Manual de instruções para um ano novo

É no sumidouro de dezembro que se classificam os anos. Há os que são leves. Espevitados, encasquetam em correr como doidos. Lembram de 1994? Pois então. Não tomam fôlego e nem água gelada. Começam como todos os outros, num janeiro qualquer e já pulam pra março; depois, pra julho e, quando menos se espera, alcançam novembro; daí então, é uma questão de tempo para a hora derradeira. Os incautos entreolham-se bestificados tentando compreender uma circunvolução do planeta mais veloz, um adiantamento desproposital de vida. Mas não. Conferidos os relógios e ajustados atomicamente entre paralelos e meridianos, estava tudo nos conformes, ainda que juremos de pés juntos uma velocidade incomum do ano fujão. São os anos mais queridos. Os meninos que chegam em casa com o joelho ralado na queda da bicicleta, com o dente quebrado no jogo de futebol ou cobertos de lantejoulas de carnaval. Esses sim deixam saudade. Carecia um mês a mais para nos desacostumar a não ter conosco o revolucionário 1989. Tanta notícia boa – um filho que nasce, um prêmio que se ganha, uma casa que se reforma – que nem se vê a sucessão dos mesmos doze meses de sempre. Em compensação, há anos que não passam como 2016. Os meses vão se grudando à nossa pele como um sebo invisível, tingindo de branco os cabelos e, no entorno dos olhos, tatua os vincos de preocupação. Para se livrar de anos assim é preciso uma toalete completa. Um banho com sabonete de anil no qual se escove o couro cabeludo com energia, a pele com uma bucha daquelas que soltam sementes, capazes de descolar o ectoplasma do ano teimoso das reentrâncias do costume. Recomenda-se uma pequena escova de cerdas compactas para que saiam os restos do ano que se esconde por debaixo das unhas dos pés. Se não houver asseio, periga 1982 ainda escondido na unha do dedão. Não parem por aí. Os anos pegajosos exigem, ao final da ducha quente, fio dental e cotonete para que sejam removidos por completo. Conheci gente que ainda tinha 1968 grudado aos molares inferiores. Livres da craca do ano mau, estamos prontos para seguir adiante no tempo. Duas borrifadas de alfazema no pescoço, talco granado no sovaco e, voilà, não tem erro: o ano novo vem miúdo e besta, despretensioso e santo, tal qual um recém-nascido sem nome. Assim estamos nós hoje, essa semana, completamente limpos e ansiosos, desengonçados ao tentar aparar o nascituro que nunca se sabe se chora ou se ri, se passa a noite estrebuchando em cólicas ou dormirá um sono tranquilo e sem exigências. A gente nunca sabe o que vem de um ano-novo. 1990 prometia. Mas mixou. Foi mixando até 1992. Já 1956 foi agitado, inquieto e acabou gordo de tão bom. Estamos preparados somente para o melhor com o guarda-roupa lotado de touquinhas, sapatinhos de crochê e uma manta de esperança verde-clara guardada na primeira gaveta da cômoda. Silêncio. É possível escutar um choro. Um choro como qualquer outro choro de outros anos que nascem tão inocentes quanto recalcitrantes. Cada um faz do rebento o que quiser. Há os que pulam ondas na praia com o ano-novo nos braços, outros que tomam champanhe, comem romãs e soltam fogos de artifício. De minha parte, já estou na cama aguardando a chegada do tempo-menino para acomodá-lo num leito macio e quente a fim de que não estranhe demais. Conviveremos felizes até a adolescência de março ou abril. Depois… bem, depois é esperar para ver o que ele faz, se fica manso em casa nos churrascos de fim de semana como 1946 ou se aventura em porres homéricos para que, depois, os curemos na hora da dor, como foi no memorável 1959. Convém não colocar expectativa, não antecipar profissão ou casamento, deixar que ele mesmo cresça e envelheça para que, no dezembro avançado e senil, possamos acertar as contas e pranteá-lo, caso tenha sido bom, ou nos limparmos dele, se tiver espalhado tristezas. Esquecer jamais. Nossa vida é colecionar ano a ano no álbum da existência. Alguns deles merecem porta-retratos sobre o aparador da sala. Torço para que seja esse o caso do ano que vem por aí.

“Há anos que não passam como 2016. Os meses vão se grudando à nossa pele como um sebo invisível”

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