínhamos apurado, o propósito – segundo os realizadores, de forma bem piegas, no site do evento – era o de “gerar uma experiência inesquecível e positiva relacionada a literatura” lembrando sempre que “as letras vão muito além do livro e do que pode ser impresso nos papéis e nas telas. Com elas é que se compõem as músicas. O teatro, o cinema e a televisão não existiriam se não fossem estruturados sobre os roteiros e textos de onde saem a magia que vemos nos palcos, nos filmes e nas salas das nossas casas. As artes plásticas e as artes digitais se valem das histórias, escritas ou contadas, para inspirar as telas, quadros, fotos e instalações que tanto encantam”.

Esse propósito, pelo visto, não convenceu os técnicos da Secretaria de Estado da Educação (Seduc).

Quem primeiro se manifestou nas redes sociais relacionando o cancelamento com o tal parecer desfavorável foi a escritora e professora Marta Cocco. Em seu perfil no Facebook, Marta escreveu: “Sobre o cancelamento da LITERAMATO, com parecer desfavorável da Secretaria Estadual de Educação, repito o que, desde a Literamérica, venho falando: feiras ou festas literárias não podem ser um evento meteórico! Isso não forma leitores! Tem de ser um evento culminante de várias ações prévias envolvendo escolas e professores. O livro tem de ser lido e debatido antes. O encontro com o escritor é muito mais produtivo quando a obra já foi lida. A leitura não pode ser tratada como enfeite. Leitura é cidadania, é direito do cidadão, é dever do Estado! Enfim, esse negócio de chover no molhado vai cansando”.

Marta Cocco, só para esclarecer, iria participar do evento como palestrante do painel “A literatura brasileira e o livro hoje”, no qual se contaria ainda com a participação de Luiz Ruffato e Stella Maris Rezende.

Que questões técnicas e operacionais seriam essas que a Casa de Guimarães estaria enfrentando para cancelar um evento com convidados de outros Estados, de cidades do interior mato-grossenses e tendo a participação, dentro da programação oficial, do próprio Governo do Estado que, certamente através do próprio governador Pedro Taques, como aconteceu na premiação anterior, entregaria os cheques aos premiados do 2º Prêmio MT Literatura, por parte da SEC (Secretaria de Estado de Cultura)?

A informação postada por Marta Cocco em seu perfil, segundo os observadores que transitam nos bastidores da Assembleia Legislativa de Mato Grosso e Seduc, é que se aproxima mais das “questões técnicas” alegadas pela Casa Guimarães.

Um pequeno parênteses sobre essa organização não governamental que predomina no cenário cultural mato-grossense desde 2006, data de sua fundação. Nossa fonte, nos passa um link que mostra uma singularíssima movimentação de mais de R$ 5 milhões no ano de 2016, ao mesmo tempo em que nos passa o print do Fiplan que mostra essa montanha de recursos empenhada em nome da organização.

Noutra ponta, observamos que todos os projetos e ações da entidade têm a logo da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT), inclusive como patrocinador do site.

Pois bem, a Casa de Guimarães iria realizar o LiteraMato por meio de emendas parlamentares. Eram três emendas. A primeira, a de nº 185 do deputado Maxi Russi; a segunda, a de nº 388 do deputado Romoaldo Júnior e a terceira, a de nº398, do folclórico Jajah Neves, todas protocoladas em um único processo. Pois foi em resposta a esse processo que técnicos da Seduc deram parecer DESFAVORÁVEL, visto que o projeto LiteraMato (no documento com dois nomes distintos – Festa Literária Mato Grossense [escrito assim mesmo] e Feira Literária e das Artes (LiteraMato)) e a recomendação que o projeto fosse encaminhado à Secretaria de Cultura. Isso no dia 4 de outubro, menos de 15 dias atrás.

A questão é que a SEC já atendeu todas as demandas advindas da ALMT e não tem mais orçamento para conveniar coisa alguma.

Mesmo assim, a SEC iria pegar uma carona e fazer o lançamento do III Prêmio MT Literatura e liberou o uso da logo da mesma, conforme constou em todo material promocional do evento. O estranho é que do mesmo material também constava a logo da Seduc.

Com cancelamento por falta de condições técnicas ou não, causou uma sensação de frustração – podemos generalizar – em todos aqueles que iriam participar do evento.

O editor Ramon Carlini é um desses chateados com o cancelamento. Ele diz que estava trabalhando muito para o evento. “Mudamos toda a nossa rotina. Eu precisei tirar férias e encurtei para 6 dias, ao invés dos 15, para trabalhar nas questões da LiteraMato”. Esse excesso de trabalho é porque parte dos premiados do II Prêmio MT Literatura serão publicados pela Carlini & Caniato e os livros seriam lançados durante o evento. Imagina.

“A LiteraMato era uma esperança de muitas trocas e enriquecimento. Agora com o cancelamento LAMENTO a desesperança e o empobrecimento que determinados poderes impõem ao nosso povo”, manifesta Marília Beatriz, decepcionada, ela, veneranda presidente da Academia Mato-grossense de Letras que iria também participar do painel Dramaturgia Mato-grossense Contemporânea, com Juliana Capilé, Tatiana Horevich e Anderson Lana.

O escritor e acadêmico Eduardo Mahon, que iria fazer o painel “Literatura de ficção científica e fantasia brasileira”, em parceria com Dr. Fábio Fernandes, diz que ficou chocado com tudo..

“Chocado. Não só pelo cancelamento, mas por todo o histórico. Fico perplexo que, na Casa Barão, tenhamos especialistas em literatura de Mato Grosso, doutores no tema, escritores, e não tenhamos sequer sido consultados. Convém lembrar que o governador Pedro Taques firmou um compromisso de incluir na rede de ensino a História, Geografia e Literatura mato-grossenses. A Seduc não foi capaz até hoje. A SEC não é capaz de eleger até hoje um vice-presidente do Conselho e aprovar o próprio regimento interno. É trágico em termos de política pública”.

Nós daqui ponderamos que ‘há males que vem para o bem’. Quem sabe não é hora de a Assembleia Legislativa dialogar com o Governo do Estado e elaborar uma lei criado uma grande bienal LITERAMERICA, garantindo recursos para sua realização e, no intervalo dessa bienal, feiras menores, mas importantes como a Flic de Chapada?! Enfim, a sugestão está dada.

A reportagem tentou contato com a Casa Guimarães mas no feriadão do Dia das Crianças e de Nossa Senhora Aparecida, não conseguimos êxito.

Leia também: Literamato uma festa para o livro mato-grossense

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João Bosquo

João Bosquo, poeta e jornalista, editor deste blogue NAMARRA.COM.BR nas redes sociais: @joaobosquo

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